domingo, 7 de dezembro de 2008

Dança com Lobos (Dances With Wolves, 1990)


Se tem um filme que eu recomendo de coração é Dança com Lobos*, com Kevin Costner figurando como ator principal, no papel do oficial Dunbar - que posteriormente se redescobrirá sob o nome nativo de Dança com Lobos, sendo esta a razão do título da película.

O filme talvez tenha essa característica marcante em virtude de desmistificar utopias dicotomizantes: bem e mal, o moço bonzinho e o vilão horrendo - aspectos tipicamente maniqueístas e que reverberam à solta na forma tradicional do Romantismo, movimento iniciado na Alemanha e com expoentes tão dignos de nota como o próprio Goethe.

A utopia indígena também é dessacralizada no decorrer da narrativa e na trajetória traçada por Dunbar. Insatisfeito como sua solidão no forte militar desertado que ocupa, na fronteira com as terras habitadas por uma multitude de povos autóctones, tais quais os Pawnee e os Sioux, o oficial norte-americano encontrará a paz e a companhia que buscava no seio silvícola. Ali, entre os nativos, abre-se um mundo completamente novo e diversificado.

As dimensões do real e do imaginário, do tangível e do pictórico, fundem-se em uníssono com um modo de vida à beira da catastrófica extinção que seguiria, pouco menos após duas décadas da invasão maciça branca.

Século XIX: a expansão para o Oeste no território estadounidense, supostamente inóspito, no man's land, terra habitada por ninguém. Parte desse dito unilateralista e intra-imperialista encontra ressalva somente no fato de que ali naquelas bandas não havia proprietários, ou papéis que timbrassem uma posse irreal.

Aliás, que homem pode atribuir a si o status de dono daquela que o germinou e nutriu? Sim, digo a terra. A terra - que é ao mesmo tempo de todos e de ninguém. O fundamento de uma afirmação tão insólita e aparentemente despropositada aos valores inculcados na cabeça de pequenos homens¹ - por decênios e milênios afora de História do Homem sobre o planeta Terra - é univalente e sonoro: A terra/Terra é pré-existente à humanidade, e a sucederá.

Tal verdade ribomba e ressoa e arranca do homem uma de suas maiores obsessões: ser dono de algo externo a si próprio.

Nesse aspecto, tão moderno e tão antigo - não reverenciemos o presente como a apoteose da existência humana neste minúsculo planeta - Dança com Lobos é um filme ampliador de horizontes. Desilude o espectador - se este estiver aberto à quebra de paradigmas - dos poderes civilizatórios de se mudar algo imutável: a alteridade - o outro. A Sociologia dispensa especial atenção a esse fator, que sobretudo define a existência de um outro que não é como nós mesmos. Que não apreende o mundo como o apreendemos, nem depreende deste as mesmas relações que podemos - com toda a nossa suposta magnitude técnico-científica - depreender nestes nossos tempos modernos.

Cabe ressaltar que o filme baseia-se no livro homônimo de autoria do pouco conhecido - e muito menos aclamado - Michael Blake. Alguns escritores têm essa mágica admirável - e peculiar, decerto - de deixar uma obra apenas - e todo o seu dom panorâmico e entreabridor de olhos se demonstrar com força e vivacidade nela. São obras que evocam com distinção uma só palavra: plenitude. Portanto, é uma obra que merece ser lida e digerida no original. Se Iracema é a brilhante recriação do Ceará, mítica e lírica como só Alencar o pôde suster na Literatura Brasileira, bem... então Dança Com Lobos é um Ubirajara com um toque inesquecivelmente Real.

¹A respeito da pequenez do Homem, recomendo particularmente a leitura de As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, prestando especial atenção aos liliputianos. E, em segundo lugar, Micrômegas, de Voltaire.

*Para poder escrever sobre esse filme, foi requerida de mim uma segunda experiência como espectador. Na primeira, pouco pude compreender de sua amplitude. Na segunda vez, mais maduro e enriquecido com leituras de amplo escopo, as inferências possíveis foram muitas. Utilizei-me de algumas.

(link recomendado: o discurso feito pelo Chefe indígena de Seattle - em português)

6 comentários:

Lucas Pascholatti Carapiá disse...

Esse filme é uma maravilha!
Assisto ela desde criança e tive o prazer de comprá-lo por apenas quinze reais! Tenho ele aqui em casa e sempre o vejo quando estou a fim de me por mais diretamente com a realidade histórica e me distanciar do romantismo de Alencar, que apesar do fundo metafórico muito real, ainda segue a moral do branco, colocando o índio com aquele estigma de vagabundo homem das salvas...

Maravilhosa postagem!

Filme recomendado também por mim!

É um filme que nos emociona do começo ao fim, fim este que merece não ser aguardado, pois esse filme é daqueles que nunca queremos que termine, mas deve ser recepcionado com lenços de papel!

Que história! É um one-hit-wonder daquele escritor! Que é acredito que teve de viver muito para escrever tão bela história!

Sinto muito pelos Sioux até hoje! Não consigo ver mais filme algum sobre índios apenas por lembrar de suas mortes, dos Sioux...

Lucas Pascholatti Carapiá disse...

http://www.halcyon.com/arborhts/chiefsea.html

Vale a pena ler!

Marian; disse...

Sempre falam tão bem desse filme que eu tenho medo de vê-lo. Uma coisa não pode ser boa por unanimidade...

Fernando Pimenta disse...

Nossa, Lucas, agradecidíssimo pelo link!

Estou lendo-o!

monika e.jung disse...

seu blog está cada vez melhor, e seu estilo(escrita) beira a perfeição-prefeição, algo no nivel de Joyce (pelo apuro linguistico)!

vi dança com lobos há anos atrás, ma~s fui distraída o suficiente para não er o que vc descreveu e achar o filme chato...

Fernando Pimenta disse...

Bem, geralmente um filme que evoca tanto risos quanto lágrimas pode ser chamado de bom. Para mim, essa concepção se aplica em muitos dos que já vi, mas não a todos.

Dança com Lobos foi um deles.

Obrigado pelos comentários, pessoal.