quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Resenha Crítica: Dr. Jivago, Boris Pasternak

Do filme, não me é dado recordar quase nada, exceção feita à belíssima trilha sonora, e a lírica paisagem, de fazer os olhos lacrimejarem.

Porém, o livro e sua mensagem marcam profundamente, gravam-se, sulcam-se no âmago do leitor. Sua imagem permanece íntegra, intacta dentro de nós, por muito tempo fornecendo referências estéticas infindáveis; matizes embelezadores para a vida.

Por onde passa o trem que leva Dr. Jivago, passam também os olhos do leitor, absorto em sua imaginação das estepes e pradarias eslavas. Evidentemente, o amor de Dr. Jivago por Lara, a linda Lara, envolve juntamente o leitor, é aconchegante, afagador; ansiamos por viver, em nosso interior, o mesmo que este médico memorável: Jivago.

Mas não se deve deixar de lado, entretanto, o relevante aspecto histórico desse romance de Boris Pasternak, a obra que reviveu das cinzas o nome desce escritor por muitos anos desconhecido em sua própria pátria; esta particular nação sempre figura como uma mãe, em suas terras ubérrimas, em seus mujiques e cenários urbanos tão encantadores e envolventes – em outra palavra, tão russos.

Um amor assim tenaz, que perdura mesmo em meio a convoluções e reviravoltas de uma sociedade permeada, ambiguamente, pelo velho e o novo, o tradicional e o moderno, é um amor de fato, um amor verdadeiro. Se reverenciássemos os clássicos, dir-se-ia ser um helênico ágape o fundamento da relação entre os dois.

No princípio, passamos a saber, pela pena do autor, que “Lara era bonita a ponto de fazer um homem ir para o inferno”. Sim, o leitor a imaginará uma beldade, um anjo sobre a Terra. Mas sua imagem só se tornará completa ao compreendermos a densidade e a profundidade do amor dessa mulher. Torna-se Lara ainda mais bela em seu resplendor, porque não é idealizada sob o peso de vãs palavras. É uma mulher caracterizada, sobretudo, por ações.

Lara é a Rússia. A Rússia, descobre o leitor, somos nós.

2 comentários:

Jefferson disse...

Que sejamos a Rússia então, se for tal como a descreveste, meu amigo!

Fernando Pimenta disse...

Sejamos, pois, o que a alma nos indica. E trilhemos pelos caminhos de Lara - a mulher que infunde tamanha beleza de seu vasto panorama interior.