terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Catedral

Adentrou a Catedral e sentou-se no banco de madeira marrom. Antes de sentar-se, entretanto, guiou seus olhos para o alto, onde viu quão imensa era a cúpula, e quão imensa a própria vida que poderia levar dali adiante. Sentiu os poros dilatarem, os pés se confortarem no chão marmóreo.

E, naquele instante, tudo fez sentido em sua vida. E, naquele momento, deixou para outros tempos o choro plangente da nostalgia de uma vida que já não carregava; fardo inerte sobre os musculosos ombros. Apercebeu-se de muito, mas o rosto permanecia relaxado, e assim todos os músculos de seu corpo.

Sentia, sobretudo, o sangue refluir numa nova corrente, dos pés à cabeça, e dela aos pés. O corpo jazia como que pétreo ante tantas palavras sibiladas mudas. Os cicios da rua podiam até atingir seus ouvidos, mas nunca novamente seu imo.

Envolto por paz. Assim definiu sua breve estadia naquele lugar de orações ao pisar de novo os paralelepípedos. Assim ele pôde enfim retornar ao lar, sem mais ilusões.

E tão breve, e tão longo. E tão... imesurável. Porque ele conseguiu reunir em si mais força do que o corpo necessitava, e o excesso converteu-se em trabalho da mente.

De outra forma, ter-lhe-ia sido arroubado o vigor pelos devaneios do corpo. Todavia, foi este o presente que o esforço de adentrar a Catedral lhe ofereceu: o apanágio de comungar com o espírito, sem uma religião maior do que a que a própria vida naquele instante lhe indicava.

Uma religião que se convertia em sangue e vida, e uma vida que se convertia inteiramente em religião. Uma devoção que se demonstrava em cada ato, e cada ato a intuir sua substância formadora.

Construiu em si a capela, assim como o silêncio interior que transubstanciava cada lágrima em ação. Dali em frente, lhe disseram, poderá ser diferente. Dali, pôde, enfim, sentir o coração pulsando.

O que faria com tamanho privilégio são ditos de seu coração, os quais não revelaria nem mesmo sob tortura. Uma vontade etérea cristalizava-se onde antes havia fragmentos. De pedaços dispersos e mal-dispostos entre si de seu ser, irrompeu um uno, ainda não permanente, mas temporário o suficiente para ele concluir sua firme substancialidade.

Refez sua cabeça: edificaria seu novo e verdadeiro lar sobre os mesmos tijolos esquecidos; tijolos que remanesciam, apesar de tudo, naquela obra, por toda a vida abandonada aos vagabundos e errantes, que entravam segundo seus próprios desejos lascivos e libertinos. Expulsou-os, e angariou deste ato férreo uma liberdade e amplitude de ação nunca outrora vistas.

E que bela visão o conteve.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Proseando com o Universo

Sinto falta de um texto em prosa. Faz tempo que não escrevo em linhas corridas o que vivencio, e talvez seja esta a razão saudosista que me traz aqui a estas horas.

Como todo ser humano, trago em mente algumas palavras cujas definições abstratas muitas vezes nada dizem, a começar por: amor. A ciência responde ser o resultado da secreção de vários hormônios, concomitantemente, que acabam nos extasiando e nos colocando num estado de euforia similar ao adquirido por meio de drogas. Ah, e conclui por dizer que a privação do amor daquele ou daquela pessoa a quem nos declaramos e com quem estamos a compartilhar experiências íntimas, acaba por deixar-nos com os mesmos sintomas da abstenção de um drogado [das substâncias que utiliza].

Pensando bem - e não é preciso pensar muito, cá entre nós - todos que passaram por um pé, um fora, enfim, uma negação à realização de um desejo que mentalizamos, já passaram por efeitos de "abstenção" dramáticos. Alguns já se suicidaram, outros se feriram emocionalmente, psicologicamente e/ou, não raro, fisicamente. Outros ainda só "pensaram", naquele estado de desolação e profunda angústia - quando não o estágio inicial de uma depressão, que pode se agravar - em provocar algo contra o próprio corpo, num vivo manifesto do que sentem, apesar disso nem ser cogitado. O auto-ferir-se não é de forma alguma encarado - em pleno tumulto de nossas emoções - como uma manifestação corpórea, com o explícito desejo de mostrar aos outros o que se passa em nosso interior, convoluto. De luto. O paradoxo vivente, o "mundo do absurdo" camusiano, que toma as rédeas por revoltantes momentos de nossa vida, de nosso coração, de nossa cabeça, de nossos gestos e afetos, mesmo os não-manifestos, mesmo os recantos mais tímidos, mesmo... nada é excluído numa crise emocional, é fato.

Para mim o mais importante foi ter sentido isso. Foi ter sentido o desprazer, o afastamento, o "saber-lidar" com aquilo que não é nada bem-vindo, com o que nos contraria, com o que detestamos. Odiamos um "não", um "nunca", um "jamais". Podemos usar para contradizer alguém, mas a partir do momento que são dirigidos a nós, são detestáveis. Queremos evitar, de primeira mão, qualquer possível rejeição, qualquer obstáculo às pulsões, aos impulsos, a tudo que nos move. O ser humano deseja liberdade, diz-se. Mas não se compreende, muitas vezes, que o "libertar-nos" que buscamos incute-se em tudo: livre-escolha, livre-arbítrio, são os termos fundamentais dessa "independência" que procuramos, no imo, no fora. Não há como conquistar um sem a vitória do outro. Uma concomitância de impressionar.

Embasbacado. Um fora deixa qualquer um - por mais que momentaneamente - embasbacado. É a antecipação que atrapalha tudo, também se fala a torto e à direita. Estão corretos, como sempre - aliás, os outros sempre detêm a razão, malgrado nosso -, mas não se segue tão facilmente a risca prescrita por outrem. Nem mesmo sóbrios, somos capazes de nos concentrar - completamente - num riscado branco traçado no chão aos nossos pés. A mente cogita e trabalha tantos conceitos a um só tempo e em múltiplos espaços, que se torna difícil ao homem ficar calado dentro de si mesmo. A meditação é o silêncio da mente. Nada tem a ver com a boca... apesar de dizerem ser este o modo mais fácil de se começar a prática... sim, eu sigo tal princípio.

O quê é o amor? A ciência, como sempre, tende à objetividade materialista do objeto analisado. Pessoas apaixonadas são entrevistadas, descrevem o que pensam e o que sentem ao ver a foto da pessoa amada, são feitos exames dos níveis de diferentes hormônios e demais substâncias do corpo. E num período posterior, quando algumas tiveram suas decepções amorosas, o que passa por dentro de seu aparato corpóreo é analisado, buscando-se dados.

Sem dúvida, não se pode recusar uma análise objetiva e científica, que detalha aproximadamente o mesmo nível de hormônios na abstenção amorosa de um apaixonado e na privação de drogas de um usuário (politicamente correto, este, ein, ao contrário da utilização inicial: drogado). "Puxa", vem à tona a indagação, "será possível que eu estou somente sentindo o mesmo que um drogado?"..."somente isso?"..."um prazer efêmero, com a única diferença de que o estou compartilhando com outra pessoa, ao passo que um usuário tem o mesmo êxtase e sentimento de ligação sozinho?"

Qual seria a vantagem, então, de adentrar um relacionamento que pode vir a ferir as duas partes, quando desmanchado, se com as drogas se obtém o mesmo, porém sozinho? Bem, sozinho só mesmo se o usuário isolar-se de família e amigos e inventar alguma desculpa que mascare seus hábitos psicodélicos, para que ninguém se preocupe. O que é bem raro e deveras premeditado, diga-se de passagem. Improvável, numa linguagem mais técnica e cientificamente - idealmente? - abstrata. Se há alguma crítica a fazer contra quem usa drogas, é esta: a falta de discrição. Para que machucar os outros, se você bem o poderia esconder, dissimular, ou de qualquer outra forma, evitar? "Na maior parte dos casos é simplesmente impossível", naturalmente responderiam. Mas o fato é que não busco por este prosear "frases de efeito" ou as tão chamadas "frases-chavão".

Drogados, todos nós somos. Pela televisão, pelo PC, pelo videogame, pelos jogos virtuais, pelo Orkut, por doces e alimentos altamente adocicados (enfim, pelo açúcar, que supostamente deixaria nossa vida mais doce, um mecanismo inconsciente desde nosso nascimento, considerando que os bebês ADORAM doces; bem, ao menos a esmagante maioria), pelo sexo diário (faz bem, é claro, ótima desculpa para transformá-lo numa obsessão social e deixar os celibatários mal-vistos e verdadeiros anátemas dentre uma sociedade moralizadoramente "normal"). Sim, cada qual tem sua casa de vidro, e Jesus há dois milênios pronunciou, segundo o Livro que nos foi deixado, supostamente intacto: "Não julgues e não serás julgado". Sim, quem atirar a primeira a pedra certamente causará guerra e acabará morto, pelo menos num sentido espiritual e, sim, a pedra atirada rebate e cai na nossa cabeça, na nossa confortável casa - no melhor dos casos, sem nos ferir gravemente.

Mas, tratando-se do tão chamado "amor", chega-se cada vez mais à conclusão de que este pouco tem a ver com o ato sexual, cuja libido é instintiva e capaz de se manifestar nas mais diversas ocasiões, e por pessoas das mais diferentes, sexo oposto - OU não. Sem preconceitos ou moralizações escorreitas e inquestionáveis, por favor. Todavia, o ser humano, muitos passos ainda tem que dar para poder sequer encarar olho a olho o fato de que um amor pode concretizar-se sem o - também corriqueiramente denominado - "fazer amor". A verdade é que, tanto para fazer guerra para fazer amor, não se exige muito. E nunca sabemos pegar minúcia por minúcia e detalhe por detalhe do que realmente foi a causa de termos feito - guerra ou amor. Não colhemos dados para uma amostra científica do quê, espiritualmente, levou a pessoa àquilo. Até porque a espiritualidade ainda é considerada etérea e impalpável, apesar de já ser conhecido por cá e lá o processo "fotográfico" que registra, em cores, a aura da pessoa em questão. Enfim, nada sabemos sobre o sexo, não importante quão bons sejamos de cama, e nada sabemos da guerra, da qual somos senão peões postos à morte ignota e ingrata, sujeitos ao olvido e a homenagens póstumas e cenotáfios - insignes e insignificantes - que nada nos dizem, exatamente por não estarmos mais aqui para lamentar ou regozijar.

Ou seja, pouco sabemos - ó meu deus, que revelação! - apesar de todo suposto "progresso científico" nunca antes visto ou alcançado em civilizações precedentes à nossa tão - err, que adjetivo enaltecedor podemos colocar, para efeito... ummmm.... - à nossa tão avançada civilização ocidental! Esqueçamos os 950 milhões que passam fome crônica diariamente no globo, os engolidos pela boca hiante da guerra e da morte belígera, os violados, os violentados, os acossados, esqueçamos nós mesmos, vai! Esqueçamos tudo, peguemos o nosso docinho, voltemos à euforia, ao gozo, ahhh... que delícia a doce ilusão de todos viverem FE LI ZES pra sempre! Que DE-LI-CI-O-SA a impressão tão confirmada pela extremamente confiável comunidade anti-UFOS, de que vivemos SOZINHOS no universo! Ai, eu quase desmaio só de pensar que o universo orbita ao redor da Terra para que comamos, forniquemos, bebamos, rezemos e morramos felizes! Ah, e para que discutamos se o capitalismo é me-lhor do que o comunismo (ai, desculpa, socialismo) ou vice-versa!

Haha, somos tão avançados que nenhum cometa pode colidir conosco e nos ruir em fragmentos, que temos certeza de que os extra-terrestres - se existirem, ein, gente, por favor, né hihi huhu...! - devem ser todos tão bonzinhos, tais quais cachorrinhos, domesticáveis - no máximo um tiquinho só mais inteligentes que nós. Mas, é claro, nós estamos NO TOPO da cadeia alimentar, DO UNIVERSO INTEIRO! Oh, meu Deus, quase que eu ejaculo com tanta pretensão, ops, desculpe-me, com tanta OBJETIVIDADE e é, claro, o que a ciência e a religião não nos negam nunca, não é mesmo, com tanta CERTEZA.

Mas, pessoal, o mundo tá girando como sempre girou, então despreocupa geral. Quando é o bailinho Funk? A baladinha? A sessãozinha de cinema de filmes americanizados enlatados estupidificantes? A rave? O que importa é ser feliz, não é mesmo? Ainda mais ser feliz com todas as ilusões possíveis, aí sim. Aí fica mais gos-to-so, hmmm, mais prazeroso ainda. Pra quem está no topo da cadeia alimentar, é claro, que SOMOS NÒS haha hihi huhu... tudo é perfeito, e tudo, óbvio, é como parece...

Mas pra quem não vai curtir a noite hoje: www.sott.net

Sem dogmas. Notícias e matérias que você NUNCA verá na televisão em sua forma original e inalterada. Nem no rádio. Sabe como é, né, as pessoas que vivem felizes têm uma tendência inata de entrarem em pânico com certas... coisas, então massificar notícias avassaladoras não seria muito benéfico para o poder do status quo. Ah, e também porque intercalar futebol com tragédia num misto-quente indigerível cumpre com super-eficácia a política de dominar mais simples e bem-bolada sobre a Terra: "Pão e Circo, romanos! Vejamos o gladiador/vilão telenovelesco!!!"

Ai, o que aconteceu no episódio de ontem, mesmo?

Hihi huhu... ai, é tão bom ser feliz! Me vê mais uma pílula de soma, façavor. Eu vivo neste admirável mundo novo hihi huhu...

sábado, 20 de dezembro de 2008

Multiverso

Mente dispersa cogitando...
Impossibilidades, concatenando
Idéia por idéia, uma alcatéia
De uivos lupinos, próximos e distantes
Eternidades e instantes.

O vento vem a balouçar e chacoalhar
Renovando cada soprada do samovar
E a cada baforada um recomeçar
Dispersa dor
Dispersa a terra,
A guerra
E reinventa a Paz
E recria: tudo... todos
Pois a Mente se abriu...

Tal expansão da mente
Cética e descrente
Medeia jejum e ceia
Prostrando-se assaz
Na divisão das águas,
Entremeando seca e cheia.

É o pensar mesopotâmico
Que vê senão um divisar
Contínuo de dous rios:
Um ascendente, outro decrescente
Perfazendo, a fusão de ambos,
O trabalhar da mente
Num fluxo ambivalente
Persistente...
Permanente.

O decurso de tanto matutar
É a assimilação do novo
Aterrador... a desova
De feras draconianas
Feras cujas flamas
Incandescerão um Ser
Propenso a mudar
Infenso ao minguar

Mudar em botão
Botão em Flor
Flor em Amor

E, assim, o frescor
Que o cíclico processo
Vitalício...
Traz à ave ígnea
Cuja retomada da vida
Provém de cinzas
À primeira vista estéreis...

Pois nada é como parece...
Se até mesmo o Sol esvanece
Para explodir em Luz!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Bojador: Outrora Homem, Aurora e dor

Sem antecipação, corre à roda
A vida, corre solta:
E viva, desenvolta.

Até quando o realizar
Dos sonhos trás à mente
Débeis assunções d'um porvir,
Que termina por ruir e destroçar-se!
E isso a alma sente...

Por que perde o sono em devaneios do amanhã?
Cabeça quente, coração pulsante, qual febre terçã?
Se no sono o sonho lhe seria recompensador?
Mas, não...
Flébeis mãos tateiam a esmo o escuro...
E perdem o melhor:
A aurora e o desabrochar da flor...
Como outrora,
A lição não-aprendida faz-lhe a perda do amor...
Bem, sem rancor...
Pois toda a vida trás em si um desamor,
Para das cinzas renascer em esplendor!

O mundo gira, as pessoas vivenciam,
E as lições vão sempre além
Do cabo do Bojador...
Além da morte.
Além da... dor.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Chauvinismo

Sou mesmo um delinqüente:
Eu não mudo.
Eu: não-mudo...
Eu falo...
Eu-falo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Saber Viver

Originalmente pensado como savoir-vivre, por ter sido esta a expressão que primeiro pululou em minha mente, apesar de meus parcos e rudimentares conhecimentos da língua francesa.

Por que penso Naquilo
Naquele incidente
Por que o sinto em meu peito,
Sombra onipresente?

Jaz subjugado Algo
Este Algo que importuna
A pulsar sob as carnes do peito
Silente e vivo...
Flébil.

Edaz, voraz... glutão
Nem com a boca se come deste pão
Que o Diabo amassou
Atirado à sarjeta
Sobre a qual um mendigo esfaimado
O visava, olhar convergente
Na côdea negra e fria:
O mendicante era eu.

Eras tu
Eram todos, todos, todos
Cuja fome e maior necessidade
É o saber.

***

Quando a névoa encobriu teu rosto, Laura
Verteram em meu rosto gotas
De idas lembranças e pujanças...
De tudo o que o amor foi capaz.

Acorreram à mente imagens...
Mas apenas figuras esvoaçadas!
Do que foste pra mim, ser carmim...

Pudesse eu falar latim, ou qualquer
Outra língua do mundo
Que te trouxesse para mim
Juntinho assim
Para o deleite dos ouvidos
O frufru de seu vestido carmesim...

Ah! que importa a nostalgia?
Se o passado é transubstanciado
Em alegorias...
E vai-se à água o que outrora fora
A evidente realidade
D'um dia-a-dia...

***

Se viver é sonhar e sonhar é viver
Não custa nada sonhar outra vida
Se também aquela sera vivida...

Não custa nada tentar mover
Uma alma empedernida
Não, enquanto em sonho,
Hábeis mãos deslocam esta fria rocha
Onde não supunham vida...

***
Pudera o mundo e sua órbita girarem
Ao gosto e bel-prazer nosso
O caos sobreviria...
Oh, não posso...!

Descrever, quando o mundo todo rui e rui!
E somente na alma humana vê-se amparo
E resguardo diante vis intentos
Feitiços e ungüentos...

Mas, sim, é forte Aquilo
Sáxea sua vontade
Não abre mão da Liberdade
Ferrenha luta em que disputa,
Para o Homem,
Seu ígneo direito à Santidade

Oh, Sant'Alma!
Tu és o prisco braço
Que defende a Humanidade!

És tu o bastão que à terra deita os néscios!
És tu o sibilar do vento
Que em uníssono se funde e confunde
Ao uivar dos lobos... pareada às feras,
Mostra-nos quão bela e fugaz
É a luz que espreita o âmago
Do Homem que em si busca a Paz.

Alguns te nomeiam virtude
Mas poucos são os sãos
Que sabem...
Seres tu minha razão de ser.

***

Ao penetrar nas trevas da floresta
Ele só queria entreabrir em si a fresta
Que possibilitaria ver o Real...

***

Ao bater com força a porta
Ela só não pôde ocultar
A comporta escancarada de seu coração...

***

Ao avistar, Narciso, o espelho
Esqueceu de vez o escaravelho
Que havia lhe imputado seu destino e perdição.

***

Ao escrever estes versos
Fujo do respirar a agrura...
Meu corpo esqueceu sua feitura.


***
*
***

Such is the light:
Inasmuch as your being sustain the power to fight
In the coldest recesses of the Night

Such is life:
Inasmuch as your being retain the Force to live
Throughout pain and strife

From the Fire comes Light:
Do not ever forbear this truth,
Or your being might as well lose its unfastened might.

Such is the light.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Vi Vida - Mistakes

Perhaps it was a mistake
To put my life at stake
For nothing

As the warrior would take
For his virtue's sacred sake
But for him
It was everything

As the merry nightingale sings
As my soul swings
Shenanigans...
My being in fragments I do not know

I am afraid I will reap what I sow..
I'm frightened by this prospect

***

A aurora. A aurora...
Como sói
e dói
Lembrar o outrora

Porque o passado torna-se bonito
E frutuoso?
Desgostoso
O presente e o infinito?
Não, isto não é a vida...

Chame de chama, de flama
Mas isto não é amor...
Cor, descor, desbotou
Um novo período há de começar

Mar, mirar, admirar
Transposição
Quero transpor.

Cis, cis, cis...
Não, não me fará calar
Quero trans-por!
Aquilo não foi amor.

***

Se a alma se cala
Não há calma
Se a guerra é esquecida
Não há paz

E assim é o passado que ribomba
Para não ser olvidado
O que foi sentido
Foi também escutado
E os sons perduram no ar...
E mais ainda na mente...

Não mente, não mente
Algo em... algo dentro...
Não, Aquilo não pode...
É incapaz desta agrura
Do esquecimento.

***

Se...
Não, sem 'se'
Vai acontecer
Em breve.

Até lá
Farei da alma um fardo leve.
Custe o que custar
Tornarei habitável este meu lar.
(custe...
cuspa.)

Nada me fará mudar.

***

Why. Why? Why!
Do I cry?
When what I need most
Is a smile
Pointing out the way

It may swirl, and curve
And bent
But what I need most
'Tis strength
And it'll be sought
Night after day
I'll become the rightful host

No more of this scornful ghost
Telling me what to do
Never
More!

sábado, 13 de dezembro de 2008

A coerência de Vasily Grossman e Ernst Jünger


Li, seguidamente, Um Escritor na Guerra (A Writer At War), do escritor ucraniano Vasily Grossman, e Nos Penhascos de Mármore, de Ernst Jünger, escritor, este, alemão.

Para a minha surpresa, Jünger foi um nacionalista de estirpe aristocrática, isto é, por muitos anos debateu-se com o conceito de super-homem (übermensch) nietzschiano, segundo o qual a humanidade está dividida entre servos e senhores. Nem todos podem ser senhores, e muitos remanescem servos, não importante a potencialidade de se tornarem senhores. Senhores de quê? naturalmente se pergunta. Senhor de si mesmo. É uma alegoria para um patamar mais consciente, que o homem pode alcançar, somente por meio de infatigáveis esforços, de ordem intelectual, física e emocional.

É claro que, portanto, Nos Penhascos de Mármore é uma obra difícil de se conceituar. Tercio Redondo, o tradutor desta edição brasileira recentemente lançada pela CosacNaify, a conceitua como uma obra alegórico-simbólica. Porque o botânico e escritor Ernst Jünger, cujo irmão fez importantes estudos sobre Friedriech Nietzsche no âmbito literário, adora trabalhar, com vividez e perspicácia, a temática do obscurantismo e do simbolismo dentro deste seu aclamada escrito.

Publicado nos tempos em que o Führer ainda reinava totiponte sobre o solo e os corações germânicos, teve uma publicação polêmica em sua época. Em questão, é óbvio, de ser uma incisiva análise da ascensão e estabelecimento do totalitarismo, se bem que atenuada por seu caráter aparentemente ficcional. Como aponta este talentoso tradutor, várias paisagens descritas no livro correspondem às suas equivalentes reais na Europa, assim como vários dos personagens retratados. Goebbels e Hitler não são exceção no decurso da narrativa.

E o que Vasily Grossman teria a ver com a temática aqui abordada? Ué, é outra questão que necessita ser esclarecida. Cito-o, a começar, pela razão de que Vasily, na condição de jornalista, viu lado a lado aos soldados do Exército Vermelho soviético, os horrores da guerra imposta aos homens comuns, e todo o ônus que a bestialidade bélica trouxe em maior parte aos civis (homens, mullheres, crianças e idosos) do outrora extenso e culturalmente variegado território da URSS, muitos dos quais foram conscritos contra a sua absoluta vontade - e a maior parte dos quais (uma cifra horripilante, superior a 20 milhões) feneceram em um conflito que não lhes dizia respeito.

Por quem haviam sido arquitetados tão maquiavélicos planos? Quem constitui a eminence grise (eminência parda) que se oculta por trás dos bastidores? Isto, decerto, não nos é revelado, até porque seu autor o desconhecia, e porque muitos poucos sobre este planeta têm conhecimento de quem de fato opera os peões e os títeres que são submetidos às leis e às carnificinas humanas. Mas algumas perguntas são respondidas, tais quais: o autoritarismo é obra exclusiva dos nazis? Os nazis seriam mais malévolos do que seus adversários russos? Os inimigos infligiram mais sofrimentos humanos à população civil do que o próprio governo que os combateu? Não pense, antecipadamente, que tal indagação é pueril e estéril.

Comecemos por responder a primeira - e talvez menos polêmica questão: não, o autoritarismo, e em uma dinâmica mais ampla, o totalitarismo político, não são exclusivos a este ou aquele lado. Pelo contrário, Grossman, por sucessivas vezes, foi censurado nos artigos que datilografava diretamente do front e submetia as autoridades superiores. Seu editor não raro deu uma mãozinha para a sua publicação, em virtude de serem exemplarmente bem escritos e por constituirem obras de um espírito jornalístico e inquisitivo consumado. Grossman relatou muitos horrores, aos quais deu o grave epíteto de "a verdade da guerra". São sobretudo as cruezas realizadas contra a população civil eslava (que envolve tanto os povos nativos russos quanto muitos outros, diversificados no aspecto lingüístico e cultural) - isto tanto pelas mãos alemãs quanto pelas próprias conterrâneas.

Se pudesse resumir em poucas palavras, eu (e não Grossman) diria que uma guerra é um conflito em que, sempre, as duas partes saem perdendo. Sim, as perdas se diferenciam pela gravidade e pela extensão. Sim, os sofrimentos se diversificam pelo modo como são infligidos na população. Não, a nacionalidade não faz nenhum indivíduo um ser alheio ao outro, no principal quesito aqui referenciado: a humanidade. Com grande desgosto e amargura, Vasily Grossman é forçado a admitir, neste livro às vezes revirador dos estômagos mais fortes, que os soldados vermelhos russos estupraram e saquearam, talvez até mais compulsivamente do que os próprios alemães, nos seus próprios territórios, retomados das mãos adversárias.

Findando a 2ª Guerra, em 1945, era possível ouvir de dia, relata Grossman, gritos de mulheres, ecoando às ruas através de janelas escancaradas da Berlim ocupada. Quando retomaram o território polonês, os soldados russos pilharam os camponeses que, na verdade, eram seus próprios concidadãos. Grossman reporta, no entanto, ações humanas que merecem todo o digno mérito da atenção: soldados alemães feridos mortalmente, ao implorar por água, muitas vezes a receberam das mãos inimigas, num ato - não direi de piedade, porque estabelece uma relação hierárquica entre as partes, mas - da propriamente dita: humanidade.

Grossman foi criticado ostensivamente e sofreu perseguições políticas (o que mais fortemente ilustra este fato: após ter conquistado um dos mais célebres prêmios literários instituídos na URSS, Stálin pessoalmente riscou seu nome da lista dos concorrentes, consignando a honra a um outro escritor, conhecido de Grossman, que exaltava de peito e alma as autoridades). Durante a vida, não gozou da mesma saúde e disponibilidade de tempo que Ernst Jünger, que veio a falecer com seus longevos 102 anos, um homem extensamente viajado e, ainda, nas cercanias da morte, surpreendentemente em plena saúde física e atividade literária e mental. Mas esse diferenciado escritor russo soube como só ele aproveitar suas oportunidades e salvar a própria pele nos vários riscos em que incorreu ao dormir e viver ao lado daqueles que portavam armas (Grossman foi um exímio atirador, mas não sabemos se infligiu a morte a ninguém, pelo livro).

Ernst Jünger, por sua vez, goza de um mérito equiparável como escritor: tal qual Camus, o qual fez d'A Peste um relato assombroso do que sucederia caso uma epidemia catastrófica assolasse uma cidade. Perdão, se fiz parecer que era essa a intenção de Camus. Não, Camus merece um estudo direcionado a si próprio muito mais extenso e menos deliberado do que este breve artigo propõe. Mencionei-o para efeito comparativo, apenas. O caso é que, tanto Nos Penhascos de Mármore como A Peste, soam verdadeiros. São verossímeis. Tangíveis, palpáveis.

Pensamos: "ué, é como se tivesse acontecido." E é assim que Camus e Jünger obtêm, ambos, enorme êxito em demonstrar o totalitarismo que se assenhora de nós quando menos o esperamos. E Grossman, paralelamente, expõe o totalitarismo que de fato se apossou do jornalismo e da literatura russas sob Stalin.

Boa leitura, se vos convenci da importância de lê-los. Aliás, o fascismo na América já mostrou suas asas... a suástica não tarda a aparecer. Que tal um segundo 11/9 para nos aterrorizar de vez, para, de peito aberto, aceitarmos e nos subjugarmos a leis tirânicas e draconianas? Minhas desculpas, mas algo aqui recende ao incêndio de Reichstag.

...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Why did it take so long (to know)?

Hope
Hope
Glimmering hope
May it enlarge my scope
And cause me to see

Instead of shutting my eyes
And narrowing my mouth
To a standstill
All silent
All gone
When silence equals to
None.

When bears no inner meaning
Being alone.
But, nonetheless, it's downright explainable:
The soul's gone.

And faint and dimly does become
What once inside gladly shone.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Narcissus

'I can't make you love me...
To be or not to be,
Is entirely up to you.
To Be,
You MUst love ME.

Mu... mmy.'

Mil Anos de Orações (A Thousand Years of Good Prayers, 2008)


Mil Anos de Orações (2008), do diretor chinês Wayne Wang, é um filme composto essencialmente de diálogos. Esqueça o gênero ação, magnificamente explorado em Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008). Esqueça, também, a comédia barata e sem-graça de filmes massificados, grande parte deles norte-americanos. Há, sim, humor nesse filme. Mas é um humor de qualidade superior: é necessário estar atento para notá-lo. Caso contrário, algumas cenas (mui!) cômicas passam literalmente despercebidas.

Afora as tiradas bem-humoradas de Wayne Wang, o que marca mais são as tomadas fotográficas, com as quais o espectador certamente irá se maravilhar. Se as história (plot) conduz a atenção de quem assiste, o fato é que são as fotos o que mais prende esse mesmo olhar. Se não já bastasse o filme ser, aliás, muito bem norteado pelo enredo, a cinematografia é de se espantar.

Um filme que prima, sobretudo, pela qualidade e pelo conteúdo. Cada diálogo é uma abertura do que se passa no interior das personagens, e, dessa maneira, revelam todo uma dimensão de conflitos entre culturas e modos de se ver o mundo radicalmente diferentes. Um pai comunista que visita a filha nos EUA, seio - porém não o berço, esse papel é da Inglaterra - desse capitalismo tantas vezes alcunhado de selvagem... já dá por si uma ótima história, não?

Pois é, mas a verdade é que o filme não se detém nesse embate bipolarizador que recende à Guerra Fria. Ele vai muito além. Falamos todos a mesma língua? Habitamos todos o mesmo planeta, ou será que vivemos em mundos completamente distintos? Que liame ligaria um pai e uma filha há tantos anos separados geograficamente, sentimentalmente, munidos de mútua incompreensibilidade no reencontro?

Quanto a esta última questão, não é nenhum segredo a resposta: o único fio capaz de reunir duas pessoas após tantos rompimentos e desencontros de opiniões, é o mesmo elemento que sustenta qualquer possibilidade de existir algo exterior à nossa tão comprometedora subjetividade: a verdade.

Qual será a verdade?

Somente assistindo se descobrirá.

Para ver algumas fotos do filme, clique aqui.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Re ver be ra ção

O cor po vai vem re me xe
To do ele é mo vi men to
Pas mo en con tro
Ser e cor po

Conexão
Des co ne xão
Li a mes que ligam
E des li gam
E o cor po vi ra
Vi ra vi ra
Com vi da própria

Con vi da o im pul so
A fu são entre a al ma
E o cor pó reo
Ca da se gun do
Uma a ná li se dos ges tos
A fe tos, o lha res
Di re tos Di re tos
O cor po co mo

ExPrEsSiViDaDe
rEaLiDaDe
CoNecTiViDaDe

Li Ber Da De.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Dança com Lobos (Dances With Wolves, 1990)


Se tem um filme que eu recomendo de coração é Dança com Lobos*, com Kevin Costner figurando como ator principal, no papel do oficial Dunbar - que posteriormente se redescobrirá sob o nome nativo de Dança com Lobos, sendo esta a razão do título da película.

O filme talvez tenha essa característica marcante em virtude de desmistificar utopias dicotomizantes: bem e mal, o moço bonzinho e o vilão horrendo - aspectos tipicamente maniqueístas e que reverberam à solta na forma tradicional do Romantismo, movimento iniciado na Alemanha e com expoentes tão dignos de nota como o próprio Goethe.

A utopia indígena também é dessacralizada no decorrer da narrativa e na trajetória traçada por Dunbar. Insatisfeito como sua solidão no forte militar desertado que ocupa, na fronteira com as terras habitadas por uma multitude de povos autóctones, tais quais os Pawnee e os Sioux, o oficial norte-americano encontrará a paz e a companhia que buscava no seio silvícola. Ali, entre os nativos, abre-se um mundo completamente novo e diversificado.

As dimensões do real e do imaginário, do tangível e do pictórico, fundem-se em uníssono com um modo de vida à beira da catastrófica extinção que seguiria, pouco menos após duas décadas da invasão maciça branca.

Século XIX: a expansão para o Oeste no território estadounidense, supostamente inóspito, no man's land, terra habitada por ninguém. Parte desse dito unilateralista e intra-imperialista encontra ressalva somente no fato de que ali naquelas bandas não havia proprietários, ou papéis que timbrassem uma posse irreal.

Aliás, que homem pode atribuir a si o status de dono daquela que o germinou e nutriu? Sim, digo a terra. A terra - que é ao mesmo tempo de todos e de ninguém. O fundamento de uma afirmação tão insólita e aparentemente despropositada aos valores inculcados na cabeça de pequenos homens¹ - por decênios e milênios afora de História do Homem sobre o planeta Terra - é univalente e sonoro: A terra/Terra é pré-existente à humanidade, e a sucederá.

Tal verdade ribomba e ressoa e arranca do homem uma de suas maiores obsessões: ser dono de algo externo a si próprio.

Nesse aspecto, tão moderno e tão antigo - não reverenciemos o presente como a apoteose da existência humana neste minúsculo planeta - Dança com Lobos é um filme ampliador de horizontes. Desilude o espectador - se este estiver aberto à quebra de paradigmas - dos poderes civilizatórios de se mudar algo imutável: a alteridade - o outro. A Sociologia dispensa especial atenção a esse fator, que sobretudo define a existência de um outro que não é como nós mesmos. Que não apreende o mundo como o apreendemos, nem depreende deste as mesmas relações que podemos - com toda a nossa suposta magnitude técnico-científica - depreender nestes nossos tempos modernos.

Cabe ressaltar que o filme baseia-se no livro homônimo de autoria do pouco conhecido - e muito menos aclamado - Michael Blake. Alguns escritores têm essa mágica admirável - e peculiar, decerto - de deixar uma obra apenas - e todo o seu dom panorâmico e entreabridor de olhos se demonstrar com força e vivacidade nela. São obras que evocam com distinção uma só palavra: plenitude. Portanto, é uma obra que merece ser lida e digerida no original. Se Iracema é a brilhante recriação do Ceará, mítica e lírica como só Alencar o pôde suster na Literatura Brasileira, bem... então Dança Com Lobos é um Ubirajara com um toque inesquecivelmente Real.

¹A respeito da pequenez do Homem, recomendo particularmente a leitura de As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, prestando especial atenção aos liliputianos. E, em segundo lugar, Micrômegas, de Voltaire.

*Para poder escrever sobre esse filme, foi requerida de mim uma segunda experiência como espectador. Na primeira, pouco pude compreender de sua amplitude. Na segunda vez, mais maduro e enriquecido com leituras de amplo escopo, as inferências possíveis foram muitas. Utilizei-me de algumas.

(link recomendado: o discurso feito pelo Chefe indígena de Seattle - em português)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sattelite Dish

Change...
A frightening word
Changing...
And the world is set up
In Revolution.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Lest the light depart

When even breathing is hard
And life hangs threateningly
As if it was really nothing
The time has come to awaken

Have a cold cold water
Mellowing down the
Facial frigidity
High time to face reality.

Better die facing it front
Than haphazardly avoiding
Its gaze
Better have a try at solving
Life's jigsaw puzzle
Than bein'
Mercilessly enwrapped in
Its maze...

Time to pay the bills
Time to pray open-heartedly
Like you never did before
New things which did only come by chance
Will now occur with a single glance
Of yours...

No 'befores', no 'therefores'
Your life will change
Into
Amble bays 'n ample shores
In it
You'll swim
You'll sway
But never never never
Give up a single day,
Nay.

Many things not "OK"
Will be
No more
You
Must only say:
'No more of it to-day'.
'This is the last day of my life.'

'At least in this final moment,
Yes, I'll be the master of my very destiny'
'Be it one day, or one's entire life,
One's destiny is more than
Simple
Struggling
Strife:
It's all 'bout learning,
Firstly
And Foremost.

'Tis all about lessons taught
By teachers unknown
And only learnt if it is indeed
One's true aim:
'No pain, no gain.'

'For some, life may be like a game
A game whose rules they can't grok,
Once they get enmeshed in the whirpool
Of the roulette'.

'Let them get what their desires
Set them up to.
All your choices will amount to
Your chosen path, only.

'It is direfully impossible
To take the lead of your life and that of others'
Simultaneously
'And, on that account,
Such a bestial influence would deflect
The greatest cornerstone of all:
Free-will.'

Not unlike the stars
Life will shine on the
Darkest and most exiled parts
Life will glow, time will flow,
And sowing will take place,
In Earth, Water or Space,

Metaphorically,
You give the walk your pace,
'Tis you who brings forth upon yourself
Either happiness or disgrace
Mistrust or solace
It is time to wake up,
Lest the light depart.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Anedotas de Gambitos, o Saci de duas pernas só.

Cada poema traz consigo uma história. Um poeta é essencialmente um prosador. Ele prosa sobre a própria vida de uma forma universal... quem lê já passou por aquilo, ou sente a presença do descrito em sua própria vida, podendo estar num passado longínquo, ou no futuro, ou estar ocorrendo simultaneamente, no presente. É uma sensação única compreender uma poesia. Explicar o quê você depreende de um poema não é como corrigir uma prova e mostrar o certo e o errado. Na compreensão há lugar para o certo e o errado concomitantemente: isto se chama experiência.

Experiência poética.

E Viva o Salmaso*!

*professor do CEFET-SP. Na sala de aula, um verdadeiro mestre - culto, erudito, um ator; fora da sala de aula, um ser recluso, em seu digno direito. Uma postura que inspirava ainda mais admiração nos alunos que de fato prestaram atenção em suas aulas.

Twingles

I'm falling
I feel I'm falling
In seven minutes
I won't be the same
In seven minutes
Begins a new game
And it'll never again
Be the same (old game)

Shame
On me? On you?
On whom?
Perhaps none will answer
It until noon. Or at least
Not very soon.

Darkness has gone out
The window frame
Back came the light
Reflected, brightly insane
My thoughts ran after you
Day and night the desolation
Pulls me apart
Back to the start
Nobody has been
Given a heart
I nod, I think, I sink
Into my very being
I feel alone

And, God, how grateful am I.

domingo, 30 de novembro de 2008

Sobre Palestinos - Sobre a Realidade

http://www.redress.cc/palestine/pjballes20081130 --> um dos melhores artigos escritos sobre o genocídio dos palestinos. Ao mesmo tempo sucinto e complexo em suas implicações.

Sobre a Palestina.

Li em 2005 um apanhado de contos pelo escritor palestino Ghassan Kanafani.

"No dia 8 de julho de 1972, Ghassan Kanafani entra em seu carro com a sobrinha numa rua de Beirute, faz o contato com a chave e o veículo explode. Morre o grande combatente palestino (ele combatia com palavras, fique claro) e um dos maiores nomes da literatura árabe. Quarenta mil pessoas compareceram ao enterro. Consciente de que era necessário preservar a identidade e a cultura do povo palestino, Kanafani combateu com armas e palavras. Nos Contos da Palestina narra o sofrimento de seu povo quando da ocupação israelense. Raramente ele se deixou levar pela violência que subjugava os palestinos, preferindo envolver os leitores com o cotidiano das mais simples relações humanas e com a constante necessidade de sobrevivência de uma gente que, segundo ele, vive "do vento e da esperança".

É o que diz a contracapa da edição de 1986 da editora Brasiliense dos Contos da Palestina. Sem esse escritor, é possível que eu não enxergasse o genocídio diário desse povo sem terra, e me encontrasse em uma situação semelhante à da maioria das pessoas do mundo que tem acesso diário à mídia televisiva e escrita.

Ninguém quer ver o sofrimento alheio. Mas um dia ele pode chegar a nós.

É por isso que ler Ghassan Kanafani é um compromisso com a realidade.

sábado, 29 de novembro de 2008

Federal: Minha alma mater

Já era tempo que eu escrevesse, ah, já era tempo. E por que não escrever sobre meus três anos como aluno nessa instituição outrora tão conhecida, e que hoje se chama CEFET-SP. E amanhã, quem sabe, exibirá outro nome, mas que, não importante que mudanças, permanecerá eternamente Federal no coração de seus ex-estudantes.

Comecemos pelo meu tumultuoso primeiro ano. Primeiro o background: 8ª série, bolsista no Colégio Objetivo (unidade) Cantareira, ótimo aluno, competindo por médias em torno de 8.85, com meus melhores amigos - que foram também grandes professores nas matérias que eu não dominava, e ainda não domino: matemática, química, física. 2005. Ano em que participo do Concurso Literário Interno do Colégio Objetivo (CLICO), e consigo, para a minha grande surpresa, o 9º lugar. Minha professora de português de então descreveria minha expressão, ao ouvir de sua boca as boas novas, como "um sorriso de orelha a orelha". De fato, como o gato de Alice, um sorriso permanente. Ganho também, para a minha estupefação, uma medalha honrosa na Olimpíada Paulista de Matemática. Ora, eu que não sei nem seno, nem cosseno, não poderia ter ficado mais boquiaberto. Enfim, tendo chegado lá e sentado no meu lugarzinho, entre meus pais, a aguardar o início da cerimônia, abri meu livro do curso de japonês e estudei como se estivesse em casa.

Claro, isso porque 2005 foi o ano em que iniciei meus estudos de japonês, bastante primitivos e modestos, e que durariam somente exatos dois anos. Mas isso é outro assunto. Prestei a Federal, seguindo a rigor a mesma rotina cerimoniosa antes da prova começar: abri o mesmo livro de japonês, fiz alguns exercícios de caligrafia do alfabeto hiragana, e fechei-o, quando nos disseram para guardar o material que não fosse utilizado na prova. Fiz a prova calmamente, e notei que, no meio dela, um garoto dormia sonoramente à minha direita. "Bem", pensei, "este provavelmente não passará". Realmente, nunca o vi dentro da Federal.

Por ser um bom aluno, em uma boa escola, o cursinho fez-se desnecessário. Meu único amigo que prestou, o Danilo, que, no segundo ano, partiria de volta para o Objetivo, era o meu grande contestador nas médias bimestrais. Quando eu tirava 8.85, ele fazia questão de exibir seus orgulhosos 8.89. Ora, pensava eu, é capaz que um dia eu o passe. Recebi muito alegremente a notícia de que havia passado em uma das melhores instituições de ensino de São Paulo.

Minha primeira grande ilusão talvez tenha sido a de que continuaria minha velha rotina pouco estudiosa uma vez lá dentro. Não, me enganei - e foi um engano crasso. Não aprendi logo a lição, no entanto. Os primeiros dias foram maravilhosos. Aliás, o que contribuiu para esse maravilhamento inicial foi o fato de que nossas aulas começaram - sim! - no dia 20 de março! A greve nos atingia já no primeiro ano, faltavam professores na primeira semana, e eu jogava bola com os caras do 3º ano. "Puxa", pensava em minha inocência, "não poderia ser melhor!" Indo à escola, jogando futebol ao invés de assistir as aulas, e me enturmando com o pessoal mais velho e mais malandro que iria sair naquele ano.

Quanto à minha sala, entretanto, lembro de poucas conversas, pelo meu descontentamento com o sistema de ensino da escola. Vi que o currículo não era seguido tão rigorosamente quanto no Objetivo, comparei minhas novas amizades com as antigas - estas fortes até hoje, aliás - e isso só me provocava um desgosto interno terrível. Como pode, me indagava, esses professores não darem aula didaticamente, e ainda pedirem questões dificílimas na prova? É claro que eu só sentia essa crescente indignação quanto às matérias em que tinha dificuldade. Nesse aspecto, não difiro de nenhum outro ser humano neste planeta. Reclamamos do que não entendemos. As outras, sempre levei na brincadeira. E a gente não costuma reclamar do que vem fácil. Vem fácil, vai fácil... diz o inteligente ditado de língua inglesa.

No Objetivo, logrei passar de ano com uma dentre as maiores médias, pouco sabendo das relações dos triângulos, de seno, cosseno e tangente, portanto, tudo o que via era completamente novo. Ficava entusiasmado em aprender enquanto estava dentro da sala de aula. Bastava chegar em casa para esquecer de tudo. Estudar? Não. Ler Macunaíma e os tantos outros livros que li no ano de 2006, ou mesmo estudar japonês, era MUITO mais divertido e proveitoso que me dedicar de peito aberto à escola. Ah! Havia, sim, quatro matérias, em especial, pelas quais tomei um gosto profundo logo de princípio e me dediquei de verdade: Filosofia e Redação. As outras duas, que pouco contam como matéria, seriam Educação Física e as aulas de Música. Essas se fixaram na minha mente. Depois do professor de EFI (Ed. Física) praticamente nos matar durante as aulas, podíamos finalmente jogar futebol. Depois, já quase à noite, viriam as aulas de música, que tanto recompensavam todos os meus esforços físicos. Extenuado, e mais errando do que acertando, eu procurava aprender um pouco de como tocar bateria. Ainda tenho meus três pares de baquetas, agora em pleno desuso.

O ano foi passando, e eu fui cavando minha própria cova. Devendo pontos em física, química e matemática, e nada de estudar diligentemente - para pôr os preocupantes pontos que me faltavam em dia. E se aproximava, fora do contexto escolar, o concurso de oratória em japonês, realizado em outubro daquele ano (2006), e do qual participei bem treinado pela querida Kobayashi sensei, que tanto me ensinou, apesar da dificuldade de lecionar a um gaijin que nada conhecia - previamente ao curso - da cultura nipônica, nem do alfabeto, nem sequer tinha o mais distante familiar com quem pudesse dialogar nessa língua particularmente tão difícil de se aprender. O que mais atrapalhava o processo de aprendizado era o meu cabelo comprido, que fazia ela zombar de mim, jocosamente me chamando pelo correspondente feminino do meu nome, e acentuando a sílaba feminina final, com um sorriso de ponta a ponta no rosto. Era engraçado, todos riam - e eu também . "Bem", pensava eu, "estou aprendendo, e é isso sobretudo o que importa". E aprendia, de fato.

No japonês, convenhamos, eu ia muito bem nas avaliações. Interessava-me, extracurricularmente, na cinegrafia de Akira Kurosawa, o que me fez, em três anos, literalmente devorar, ao lado do meu irmão, virtualmente toda a sua produção cinematográfica. Restam poucos filmes dele para assisir, e não me arrependo de nenhum já visto. No fim daquele ano, li Xógum, do autor James Clevell, um dos 11 livros recomendados pela nossa estimada professora Belmira, de História. É um livro que versa belamente sobre essa cultura pouco familiar aos brasileiros até hoje, apesar dos cem anos de imigração japonesa, tão celebrados nos festivais deste ano, e na publicação de uma série de livros pela editora Liberdade, entre outras.

Enquanto isso, na Cultura Inglesa, eu havia me preparado com ferrenha dedicação no ano anterior (2005) para obter meu First Certificate in English (FCE), e que de fato obtive, muito merecidamente. Alguns professores chegaram a me dar o epíteto de "melhor aluno". Cá entre nós, o que havia de errado comigo? Um aluno que é considerado o mais dedicado nas escolas de japonês e inglês, para o seu nível, não deveria ir mal em Física, Matemática e Química na escola, ou deveria? Pois é. O que eu aprendi desse período foi o seguinte: um gênio é 99% de suor, e 1% de determinação. Para tudo o que não envolvia números, não me faltavam nenhum desses atributos. Mas para esse trio, hmm..., eu só fui suar no último bimestre letivo de 2006. Aliás, eu precisava tirar 9,0 em Química; 9,5 em Matemática, e 10,0 em Física!!

Mas minha mãe me ligou, após terminadas as aulas, num ensolarado dia de céu limpo e azul, trazendo-me a notícia de que eu havia passado de ano! O Conselho me passara! "Mãe, preciso desligar!" ("guarde seus discursos moralizantes para depois", pensei mal educadamente, "agora vou comemorar!"). Ah, mas agora eu não farei os mesmos erros de outrora! Foi o pensamento que tinha em mente, e que mantive em mente, durante o correr do 2º ano inteiro. Ótimo, se eu fui um péssimo aluno em três matérias do ano passado, serei, se não o melhor, ao menos um ótimo aluno nessas mesmas matérias, e melhorarei minhas médias nas demais (nas quais já ia muito bem, com médias sempre maiores que 8,0).

De fato, meu planejamento inicial foi levado a cabo. Minhas médias do primeiro e segundo bimestre foram iguaizinhas: 8.81. As maiores da sala, me orgulhei. Aliás, eu era o único ali que fazia técnico à noite, de Museologia, curso no qual fechei minhas médias do primeiro módulo com MB (Muito Bom, nota máxima) em TODAS as matérias. Porra! As pessoas podem mudar! Eu mudei, com meus esforços! Mudei, carajo, mudei!

Sentia-me um novo homem, fazia exercícios físicos quase beirando a vigorexia, e estudava, com intervalos muito bem pensados. Aliás, revisaria este ano, muito METODICAMENTE pensados, para o meu próprio bem. Mas as coisas iam bem, faltava muito pouco à escola, estudava demais, lia bastante, tornara-me um excelente aluno em todas as matérias e em todos os aspectos. Respeitava os professores, fazia perguntas, passava a dialogar com as pessoas. Bem, não era mais um excluído! Caracas, eu havia mudado minha maneira de ver o mundo - e com isso - a minha personalidade. Compartilhava meus conhecimentos com os outros, recebia de volta o que eu dava, e tudo corria às mil maravilhas. Conheci um grande amigo, Lucas Pascholatti, e não tinha mais crise alguma na consciência. Percebi meu erro no primeiro ano: não tinha organização, e não sabia extrair prazer e satisfação das minhas notas escolares. Pois, foi no 2º ano que soube aliar o estudo escolar às minhas atividades extra-escolares, e obter disso uma grande responsabilidade. Vi que, se a vida fora da escola parecia ser muito mais gratificante, dentro dela não era tão terrível assim. Pelo menos, não dentro da Federal.

Foi no final de 2007 que obtive o Certificate of Proficiency in English (CPE), tão árduo e cansativo, mas para o qual batalhara o ano inteiro, em estudos ininterruptos nas horas solitárias da noite. Treinei sobretudo com a leitura de notícias em inglês na web, diariamente, e com a leitura de títulos nessa língua, tão literária como todas as outras, mas, também como as demais, com suas riquezas de vocabulário de fazer assombrar. Deixei de comentar que havia parado o japonês, no primeiro semestre de 2007, por excesso de... cansaço. De segunda à sexta, era escola, das 7h às 11h45. De segunda a sexta, igualmente, era o técnico, das 19h às 22h30. De sábado, o inglês, das 8h às 11h40. O japonês seria na 3ª e na 5ª... à tarde. Eu tentei, mas fiquei extenuado. Exauri minha capacidade de aprender com o trajeto nada amigável até o nihongakku (escola de japonês), compartimentalizado em uma van superlotada de pessoas, e, na volta, as mesmas condições, acrescentando o fato de que partia diretamente para o técnico. Para mim, o importante foi o fato de que tentei, nas primeiras semanas, seguir essa rotina que acabaria com qualquer um. Acabou comigo. Tendo tentado e não conseguido, não tive peso na consciência em desistir. Talvez se eu mantivesse tal rotina, jamais conseguiria direcionar tão bem minhas leituras e meus estudos da língua inglesa. E jamais teria atingido minha meta de terminar meus 10 anos de Cultura Inglesa e, simultaneamente, no último nível do curso tradicional, obter o mais renomado certificado de língua inglesa emitido pela Universidade de Cambridge.

Passei com grande mérito para o 3º ano, tendo realizado minha meta de língua inglesa, terminado com chave de ouro o 2º módulo do técnico, e tendo escolhido, como projeto na Federal (uma espécie de matéria optativa, para a qual o aluno é qualificado a partir de sua média anual - a minha foi 8.41): "Leitura e análise das obras centrais da literatura universal dos últimos 300 anos". Um projeto fantástico, quê mais poderia dizer? Graças a ele reli criticamente Crime e Castigo, do renomado escritor russo Fiodor M. Dostoievski, assim como As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Li pela primeira vez Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, incrível livro que me fez escrever um texto inspirado, que me concederia o 1º lugar em prosa do Concurso de Literatura do Cefet-SP, há quase três meses. Outros que li pela primeiríssima vez foram O Pai Goriot, do francês Honoré de Balzac, O Estrangeiro, de Albert Camus, e, por fim, Metamorfose, de Franz Kafka.

Foi graças a esse projeto, e à erudição de nossos professores, Raul e Suely, que eu viria a ler O Processo, Carta a Meu Pai, O Veredicto e Um Artista da Fome, prosseguindo em minhas leituras kafkianas. E graças a eles, também, que viria a conhecer Camus através de O Estado de Sítio, Diário de Viagem e A Peste. Mas não foquemos no projeto, que daria um post inteiro por si só.

O meu primeiro semestre deste ano foi marcado pela apresentação do TCC de minha turma (a primeira) do técnico de Museologia. Foi brilhante, aclamada pela platéia e pelos professores. Fui escolhido, junto com uma grande amiga, para apresentá-lo. Como sempre - é um eterno sempre... - fiquei muito surpreso com que me nomeassem, ao lado de tão boa aluna, para apresentar um trabalho tão importante, a respeito do presídio do Carandiru, demolido e soterrado pela História. Da Federal, compareceram a Marian e o Eraldo, que tanto me honraram ao assistirem à apresentação. Falo isso sem formalidades, além da lingüística: é de se fazer sentir bem ver dois grandes amigos ouvindo com atenção o que você tanto estudou.

Enquanto o técnico corria como um mar de rosas, quer dizer, quase isso, já que por cansaço eu por pouco desisti, na escola as coisas iam, no máximo, mediocremente. Conseguia mal a mal me manter na média no trio de matérias envolvendo números, mas, depois de minha volta de Bertioga, minha perspectiva afundou seis pés sobre a terra. O que me parecia um grande lugar para se aprender, de repente transformou-se num centro de estudos dirigidos ao vestibular, que tanto me chateia por roubar os prazeres de um 3º ano, ao introduzir um elemento chamado "cursinho" em nossas vidas. Na minha não, fique claro. Uma boa instituição como a Federal dispensa abertamente cursinho, como mostrou minha grande amiga Janyelle, que estudou comigo este ano e mostrou que se passa - por enquanto da 1ª fase - em Medicina. E como eu mesmo provei no meu íntimo, com minha ótima nota na 1ª fase da Fuvest (mais três pontos e eu passava em Medicina), e minha dedicação - neste ano nem um pouco assídua - à escola. Se não me dediquei igualmente a todas as matérias, não vou embelezar minha história escolar para sacrificar a sinceridade, pelo menos pude aprender um pouco de cada, e mais um pouco de algumas. Conhecimentos amplos e diversos que ampliarei o restante da vida, sem discriminação por gênero nem por cor. Exatas e Humanas, eu aprendi, é uma dicotomia que serve apenas para apavorar pessoas interessadas em aprender sobre a vida, e com a vida.

O segundo semestre passou com mais dificuldades. Trabalhando as férias de julho inteiras, de repente tornei-me adulto, e em agosto eu seria muito prejudicado pelo serviço. Se pudesse voltar no tempo, eu trabalharia, da mesma forma, porque apesar de eu ter faltado absurdamente no 3º bimestre, eu aprendi demasiado com minha experiência profissional de 2 meses, trabalhando na exposição Bossa na Oca. Conheci, no trabalho, um homem liberiano, vestido nas roupas de sua terra, muito bonitas, e conversei com ele longamente sobre religião, futebol, e tudo que pode comportar um diálogo entre pessoas de dois continentes distintos, em uma língua que não é a materna de nenhum dos dois. Falamos com sotaque, mas nos entendemos amplamente como seres humanos, porque dominávamos o código. O meu supervisor, não. Razão de advertência, por concentrar-me demais em um só visitante. Desculpe-me, mas você há de concordar comigo que conversar com um cara da Libéria, vestido exoticamente, é mais eletrizante que entregar folhetos de exposição. Haha. Saber uma língua abre portas inimagináveis.

Conversei com um estadounidense (cá entre nós, vou ser pedante e não dizer 'americano', porque, como você bem sabe, nós todos nascemos na América do Sul, e somos, por nascença, americanos. Direito nosso, e não somente da 'América'). Falamos sobre beisebol, sobre política, e sobre, é claro! Obama e McCain. Ele predisse: o Obama vai ganhar, e os Estados Unidos irão mudar. Bem, quanto ao primeiro, eu concordei com ele. Quanto ao segundo, há esperança. Mas não esperança cega - para isso lê-se as notícias, não é mesmo, caro leitor?

Dois meses trabalhando seis horas diárias, seis dias por semana, por escolha própria. Jamais arrependeria, como disse já, porque aprendi coisas que só a vida ensina - digo, a vida extraescolar. Conheci um amante de Kafka, que tanto me incentivou a ler esse autor, e a compreendê-lo, e a escrever ensaios para a matéria de projeto que angariariam elogios escritos do queridíssimo Raul.

Partamos à verdade dura e fria: só não desisti da escola este ano, porque aprendi com a desistência por dois anos do meu irmão, na mesma instituição, e que não precisaria passar pelo mesmo, tendo aprendido com ele. E, a segunda e mais forte razão: porque eu amava o projeto. E ainda o amo, e hei de o amar muito ainda, por todos os horizontes literários que abriu em minha mente. Por todas as leituras críticas e comparativas que fiz, por todas as horas que passei sentado, boquiaberto, ante a lousa repleta de bibliografias e anotações das aulas de projeto. Era o ápice da semana, passar quatro aulas aprendendo como se fosse uma criança - tão fácil, porque tão bem ensinado. Reavi todas as minhas faltas ao terminar o contrato de dois meses de exposição. Mantenho grandes amigos daquele lugar indígena inesquecível. E o contato está aí. E nossas saídas também.

Graças ao status pouco conhecido de técnico em museologia, pude também trabalhar na montagem da exposição de ciências e artes - e de um pouco de tudo - da Escola Móbile. Ficou bela. Faltei dois dias à escola, que me recompensaram grandemente. Meu pai nunca me ensinara a pegar numa furadeira, nem em um grampeador de madeira, nem subir em altas escadas uhu... alturas fascinam (passado o medo!). Este último bimestre foi uma luta. Matemática, conseguir 8,0 de média para não passar de ano no Conselho Escolar. À minha professora de Matemática, Eliane, fica registrada minha eterna gratidão por compreender os motivos de trabalho. E ao professor Traldi, também de Matemática (nunca sei se escrevo certo), devo os mesmos votos de agradecimento. Por seu lado, ele adiou duas provas por razões não-escritas minhas, e, portanto, sob um ponto de vista jurídico, pouco plausíveis. E ela, por sua vez, entendeu muito a meu respeito, inclusive o fato de eu ter chegado atrasado mais de trinta minutos em uma de suas aulas, e ter apagado as faltas, quando eu lhe disse a razão: meus amigos acabavam de me parabenizar pelos meu aniversário de 18 anos! Puxa, até hoje sou grato por esse gesto de compreensão humana. Empatia é certamente a faculdade mais humana que existe.

É. A Federal foi foda... (como meu irmão diz: "você sempre avacalha no final... VÊ SE APRENDE A ESCREVER CONCLUSÕES, P****!)

hahaha... vou aprender a fazer isto um dia ainda...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Resenha Crítica: Dr. Jivago, Boris Pasternak

Do filme, não me é dado recordar quase nada, exceção feita à belíssima trilha sonora, e a lírica paisagem, de fazer os olhos lacrimejarem.

Porém, o livro e sua mensagem marcam profundamente, gravam-se, sulcam-se no âmago do leitor. Sua imagem permanece íntegra, intacta dentro de nós, por muito tempo fornecendo referências estéticas infindáveis; matizes embelezadores para a vida.

Por onde passa o trem que leva Dr. Jivago, passam também os olhos do leitor, absorto em sua imaginação das estepes e pradarias eslavas. Evidentemente, o amor de Dr. Jivago por Lara, a linda Lara, envolve juntamente o leitor, é aconchegante, afagador; ansiamos por viver, em nosso interior, o mesmo que este médico memorável: Jivago.

Mas não se deve deixar de lado, entretanto, o relevante aspecto histórico desse romance de Boris Pasternak, a obra que reviveu das cinzas o nome desce escritor por muitos anos desconhecido em sua própria pátria; esta particular nação sempre figura como uma mãe, em suas terras ubérrimas, em seus mujiques e cenários urbanos tão encantadores e envolventes – em outra palavra, tão russos.

Um amor assim tenaz, que perdura mesmo em meio a convoluções e reviravoltas de uma sociedade permeada, ambiguamente, pelo velho e o novo, o tradicional e o moderno, é um amor de fato, um amor verdadeiro. Se reverenciássemos os clássicos, dir-se-ia ser um helênico ágape o fundamento da relação entre os dois.

No princípio, passamos a saber, pela pena do autor, que “Lara era bonita a ponto de fazer um homem ir para o inferno”. Sim, o leitor a imaginará uma beldade, um anjo sobre a Terra. Mas sua imagem só se tornará completa ao compreendermos a densidade e a profundidade do amor dessa mulher. Torna-se Lara ainda mais bela em seu resplendor, porque não é idealizada sob o peso de vãs palavras. É uma mulher caracterizada, sobretudo, por ações.

Lara é a Rússia. A Rússia, descobre o leitor, somos nós.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Concatenar-se

Muitas coisas não são aparentes à primeira vista. Entre elas, nossa própria ignorância. Quantas vezes não pensamos que sabíamos algo, e na hora H, não houve ação, porque realmente não podíamos fazer nada. Nossa ignorância passara ignorada até então, e na hora de agir, ela finalmente se demonstrou, ficou à mostra, nos surpreendeu - porque pensávamos saber.

E pensar que esta é a primordial das ilusões. Há, no entanto, um corolário delas, sempre a surpreender-nos, a nos pegar desprevenidos - ficamos boquiabertos, desconcertados por não saber. Por não saber da existência incipiente dessas ilusões. Grandes, pequenas, médias, qualitativamente é escabroso fazer distinções. O fato é que, grande ou pequena, devastadora ou não, uma idéia ilusória sempre nos deixa um amargor na boca - insatisfação derivada da momentânea consciência de nossa própria incompletude.

Exemplos abundam, meus, teus, nossos, talvez compartilhemos das mesmas, quiçá não saibamos apontá-las, ou não queiramos - esta última hipótese, convenhamos, é a mais provável. Não há nada que nos faça vê-las, nada imperioso o suficiente para que sejamos forçados, compelidos a enxegá-las. O esforço, parece - aliás, como sempre - provir de nosso próprio ser, de nosso interior. Não querendo vê-las, não serão as circunstâncias, mesmo as mais duras, que nos entreabrirão os olhos, cegando-nos por átimos eternos.

Ensaio Sobre a Cegueira. Quando assisti a esse filme, encontrava-me plenamente cego. Admito-o, talvez por fraqueza, para não ser forçado a me entregar, dizendo que ainda me encontro neste estado. Sim, não farei uma assunção descabida afirmando que não possa estar cego, metaforicamente cego, neste mesmo instante em que tu lês.

E, mesmo assim, a tendência é que a luz soerga nossas pálpebras, contra esforços nossos contrários, contra toda a resistência, contra nossa rejeição dorida dessa invasão de nossa própria escuridão cavernosa, das trevas que há dentro de nós.

Recantos jogados, esmaecidos, derretendo como o relógio e os ponteiros da Persistência da Memória, quadro de Dalí. As formigas a decompor as sobras, os rebotalhos de uma civilização. Por que a nossa seria a mais avançada? Por que temos celulares e sistemas GPS, por que dissimulamos tão cabalmente nossa própria ignorância? É bem capaz que sim, quanto a esta última. Aprendemos, desde pequenos, o estranho artificio de esconder o que não sabemos, de nos calarmos e nos enclausurarmos em nosso próprio não-saber - tão tenebroso, tão silente. Carência - é o resultado direto dessa lição inculcada em nós.

Penso de uma forma radicalmente diferente: se ignoramos, devemos perguntar. Antes começar com muitas perguntas, do que com muitas certezas. As certezas se rompem e balouçam num mar de incertezas, conquanto as perguntas atraem naturalmente respostas. Erradas, errôneas, mal-calculadas? Sim, em sua grande maioria. Mas é para isso que talvez tenhamos o aparato encefálico mais desenvolvido e aprimorado dentre os seres viventes desta Terra multiforme, multicores.

Quiçá o que nos mais atrapalhe seja nossa auto-comiseração, nossa auto-piedade, esse obstáculo que se interpõe tão tenazmente entre nós e nossas metas, entre o que queremos de coração que aconteça e o que os outros querem por conveniência que queiramos que aconteça. São essencialmente diferentes, tais desejos, se podemos alcunhá-los dessarte. Não viver é viver primordialmente pelos outros. Viver é saber viver para si mesmo, e somente depois desse egoísmo fetal, é possível tornar-se melhor. Melhor, aqui, é obviamente inquantificável, impossível de receber um apelo qualitativo. Melhor é melhor, é o bom e o bem, aperfeiçoados. E isso faz parte da Ética interpessoal.

Como ouvi recentemente no rádio, duas metades, ao serem juntadas, continuam existindo em sua condição a priori. Isto é, a tua cara-metade é a tua cara-metade, nada mais, nada menos. E pensar que grande parte da infelicidade humana jaz nisso. Neste credo de que há alguém perfeito para nós - não que não haja. Mas, talvez, tenhamos que trilhar uma longa e sinuosa estrada de auto-aprimoramento e auto-conhecimento antes de desenvolvermos a capacidade de sermos útil a quem nos ama. É um egocentrismo de imensa magnitude pensarmos que nascemos já sabendo amar. Ã, ã. Amar se aprende, não é um atributo nato. E olha que digo amar o próximo. Outro amor além desse é fortemente implausível.

Querer estar ao lado de alguém é não querer estar sozinho. E não querer estar sozinho é ter medo de si próprio. E só tem medo de si próprio quem não se conhece por dentro. A escuridão tira o sono de muitas pessoas. Mas, possivelmente, se estas mesmas pessoas lançassem um breve olhar para dentro de si mesmas, veriam, se aperceberiam, de que as trevas e a noite que realmente temem são as que habitam seu âmago. Sim, é tudo o que se esconde de nós ao vivermos apeados em nosso Admirável Mundo Novo. Fábrica do saber inútil, junk science, e toda a propaganda tão bem ensinada pelo mais querido mestre dentre os propagandistas: Goebbels. O cão fiel de Hitler. Ah, esse estudou muito bem publicidade e propaganda. Com paixão.

Para quê? Por quê? Como? Sem ter aprendido a questionar, indagar, perscrutar e investigar, o homem não é sequer um símile de Sherlock Holmes. E Sherlock Holmes era um homem improvável de ser enganado. Talvez porque soubesse separar o joio do trigo em todas as situações e circunstâncias. Talvez porque houvesse concluído, a duras penas, que ninguém, absolutamente ninguém, pensaria por ele, ninguém passaria cola pra ele na hora que demandasse uma atitude contumaz; talvez porque ele tenha percebido que um ser humano devoto é um ser concafinado dentro de si próprio.

Haja distinção. Este sim, é um requerimento fundamental para se viver - e mais do que viver: vivenciar. Sim, senhor.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Estudando História

Hitler, após a avassaladora invasão da Polônia, pronuncia de seu temporário pedestal "...toda pessoa instruída é um futuro inimigo." Condena, assim, a população eslava ao trabalho pesado, análogo ao escravo. Esta frase dá o que pensar quanto ao que temem os totalitaristas, os repressores, os anti-intelectuais, e todos aqueles que tanto amam homens oprimidos em sua busca pela liberdade.

Na página 434 do livro ao qual me debrucei ontem e hoje, nomeadamente História Moderna e Contemporânea, de Antonio Pedro (editora Moderna, 1985), e que de idioticamente didático não tem nada (sim, a história "didatizada" é um erro), depara-se com a seguinte constatação do autor, até então isento de moralismos dissimulados: "Muitos pensadores e analistas disseram que tal arma [bomba atômica] não precisaria ser utilizada, mas a verdade é que mesmo assim o Japão continuou resistindo." (como se vê, o autor refere-se ao fim da 2ª Guerra Mundial; a ênfase em negrito e o colchete explicativo são meus)

Pus, portanto, a seguinte reflexão manuscrita na lateral do livro: o elemento 'mas'(vide acima) aqui empregado, não introduz uma contradição veemente, de importância histórica. "Quanto tempo mais poderia ter o Japão resistido, sem a derrubada das bombas atômicas?" Essa pergunta tem uma resposta que comprova a nulidade argumentativa a favor de uma arma desumanizante e devastadora."

Bem, meu comentário parece auto-evidente, auto-explicativo. Mas colocarei alguns pensamentos a mais. Por que razão o 'mas', ao introduzir a resistência nipônica que se seguiu 'mesmo após' a bomba atômica? Não tem relevância tal asserção, tal afirmação. Ok, eles persistiram em sua honra nacionalista, ou qualquer que seja o nome dado ao desespero humano frente à própria impotência bélica quanto a um inimigo aparentemente onipotente, onisciente e teratológico (monstruoso) em suas dimensões (EUA, fique claro). Porém a resistência não justifica bombas atômicas arremessadas sobre as cabeças de um povo. É incoerente, numa macro-escala e definitivamente incoeso, numa micro-escala. Ou seja, não há porquês, não há como se dissertar a favor, por exemplo, da exterminação a sangue frio dos armênios,(sobre isso, ver os últimos parágrafos do link à esquerda, em artigo escrito anteriormente neste blog) ou a hecatombe sem precedentes de judeus, ciganos, homossexuais e de outra forma opositores, pelas forças nazistas; ou, mesmo, todas as mortes causadas pelos prolíficos sistemas totalitários outrora existentes ou ainda em ação. Não há justificativas tangenciais. Simplesmente não há.

Ou você precisaria de uma recordação fotográfica para chegar à mesma conclusão? Imagens, já foi dito ad nauseam em todos os recantos deste mundo, expressam mil palavras - ou mais. Eu particularmente quase vomitei ao ver o que se sucedeu ao povo japonês que se encontrava fatidicamente no epicentro de onde caíram as bombas atômicas. Todavia, se as imagens te chocam em demasia, como a mim, talvez a literatura nipônica possa te interessar. Recomendo Chuva Negra (Kuroi Ame), do escritor Masuji Ibuse (link para as bibliotecas públicas municipais de São Paulo onde se pode pegá-lo emprestado). Com esta obra-prima, calcada num relato humanístico comovedor, Ibuse pôde elevar-se ao status dos grandes escritores pós-guerra, obtendo inclusive o prêmio mais célebre do Japão, o Noma. Falo sobre ele e o quanto a leitura deste livro absorveu minhas reflexões aqui, aliás, um adendo muito importante para tudo o que tratei neste breve digitar do teclado.

Vivamos.

Yet

Minha religião é esta universidade
É minha cidade, meu universo,
Toda minha vida, frente e verso.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Entardecer

Diga-me, o que é o entardecer,
Senão o repousar das estrelas
E dos astros que nos espairam
Do alto, no planalto celeste?

Diga-me, o que é a vida,
Senão o crepúsculo, o lusco-fusco,
A noitinha de algo grandioso,
De uma obra magnânima
Acessível nos sonhos
Onirogênesis celestial...

Pois, sabe-se lá o que é dor,
Sabe-se lá o que é fome,
O que é desamor,
Frente a tanta grandiosidade,
Frente à essa fonte inextingüível
De luz...

Que sina, que nada...
Tijolo por tijolo
E é esta a construção
De uma vida, de um projeto
De ser humano
De conquistas,
Nada para se mostrar...
(pois não há nada para se mostrar...)

Caminho pois adiante
Vejo, olho, enxergo
É o bastante
Deambulo pois distante
Das vilezas, das pequenas cousas
Faço mil desenhos em minhas paredes e lousas
Eu e milhares neste mundo, Joães e Souzas...

Edificamos o diminuto
Para poder ter em perspectiva
Tudo o que é maior
Tudo o que nos iluminará
Daqui diante.
Não há próximo, nem distante
Daqui diante,
Não é cronológico, linear, pontual.
É o astro, e o universal.

É a via sacral.

Do homem ao animal
Do animal ao mastodonte
Todos lutamos, para enxergar
Para poder ter à vista o horizonte

Todos buscamos
Pelejamos, pela perene fonte
Todos, homens, animais,
Tentamos.
Tentamos.
Oh,
E como tentamos.

Mais mais mais
Uma relação direta:
O que não podem os olhos
A alma vê em sua plenitude.
Não há solidão, nem solitude.
A vida sempre será vida
Em sua mais completa magnitude.

Isso é, para os homens de atitude.
Para os Kennedies, para os Martin Luther Kings,
Para os Gandhis, para as Marias Teresas,
Para os Malcom Xs, para todos, todos, todos
Os Tibérios e Caios Gracchus, para todos
Os bravos, intrépidos, valentes Matteottis
Os que empunham firmemente
A única arma totipotente.

A alma do saber
A arma que nunca irá fenecer.
Não. Somente assim pode tudo ser.
Essência.

O imo de tudo.
Perante tanta grandeza,
Agora calo-me.
Mudo.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

sábado, 8 de novembro de 2008

Esquina da Canário com a Sabiá

(porque nada tão paradoxal como carros atravessando a fronteira de uma Rua chamada Sabiá, com outra e sua graça de Canário. Lá não há aves, pelo menos não as que com seus nomes batizaram um recanto tão urbanizado quanto nossas personalidades efêmeras e gastas)

O coração:
A flama,
Chama.
Clama

Por afeto
Por...
Por...
Pelo inominável.

Fica banalizado
Em demasia banalizado
Quando aquilo recebe nome

Talvez um nome falso
Talvez um nome de guerra, e o pior,
Um nome já trucidado, vergastado,
Esfolado.

Não, aquela alcunha envelheceu, encaneceu
Perdeu os já parcos cabelos, as cãs brancas
E como em retalho sobre a calvície longeva.

Sim, é preciso uma muda. Uma muda que cresça
E exacerbe a condição de planta, projeto. Uma muda
que destitua as folhas amareladas e também as carcomidas.
Uma muda que mude. Mude o mudo e infalável e indizível.
Mudança de planta muda para árvore arborescente e florada.
Uma face pálida e descorada abrindo espaço para um rubor humanizante.

Tal é o que tanto pede a alma.
Mais, muito mais que sossego e calma.
Menos, muito menos que um clamor e uma palma.
A alma pede o que pede a alma.
...
(and there - and here, it goes 'n flows...)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Urbe-orbe, a metrópole que tudo absorve

Urbe-orbe, a metrópole que tudo consome em sua selvageria inigualável:

-Tá vendu aquele macambúziu, cabisbaixo, ali? Todu silenti, queixu impelidu pra frenti, nem pareci genti?
-Veju, veju. Quem seria, essa nossa celebridade magricela?
-É mais um dentri a incontável multidão de ovelhas a pastar nos campus inférteis di uma cidadi dita civilizada.
-Eh, eh. I eu seria um outru comu tantus outrus, loucus soltus pelas ruas, intão?
-Por que loucu? Qui nada. Loucus i lunáticus não são tabeladus a esmu, à tortu i à direita, não é tão simplis comu pareci. Tudu qui é vivu evanesci cum u passar; classificar a esmu é discriminar comu cegu. I cegu num inxerga, inxerga?
-Tá, tá. Mas ondi cê qué chegá?
-Queru, não. Já cheguei. Ficu pur aqui mesmo. Desçu aqui na estação Paraísu. Se issu for o ditu cuju, vamu ver o quê é u infernu ainda. Uma turba dessas, apinhada comu gadu, tá mais pr'uma Comédia, qui di divina num tem é nada. Macacada.
-Ai, ai. Ô visionáriu, eu vou descê na Liberdadi, quais são us augúrius pra hoji?
-Paga adiantadu na próxima. Aí sim nóis prosa direitu, colhendu e semeandu, como nu Evangélhu. (fecham as portas). Malditu apitu! Mal abriu já fecha, a danada?! Vai, segue cambada. Cadê o vaqueiro com a vindima pra tangê us boi brabu i musculosu? Vai, saradão, empurra mesmu, você qui treina tantu pra adquiri braçu de orangutangu, não podi deixá passá a feliz oportunidadi de empurrá, né.

Carros, ônibus, metrô, trens, helicópteros, jatinhos, aviões, motos, skates, patinetes, bicicletas, patins, lambretas barulhentas, caminhões, vans, camionetes, faltam só o cavalo, o burro e o jegue. Falta só a concretude em meio a tanta abstração numérica visual. Incontabilidade reinante - terra incognita, terra da abstração alienadora. Mas esses dois últimos - o burro e o jegue - somos senão nós mesmos, que labutamos que nem uns acorrentados, no fundo, pra conseguir fundos. Mas nada é definitivo. Ah, falta amor também. Falta contato humano, que não seja abraços que nada dizem, e beijos por demais convenientes.

Arranha-céus, edifícios, prédios, presídios, asfalto, pneus, janelas em série, fordianas, condomínios, casas geminadas, casas com tijolos à mostra, na América Latina barrios, aqui favelas mesmo. No tio Sam, slums. Chuva ácida, céu vermelho à noite, Tal é a cidade lotada, inchaço urbano, mega inchaço, ultra inchaço. Ultra violência. Estupro, cídio, cídio, cínio, cínio. Começo é o que não falta.

O visionário segue seu afã diário, no ônibus:

-Entra, multidão, vamu qui cabi mais, ondi cabi um, cabi trezentus - rumbora!
(multidão, várias vozes:) - Ê, quem é esse engraçadinhu aí? Êe, já começa às seis a aporrinhação na vida? Pô, fora essi apertu, tem genti querendu encher logu pela manhã?
-Vamu fazê uma oração pra mudá essi trânsitu, pessoal. Por que mi xingá? não façu mal im dizê a realidadi. Pior qui lata di sardinha essa condiçau. Muitu pior. Porque sardinha vem azeitada e consumível. Cheirosa até. Agora, tem genti aqui qui não passa desodoranti, não aprendeu a lavá suvacu, a usá camisa anti-transpiranti. Cês vê: acorda cedo, anda e pega o transporti. Lotadu, suadu, ninguém qué siqué olhá na cara du outru. Se Guimarães Rosa tivessi pur aqui, ninguém ia reconhecê. É a correria de todu dia, dizem pur aí. Mas qui correria u quê, issu daqui é só pra divergi a todus de uma vida essencial e dedicada à verdadi i ao estudu di nós mesmus.

Ao descer no ponto, o visionário enxerga na margem oposta do rio de carros pessoas degradadas e degredadas, em farrapos, passado mais de século da verídica Farroupilha. Pobres de espírito bem-vestidos. Pobres de fato com olhares perspicazes. Ruas suspicazes, suplicantes, sinuosas, serpentinas, sinaladas em ésse, sestrosas, sulcadas, seixosas, suspensas sobre sombras, sibilantes, sabendo a suor e sáxeas, assexuadas, sem suntuosidade, sem-sabor.

Milhares de partículas de fuligem entram em suas narinas, numa tosse surda. A paisagem se abre e se fecha, veredas suspirantes, ressabiadas. As alamedas negras de sujeira onde passam executivos e funcionários, professores, estudantes, ledores, o centro de uma cidade que arfa de impudores e novas formas de apropriação.

-Qui você faz, senhor?
-Estudu Direitu.
-Pois qui num estudasse...
-Está brincandu comigo?
-Não, somenti ti gozando um bucadu.
-Olha, mulequi.

Diálogos profundos, repletos de conteúdo, como aquele entre João e Maria, após trabalharem por dez horas na montagem de uma exposição:

-É, Ma, não mi agüentu nas pernas, quiria sentá...
-Ah, mas foi bom, num foi não?
-Bom em qui sentidu? U resultadu ficô satisfatóriu, eu achu. Pelo menus, né?
-Não, concordu cum você, mas tô falandu di tudu qui a genti aprendeu, di martelá a pendurá i tal...
-Ah, na hora é bom, né Ma, mas depois a genti cansa i só qué sabê di sentá, deitá e puxá um roncu até u raiá du outru dia. Ah... essi cansaçu todu e depois o repousu é o verdadeiru elixir da alegria. Não há nada melhor, nu'é verdade?
-Pô, cê só pensa em discansá. Ia perguntá si você num quiria i pro cinema comigo, i essi papu di isticá as pernas. Pareci velhu, meu!

Diálogos edificantes, maestria no logicismo empregado, na resolução de problemas. Contextos desprovidos de injúrias e opiniões que nada acrescentam. Desprovidos mesmo de exclamações inverdadeiras e comentários pejorativos sobre outrem. Urbe-orbe, quê mais poderá engolir em sua ânsia de alimento? Resta-nos somente a metafísica de Guimarães para podermos desarmá-la de seus intuitos nefastos.

Os bois ainda ouvirão o garoto que roga pela morte de seu contra-mestre no sono - e trucidarão o algoz num ímpeto brusco que não deixará remorsos.

Há de se ver, Guimarães, há de se ver.

Montagem

Dizem (aliás, sempre dizem) que tudo tem seu tempo certo. Ah, e alguém também disse que a vida por si só já é um milagre. Discordar de máximas é um tanto complicado, sem argumentações bem boladas.

Por exemplo, jamais havia subido numa escada para pendurar quadros de madeira, ou para qualquer outro fim que não fosse por lazer e curiosidade. Mas aprendi num piscar de olhos a tolerar vertigens e inclusive a saborear a "altura". Fazer tiras de pipas ligando-as com fio de náilon é outra coisa que nunca havia feito anteriormente. Bom, mas como tudo que relato é novidade, então é passível colocar essa observação para tudo que aprendi.

Correr contra o tempo sem prejudicar a qualidade, dentro do possível. E o campo do possível tem a peculiaridade de sempre poder ser alargado, uma vez que se cogita sobre o que pode ser feito. Ora! Tanto pode ser feito, tanto quanto se imagina, e muito mais. Pude apreender essa objetividade com as mãos na massa.

Dobrar, recortar, dar nós, ajeitar, pregar, rearrumar, refazer... serviço da criança que ainda não firmou o hábito de reclamar do mal-feito. Serviço para quem consegue lançar um novo olhar nos mesmos lugares, naquilo que já foi uma, duas, três vezes manuseado, mas ainda não está bom.

Humildade. Bela palavra, enquanto não se prova seu significado na própria vida de quem tantas vezes a repete, dia a dia, mês a mês, numa religiosidade insensata, porque apenas teórica. Saber a auto-crítica para poder superar a si mesmo. Competidores não há, pois todos se empenham para um mesmo fim - o objetivo é o aprimoramento do visual, do tátil, e, portanto, do real.

Aperfeiçoamento do que nunca será perfeito. Processo inacabável, mas com metas em mente, o resultado torna-se no mínimo satisfatório. Para todos os gostos? Não. Para todas as idiossincrasias e pusilanimidades? Certamente que não. Mas, no bem-feito, quem põe defeito é juiz imperfeito.

É verdade comprovada que o autor terá sempre uma vírgula a pôr ou tirar, e será o crítico eterno de suas obras, excetuando-se casos narcísicos, e, por conseqüência, meras reflexões de personalidades supérfluas e esgotadas num egocentrismo sugador de criatividade.

Não farei uma ode aos escritores mais vendidos do mundo, que se utilizam de diferentes fórmulas para agradar um público duvidável. Do qual já fiz parte, cabe ressaltar. Não realizarei um panegírico acerca de minhas pessoalidades, irrelevantes para os demais habitantes deste planeta.

Há de se dizer, no entanto, que meus avós estavam certos: Diga-me com quem andas, e direi quem tu és. Meus queridos avós, se vós conhecêsseis meus próximos, julgariam por si próprios quem eu sou. Gabar-se de êxitos é a maior facilidade existente. Reerguer-se de um tombo talvez exija algo que muitos morrem sem obter: introspecção.

Falta-se, pois, com determinadas responsabilidades impostas pela conjuntura social, para poder se realizar no âmbito pessoal. Vergonha, pudor, vexame são palavras desconhecidas até certa idade. São diferentes conceitos e diferentes circunstâncias que os causam para os diversos povos, nações e culturas. Cada contexto cultural traz imbuído seu sistema oral de valores e morais. De parábolas ensinantes e lições paternais. Mas nenhum deles é o epicentro de nenhum outro. Cada contexto é real por si próprio e é correto e incorreto simultaneamente. Nada é irrevogável, 'tudo' é deveras amplo e abstrato. Generalidades não definem, somente traçam contornos aproximados e inexatos.

Pois, acabemos com a dissertação. Falta muito para eu me tornar alguém útil a mim mesmo, e, por conseguinte, co-autor de uma obra universal em seus parâmetros. Mas tendo sido o primeiro passo dado - o do sofrimento escolhido por livre-arbítrio -, que me impede de dirigir-me aos restantes?

Quiçá o mundo seria outro se não fôssemos condicionados a pensá-lo como um local habitável e agradável para uma população de mais de 6,5 bilhões de pessoas, afora os animais e plantas e todos os outros seres devidamente taxionomizados pelo tão poetado saber científico do Homem com agá maiúsculo.

Quiçá eu não fosse o que sou e não seria o que fui se o mundo estivesse em ruínas como a literatura soçobrada de Franz Kafka*. Suposições ontológicas - como esta - parecem tomar a forma coleante e serpentina da traição. Não há porque chorar, então é quando as lágrimas abundam em sua pureza auto-limpadora. Não há porque rir, e é aí que irrompem as mais histriônicas gargalhadas de bel-prazer interior, sem necessidade de conveniências - ah, as odiáveis conveniências!.

E por aqui entrou e saiu um tal de Fernando - que vive acordado e dorme esperando. Pelo quê? Pelo insondável - o único conforto imaterial possível em um mundo de fúria e boca espumante.

Ah, brejeiro.

*'literatura soçobrada de Franz Kafka' não é de forma alguma algo bradado com tom de perjúria ou de forma mordaz e lasciva. Leio Franz Kafka, e este fato já é auto-demonstrativo em sua significação.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Vida

(A vida é um milagre, quem discordará?)

A vida nos mostra o que a ela damos
A estrela cujo nome sempre chamamos
É a vida, é bonita e é bonita.

Viver, sem o medo de se machucar
Na memória o aprender, no passo
Todo o gesto, todo o pulso
Impulso manifesto de viver.

E cada noite e todo dia
Uma alegria, um júbilo
Porque se vive, porque se é
É-se o desdobrar do maquinário,

Cada, todo, novo e velho
O olhar, o andar, tudo é movimento
Mesmo nos momentos mais silentes
A vida tremula e tirita

Não de frio, nem de calor
Não por capricho do Criador
Mas porque imexível
Não é um adjetivo que descreve a vida.

Se até mesmo a pedra vive,
Se até o ininxergável ali está
Bem, a vida então será
Tudo o que eu tive
E tudo o que você terá.

É como na manhã
O canto do sabiá
Rouxinol não digo
Pois não distinguo
Seu cantar.

É como o ciclo diário
E universal.
Toda a vida é um invólucro
Sacral.

É como o João e o Mário
A Maria e a Joaquina
A vida é tíbia e fria,
É morna e severina,
Onde começa, também termina.

('Carpe diem et noctiem... You shall reap what you sow')

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O que os olhos não vêem, sente o coração

Lavou as mãos com diligência, e ao fim exclamou, em meio tom, emocionada: "Como é bela a vida!".

Deixou o rosto para lavar depois. Estava repleto de lágrimas...

(Mundos)Paralelos

A 1ª estrofe composta no vagão do metrô. Os últimos dois parágrafos acrescentados em meu lar. Lar, doce ..r.
***
(Mundos)Paralelos

Um mar de luz inunda a superfície do planeta,
E meus olhos antevêem a quebra de um paradigma.
Que paradigma será?
O fim do dia dirá,
A mim e a todos.
Saravá.

O refulgir deste Sol
Será como o de outros sóis?
Completarão seus ciclos com semelhantes arrebóis?
O homem, só, pergunta-se, a elucubrar...
É capaz de assim ser, sim ou não.
Mas o que vale é o brilhar,
Muito mais que a data ou o lugar.

E tomar nota de que o início é o fim,
E o Yang é o Yin;
De que você é o mim:
O mundo é ambivalente,
Sim.

Inside Out

I'm within the dark chamber
Red and glowing secret amber
Kills the conscience
Keeps the danger

I'm inside myself now
Ciao. Goodbye my pal
To all of you I must kowtow.

I bow my head low
Painfully and slow
My story I'll show.

My mom said in childhood
"You will reap what you sow
When you're ready you'll go"
But in boyhood I didn't know

Sorrow, angst and paine
Will I always be the same?
Father, can Thou hear'st my name?
I'm a man no one can tame,
But a human, too, feels guilt
And shame...

Mother, do you know where I am?
You did ever whisper, You can, You can
But m'am, how could you say so?
Why yes, instead of no or never?
Why did you all think I was clever?

No, never.

Through labor and work
I found something in me.
Oh, I did.
No saviour, no salvation
Many things I had to see,
Oh, El Cid!

Where are you knight?
In where today willst thou fight?
You who bravely fought
You who furiously sought
I who only watched
I didn't lift a finger.
I who deathly laid and linger'd.

Oh, starry sky
Brilliant, opalescent night
I'll pray one day
I might
Become that glorious
Knight.