terça-feira, 29 de junho de 2010

Duendes doentes não há

E a folha se desprende
E recai na imensidão
Pousa na mão do duende
Tão maroto, garotão

Assovia e logo aprende
Todos os modos do mundo
Como é sábio esse duende
Não sente o odor nauseabundo

Ou talvez o sinta e saiba
Ver o todo de outra forma
Sem nem dar lugar à raiva
Seu olhar que se transforma

E o transforma em conjunto
Em todas as coisas boas
Ver os outros, ver o mundo
A quem nada está à toa

Quão lindo o sol e a garoa
A maré a ir e vir
Pois em tudo o som ressoa
No sempiterno devir

E a voz de uma pessoa
Na distância vem e vai
Sobre o rio uma canoa
Sobre o rio o próprio pai

Em vida o triste magoa
Chora o lençol bifurcado
Ruge a lava em Krakatoa
Faz do presente, passado.

E faz da vida um ditado
Passa passa passageira
Quem não provou do pecado
Não viveu à sua maneira.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Caixinha de Pandora

Como aquele eterno instante
Na surda noite ecoando
Tua figura esvoaçante
Teu espesso véu, tão brando

O luzir dos diamantes
Envolvendo teu pescoço
Num contradizer chocante
Com o teu viver insosso

Teu viver tão refinado
Uma esmola, dois trocados
Teu corpo como os ditames
Estéticos dos reclames

Obsoleto como a moda
Teu jeito aéreo e sublime
Na reinvenção da roda
Dos teus prediletos filmes

Glamour, finesse, teus trejeitos
Feios defronte ao espelho
Dando passos escorreitos
Em teu perene ar pentelho

Descomprometidamente
Vejo-te agora como és
Libertina e leniente
Vã e chã como os teus pés

Encantadora
Eleanora
A realidade...
...comprometedora.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Pevides Lançadas Além

Meus entreabertos olhos
Entreolhavam você
Eu entretido em olhá-la
Como quem primeiro vê

E não crê, não pode crer
E suspende o pensamento
Num suspense muito lento
Lentamente a escorrer

Como lágrimas rolando
Dois olhos semi-cerrados
Pingo a pingo gotejando
O timbre teso, calado.

Minha garganta entupida
As narinas ressequidas
Num grito clamando a vida
Perdida, querida, a vida

Quem a levou de repente?
As veias pulsando ainda
Tornado triste o contente
Não quero ir, minha dinda

E vale minha vontade?
Minha íris rebrilhando?
Escuto Sheherazade
E tudo, tudo é tão brando

E tudo, tudo vibrando
Nada é nefando, terrível
O incrível é possível
E o fim vai começando

Ouço as canções de infância
Não há saudade nem ânsia
Apenas vãs cantilenas
Vãs e belas e serenas

Vãs, singelas e pequenas
Como humildes Madalenas
Perfumando Os pés alheios
Sem ofensas, sem rodeio

Irá embora quem veio
Cultivado seu centeio.
Qual tristeza haverá nisso?
E qual maior compromisso...

Nasceu, semeou, brindou
Das alegrias provou
Sem asas alçou seu voo
E voou, voou, voou...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Estéril Solo

Um punhado de mias lágrimas
Diagnóstico:
Tristeza incurável.
O desespero tranquilo
De quem se vê a morrer

E com lágrimas se dissolve
Revolve-se em luta inteiro
Não é por Frida ou por Nicole
Sim por ser um mensageiro

A quem ninguém dá ouvidos
E por que por deus daria?
O choro é logo esquecido
No colo da mãe, mamãe
No colo da tia, tia...

Gotas, pingos pluviais
Sem plúmbeas nuvens cinzentas
Só ais, mais ais, tais quais ais
Oh, soluço, angústia lenta!
Crimes capitais, sem pais!

Dor sem parentesco ou alma
Não curada por ar fresco
Calma - tu ficas patética
Ao entregar-se ao sofrer

Não pranteie ou lamurie
Queira Deus desfaça ou crie
Rios do tolher, infinitos
Sob pontes pênseis de gritos
Rarefeitas no abandono

A saída inexistente
Esteve escondida ali
Onde o rio flui e sorri
Dentro de ti, dentro, sim,
Teu cultivado jasmim

Não jaz em mim, mas em ti
Espreguiça-se o saci
E ri, e ri, e ri, ri
O ensandecido feliz...
Só ri, só ri, só ri, ri.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Azul

Jamais vejo o azulejo
Pintado como um painel
Sob a sombra me protejo
Do seu áureo azul do céu

O anil das flores, cores
Espraiadas como ao léu
Meu buquê de amores murchos
Na mia triste mão de réu

Vagos olhos, secos lagos
Onde a água já parou
Já passaram os reis magos
A manjedoura ficou

Esperando um simples gesto
Um carinho, abraço, um beijo
Meigo que fosse e modesto
Só sobrou o azulejo...

Azul, anil, oceânico
E tirânico e satânico
Toda uma calma de pânico
Por que te vejo, azulejo?

Seu azul, seu anil, seu
Mar infindo a me olhar
Meu esgar, minha aspereza
Quem dera eu jamais me veja.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Haicai Insubmisso (XIV)

Conheço poucas pessoas
E menos ainda
A mim mesmo

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Espada Embainhada

Mato-me um pouco por dia
Se é que ninguém percebe
Nem me condena a uma pena
Quiçá maior que esta

Mãos se oferecem no ar
Irresoluto, já débil
Quererão me ajudar
Meu teso corpo, mi' alma leve

Minh'alma leve embora
Os maus presságios
As tristes cantilenas
Do merencórico agora

Um desarrazoado medo
Do desarrazoado homem
Me abala logo cedo
Minha empatia some

Integridade almejada
Numa vida de facetas
Partes do todo - do nada
O ressoar das grilhetas

Algemas e estigmas
O que é, o que são
Um vasto mundo de enigmas
Ora herói, ora vilão

São os mesmos, já não
O mesmo nunca é o mesmo
Sabe-se lá o que são
Sob o sol só da solidão

Sabe-se lá o que é
O que está parado
E paira de pé

O chão chamuscado
Formas disformes em pilhas
Meu medo, nosso degredo
Nossa abominável ilha

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Deslumbrar de um menino

Quem já fez uma criança feliz pode morrer com um sorriso nos lábios. Recordo-me de Natã, no norte de Minas, há pouco tempo, mas um tempo que transcorreu numa tal violência inexplicável, que bem me parece outra vida. Natã era residente da cidadezinha, com seus 6 anos então. Era um pouco doente, tossia uma tosse cheia de catarro no peito, o que o deixava um pouco diferente dos outros de sua idade. Por tomar xaropes e fortes antibióticos, tinha um dos dentes de leite da frente espreteado. Não me esqueço jamais de seu rosto. Eu brincava, chamando-o de "indiozinho". Natã tinha, de fato, as feições de um guri do mato. Cabelo cuia, negro azeviche do brabo, lisinho, escorrido.

Às vezes, sem aparente explicação, Natã corria em disparada, em direção ao meio da rua, pouco movimentada, como de todo bom interior, e ali se deitava, nos paralelepípedos quentes. Permanecia inerte, só os pulmões subindo e descendo, mudo. Gritavam: Natã, sai da rua! Eu ia até ele, o levantava, como se faz erguer um boneco, mas um boneco animado, serelepe, inexplicável. Um original. Não era meramente bonitinho e fofinho e atentadinho como praticamente todo o conjunto infantil do mundo. Sua própria consciência da saúde frágil, seu fenótipo destoante, e seus pais a maior parte do tempo ausentes, transformavam-no numa criança única. Se fosse já adulto, o tomariam logo de cara por louco, e sua exclusão do mundo dos normais não demoraria muito a vir.

Eu me encantava com o garoto. De verdade, como que diante dum objeto raro, exótico, e com o qual poderia aprender profundamente por anos. Ser tão diferente dos demais lhe caía como uma qualidade natural perante os meus olhos benévolos. Admito que ele talvez pouco pudesse entender dessa minha perspectiva. Não tenho notícias de como ele está hoje, mas desejo-lhe o mais fundo bem. Não o bem genérico que se deseja aos ignotos confrades humanos nas suas empreitadas do dia a dia, ou a má soante "Boa Sorte" que encomendamos a torto e à direita, sem refletirmos que isso soa mais como "Boa Morte" que qualquer outra coisa. É um sinal de que pouquíssimos leram O Apanhador dos Campos de Centeio, Sallinger. Jamais desejariam Boa Sorte novamente, ou não da mesma maneira casual como o fazem hoje, ontem, amanhã.

Natã me fez ver o mundo, reconheço após esses breves-longos anos sem vê-lo, a partir dum novo ponto de vista. Há em alguns um tesouro rutilante escondido sob uma opacidade normalizante. Sob a camada de poeira, reluz algum ouro, algumas vezes, em alguns. A opacidade d'alma dos fracos de espírito que subjuga os bem dotados deste mundo.

Após tê-lo conhecido, não, eu jamais acreditaria outra vez na baboseira de que todos nascem iguais, ou são iguais, ou em algum momento tornam-se iguais. Nem a morte iguala ninguém. A homogeneidade é a síntese da decadência do homem, uma bola de ferro que lhe esmaga e lhe tolhe o que nele há de melhor, o que dele distancia-se da mesmice deste mundo. Tudo isso ele me ensinou, em sua mudez habitual. Natã, você já viu o muro daquela casa? Era uma casa abandonada, ou melhor, um terreno abandonado, mas não baldio. Pelo contrário, era rico em bananeiras, que despontavam por sobre o muro, e uma ou duas mangueiras, verdejantes e folhosas. Dava mesmo vontade de ver se por detrás do alto muro se ocultava o jardim tupiniquim de um príncipe desleixado com suas posses terrenas, como que cansado da temporalidade escravizante e massacrante deste mundo.

Não. Foi a resposta do piá. Mas um "não" curioso, indagativo, reticente... Então vamos ver! Peguei-o pela mão, no pique atravessamos a rua e disse a ele: Confia em mim! Levantei seu corpo pesado com um pouco de esforço até ele alcançar com suas mãos o limiar do muro, e lá do alto ele tomou um impulso com os braços e manteve-se assim, olhando. Seus pés estavam suspensos sobre os meus ombros. Quietara. Quer descer? Ele assentiu com a cabeça, e desceu. Depois corremos desenfreadamente para cá e para lá na rua, e enfim quietamos. Ou antes, eu me quietei. Ele de costume já era quieto e não se revelava. Mas entrevi naquele instante uma luz de êxtase rebrilhando em seus olhos levados, e pude compreender em silêncio tomos de sabedoria.

O que ele havia visto, guardava-o para si como o maior presente do mundo. O presente de um Robin Hood, pois alguém, um estranho àquela terra, que por fim o pôde entender uma vez na vida. Ou ao menos alguém que a ele não procurou se impor, como soía acontecer. Aventura, loucura. O impossível tornara-se possível com uma mãozinha amiga, sincera, fato único na vida. O regozijo de seu interior inflava-lhe o peito, que chiava baixinho, em movimentos lépidos, e suas narinas espelhavam aquele movimento de trepidação de um júbilo, um entusiasmo fantástico. Cintilava em seu rostinho ajeitado de Macunaíma uma vivência que jamais se apagaria de sua memória. Poder ver o insondável, então, era uma possibilidade mais que teórica ou hipotética - era plenamente real! Aquele alto muro a delimitar fronteiras, o permitido do proibido, o passível e o não passível de ser visto, era - surpresa! - trespassável com o auxílio de alguém como ele, alguém que se sentisse um tanto perdido e restrito em um mundo moralista e conservador.

Não pode, menino, é feio! Deixara de existir na minha presença, que lhe complementou a unicidade de sua alma, cujo ritmo fluía numa velocidade destoante das dos demais. Natã, tantã, natã, tantã, na tã tan tã. A musicalidade de um coração que se conscientizou, de súbito, da importância irreprimível de se estar aqui nesta terra agora. E aos diabos com as fúteis conveniências. Deixe aos diabos os fracos, nós somos fortes, Natã. Teu nome ecoa. Tão fortes como as teimosas batidas do que há de mais caro em nosso peito. Tantã.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Haicai Insubmisso (XIII)

A morte: inexorável
Ficar velho: irreversível
Há o agora.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Meditações

Já faz tempo não medito
Nem vejo além do papel
Não fico acima do grito
Da minha torre de babel

Já faz tempo não escolho
Vou me deixando levar
O olho não olha o olho
O pulmão não toca o ar

Como se o mundo encolhesse
E a vida em si eu temesse
Sinto-me só - cinzas e pó
Nada me ergue ou soergue

Abra as portas e comportas
Quero sair, não me importa
Para onde eu possa ir
Se como monge, ou faquir

Quero sair, pouco importa
Este pousar da mão morta
Sobre meu crânio escaldante
A boca do averno hiante

Queimo no inferno de Dante
Teimo em estar na Geena
Tudo é real e pulsante
Mia vida soa pequena

Batem grilhões e grilhetas
Cadeias e cadeados
Peias alheias, muletas
Formam sombras do passado

Procuro no escuro a luz
Corpos gelados já rijos
Trevas e esconderijos
Meu choro sob o capuz

Meu choro é mudo por todos
Chafurdando neste lodo
Atraídos pelo engodo
De ser tudo sobre a terra

Engolidos na cratera
De seu próprio pensamento
Hoje escravos da quimera
Em seu anseio avarento

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Idílio

Dormi indo pro Tucuruvi
Sonhando pecados
Co'a moça ao lado
Meu corpo suado
E ela que ri

domingo, 6 de junho de 2010

Quem sabe amanhã...

Pálido, esquálido, inválido
Por onde andara o bom homem
Cálido, quente e humano
Tornado um lobo inumano

O vento, o frio, a poeira
Uivos, latidos, gemidos
Quer, não quer - queira ou não queira
Vejo o bem destituído

O bem maior almejado
De tranco em tranco ao baranco
E o velho em seu cajado
Em seu passo débil e manco

Vista turva, vã saúde
Assim valeu-lhe a virtude
Valeram-lhe anos, enganos
Lutou no fétido pântano

Mais de um doce-amaro amor
Chamuscou-lhe inteiro o peito
Deu-lhe cor, rubor, ardor
E c'os anos foi desfeito

Olha a magia do dia
Meu velho, sinta a alegria!
Irrompendo de seus prantos
Comovendo os próprios santos

O dia alumia a mágoa
Lava, esfrega, enxágua
Vexame ficou, morreu.
Agora surge outro eu

De esperança, mudança
Frenética dança
Embalado no ritmo
E ritos de pajelança

Passam-se horas, dias
Ribomba a melancolia
Mais forte, aguda no corte
Remexendo na bacia

Cantarola sobre a morte
De feitiços a quebrantos
Juras, perjuras, encantos
Macumba, canjerê, catimbó

Ai qu'enlaça e atiça!
E fatia lagartixas
Conjura uma má poção
E me atira à solidão

Vejo em delírio arcanjos
Fadas, morcegos e anjos
Brutos, ogros, e marmanjos
Espio e volto ao sono. Credo.

Morrer é bem esquisito
O antes e o depois mesclados
Lado a lado presente e passado
O sussurro é silêncio e é grito...

Psiu.

sábado, 5 de junho de 2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

KKK

O vulto a vagar vampiro
Ébrio em ruelas sombrias
Lê em voz alta um papiro
Cheio de galimatias

Crê ensimesmado nelas
Parcas linhas emporcadas
Vêm à sua mente vielas
Jamais antes palmilhadas

Não sabe se lá esteve
Parece que sim, recorda
Padeceu de muita sede
Asfixiado na corda

A turba ajuntou-se toda
Ria, gargalhava e ria
Corpos linchados na roda
Sob o sol do meio-dia

Encapuzados. Macabros
Eram homens de família
Um bando de desalmados
Progenia da matilha

O vulto velho virou-se
Faces negras, voz suave
Era mia gente na foice
Hoje ninguém mais o sabe.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Pequenas Grandezas

Eu quero um novo acordar
Maravilhado admirar
O luar, cheio de ar
E gritar, gritar, gritar

Gritar feliz com meu jazz
Lamber picolés sorrindo
Um riso alegre tinindo
Nos lábios em sonhos meus

Feliz como quem sonha com Deus
Só no sono o luxo de crer
Em um mágico bruxo
Em seu ateliê

Repleto de quadros, tintas
Paletas, pincéis, estantes
A vida em instantes
Lidos por belas cartomantes

A vida jactante, pungente
Pulsante - um jorro infantil
Ingênuo e genial
Rojões explodindo. Uau.

terça-feira, 1 de junho de 2010