domingo, 30 de novembro de 2008

Sobre Palestinos - Sobre a Realidade

http://www.redress.cc/palestine/pjballes20081130 --> um dos melhores artigos escritos sobre o genocídio dos palestinos. Ao mesmo tempo sucinto e complexo em suas implicações.

Sobre a Palestina.

Li em 2005 um apanhado de contos pelo escritor palestino Ghassan Kanafani.

"No dia 8 de julho de 1972, Ghassan Kanafani entra em seu carro com a sobrinha numa rua de Beirute, faz o contato com a chave e o veículo explode. Morre o grande combatente palestino (ele combatia com palavras, fique claro) e um dos maiores nomes da literatura árabe. Quarenta mil pessoas compareceram ao enterro. Consciente de que era necessário preservar a identidade e a cultura do povo palestino, Kanafani combateu com armas e palavras. Nos Contos da Palestina narra o sofrimento de seu povo quando da ocupação israelense. Raramente ele se deixou levar pela violência que subjugava os palestinos, preferindo envolver os leitores com o cotidiano das mais simples relações humanas e com a constante necessidade de sobrevivência de uma gente que, segundo ele, vive "do vento e da esperança".

É o que diz a contracapa da edição de 1986 da editora Brasiliense dos Contos da Palestina. Sem esse escritor, é possível que eu não enxergasse o genocídio diário desse povo sem terra, e me encontrasse em uma situação semelhante à da maioria das pessoas do mundo que tem acesso diário à mídia televisiva e escrita.

Ninguém quer ver o sofrimento alheio. Mas um dia ele pode chegar a nós.

É por isso que ler Ghassan Kanafani é um compromisso com a realidade.

sábado, 29 de novembro de 2008

Federal: Minha alma mater

Já era tempo que eu escrevesse, ah, já era tempo. E por que não escrever sobre meus três anos como aluno nessa instituição outrora tão conhecida, e que hoje se chama CEFET-SP. E amanhã, quem sabe, exibirá outro nome, mas que, não importante que mudanças, permanecerá eternamente Federal no coração de seus ex-estudantes.

Comecemos pelo meu tumultuoso primeiro ano. Primeiro o background: 8ª série, bolsista no Colégio Objetivo (unidade) Cantareira, ótimo aluno, competindo por médias em torno de 8.85, com meus melhores amigos - que foram também grandes professores nas matérias que eu não dominava, e ainda não domino: matemática, química, física. 2005. Ano em que participo do Concurso Literário Interno do Colégio Objetivo (CLICO), e consigo, para a minha grande surpresa, o 9º lugar. Minha professora de português de então descreveria minha expressão, ao ouvir de sua boca as boas novas, como "um sorriso de orelha a orelha". De fato, como o gato de Alice, um sorriso permanente. Ganho também, para a minha estupefação, uma medalha honrosa na Olimpíada Paulista de Matemática. Ora, eu que não sei nem seno, nem cosseno, não poderia ter ficado mais boquiaberto. Enfim, tendo chegado lá e sentado no meu lugarzinho, entre meus pais, a aguardar o início da cerimônia, abri meu livro do curso de japonês e estudei como se estivesse em casa.

Claro, isso porque 2005 foi o ano em que iniciei meus estudos de japonês, bastante primitivos e modestos, e que durariam somente exatos dois anos. Mas isso é outro assunto. Prestei a Federal, seguindo a rigor a mesma rotina cerimoniosa antes da prova começar: abri o mesmo livro de japonês, fiz alguns exercícios de caligrafia do alfabeto hiragana, e fechei-o, quando nos disseram para guardar o material que não fosse utilizado na prova. Fiz a prova calmamente, e notei que, no meio dela, um garoto dormia sonoramente à minha direita. "Bem", pensei, "este provavelmente não passará". Realmente, nunca o vi dentro da Federal.

Por ser um bom aluno, em uma boa escola, o cursinho fez-se desnecessário. Meu único amigo que prestou, o Danilo, que, no segundo ano, partiria de volta para o Objetivo, era o meu grande contestador nas médias bimestrais. Quando eu tirava 8.85, ele fazia questão de exibir seus orgulhosos 8.89. Ora, pensava eu, é capaz que um dia eu o passe. Recebi muito alegremente a notícia de que havia passado em uma das melhores instituições de ensino de São Paulo.

Minha primeira grande ilusão talvez tenha sido a de que continuaria minha velha rotina pouco estudiosa uma vez lá dentro. Não, me enganei - e foi um engano crasso. Não aprendi logo a lição, no entanto. Os primeiros dias foram maravilhosos. Aliás, o que contribuiu para esse maravilhamento inicial foi o fato de que nossas aulas começaram - sim! - no dia 20 de março! A greve nos atingia já no primeiro ano, faltavam professores na primeira semana, e eu jogava bola com os caras do 3º ano. "Puxa", pensava em minha inocência, "não poderia ser melhor!" Indo à escola, jogando futebol ao invés de assistir as aulas, e me enturmando com o pessoal mais velho e mais malandro que iria sair naquele ano.

Quanto à minha sala, entretanto, lembro de poucas conversas, pelo meu descontentamento com o sistema de ensino da escola. Vi que o currículo não era seguido tão rigorosamente quanto no Objetivo, comparei minhas novas amizades com as antigas - estas fortes até hoje, aliás - e isso só me provocava um desgosto interno terrível. Como pode, me indagava, esses professores não darem aula didaticamente, e ainda pedirem questões dificílimas na prova? É claro que eu só sentia essa crescente indignação quanto às matérias em que tinha dificuldade. Nesse aspecto, não difiro de nenhum outro ser humano neste planeta. Reclamamos do que não entendemos. As outras, sempre levei na brincadeira. E a gente não costuma reclamar do que vem fácil. Vem fácil, vai fácil... diz o inteligente ditado de língua inglesa.

No Objetivo, logrei passar de ano com uma dentre as maiores médias, pouco sabendo das relações dos triângulos, de seno, cosseno e tangente, portanto, tudo o que via era completamente novo. Ficava entusiasmado em aprender enquanto estava dentro da sala de aula. Bastava chegar em casa para esquecer de tudo. Estudar? Não. Ler Macunaíma e os tantos outros livros que li no ano de 2006, ou mesmo estudar japonês, era MUITO mais divertido e proveitoso que me dedicar de peito aberto à escola. Ah! Havia, sim, quatro matérias, em especial, pelas quais tomei um gosto profundo logo de princípio e me dediquei de verdade: Filosofia e Redação. As outras duas, que pouco contam como matéria, seriam Educação Física e as aulas de Música. Essas se fixaram na minha mente. Depois do professor de EFI (Ed. Física) praticamente nos matar durante as aulas, podíamos finalmente jogar futebol. Depois, já quase à noite, viriam as aulas de música, que tanto recompensavam todos os meus esforços físicos. Extenuado, e mais errando do que acertando, eu procurava aprender um pouco de como tocar bateria. Ainda tenho meus três pares de baquetas, agora em pleno desuso.

O ano foi passando, e eu fui cavando minha própria cova. Devendo pontos em física, química e matemática, e nada de estudar diligentemente - para pôr os preocupantes pontos que me faltavam em dia. E se aproximava, fora do contexto escolar, o concurso de oratória em japonês, realizado em outubro daquele ano (2006), e do qual participei bem treinado pela querida Kobayashi sensei, que tanto me ensinou, apesar da dificuldade de lecionar a um gaijin que nada conhecia - previamente ao curso - da cultura nipônica, nem do alfabeto, nem sequer tinha o mais distante familiar com quem pudesse dialogar nessa língua particularmente tão difícil de se aprender. O que mais atrapalhava o processo de aprendizado era o meu cabelo comprido, que fazia ela zombar de mim, jocosamente me chamando pelo correspondente feminino do meu nome, e acentuando a sílaba feminina final, com um sorriso de ponta a ponta no rosto. Era engraçado, todos riam - e eu também . "Bem", pensava eu, "estou aprendendo, e é isso sobretudo o que importa". E aprendia, de fato.

No japonês, convenhamos, eu ia muito bem nas avaliações. Interessava-me, extracurricularmente, na cinegrafia de Akira Kurosawa, o que me fez, em três anos, literalmente devorar, ao lado do meu irmão, virtualmente toda a sua produção cinematográfica. Restam poucos filmes dele para assisir, e não me arrependo de nenhum já visto. No fim daquele ano, li Xógum, do autor James Clevell, um dos 11 livros recomendados pela nossa estimada professora Belmira, de História. É um livro que versa belamente sobre essa cultura pouco familiar aos brasileiros até hoje, apesar dos cem anos de imigração japonesa, tão celebrados nos festivais deste ano, e na publicação de uma série de livros pela editora Liberdade, entre outras.

Enquanto isso, na Cultura Inglesa, eu havia me preparado com ferrenha dedicação no ano anterior (2005) para obter meu First Certificate in English (FCE), e que de fato obtive, muito merecidamente. Alguns professores chegaram a me dar o epíteto de "melhor aluno". Cá entre nós, o que havia de errado comigo? Um aluno que é considerado o mais dedicado nas escolas de japonês e inglês, para o seu nível, não deveria ir mal em Física, Matemática e Química na escola, ou deveria? Pois é. O que eu aprendi desse período foi o seguinte: um gênio é 99% de suor, e 1% de determinação. Para tudo o que não envolvia números, não me faltavam nenhum desses atributos. Mas para esse trio, hmm..., eu só fui suar no último bimestre letivo de 2006. Aliás, eu precisava tirar 9,0 em Química; 9,5 em Matemática, e 10,0 em Física!!

Mas minha mãe me ligou, após terminadas as aulas, num ensolarado dia de céu limpo e azul, trazendo-me a notícia de que eu havia passado de ano! O Conselho me passara! "Mãe, preciso desligar!" ("guarde seus discursos moralizantes para depois", pensei mal educadamente, "agora vou comemorar!"). Ah, mas agora eu não farei os mesmos erros de outrora! Foi o pensamento que tinha em mente, e que mantive em mente, durante o correr do 2º ano inteiro. Ótimo, se eu fui um péssimo aluno em três matérias do ano passado, serei, se não o melhor, ao menos um ótimo aluno nessas mesmas matérias, e melhorarei minhas médias nas demais (nas quais já ia muito bem, com médias sempre maiores que 8,0).

De fato, meu planejamento inicial foi levado a cabo. Minhas médias do primeiro e segundo bimestre foram iguaizinhas: 8.81. As maiores da sala, me orgulhei. Aliás, eu era o único ali que fazia técnico à noite, de Museologia, curso no qual fechei minhas médias do primeiro módulo com MB (Muito Bom, nota máxima) em TODAS as matérias. Porra! As pessoas podem mudar! Eu mudei, com meus esforços! Mudei, carajo, mudei!

Sentia-me um novo homem, fazia exercícios físicos quase beirando a vigorexia, e estudava, com intervalos muito bem pensados. Aliás, revisaria este ano, muito METODICAMENTE pensados, para o meu próprio bem. Mas as coisas iam bem, faltava muito pouco à escola, estudava demais, lia bastante, tornara-me um excelente aluno em todas as matérias e em todos os aspectos. Respeitava os professores, fazia perguntas, passava a dialogar com as pessoas. Bem, não era mais um excluído! Caracas, eu havia mudado minha maneira de ver o mundo - e com isso - a minha personalidade. Compartilhava meus conhecimentos com os outros, recebia de volta o que eu dava, e tudo corria às mil maravilhas. Conheci um grande amigo, Lucas Pascholatti, e não tinha mais crise alguma na consciência. Percebi meu erro no primeiro ano: não tinha organização, e não sabia extrair prazer e satisfação das minhas notas escolares. Pois, foi no 2º ano que soube aliar o estudo escolar às minhas atividades extra-escolares, e obter disso uma grande responsabilidade. Vi que, se a vida fora da escola parecia ser muito mais gratificante, dentro dela não era tão terrível assim. Pelo menos, não dentro da Federal.

Foi no final de 2007 que obtive o Certificate of Proficiency in English (CPE), tão árduo e cansativo, mas para o qual batalhara o ano inteiro, em estudos ininterruptos nas horas solitárias da noite. Treinei sobretudo com a leitura de notícias em inglês na web, diariamente, e com a leitura de títulos nessa língua, tão literária como todas as outras, mas, também como as demais, com suas riquezas de vocabulário de fazer assombrar. Deixei de comentar que havia parado o japonês, no primeiro semestre de 2007, por excesso de... cansaço. De segunda à sexta, era escola, das 7h às 11h45. De segunda a sexta, igualmente, era o técnico, das 19h às 22h30. De sábado, o inglês, das 8h às 11h40. O japonês seria na 3ª e na 5ª... à tarde. Eu tentei, mas fiquei extenuado. Exauri minha capacidade de aprender com o trajeto nada amigável até o nihongakku (escola de japonês), compartimentalizado em uma van superlotada de pessoas, e, na volta, as mesmas condições, acrescentando o fato de que partia diretamente para o técnico. Para mim, o importante foi o fato de que tentei, nas primeiras semanas, seguir essa rotina que acabaria com qualquer um. Acabou comigo. Tendo tentado e não conseguido, não tive peso na consciência em desistir. Talvez se eu mantivesse tal rotina, jamais conseguiria direcionar tão bem minhas leituras e meus estudos da língua inglesa. E jamais teria atingido minha meta de terminar meus 10 anos de Cultura Inglesa e, simultaneamente, no último nível do curso tradicional, obter o mais renomado certificado de língua inglesa emitido pela Universidade de Cambridge.

Passei com grande mérito para o 3º ano, tendo realizado minha meta de língua inglesa, terminado com chave de ouro o 2º módulo do técnico, e tendo escolhido, como projeto na Federal (uma espécie de matéria optativa, para a qual o aluno é qualificado a partir de sua média anual - a minha foi 8.41): "Leitura e análise das obras centrais da literatura universal dos últimos 300 anos". Um projeto fantástico, quê mais poderia dizer? Graças a ele reli criticamente Crime e Castigo, do renomado escritor russo Fiodor M. Dostoievski, assim como As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Li pela primeira vez Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, incrível livro que me fez escrever um texto inspirado, que me concederia o 1º lugar em prosa do Concurso de Literatura do Cefet-SP, há quase três meses. Outros que li pela primeiríssima vez foram O Pai Goriot, do francês Honoré de Balzac, O Estrangeiro, de Albert Camus, e, por fim, Metamorfose, de Franz Kafka.

Foi graças a esse projeto, e à erudição de nossos professores, Raul e Suely, que eu viria a ler O Processo, Carta a Meu Pai, O Veredicto e Um Artista da Fome, prosseguindo em minhas leituras kafkianas. E graças a eles, também, que viria a conhecer Camus através de O Estado de Sítio, Diário de Viagem e A Peste. Mas não foquemos no projeto, que daria um post inteiro por si só.

O meu primeiro semestre deste ano foi marcado pela apresentação do TCC de minha turma (a primeira) do técnico de Museologia. Foi brilhante, aclamada pela platéia e pelos professores. Fui escolhido, junto com uma grande amiga, para apresentá-lo. Como sempre - é um eterno sempre... - fiquei muito surpreso com que me nomeassem, ao lado de tão boa aluna, para apresentar um trabalho tão importante, a respeito do presídio do Carandiru, demolido e soterrado pela História. Da Federal, compareceram a Marian e o Eraldo, que tanto me honraram ao assistirem à apresentação. Falo isso sem formalidades, além da lingüística: é de se fazer sentir bem ver dois grandes amigos ouvindo com atenção o que você tanto estudou.

Enquanto o técnico corria como um mar de rosas, quer dizer, quase isso, já que por cansaço eu por pouco desisti, na escola as coisas iam, no máximo, mediocremente. Conseguia mal a mal me manter na média no trio de matérias envolvendo números, mas, depois de minha volta de Bertioga, minha perspectiva afundou seis pés sobre a terra. O que me parecia um grande lugar para se aprender, de repente transformou-se num centro de estudos dirigidos ao vestibular, que tanto me chateia por roubar os prazeres de um 3º ano, ao introduzir um elemento chamado "cursinho" em nossas vidas. Na minha não, fique claro. Uma boa instituição como a Federal dispensa abertamente cursinho, como mostrou minha grande amiga Janyelle, que estudou comigo este ano e mostrou que se passa - por enquanto da 1ª fase - em Medicina. E como eu mesmo provei no meu íntimo, com minha ótima nota na 1ª fase da Fuvest (mais três pontos e eu passava em Medicina), e minha dedicação - neste ano nem um pouco assídua - à escola. Se não me dediquei igualmente a todas as matérias, não vou embelezar minha história escolar para sacrificar a sinceridade, pelo menos pude aprender um pouco de cada, e mais um pouco de algumas. Conhecimentos amplos e diversos que ampliarei o restante da vida, sem discriminação por gênero nem por cor. Exatas e Humanas, eu aprendi, é uma dicotomia que serve apenas para apavorar pessoas interessadas em aprender sobre a vida, e com a vida.

O segundo semestre passou com mais dificuldades. Trabalhando as férias de julho inteiras, de repente tornei-me adulto, e em agosto eu seria muito prejudicado pelo serviço. Se pudesse voltar no tempo, eu trabalharia, da mesma forma, porque apesar de eu ter faltado absurdamente no 3º bimestre, eu aprendi demasiado com minha experiência profissional de 2 meses, trabalhando na exposição Bossa na Oca. Conheci, no trabalho, um homem liberiano, vestido nas roupas de sua terra, muito bonitas, e conversei com ele longamente sobre religião, futebol, e tudo que pode comportar um diálogo entre pessoas de dois continentes distintos, em uma língua que não é a materna de nenhum dos dois. Falamos com sotaque, mas nos entendemos amplamente como seres humanos, porque dominávamos o código. O meu supervisor, não. Razão de advertência, por concentrar-me demais em um só visitante. Desculpe-me, mas você há de concordar comigo que conversar com um cara da Libéria, vestido exoticamente, é mais eletrizante que entregar folhetos de exposição. Haha. Saber uma língua abre portas inimagináveis.

Conversei com um estadounidense (cá entre nós, vou ser pedante e não dizer 'americano', porque, como você bem sabe, nós todos nascemos na América do Sul, e somos, por nascença, americanos. Direito nosso, e não somente da 'América'). Falamos sobre beisebol, sobre política, e sobre, é claro! Obama e McCain. Ele predisse: o Obama vai ganhar, e os Estados Unidos irão mudar. Bem, quanto ao primeiro, eu concordei com ele. Quanto ao segundo, há esperança. Mas não esperança cega - para isso lê-se as notícias, não é mesmo, caro leitor?

Dois meses trabalhando seis horas diárias, seis dias por semana, por escolha própria. Jamais arrependeria, como disse já, porque aprendi coisas que só a vida ensina - digo, a vida extraescolar. Conheci um amante de Kafka, que tanto me incentivou a ler esse autor, e a compreendê-lo, e a escrever ensaios para a matéria de projeto que angariariam elogios escritos do queridíssimo Raul.

Partamos à verdade dura e fria: só não desisti da escola este ano, porque aprendi com a desistência por dois anos do meu irmão, na mesma instituição, e que não precisaria passar pelo mesmo, tendo aprendido com ele. E, a segunda e mais forte razão: porque eu amava o projeto. E ainda o amo, e hei de o amar muito ainda, por todos os horizontes literários que abriu em minha mente. Por todas as leituras críticas e comparativas que fiz, por todas as horas que passei sentado, boquiaberto, ante a lousa repleta de bibliografias e anotações das aulas de projeto. Era o ápice da semana, passar quatro aulas aprendendo como se fosse uma criança - tão fácil, porque tão bem ensinado. Reavi todas as minhas faltas ao terminar o contrato de dois meses de exposição. Mantenho grandes amigos daquele lugar indígena inesquecível. E o contato está aí. E nossas saídas também.

Graças ao status pouco conhecido de técnico em museologia, pude também trabalhar na montagem da exposição de ciências e artes - e de um pouco de tudo - da Escola Móbile. Ficou bela. Faltei dois dias à escola, que me recompensaram grandemente. Meu pai nunca me ensinara a pegar numa furadeira, nem em um grampeador de madeira, nem subir em altas escadas uhu... alturas fascinam (passado o medo!). Este último bimestre foi uma luta. Matemática, conseguir 8,0 de média para não passar de ano no Conselho Escolar. À minha professora de Matemática, Eliane, fica registrada minha eterna gratidão por compreender os motivos de trabalho. E ao professor Traldi, também de Matemática (nunca sei se escrevo certo), devo os mesmos votos de agradecimento. Por seu lado, ele adiou duas provas por razões não-escritas minhas, e, portanto, sob um ponto de vista jurídico, pouco plausíveis. E ela, por sua vez, entendeu muito a meu respeito, inclusive o fato de eu ter chegado atrasado mais de trinta minutos em uma de suas aulas, e ter apagado as faltas, quando eu lhe disse a razão: meus amigos acabavam de me parabenizar pelos meu aniversário de 18 anos! Puxa, até hoje sou grato por esse gesto de compreensão humana. Empatia é certamente a faculdade mais humana que existe.

É. A Federal foi foda... (como meu irmão diz: "você sempre avacalha no final... VÊ SE APRENDE A ESCREVER CONCLUSÕES, P****!)

hahaha... vou aprender a fazer isto um dia ainda...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Resenha Crítica: Dr. Jivago, Boris Pasternak

Do filme, não me é dado recordar quase nada, exceção feita à belíssima trilha sonora, e a lírica paisagem, de fazer os olhos lacrimejarem.

Porém, o livro e sua mensagem marcam profundamente, gravam-se, sulcam-se no âmago do leitor. Sua imagem permanece íntegra, intacta dentro de nós, por muito tempo fornecendo referências estéticas infindáveis; matizes embelezadores para a vida.

Por onde passa o trem que leva Dr. Jivago, passam também os olhos do leitor, absorto em sua imaginação das estepes e pradarias eslavas. Evidentemente, o amor de Dr. Jivago por Lara, a linda Lara, envolve juntamente o leitor, é aconchegante, afagador; ansiamos por viver, em nosso interior, o mesmo que este médico memorável: Jivago.

Mas não se deve deixar de lado, entretanto, o relevante aspecto histórico desse romance de Boris Pasternak, a obra que reviveu das cinzas o nome desce escritor por muitos anos desconhecido em sua própria pátria; esta particular nação sempre figura como uma mãe, em suas terras ubérrimas, em seus mujiques e cenários urbanos tão encantadores e envolventes – em outra palavra, tão russos.

Um amor assim tenaz, que perdura mesmo em meio a convoluções e reviravoltas de uma sociedade permeada, ambiguamente, pelo velho e o novo, o tradicional e o moderno, é um amor de fato, um amor verdadeiro. Se reverenciássemos os clássicos, dir-se-ia ser um helênico ágape o fundamento da relação entre os dois.

No princípio, passamos a saber, pela pena do autor, que “Lara era bonita a ponto de fazer um homem ir para o inferno”. Sim, o leitor a imaginará uma beldade, um anjo sobre a Terra. Mas sua imagem só se tornará completa ao compreendermos a densidade e a profundidade do amor dessa mulher. Torna-se Lara ainda mais bela em seu resplendor, porque não é idealizada sob o peso de vãs palavras. É uma mulher caracterizada, sobretudo, por ações.

Lara é a Rússia. A Rússia, descobre o leitor, somos nós.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Concatenar-se

Muitas coisas não são aparentes à primeira vista. Entre elas, nossa própria ignorância. Quantas vezes não pensamos que sabíamos algo, e na hora H, não houve ação, porque realmente não podíamos fazer nada. Nossa ignorância passara ignorada até então, e na hora de agir, ela finalmente se demonstrou, ficou à mostra, nos surpreendeu - porque pensávamos saber.

E pensar que esta é a primordial das ilusões. Há, no entanto, um corolário delas, sempre a surpreender-nos, a nos pegar desprevenidos - ficamos boquiabertos, desconcertados por não saber. Por não saber da existência incipiente dessas ilusões. Grandes, pequenas, médias, qualitativamente é escabroso fazer distinções. O fato é que, grande ou pequena, devastadora ou não, uma idéia ilusória sempre nos deixa um amargor na boca - insatisfação derivada da momentânea consciência de nossa própria incompletude.

Exemplos abundam, meus, teus, nossos, talvez compartilhemos das mesmas, quiçá não saibamos apontá-las, ou não queiramos - esta última hipótese, convenhamos, é a mais provável. Não há nada que nos faça vê-las, nada imperioso o suficiente para que sejamos forçados, compelidos a enxegá-las. O esforço, parece - aliás, como sempre - provir de nosso próprio ser, de nosso interior. Não querendo vê-las, não serão as circunstâncias, mesmo as mais duras, que nos entreabrirão os olhos, cegando-nos por átimos eternos.

Ensaio Sobre a Cegueira. Quando assisti a esse filme, encontrava-me plenamente cego. Admito-o, talvez por fraqueza, para não ser forçado a me entregar, dizendo que ainda me encontro neste estado. Sim, não farei uma assunção descabida afirmando que não possa estar cego, metaforicamente cego, neste mesmo instante em que tu lês.

E, mesmo assim, a tendência é que a luz soerga nossas pálpebras, contra esforços nossos contrários, contra toda a resistência, contra nossa rejeição dorida dessa invasão de nossa própria escuridão cavernosa, das trevas que há dentro de nós.

Recantos jogados, esmaecidos, derretendo como o relógio e os ponteiros da Persistência da Memória, quadro de Dalí. As formigas a decompor as sobras, os rebotalhos de uma civilização. Por que a nossa seria a mais avançada? Por que temos celulares e sistemas GPS, por que dissimulamos tão cabalmente nossa própria ignorância? É bem capaz que sim, quanto a esta última. Aprendemos, desde pequenos, o estranho artificio de esconder o que não sabemos, de nos calarmos e nos enclausurarmos em nosso próprio não-saber - tão tenebroso, tão silente. Carência - é o resultado direto dessa lição inculcada em nós.

Penso de uma forma radicalmente diferente: se ignoramos, devemos perguntar. Antes começar com muitas perguntas, do que com muitas certezas. As certezas se rompem e balouçam num mar de incertezas, conquanto as perguntas atraem naturalmente respostas. Erradas, errôneas, mal-calculadas? Sim, em sua grande maioria. Mas é para isso que talvez tenhamos o aparato encefálico mais desenvolvido e aprimorado dentre os seres viventes desta Terra multiforme, multicores.

Quiçá o que nos mais atrapalhe seja nossa auto-comiseração, nossa auto-piedade, esse obstáculo que se interpõe tão tenazmente entre nós e nossas metas, entre o que queremos de coração que aconteça e o que os outros querem por conveniência que queiramos que aconteça. São essencialmente diferentes, tais desejos, se podemos alcunhá-los dessarte. Não viver é viver primordialmente pelos outros. Viver é saber viver para si mesmo, e somente depois desse egoísmo fetal, é possível tornar-se melhor. Melhor, aqui, é obviamente inquantificável, impossível de receber um apelo qualitativo. Melhor é melhor, é o bom e o bem, aperfeiçoados. E isso faz parte da Ética interpessoal.

Como ouvi recentemente no rádio, duas metades, ao serem juntadas, continuam existindo em sua condição a priori. Isto é, a tua cara-metade é a tua cara-metade, nada mais, nada menos. E pensar que grande parte da infelicidade humana jaz nisso. Neste credo de que há alguém perfeito para nós - não que não haja. Mas, talvez, tenhamos que trilhar uma longa e sinuosa estrada de auto-aprimoramento e auto-conhecimento antes de desenvolvermos a capacidade de sermos útil a quem nos ama. É um egocentrismo de imensa magnitude pensarmos que nascemos já sabendo amar. Ã, ã. Amar se aprende, não é um atributo nato. E olha que digo amar o próximo. Outro amor além desse é fortemente implausível.

Querer estar ao lado de alguém é não querer estar sozinho. E não querer estar sozinho é ter medo de si próprio. E só tem medo de si próprio quem não se conhece por dentro. A escuridão tira o sono de muitas pessoas. Mas, possivelmente, se estas mesmas pessoas lançassem um breve olhar para dentro de si mesmas, veriam, se aperceberiam, de que as trevas e a noite que realmente temem são as que habitam seu âmago. Sim, é tudo o que se esconde de nós ao vivermos apeados em nosso Admirável Mundo Novo. Fábrica do saber inútil, junk science, e toda a propaganda tão bem ensinada pelo mais querido mestre dentre os propagandistas: Goebbels. O cão fiel de Hitler. Ah, esse estudou muito bem publicidade e propaganda. Com paixão.

Para quê? Por quê? Como? Sem ter aprendido a questionar, indagar, perscrutar e investigar, o homem não é sequer um símile de Sherlock Holmes. E Sherlock Holmes era um homem improvável de ser enganado. Talvez porque soubesse separar o joio do trigo em todas as situações e circunstâncias. Talvez porque houvesse concluído, a duras penas, que ninguém, absolutamente ninguém, pensaria por ele, ninguém passaria cola pra ele na hora que demandasse uma atitude contumaz; talvez porque ele tenha percebido que um ser humano devoto é um ser concafinado dentro de si próprio.

Haja distinção. Este sim, é um requerimento fundamental para se viver - e mais do que viver: vivenciar. Sim, senhor.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Estudando História

Hitler, após a avassaladora invasão da Polônia, pronuncia de seu temporário pedestal "...toda pessoa instruída é um futuro inimigo." Condena, assim, a população eslava ao trabalho pesado, análogo ao escravo. Esta frase dá o que pensar quanto ao que temem os totalitaristas, os repressores, os anti-intelectuais, e todos aqueles que tanto amam homens oprimidos em sua busca pela liberdade.

Na página 434 do livro ao qual me debrucei ontem e hoje, nomeadamente História Moderna e Contemporânea, de Antonio Pedro (editora Moderna, 1985), e que de idioticamente didático não tem nada (sim, a história "didatizada" é um erro), depara-se com a seguinte constatação do autor, até então isento de moralismos dissimulados: "Muitos pensadores e analistas disseram que tal arma [bomba atômica] não precisaria ser utilizada, mas a verdade é que mesmo assim o Japão continuou resistindo." (como se vê, o autor refere-se ao fim da 2ª Guerra Mundial; a ênfase em negrito e o colchete explicativo são meus)

Pus, portanto, a seguinte reflexão manuscrita na lateral do livro: o elemento 'mas'(vide acima) aqui empregado, não introduz uma contradição veemente, de importância histórica. "Quanto tempo mais poderia ter o Japão resistido, sem a derrubada das bombas atômicas?" Essa pergunta tem uma resposta que comprova a nulidade argumentativa a favor de uma arma desumanizante e devastadora."

Bem, meu comentário parece auto-evidente, auto-explicativo. Mas colocarei alguns pensamentos a mais. Por que razão o 'mas', ao introduzir a resistência nipônica que se seguiu 'mesmo após' a bomba atômica? Não tem relevância tal asserção, tal afirmação. Ok, eles persistiram em sua honra nacionalista, ou qualquer que seja o nome dado ao desespero humano frente à própria impotência bélica quanto a um inimigo aparentemente onipotente, onisciente e teratológico (monstruoso) em suas dimensões (EUA, fique claro). Porém a resistência não justifica bombas atômicas arremessadas sobre as cabeças de um povo. É incoerente, numa macro-escala e definitivamente incoeso, numa micro-escala. Ou seja, não há porquês, não há como se dissertar a favor, por exemplo, da exterminação a sangue frio dos armênios,(sobre isso, ver os últimos parágrafos do link à esquerda, em artigo escrito anteriormente neste blog) ou a hecatombe sem precedentes de judeus, ciganos, homossexuais e de outra forma opositores, pelas forças nazistas; ou, mesmo, todas as mortes causadas pelos prolíficos sistemas totalitários outrora existentes ou ainda em ação. Não há justificativas tangenciais. Simplesmente não há.

Ou você precisaria de uma recordação fotográfica para chegar à mesma conclusão? Imagens, já foi dito ad nauseam em todos os recantos deste mundo, expressam mil palavras - ou mais. Eu particularmente quase vomitei ao ver o que se sucedeu ao povo japonês que se encontrava fatidicamente no epicentro de onde caíram as bombas atômicas. Todavia, se as imagens te chocam em demasia, como a mim, talvez a literatura nipônica possa te interessar. Recomendo Chuva Negra (Kuroi Ame), do escritor Masuji Ibuse (link para as bibliotecas públicas municipais de São Paulo onde se pode pegá-lo emprestado). Com esta obra-prima, calcada num relato humanístico comovedor, Ibuse pôde elevar-se ao status dos grandes escritores pós-guerra, obtendo inclusive o prêmio mais célebre do Japão, o Noma. Falo sobre ele e o quanto a leitura deste livro absorveu minhas reflexões aqui, aliás, um adendo muito importante para tudo o que tratei neste breve digitar do teclado.

Vivamos.

Yet

Minha religião é esta universidade
É minha cidade, meu universo,
Toda minha vida, frente e verso.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Entardecer

Diga-me, o que é o entardecer,
Senão o repousar das estrelas
E dos astros que nos espairam
Do alto, no planalto celeste?

Diga-me, o que é a vida,
Senão o crepúsculo, o lusco-fusco,
A noitinha de algo grandioso,
De uma obra magnânima
Acessível nos sonhos
Onirogênesis celestial...

Pois, sabe-se lá o que é dor,
Sabe-se lá o que é fome,
O que é desamor,
Frente a tanta grandiosidade,
Frente à essa fonte inextingüível
De luz...

Que sina, que nada...
Tijolo por tijolo
E é esta a construção
De uma vida, de um projeto
De ser humano
De conquistas,
Nada para se mostrar...
(pois não há nada para se mostrar...)

Caminho pois adiante
Vejo, olho, enxergo
É o bastante
Deambulo pois distante
Das vilezas, das pequenas cousas
Faço mil desenhos em minhas paredes e lousas
Eu e milhares neste mundo, Joães e Souzas...

Edificamos o diminuto
Para poder ter em perspectiva
Tudo o que é maior
Tudo o que nos iluminará
Daqui diante.
Não há próximo, nem distante
Daqui diante,
Não é cronológico, linear, pontual.
É o astro, e o universal.

É a via sacral.

Do homem ao animal
Do animal ao mastodonte
Todos lutamos, para enxergar
Para poder ter à vista o horizonte

Todos buscamos
Pelejamos, pela perene fonte
Todos, homens, animais,
Tentamos.
Tentamos.
Oh,
E como tentamos.

Mais mais mais
Uma relação direta:
O que não podem os olhos
A alma vê em sua plenitude.
Não há solidão, nem solitude.
A vida sempre será vida
Em sua mais completa magnitude.

Isso é, para os homens de atitude.
Para os Kennedies, para os Martin Luther Kings,
Para os Gandhis, para as Marias Teresas,
Para os Malcom Xs, para todos, todos, todos
Os Tibérios e Caios Gracchus, para todos
Os bravos, intrépidos, valentes Matteottis
Os que empunham firmemente
A única arma totipotente.

A alma do saber
A arma que nunca irá fenecer.
Não. Somente assim pode tudo ser.
Essência.

O imo de tudo.
Perante tanta grandeza,
Agora calo-me.
Mudo.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

sábado, 8 de novembro de 2008

Esquina da Canário com a Sabiá

(porque nada tão paradoxal como carros atravessando a fronteira de uma Rua chamada Sabiá, com outra e sua graça de Canário. Lá não há aves, pelo menos não as que com seus nomes batizaram um recanto tão urbanizado quanto nossas personalidades efêmeras e gastas)

O coração:
A flama,
Chama.
Clama

Por afeto
Por...
Por...
Pelo inominável.

Fica banalizado
Em demasia banalizado
Quando aquilo recebe nome

Talvez um nome falso
Talvez um nome de guerra, e o pior,
Um nome já trucidado, vergastado,
Esfolado.

Não, aquela alcunha envelheceu, encaneceu
Perdeu os já parcos cabelos, as cãs brancas
E como em retalho sobre a calvície longeva.

Sim, é preciso uma muda. Uma muda que cresça
E exacerbe a condição de planta, projeto. Uma muda
que destitua as folhas amareladas e também as carcomidas.
Uma muda que mude. Mude o mudo e infalável e indizível.
Mudança de planta muda para árvore arborescente e florada.
Uma face pálida e descorada abrindo espaço para um rubor humanizante.

Tal é o que tanto pede a alma.
Mais, muito mais que sossego e calma.
Menos, muito menos que um clamor e uma palma.
A alma pede o que pede a alma.
...
(and there - and here, it goes 'n flows...)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Urbe-orbe, a metrópole que tudo absorve

Urbe-orbe, a metrópole que tudo consome em sua selvageria inigualável:

-Tá vendu aquele macambúziu, cabisbaixo, ali? Todu silenti, queixu impelidu pra frenti, nem pareci genti?
-Veju, veju. Quem seria, essa nossa celebridade magricela?
-É mais um dentri a incontável multidão de ovelhas a pastar nos campus inférteis di uma cidadi dita civilizada.
-Eh, eh. I eu seria um outru comu tantus outrus, loucus soltus pelas ruas, intão?
-Por que loucu? Qui nada. Loucus i lunáticus não são tabeladus a esmu, à tortu i à direita, não é tão simplis comu pareci. Tudu qui é vivu evanesci cum u passar; classificar a esmu é discriminar comu cegu. I cegu num inxerga, inxerga?
-Tá, tá. Mas ondi cê qué chegá?
-Queru, não. Já cheguei. Ficu pur aqui mesmo. Desçu aqui na estação Paraísu. Se issu for o ditu cuju, vamu ver o quê é u infernu ainda. Uma turba dessas, apinhada comu gadu, tá mais pr'uma Comédia, qui di divina num tem é nada. Macacada.
-Ai, ai. Ô visionáriu, eu vou descê na Liberdadi, quais são us augúrius pra hoji?
-Paga adiantadu na próxima. Aí sim nóis prosa direitu, colhendu e semeandu, como nu Evangélhu. (fecham as portas). Malditu apitu! Mal abriu já fecha, a danada?! Vai, segue cambada. Cadê o vaqueiro com a vindima pra tangê us boi brabu i musculosu? Vai, saradão, empurra mesmu, você qui treina tantu pra adquiri braçu de orangutangu, não podi deixá passá a feliz oportunidadi de empurrá, né.

Carros, ônibus, metrô, trens, helicópteros, jatinhos, aviões, motos, skates, patinetes, bicicletas, patins, lambretas barulhentas, caminhões, vans, camionetes, faltam só o cavalo, o burro e o jegue. Falta só a concretude em meio a tanta abstração numérica visual. Incontabilidade reinante - terra incognita, terra da abstração alienadora. Mas esses dois últimos - o burro e o jegue - somos senão nós mesmos, que labutamos que nem uns acorrentados, no fundo, pra conseguir fundos. Mas nada é definitivo. Ah, falta amor também. Falta contato humano, que não seja abraços que nada dizem, e beijos por demais convenientes.

Arranha-céus, edifícios, prédios, presídios, asfalto, pneus, janelas em série, fordianas, condomínios, casas geminadas, casas com tijolos à mostra, na América Latina barrios, aqui favelas mesmo. No tio Sam, slums. Chuva ácida, céu vermelho à noite, Tal é a cidade lotada, inchaço urbano, mega inchaço, ultra inchaço. Ultra violência. Estupro, cídio, cídio, cínio, cínio. Começo é o que não falta.

O visionário segue seu afã diário, no ônibus:

-Entra, multidão, vamu qui cabi mais, ondi cabi um, cabi trezentus - rumbora!
(multidão, várias vozes:) - Ê, quem é esse engraçadinhu aí? Êe, já começa às seis a aporrinhação na vida? Pô, fora essi apertu, tem genti querendu encher logu pela manhã?
-Vamu fazê uma oração pra mudá essi trânsitu, pessoal. Por que mi xingá? não façu mal im dizê a realidadi. Pior qui lata di sardinha essa condiçau. Muitu pior. Porque sardinha vem azeitada e consumível. Cheirosa até. Agora, tem genti aqui qui não passa desodoranti, não aprendeu a lavá suvacu, a usá camisa anti-transpiranti. Cês vê: acorda cedo, anda e pega o transporti. Lotadu, suadu, ninguém qué siqué olhá na cara du outru. Se Guimarães Rosa tivessi pur aqui, ninguém ia reconhecê. É a correria de todu dia, dizem pur aí. Mas qui correria u quê, issu daqui é só pra divergi a todus de uma vida essencial e dedicada à verdadi i ao estudu di nós mesmus.

Ao descer no ponto, o visionário enxerga na margem oposta do rio de carros pessoas degradadas e degredadas, em farrapos, passado mais de século da verídica Farroupilha. Pobres de espírito bem-vestidos. Pobres de fato com olhares perspicazes. Ruas suspicazes, suplicantes, sinuosas, serpentinas, sinaladas em ésse, sestrosas, sulcadas, seixosas, suspensas sobre sombras, sibilantes, sabendo a suor e sáxeas, assexuadas, sem suntuosidade, sem-sabor.

Milhares de partículas de fuligem entram em suas narinas, numa tosse surda. A paisagem se abre e se fecha, veredas suspirantes, ressabiadas. As alamedas negras de sujeira onde passam executivos e funcionários, professores, estudantes, ledores, o centro de uma cidade que arfa de impudores e novas formas de apropriação.

-Qui você faz, senhor?
-Estudu Direitu.
-Pois qui num estudasse...
-Está brincandu comigo?
-Não, somenti ti gozando um bucadu.
-Olha, mulequi.

Diálogos profundos, repletos de conteúdo, como aquele entre João e Maria, após trabalharem por dez horas na montagem de uma exposição:

-É, Ma, não mi agüentu nas pernas, quiria sentá...
-Ah, mas foi bom, num foi não?
-Bom em qui sentidu? U resultadu ficô satisfatóriu, eu achu. Pelo menus, né?
-Não, concordu cum você, mas tô falandu di tudu qui a genti aprendeu, di martelá a pendurá i tal...
-Ah, na hora é bom, né Ma, mas depois a genti cansa i só qué sabê di sentá, deitá e puxá um roncu até u raiá du outru dia. Ah... essi cansaçu todu e depois o repousu é o verdadeiru elixir da alegria. Não há nada melhor, nu'é verdade?
-Pô, cê só pensa em discansá. Ia perguntá si você num quiria i pro cinema comigo, i essi papu di isticá as pernas. Pareci velhu, meu!

Diálogos edificantes, maestria no logicismo empregado, na resolução de problemas. Contextos desprovidos de injúrias e opiniões que nada acrescentam. Desprovidos mesmo de exclamações inverdadeiras e comentários pejorativos sobre outrem. Urbe-orbe, quê mais poderá engolir em sua ânsia de alimento? Resta-nos somente a metafísica de Guimarães para podermos desarmá-la de seus intuitos nefastos.

Os bois ainda ouvirão o garoto que roga pela morte de seu contra-mestre no sono - e trucidarão o algoz num ímpeto brusco que não deixará remorsos.

Há de se ver, Guimarães, há de se ver.

Montagem

Dizem (aliás, sempre dizem) que tudo tem seu tempo certo. Ah, e alguém também disse que a vida por si só já é um milagre. Discordar de máximas é um tanto complicado, sem argumentações bem boladas.

Por exemplo, jamais havia subido numa escada para pendurar quadros de madeira, ou para qualquer outro fim que não fosse por lazer e curiosidade. Mas aprendi num piscar de olhos a tolerar vertigens e inclusive a saborear a "altura". Fazer tiras de pipas ligando-as com fio de náilon é outra coisa que nunca havia feito anteriormente. Bom, mas como tudo que relato é novidade, então é passível colocar essa observação para tudo que aprendi.

Correr contra o tempo sem prejudicar a qualidade, dentro do possível. E o campo do possível tem a peculiaridade de sempre poder ser alargado, uma vez que se cogita sobre o que pode ser feito. Ora! Tanto pode ser feito, tanto quanto se imagina, e muito mais. Pude apreender essa objetividade com as mãos na massa.

Dobrar, recortar, dar nós, ajeitar, pregar, rearrumar, refazer... serviço da criança que ainda não firmou o hábito de reclamar do mal-feito. Serviço para quem consegue lançar um novo olhar nos mesmos lugares, naquilo que já foi uma, duas, três vezes manuseado, mas ainda não está bom.

Humildade. Bela palavra, enquanto não se prova seu significado na própria vida de quem tantas vezes a repete, dia a dia, mês a mês, numa religiosidade insensata, porque apenas teórica. Saber a auto-crítica para poder superar a si mesmo. Competidores não há, pois todos se empenham para um mesmo fim - o objetivo é o aprimoramento do visual, do tátil, e, portanto, do real.

Aperfeiçoamento do que nunca será perfeito. Processo inacabável, mas com metas em mente, o resultado torna-se no mínimo satisfatório. Para todos os gostos? Não. Para todas as idiossincrasias e pusilanimidades? Certamente que não. Mas, no bem-feito, quem põe defeito é juiz imperfeito.

É verdade comprovada que o autor terá sempre uma vírgula a pôr ou tirar, e será o crítico eterno de suas obras, excetuando-se casos narcísicos, e, por conseqüência, meras reflexões de personalidades supérfluas e esgotadas num egocentrismo sugador de criatividade.

Não farei uma ode aos escritores mais vendidos do mundo, que se utilizam de diferentes fórmulas para agradar um público duvidável. Do qual já fiz parte, cabe ressaltar. Não realizarei um panegírico acerca de minhas pessoalidades, irrelevantes para os demais habitantes deste planeta.

Há de se dizer, no entanto, que meus avós estavam certos: Diga-me com quem andas, e direi quem tu és. Meus queridos avós, se vós conhecêsseis meus próximos, julgariam por si próprios quem eu sou. Gabar-se de êxitos é a maior facilidade existente. Reerguer-se de um tombo talvez exija algo que muitos morrem sem obter: introspecção.

Falta-se, pois, com determinadas responsabilidades impostas pela conjuntura social, para poder se realizar no âmbito pessoal. Vergonha, pudor, vexame são palavras desconhecidas até certa idade. São diferentes conceitos e diferentes circunstâncias que os causam para os diversos povos, nações e culturas. Cada contexto cultural traz imbuído seu sistema oral de valores e morais. De parábolas ensinantes e lições paternais. Mas nenhum deles é o epicentro de nenhum outro. Cada contexto é real por si próprio e é correto e incorreto simultaneamente. Nada é irrevogável, 'tudo' é deveras amplo e abstrato. Generalidades não definem, somente traçam contornos aproximados e inexatos.

Pois, acabemos com a dissertação. Falta muito para eu me tornar alguém útil a mim mesmo, e, por conseguinte, co-autor de uma obra universal em seus parâmetros. Mas tendo sido o primeiro passo dado - o do sofrimento escolhido por livre-arbítrio -, que me impede de dirigir-me aos restantes?

Quiçá o mundo seria outro se não fôssemos condicionados a pensá-lo como um local habitável e agradável para uma população de mais de 6,5 bilhões de pessoas, afora os animais e plantas e todos os outros seres devidamente taxionomizados pelo tão poetado saber científico do Homem com agá maiúsculo.

Quiçá eu não fosse o que sou e não seria o que fui se o mundo estivesse em ruínas como a literatura soçobrada de Franz Kafka*. Suposições ontológicas - como esta - parecem tomar a forma coleante e serpentina da traição. Não há porque chorar, então é quando as lágrimas abundam em sua pureza auto-limpadora. Não há porque rir, e é aí que irrompem as mais histriônicas gargalhadas de bel-prazer interior, sem necessidade de conveniências - ah, as odiáveis conveniências!.

E por aqui entrou e saiu um tal de Fernando - que vive acordado e dorme esperando. Pelo quê? Pelo insondável - o único conforto imaterial possível em um mundo de fúria e boca espumante.

Ah, brejeiro.

*'literatura soçobrada de Franz Kafka' não é de forma alguma algo bradado com tom de perjúria ou de forma mordaz e lasciva. Leio Franz Kafka, e este fato já é auto-demonstrativo em sua significação.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Vida

(A vida é um milagre, quem discordará?)

A vida nos mostra o que a ela damos
A estrela cujo nome sempre chamamos
É a vida, é bonita e é bonita.

Viver, sem o medo de se machucar
Na memória o aprender, no passo
Todo o gesto, todo o pulso
Impulso manifesto de viver.

E cada noite e todo dia
Uma alegria, um júbilo
Porque se vive, porque se é
É-se o desdobrar do maquinário,

Cada, todo, novo e velho
O olhar, o andar, tudo é movimento
Mesmo nos momentos mais silentes
A vida tremula e tirita

Não de frio, nem de calor
Não por capricho do Criador
Mas porque imexível
Não é um adjetivo que descreve a vida.

Se até mesmo a pedra vive,
Se até o ininxergável ali está
Bem, a vida então será
Tudo o que eu tive
E tudo o que você terá.

É como na manhã
O canto do sabiá
Rouxinol não digo
Pois não distinguo
Seu cantar.

É como o ciclo diário
E universal.
Toda a vida é um invólucro
Sacral.

É como o João e o Mário
A Maria e a Joaquina
A vida é tíbia e fria,
É morna e severina,
Onde começa, também termina.

('Carpe diem et noctiem... You shall reap what you sow')

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O que os olhos não vêem, sente o coração

Lavou as mãos com diligência, e ao fim exclamou, em meio tom, emocionada: "Como é bela a vida!".

Deixou o rosto para lavar depois. Estava repleto de lágrimas...

(Mundos)Paralelos

A 1ª estrofe composta no vagão do metrô. Os últimos dois parágrafos acrescentados em meu lar. Lar, doce ..r.
***
(Mundos)Paralelos

Um mar de luz inunda a superfície do planeta,
E meus olhos antevêem a quebra de um paradigma.
Que paradigma será?
O fim do dia dirá,
A mim e a todos.
Saravá.

O refulgir deste Sol
Será como o de outros sóis?
Completarão seus ciclos com semelhantes arrebóis?
O homem, só, pergunta-se, a elucubrar...
É capaz de assim ser, sim ou não.
Mas o que vale é o brilhar,
Muito mais que a data ou o lugar.

E tomar nota de que o início é o fim,
E o Yang é o Yin;
De que você é o mim:
O mundo é ambivalente,
Sim.

Inside Out

I'm within the dark chamber
Red and glowing secret amber
Kills the conscience
Keeps the danger

I'm inside myself now
Ciao. Goodbye my pal
To all of you I must kowtow.

I bow my head low
Painfully and slow
My story I'll show.

My mom said in childhood
"You will reap what you sow
When you're ready you'll go"
But in boyhood I didn't know

Sorrow, angst and paine
Will I always be the same?
Father, can Thou hear'st my name?
I'm a man no one can tame,
But a human, too, feels guilt
And shame...

Mother, do you know where I am?
You did ever whisper, You can, You can
But m'am, how could you say so?
Why yes, instead of no or never?
Why did you all think I was clever?

No, never.

Through labor and work
I found something in me.
Oh, I did.
No saviour, no salvation
Many things I had to see,
Oh, El Cid!

Where are you knight?
In where today willst thou fight?
You who bravely fought
You who furiously sought
I who only watched
I didn't lift a finger.
I who deathly laid and linger'd.

Oh, starry sky
Brilliant, opalescent night
I'll pray one day
I might
Become that glorious
Knight.

domingo, 2 de novembro de 2008

Pala vras

Vou fazer de minha vida
Uma abstração;
Alegoria.

Transformá-la em
Toda uma canção
E alegria.

Todo um trabalho
Da mente.

O abecedário
Não mente.

Pegue um 'a', ou um 'b', ou 'c'.
Que significam pra você?

E é só a partir deles
Que designamos,
Cantamos,
E choramos.

O que é erudição
Sem linguagem?
É imaginação -
Sem imagem.

Amemos, pois,
As palavras.

O 'um' e o 'dois'
Toda a Matemática -
Que tu lavras -
Seria enigmática,
Sem palavras.

Amemos, pois
...

sábado, 1 de novembro de 2008

E Então

(o começo é o fim; o meio é o mim)

O vento envolve mais que o ar em passagem
O vento é bem mais que o olhar em miragem
O vento é ele mesmo
O vento... é o vento.

O sorriso é mais que o gesto
O sorriso é o amor manifesto
Abrange mais que a boca,
Ou o rosto,
Tange toda a alma
Em seu gosto

A felicidade é um estado da alma.
A felicidade é a existência calma.

***
*
***

They said:
The body doesn't matter
What matters is the soul
The body is the world
In shatters
The soul will always be
The soul.
Away,
It'll never go.:
No, not the soul.

**end fine**