quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ao Ano que Segue


Não vejo problema nenhum em você me dizer isto. Muito pelo contrário - tenho a convicção de que os verdadeiros problemas surgem do indivíduo não dizer nada, ser omisso com os fatos e assim dificultar o caminho à verdade. Pode-se dizer uma verdade parcial - aliás, quem sabe tudo? - mas já será um passo em direção à luz do dia, para fora da escuridão cavernosa que nos abraça.

Só persevero neste assunto pois conheço pouquíssimos símiles de Sherlock Holmes atuando na vida Real. E eu seria um péssimo candidato ao cargo. Nas ditaduras do mundo todo já tivemos - outra crença minha - indivíduos omissos em número suficiente para elas se prolongarem anos a fio em sua violência e crueldade, um tanto escancaradas por natureza. É característica do homem sapiente - ó, hipocrisia! - empurrar para o porão do Inconsciente tudo o que lhe é demasiado desagradável para expor ao clarão da consciência.

De tal forma que vivemos - reconheçamos! - praticamente nossas vidas inteiras num estado de hipocrisia velada. Vaca amarela cagou na panela, quem falar primeiro come toda a bosta dela. Aprendemos isto enquanto infantes, e automaticamente que quem por ventura acabar por abrir a boca estraga toda a brincadeira. Brincadeira um tanto desenxabida essa, eu diria. Porque até que quebremos a fantasia da redoma de vidro e o encanto do silêncio, nos encontramos fadados a regozijar com as parcas e bidimensionais sombras projetadas na parede estreita e mal-iluminada da caverna.

Embelezar e falsificar a realidade estabeleceram-se como práticas corriqueiras e diabolicamente aperfeiçoadas. Daí a pergunta inesquivável: Que tipo de mundo é este que criamos para nós mesmos, onde aceitar a certeza da morte é uma atitude tida como pessimista? Como, pergunto, poderemos desfrutar dos maravilhosos frutos mundanos, se negarmos que o futuro que nos aguarda é o mesmo que aguardou todas as criaturas viventes que nos antecederam? Ora, é viver em irrealidade querer mudar a condição humana apenas para aprazer a mente e iludir as massas. Eu faço parte da massa, e não quero ser iludido - me recuso! E morrerei brandindo minha espada por tudo o que tiver defendido.

E estes são os valores que defendo: sobretudo a verdade, da qual depende toda e qualquer possível virtude do homem. Todos os imorredouros princípios éticos derivam da verdade consigo mesmo e da verdade para com o mundo em que moramos, talvez não para sempre. O que se sucede nas masmorras e nos calabouços do imperialismo estadounidense vigente precisa ser exposto e desvendado. Meus pêsames a todos os soldados que pereceram nas invasões ilícitas ao Afeganistão, ao Iraque e ao tão distante Vietnã - pois vocês morreram, meus irmãos, por patranhas, criadas por detrás das cortinas, sob os auspícios da eminência parda, e propagadas pelos totipotentes canais midiáticos, sobretudo a TV, que nestes tempos de sanguinolência e intolerância, traduzem valores bélicos de vida que não são os nossos. Ou que não deveriam ser os nossos.

Nenhum pai, mãe, nenhuma família quer ver seu ente querido e amado morrer numa guerra - quanto mais numa invasão ilegal, ceifadoras de vidas inocentes, pessoas que desejavam tempos de paz e prosperidade tão veementemente quanto nós. A vilificação do mundo se dá pela vilificação dos indivíduos integrantes de uma vasta cultura, cuja extraordinária beleza, devido à nossa ignorância, não podemos apreender. Ou ao menos não poderemos apreendê-la em suas finas riquezas até que nos livremos dos anseios primevos e animalescos de dominação, usurpação, destituição do outro.

Malgrado seja o dia em que os sinos da carnificina tiniram em uníssono por sangue, pois a face e a alma dos gendarmes tornam-se tão exangues quanto às dos desafortunados. Abaixo a mentira descarada! Elevemos a Verdade ao seu merecido pedestal! Eu, como cidadão deste mundo, irrelevante a minha nacionalidade, clamo as virtudes humanas para destronarmos, unidos, a patologia da guerra. Uma vez que a guerra tem por essencial característica germinar em falsas verdades e proclamações falaciosas. Lembremos os extáticos discursos de Adolf Hitler, que levavam suas multidões aos mais exacerbados delírios maquiavélicos, maniqueístas! Lembremos que a população alemã, polonesa e ucraniana daquela época assentiu e consentiu com os pogroms, a parte majoritária denunciando seus vizinhos judeus, ciganos e homossexuais, encurralando-os em guetos, encaminhando-os aos seus abatedouros. Lembremo-nos - desta vez e para sempre! - de que se quisermos a paz, teremos de bradar em unívoco contra os massacres!

Hitler pronunciou, decerto com um sorriso torto e derrisório, que ninguém das gerações futuras se recordaria dos armênios e sua hecatombe nas mãos de criminosos turcos. E de fato, essa besta humana estava certa, pois nem na escola se põe em perspectiva as torpezas infligidas aos armênios em pleno século XX. O primeiro genocídio do século passado se oculta hoje sob um olvido temeroso - pois das chagas passadas, lição nenhuma poderemos tirar se elas sequer são lembradas. Não se pode aprender com o que falta à memória.

Os Bálcãs também foram esquecidos. Os maiores ditadores falecem de velhice, abençoados pela placidez do povo que eles conseguiram domar - lobos na pele de ovelhas - pela violência verbal, pela verborragia belicista, pelos discursos populistas, e pela violência estampada nos atos mais repudiáveis da História. O mais convincente terrorismo, criado e desenvolvido pelos mais poderosos governos, cujos reais objetivos atordoariam as massas, uma vez deslindados. É esse o monstro frankensteiniano plantado no solo fértil da nossa conivência; engendrado como fruto podre direto da nossa estarrecedora ignorância. O Mal se fortifica na calada da noite, quando o silêncio dos bons homens torna tudo plausível.

Primar pela verdade, desembrulhar os fatos de seus invólucros falseadores, e divulgá-los pela palavra, falada e escrita: eis o nobre papel que se estende à consciência - a nossa consciência! - ainda latejante no coração da Humanidade. Que nós possamos ser parte integrante dela - e já!

Um próspero ano novo só pode ser um ano guiado pela consciência e pelo conhecimento - dois amigos inseparáveis. E esse é o próspero ano de 2010 que eu desejo a cada um de vocês.

**
crédito à imagem: Malcom X em discurso. Tal qual Martin Luther King Jr., um ícone negro estadounidense que lutava incessavelmente, corajosamente - e também assassinado na década de 1960.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Indulgência no Prazer

Meu prazer, meu
gozo, digo, meu
ofício, é escrever


A gente procura no gozo tudo o que não encontramos na vida. Que ótimo! De que outra forma poderíamos encará-la de frente, potentes, nos dias que seguem?

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Adeus, andorinha!

O poder da esperança
numa ocasião inesperada
vem com força redobrada.


Uma, duas
Três vezes
Teus olhos buscaram
Os meus

Uma, duas
Três vezes
Fingi me entreter
Conversar
Não te olhar
Jamais de novo

Já na quarta,
Não pude
Suster minha mão
E o cruzar dos olhares...

Secos acenos de mão
E sorrisos sem graça -
Sem dentes.

O hesitar dos teus passos
Teu porte de moça, hoje
Mulher
Vindo a mim, curumim, hoje
Homem

"E aí, moço, tudo bem?"
Não podia disfarçar
Não estava
"Ahã, tudo bem"
Somos péssimos atores
"Mesmo?"
Já afirmo por ti
"Uhum"

E o esboço dum beijo
Um único beijo
Na bochecha
Sem abraço

Você em pé
Sem eu poder me erguer
Foi malvadeza

Simular normalidade
Com minha mão tremendo
No copo de cerveja
Meus amigos me encarando
Na mesa

Pela mulher fenomenal que você é
Malgrado o pé
Qu'eu levei em cheio

Quanta crueza
Falsa gentileza
Tamanha vileza...

Você partir do bar sem nem se despedir
Altiva, garbosa, sem sequer olhar
Pra trás
Me chamar pra conversar
Lá fora

Já não rola nem conversa
To ligado
Te desejo tudo de bom,
Vai nessa...

Eu sigo no meu bom tom...
Bem-humorado.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Nebulosa

Tragado pelo mar da angústia
Eu só queria me salvar
Subir à tona - da tona ao barco
E na deriva me encontrar

Mas o sol me queimou
E a água salgada deu enjoo
Eu observava, debilitado,
As últimas aves em sobrevoo

Foi então qu'eu vi
Os filamentos da minha vida c'o mundo

Eu morria e via
Todas as pessoas
Marcantes, c'o potencial
Qu'eu acreditei ter em mim um dia

Eu morria - e ria!
Do quão sério eu fui -
Do mistério qu'eu via em tudo!

A próxima vida, gritei:
Viverei debochado!

E foi assim que m'encontraram
Naquele barco destroçado
São e salvo -
Um homem transformado.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Amor

Meu mal foi te conhecer...
...
Foi não, meu bem,
Só assim pude crescer
...
Sem você.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Feliz Natal

Eu nunca fui pedinte
Fui sempre bom ouvinte
O papo é o seguinte
Agora eu vou falar

No primeiro dia
Você era a mais bela
Na segunda vez
Ainda uma donzela

Mas daí você me disse
Acabou, tá terminado
Não sinto esse amor-paixão
Dali eu fui pro chão...

Jogado na miséria emocional
Mastigando o pão amassado
Misturado e mesclado
Com as ervas do diabo

E hoje eu te vi
Um belo exemplar
Do tipo de mulher
Que jamais pisaria
Em meu lar

Usado, largado
Um náufrago ilhado
Totalmente humilhado
Foi como eu me senti

Um pierrô do amor
Seguidor do platonismo
Eu procurava nessa fé
O meu próprio iluminismo

Do céu para o abismo
Expulso do etéreo paraíso
Procurei fortalecer
No meu cruel cinismo

E hoje eu sei
Como ninguém
Que quando eu te amei
Eu vivia no além

Porém agora no aquém
É tudo mais Real
Obrigado, baby -
Tchau, tchau...

(Feliz Natal)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Conversa c'o pé preto

Afasta-te!

E sabe o qu'eu disse pro demo?
Aqui tu não entra, aqui eu não te temo
Aqui é o meu lar
E tu nem pense
Não na minha sala de estar

Vai pra fora, rabugento!
Cá dentro tu n'u m'engana
Dos teus dentes alvos...
Do teu belo corpo...
Tu cospe é chama!

Na minha casa eu tenho é muita gana
Um par de colhões, e um coração que me chama
Pelo nome e sobrenome
Vai-te embora c'o teu codinome!

No meu lar se alicerça minha vida
Esta mulher qu'eu tenho por mais querida
Aqui ninguém invoca rapariga!

Chegando mais perto...
Bancando o esperto -
Tu toma é cuidado
C'o meu olho aberto!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A Grande e Inegável Farsa



Homem, você já sentiu que essas guerras, Iraque, Afeganistão, esta que está sendo fabricada contra o Irã, são todas orquestradas muito antes de acontecerem? Porque não sei se você já parou pra pensar, mas levam-se meses, quando não anos, planejando o contingente militar que será posto em ação, a logística de equipamentos, armas, tanques, aviões, o dinheiro que será subtraído da população civil por meio de impostos "reforçados". Enfim, uma guerra não é nada que se inicie ao estalar de dois dedos. Uma guerra precisa de previsão, estatísticas preparadas de antemão, pessoas e mais pessoas empregadas no complexo industrial-militar, coniventes ou simplesmente coagidas monetariamente a entregar suas almas em prol de matanças em países estrangeiros, onde não se sabe nem o nome, nem a cultura, nem nada sobre seus habitantes - vistos como exóticos, perigosos, imprevisíveis. Mas não passam de pessoas como nós.

Armas de destruição em massa que nunca existiram. Um Osama Bin Laden que morreu em 13 de dezembro de 2001. Pois é. Até hoje eu ainda acreditava que ele estava vivo. Como a mídia nos engana. Um suposto Saddam Hussein tirado de uma "toca de coelho", metido entre pés de alface, e convenientemente na época do Natal (sim, faz anos...), quase um peru, que só faltou ir pro forno. Mas a guerra jamais parou. Reforços são enviados, e vêm à tona relatos de veteranos que perceberam o quão fundo vai o buraco abissal de mentiras, mentiras e mais mentiras. Os enganados somos nós. Parvos e tolos e mais preocupados com a morte de Sarah Fawcett, Lombardi, Patrick Swayze, ou Brittany Murphy. Mais preocupados com tantas coisas desnecessárias, enquanto o nosso presidente usa o termo "Merda" num discurso, e a claque toda aplaude, como se fosse legítimo da parte de um presidente soltar palavrões num País que precisaria é de um bom exemplo - e mais que isso, alguém que tivesse a devida permissão de governar - mas isso parece impossível com a gama de lobbies que se tem de enfrentar, ou diante dos quais o governante supremo se vê forçado a prostrar.

Um mundo em que qualquer palavra proferida contra a santidade israelense torna-se evidência de uma mente antissemita, algo tremendamente perigoso no mundo atual. Criticar o apartheid israelita é ser anti-étnico, é ser contra o povo que aquele Estado ilegal abriga. Mas que urtiga! Já nem mais podemos abrir a boca. Estamos todos livres para chamar Mahmmoud Ahmadinejad de negador do Holocausto, mas ele nunca disse nada disso. A Obama é conferido, numa piada de mau gosto, só pode ser, o Prêmio Nobel da Paz. Que paz é essa, homem? As tropas continuam no Afeganistão, no Iraque, e cerca de 30 mil soldados estão sendo enviados como reforço ao Afeganistão, que hoje supre mais de 2/3 da heroína consumida no mundo. Colhe-se a papoula, que será posteriormente transformada em ópio, e então em heroína.

Vivemos no 1984 predicado por George Orwell. Podemos enfiar a cabeça num buraco cavado na terra e fingir que nada disso está ocorrendo, mas está - e diante dos nossos olhos, atônitos ou dormentes que estejam. Não importa. A Verdade é Mentira, A Guerra é Paz, a Truculência é Auto-Defesa, Agressão é lugar-comum. A história rodopia em derredor de massacres e os abutres e urubus a sobrevoar, pairando sobre as carcaças de milhões e milhões de seres humanos inocentes. Detalhe: quem se beneficia de tudo isso? Os soldados voltam surdos e traumatizados da ilícita guerra, a ONU estima em 1 milhão o número de iraquianos mortos (em 6 anos de agressão), um sofrimento inenarrável, nós que vemos tudo isso e (ainda) não somos alvejados por bombas, condenamos, ou silenciamos, e de alguma forma percebemos que algo cheira mal, não vai bem, o elefante caiu morto no centro da praça e a fedentina teima em invadir as nossas casas.

Os políticos apertam mutuamente mãos frias, rostos sorridentes - como se houvesse por que sorrir. Sim, há a bela vida que temos pra sorrir. Mas não devemos esquecer o que se passa do outro lado do mundo, as ditaduras sob as quais os povos sul-americanos sucumbiram, na política da "Boa" Vizinhança (Good Neighborhood) estadounidense. Sim, as gerações passadas ao menos tinham o alento de ver a Ditadura diante dos olhos - podiam não acreditar de primeira mão, mas vinham seus amigos e escancaravam que havia tortura, sequestros, atividades criminosas acontecendo a torto e à direita, oficializadas. Já hoje as coisas vão mais aprimoradas.

Sim, vemos a dominação econômica. Uma vez ou outra somos obrigados a ver marginalizados nas calçadas, uma vez ou outra somos assaltados, um pequeno lembrete de que a economia força alguns para as extremidades, e das extremidades para fora do recipiente. Recipinete denominado sociedade - que, parece, não comporta todos os indivíduos que a compõem. Alguns grandes criminosos nunca são pegos, a não ser pela morte - que o diga Celso Pitta, Antônio Carlos Magalhães. José Sarney, Paulo Maluf e Fernando Collor? Nem pensar... o governador do Distrito Federal (vulgo Brasília, vulgo "capital do Brasil") enfia dinheiro desviado onde bem entende, e nada lhe acontece.

Se um dia você virar um figurão, e quiser surrupiar dinheiro destinado a causas mais nobres, ditas sociais, ou pró-desenvolvimento, descubrirá que, tendo cuidado, dificilmente irão te pegar. A cultura da impunidade germina cedo na (ausência de) alma de alguns - talvez uma boa parte da população. Eu estou cansado de escrever, eu estou cansado de hipocrisia, e repito que um bom cidadão deve participar. E para participar, ele tem de ler assiduamente, criticamente, ferrenhamente. Questionar, indagar.

Vivemos em tempos de Ditadura Silente. Você não sente, mas ela sequer precisa se esconder. Temos medo de fantasmas, eles nos assombram facilmente, e preferimos criar toda sorte de artifícios para não visualizá-los e mijarmos nas calças de medo. Mas ignoramos que só uma criança que mijou a calça de medo pode aprender a lidar com o medo de uma forma inovadora. Nós temos medo do medo. E assim a sociedade se arruína.

E o único remédio que eu posso recomendar é sott.net. Sem o que nada do que escrevi teria sido minimamente possível. O trabalho desses caras é mágico - notícias garimpadas de cada um dos quatro cantos do mundo, atualizado rigorosamente todos os dias do ano, cobrindo uma vasta atualidade frequentemente deixada de lado pela mídia toda-poderosa. Há sete anos iluminando minha vida.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Vida

Fluida, empedernida. Um sopro: tudo lembra e tudo olvida.


Minhas pernas me levaram pelo centro da cidade. Andando depressa e observante, vi o homem no canto da calçada, as costas curvas, cantando música sertaneja de raiz. Sentado num banquinho, se esforçava em entoar alto, que as pessoas ouvissem sua arte. Poucos pararam para escutar as belas palavras. Não lembro se trazia chapéu à cabeça, de quantas cordas tinha o violão, se usava bota ou sapato ou tênis. Não lembro se era calça jeans, nem a cor da camiseta. Na verdade, de pouco me recordo. Costuma-se dizer que o mal observador se lembra apenas do que o impressiona, o restante passa-lhe despercebido.

Lembro-me que sua voz por pouco não esganiçava, que ele tinha as feições de um homem de 65 anos, que seu rosto era macilento, e um tanto repuxado pela quase total ausência de dentes. E mesmo assim cantarolava, e bonito. Via-se que ele acreditava em sua arte, por mais que os transeuntes ocasionais, de índole crítica, buscassem esmiuçar em sua aparência e simplicidade, os sintomas de uma música ruim; ele mantinha-se firme ali, recurvo sobre o violão, rosto voltado pra cima, como a antena que amplifica a transmissão. O rosto que visa o céu.

Esse homem talvez eu não mais veja. A possibilidade na verdade é uma probabilidade. E a probabilidade me diz, numa voz límpida, que uma pessoa jamais deixará de ser uma pessoa, e esse estatuto jamais será reduzido ou realçado pelo o que ela aparenta ser. Vivemos num mundo em que as aparências precisam ser desvencilhadas da essência, porque tratamos aqui de superfícies lisas, luzidias e escorregadias. Precisamos aprender muito para penetrar no âmago das coisas. Dos nós que damos em nós mesmos. Até lá, seremos bolhas em conflito com milhões de outras bolhas, ignorantes do fato que estamos prestes a estourar.

Algo enganoso nos faz pensar que somos dalguma forma fortes e valentes, mas sequer percebemos a fragilidade de tal concepção.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Consciência Limpa

Eu não tenho a ambição de ser porta-voz de ninguém. Mas já vi e ouvi o suficiente pra me convencer de certas coisas, determinadas práticas, que tornam o policial em justiceiro, e o justiceiro em assassino. Isso eu abomino. O colarinho branco sempre se safa, o ladrão de galinhas sempre se fode. Os políticos corruptos se unem pra engordar a gorjeta e todo dia eu vejo sujeito estirado na sarjeta. Eu pensei: uma vez ali, o difícil é sair - mas nossos governantes não estão nem aí. E quem os elegeu, tampouco. Nós. Cada um confere o próprio nariz, constata se este se mantém arrebitado, no lugar corriqueiro, e facilmente se esquece que a Matriz permanece a mesma pra todos - e que este, e somente este, é o nosso plano Real de existência, ou desistência, como o queira chamar.

*

O PM me parou
Um cuspe voou
Da boca dele no meu rosto
Um puta desgosto

Acontece, pensei
Acontece sem querer
Mas ninguém paga nego
Pra gritar e berrar
Sem poder me defender
Isso é humilhação

Me empurrou na viatura
Revistou, insultou
Perguntou:
"Ê, neguinho safado,
Donde veio esse Rolex roubado?"

E daí pro camburão
Injusta detenção
Aquilo foi é plantado
Mas como eu vou provar
Não tenho advogado
Meu rosto detonado
De tanto esmurrar

Me meterram numa cela
Superlotada
Me desonraram e disseram:
Procedimento Padrão

Vou me matar enforcado
E morrer como ladrão
Um guerreiro enganado
Sufocado na prisão

Não consigo nem me olhar no espelho
Já não me serve conselho nenhum
Eu queria é viver
Inserido no meu meio
Minha família, meus trutas
Meu trampo, meu esteio

Falou, sangue bom
Não quero virar carne
Nesse mundo de cão

Um cara inocente
Transformado delinquente
É um cara decente
A menos
Na rala sociedade

É um mundo doente
A dura realidade
A morte do inocente
Germinada na maldade

O pobre não é gente
É burro de carga
Soltou toda a merda nele
Agora puxa a descarga.

Façavor.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade: Assalto

Publico aqui o belíssimo vídeo realizado pelos meus grandes amigos de escola, cuja criação data dos princípios de 2008. Um ano marcante, sem dúvida. Baseado, como diz o título, no poema de Drummond.


Vai abaixo o poema completo:

*

No quarto de hotel
a mala se abre: o tempo
dá-se em fragmentos.

Aqui habitei
mas traças conspiram
uma idade de homem
cheia de vertentes.

Roupas mudam tanto.
Éramos cinco ou seis
que hoje não me encontro,
clima revogado.

Uma doença grave
esse amor sem braços
e toda a carga leve
que súbito me arde.

No quarto de hotel
funcionam botões
chamando mocidade
fogo, canto, livro.

Vem a quarteira
depositar a branca
toalha do olvido
insinuar o branco

sabão da calma.
A perna que pensa
outrora voava
sobre telhados.

Em copo de uísque
lesmas baratas
acres lembranças
enjôo da vida.

Ponho no chapéu
restos desse homem
encontrado morto
e do nono andar

Jogo tudo fora.
A mala se fecha: o tempo
se retrai, ó concha.

*

link

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Relatos estrangeiros

Sem rodeios nem floreios
Eu quero te contar
A seguinte história
Vai agora começar:

O sal do mar ardendo os olhos
O sol do mundo abraseando
O limpo céu causando risos

A alegria de estar vivo
Gota a gota escorrendo
Pelo crivo do tempo

A contagem inexaurível
Que o corpo nu'acompanha
Nunca pôde acompanhar

Na parca vida só há esta façanha
O eterno retorno ao lar

O despertar da jornada
E as estrelas como guias
Mais esta caminhada
Pelas sendas mais esguias

Mais uma tentativa
Seguindo as rochas frias
Pega embalo a comitiva
Todo dia é santo dia
De se plantar a alegria

Ante o suor do esforço
E o cansaço do mormaço
Nossos olhos reluzem
Sob a sombra das nuvens...

Penugens ao vento.

Sabor do Saber

O sol no horizonte
Etérea ponte
Entre homem e céu
Eterna fonte
Ao homem incréu

Os braços cruzados
Os olhos erguidos
Os pés já cansados
E o grupo de amigos

Debruados sobr'a orla do mundo
Num anseio
De contar e abranger
Olhar e ouvir
O elixir do diálogo

Quanta vida, gente
Quanta vida aqui presente
Tanta vida a alma sente.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Revolta!


cartum: Latuff

Famílias nas ruas
Vivendo nas calçadas,
Deixadas
Pra rezar pro céu
Pra rogar perdão
Mas não!

O céu vem depois
E o que fizemos nós
Pra tirá-las da miséria?
Aqui não é Argélia, Nigéria
Vivemos no Brasil

Terra da alegria
Mas que alegria é essa?
Vivendo com pressa
Virando a cabeça
Pro lado
Quando vemos o sujeito
Marginalizado?

É esse o futuro da Nação?
A precária educação -
A probreza - tristeza
Uns poucos comem ostra
A maioria sobrevive
À base de pão - que o governo amassou
Ladrão.

Que futuro é esse, meu irmão?

O País do futebol
Eterno besteirol
Cerveja, carnaval -
Cara de pau
Opressão medieval

Chega de mentira
É hora de agir
Expressando a nossa ira
Nós vamos resistir!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Coming to Terms


Once I believed in love
It was truthful and all-embracing
It was joyful and ever blissful
Everything that ever mattered

Two souls fusing into one
Synchronicity plus simplicity
It was a matter of fact
That two persons should bond
And deep down care for one another

This way I was plunged
Into the depths of hell
My own hell
My own self

I was cast adrift
In the midst of the relentless sea
My eyes were shut
Light made me blind

The unbearable pain
Made me refuse to hold
For once
My entire life bare naked

For all I believed
It couldn't be real
No way could I turn so empty
From one day to another

It was a pang bang
Murdering my soul

***

But now I know it better
All my tears had their reason
Today is a brand new day
It's wholefully mine

Come rain or shine

Bein' in love is cool
But when it ends
You play the fool
... and you never knew
Where you stood

You stood on the razor's edge -
That sudden slip cut you in two...
Pretty hard to tell
Who's who

The one part you love
The one part you hate
On and on goes the debate
Without knowing who you really are

Long forlorn the kind embraces
The first loving kiss
The unforgettable bliss

It is past
Though it'll last
But you've got your own story
Now to tell
The days you lived
Your very particular hell

...

Boy, what an empty shell.

Jesus' Verdict

I confess
For some I came as a curse
For others, just like a bless

And I'm no nurse
To sort out this mess

From the day I was placed on the cross
Humanity was at a loss.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Piparotes Diários

Fumando sem nada na barriga
Pensando naquela rapariga
Ô diacho de ferida!
Que não cala e não sara

Ora sara e reabre
É um golpe de sabre!
O meu cor cá morrendo
Azedo, vinagre

Um estoico me disse:
Mais sofrer, mais ensina
Eu cá não sei...
Tão triste sina!
Tanto sofrer desanima!

Melhor mulher não há...
Cantou o sabiá
Já sei, já sei...
Mas ond'hei de achar?

Ou serei eu o achado...

Ah, Fado malvado!
Ensina errado ao pupilo aplicado
A quem resta chorar, confrangido
E sofrer resignado

É tudo, então, uma peça, uma troça?
Tamanha brincadeira insossa!
Do início ao fim da vida...

É de embrulhar a barriga.

Sorte Citadina

Qual sorte a nossa!
O perfume pós-banho
Cheirar a Tietê -
Vulgo: fossa.

Curtir o forninho do vagão
A encoxada do busão
Epa, rapaz! Ó a mão!

Funk gostoso esse, mermão
Esse samba tamém é legal
Só não quero morrer nesse caixão
Que nada tem de genial...

Passa a mutuca, Joe!
Vamo incinerar
Esse charles charmoso
Pra relaxar

O dia foi duro
A mulherada disse não
Uma puxada tudo passa
Os óio fica vermeião

Dá uma fome que embaça
E aquela sede de cão
Puxa de novo que passa...
Ah... Paz...
Essa é a nossa religião

Disse o barbudo:
A religião é o ópio do povo
Mas o povo, papudo, se encheu da analogia
A gente quer é maconha
E fumar sem vergonha...
Nossa ordinária orgia

Pão e circo que nada...
A gente é mais beque e muié pelada...

O Saco Cheio D'água

Moacyr Lopes Junior-08.dez.2009/Folha Imagem

Milagre!
A água uniu
Rua e rio
Tempestade

Nos deixou
Tremendo de frio
No torpor da cidade

Buzinas de moto, de carro
Um cuspe, um arroto, um escarro
Ninguém se lembra dos índios navajo
Nossos pés estão sujos de lama

A madame, irascível, reclama
Sentar-se no carro é deitar-se na cama
E a madame ainda se inflama

Oh, Grã-cidade estagnada!
Das sujas ruas sem pelada
Nossa vida: refinada, poluída -
Inundada
Nossa alma esburacada,
Grita em dor -
Congestionada.

O cruzamento -
Encruzilhada
O primeiro tiro certeiro - Paf!
Eis a moto derrubada.

Bem-vindo à nova ordem!
E um brinde final:
À inescapável morte!
Hoje coletiva e civilizada,
Nesta triste bacanal.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Pollyanna


Que livro fabuloso, tanto o primeiro (Pollyanna), quanto sua sequência (Pollyanna Moça)! Escritos por Eleanor H. Porter, o primeiro em 1913 e o segundo em 1915. Foi com estes que a autora tornou-se aclamada mundialmente, e deu à luz esse nome um tantinho surpreendente, misto de Polly + Anna, dois nomes femininos até então (creio eu) dados apenas separadamente. Aliás, eu conheci uma garota chamada Poliana, no dia 9 de junho deste ano, o dia em que a polícia "brincou" de pega-ladrão conosco, estudantes uspianos, dentro do campus da nossa querida universidade.

Bom, preciso dizer que eu nutria profunda desconfiança por esse romance que havia caído de repente na boca de todos, desde os meus pais até a nossa geração - ouvi outro dia meu amigo explicando a origem do nome, e fiquei intrigado: ué, se todos falam, é porque algo tem. Não necessariamente, mas bem capaz que tenha! E continuei empurrando para baixo o impulso de pegar o livro e lê-lo para sanar essa dúvida.

Por um total acaso, acordado de madrugada (não lembro se por algum pernilongo ou outro motivo igualmente forte), fui vasculhar o interior de uma das estantes aqui de casa. Ela fica bem pro alto, e sempre dá vontade de olhá-la! Preciso de uma escada para alcançar seus volumes, e subir - para alcançar as prateleiras do topo - até último degrau, o que é emocionante o suficiente para uma alma aventureira como a minha. Foi então que descobri que ali estava, intocado há anos e anos.... Pollyanna! Traduzido por Monteiro Lobato, então... mais uma razão para abri-lo, investigá-lo, tocá-lo... enfim, todos esses sutis prazeres desfrutados por nós, bibliófilos.

Que estória maravilhosa nos apresenta a autora: uma garotinha que brinca do "Jogo do Contente". O simples - porém desafiador - jogo consiste em contentar-nos com o que temos, não importa o quão ruim, ou o quão abaixo de nossas expectativas iniciais. No começo, franzimos a testa para tal iniciativa: parece, naturalmente, otimismo demais para ser posto em prática! Mas descobrimos que com isso Pollyanna consegue mudar as pessoas de uma maneira radical. Isto é, porque ela vive o jogo, e sua natureza expansiva a faz convidar completos estranhos a dele participarem, operando mecanismos de cura insconscientes, e assim se aproxima de tais pessoas e toca seus corações de modo inenarrável. É uma estória fabulosa, visto que não pressupõe uma evangelização das pessoas, uma pregação de sermões, uma exegese bíblica.

Ela simplesmente age numa maneira altruísta e exploradora de ser, numa ingenuidade impressionante, sem distinguir pobre de marajá, branco de preto, novo de velho. Para ela, todos são potenciais jogadores do Jogo do Contente, e, sendo assim, não há diferenciação de uma pessoa para outra. O que quer dizer que todos são potencialmente bons seres humanos, ainda que não tenham descoberto uma maneira de sê-lo. Incrível como ela põe esse jogo em prática, jamais se isolando numa redoma de falso contentamento. Não, esse contentamento é algo que é parte integrante dela, e seus frutos logo amadurecem de um jeito esplêndido. Pessoas entediadas com a vida, ou mesmo enfermas, descobrem que há pequenos prazeres que podem ser gozados e esse simples contentamento é algo que pode mandar de um minuto a outro sua miséria existencial embora!

Claro que, sendo um romance, a autora achou preciso obstar o caminho do pleno contentamento com desafios dignos de serem superados. E assim se desenlaça a estoriazinha catequizante - embora nada tenha a ver com religião alguma. Propõe-se, sim, uma religião da alma, e os seguidores são livres para agir conforme seus princípios ou não. Quem não for de acordo, não será mal-visto. Pelo contrário, terá em volta pessoas que se sentem melhores após terem começado a tomar desse antídoto, e tais exemplos podem, como não podem, ser seguidos.

Pollyanna Moça traz novas dificuldades para ela, porque na vida adulta é que normalmente deixamos nosso espírito brincalhão e bonachão, e a feliz bonomia de lado. E ela adentra esse mundo com seus passos vistos como infantis, inapropriados para alguém que está crescendo e precisa entrar nos conformes da sociedade que a enroda e já segue uma certa rigidez de costumes - entre eles: bancar o sério, exigir, demandar, depreciar o serviço mal-feito, mas jamais elogiar o feito corretamente.

Pollyanna, tem, portanto, uma jornada cheia de pedregulhos para seguir. E sabe-se que é tarefa impossível a qualquer que seja chutar para longe todos os pedregulhos do caminho, simplesmente por nos incomodarem. São muitos, e dalguns precisamos necessariamente nos desviar - esses são, aliás, grandes demais para os nossos pés. Acabariam por nos machucar, e disso não gostaríamos nadicas. Vê-se ela, portanto, diante do problema de como continuar pondo em prática um mote de vida que é visto como tipicamente pueril, apesar de não sê-lo. E, ainda por cima, continuar praticando-o quando já não se é mais um infante, e já não se tem sobre si olhares na maior parte benévolos e compreensivos.

As críticas hão de vir, mas sua força de espírito e d'alma reinará. Como se dá isso? Só lendo esses dois curtos volumes! Eu ri muito com essa obra. Redescobri a importância de ver, nos pequenos momentos, os mais majestosos, porque simbólicos da fragmentação do Uno - e facetas do Real, o Numênico kantiano, invisível a nós, pobres mortais. Mas que, em vida, muito podemos fazer - por nós, e, indiretamente, pelas partes interessadas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Sem título

Quer o homem
Pode o homem
Chama Deus:
As mágoas somem

***

Apregoar um sentido estritamente cristão, islâmico ou judaico aos versos acima por pouco não me fez demover de publicá-lo. Iria adicionar à primeira estrofe uma segunda, ou mesmo compor uma peça inteira, mas achei que a primeira bem poderia ser a única. Eu mesmo não sei, cientificamente, que é esta que promulgo nestes versos. Gosto de templos, aprecio visitá-los, mas o mesmo não posso dizer da religião que neles se instala. A paz que se atinge no interior de um templo é inefável, mas os sermões não me servem. Prefiro ver antes um sorriso, com dentes ou sem dentes, perfeitos ou imperfeitos, postiços ou não, com a única condição de que venha do coração. Sorrisos assim, e pessoas assim, vêm sem pedidos ou rogos, intervêm sem saber. Eis a segunda stanza, malgrada, creio eu:

***

Eis sua fé: firme e forte
Vence o medo, o fado, a morte
Indica o certo, o meio, o Norte
Eis sua fé diante a morte.

***

Malgrada, porque acho que de nada vale desembainhar uma espada cega e embaciada. Uma espada deve reluzir, e necessariamente cortar. Caso contrário, deixa de ser espada. A analogia se estende ao poema. Algum gérmen deve trazer em si, não se pode ater meramente aos recursos estilísticos. Os parnasianos eram, aliás, mestres na rima, na métrica, mas o tema era, majoritariamente, esdrúxulo. E a quem hoje apraz tais versos, há longo tidos como desprovidos do 'fulgor poético'?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

As Três Vertentes do Mal

A ira não é senão um movimento súbito
e desarrazoado que nasce de impulso
determinado pela amargura sentida.
Ela é quem expulsa qualquer laivo de
razão; que ofusca os olhos do espírito;
e que desperta ebulientes furores em
nossa alma.
(Decamerão, de Giovanni Boccaccio -
4ª Jornada, 3ª Novela)


Vingar-se
é trair-se é matar-se. Implausível a não-remetência. Vingar redunda à traição, que redunda à morte. Matar-se é trair o intuito que o trouxe ao mundo, que é conhecer-se, queimar-se nas labaredas dos desafios, cortar-se na lâmina da navalha, para, somente então, aprender a equilibrar-se, incólume e ereto, sobre o fio afiado, cortante, e frio. E matar-se é ultimamente vingar-se dos outros, porém arrancando com os dentes a própria pele. O que é, concordo, um martírio flamejante, mas ainda assim um extirpar da própria existência. Trair-se, por sua vez, implica matar um caro ideal, inflingindo a si uma perda lastimosa. No fim, também uma vingança, devidamente brindada, da parte do mal contra o bem que há em nós, e só a nós é dado conhecer. Ou melhor, dado não, mas revelado, na escuridão hiante e medonha da noite. Cuidado, pois, com o ciclo tríptico vicioso. Quem quer o mal, pratica o mal.

***


1. Trair-se

O furor do assassino
Nos olhos de menino
O amado, enganado,
Homicida despertado

Vãos punhos hercúleos
Maculando a própria força
A hombridade nem nisso reside
Só o leva à forca

A vã glória: vingar-se
Do vil ato feito
É o sujar da memória
Destino imperfeito

Deitar-se no leito
Assombrado, marcado
Qual gado - o cor quebrantado
Só o ódio satisfeito.

2. Matar-se

Ao Gabriel, que ficou de pegar emprestada a
minha versão d'O Admirável Mundo Novo. Não
tendo corda para dar cabo de si (à semelhança
de John, o índio), acabou por defenestrar-se, a
exemplo de Chet Baker. Por causa de ti, ido
amigo, Brave New World jamais me faltará
à mente. John és tu - perfeitamente tu.


Incompreendido, imberbe, e só
Viu na vida sua pior faceta
Olhar-se no espelho, sentir dó
O peso de vir ao mundo

Imundo, mal a mal lavou o rosto
Viu-se de novo - puro desgosto
O que é a vida? Uma existência empedernida...
De sol a sol fadiga e a dura lida...
Isto não é vida

Nasci velho - morrerei jovem
Nem as lágrimas maternas me movem.

3. Vingar-se

Ver-te com outro
Sem verter-me em pranto
Nem bêbado, nem ébrio,
Nem por encanto

Antes sorveria em copos
As lágrimas da chuva
Derramaria com socos
Todo o sangue da uva

Provaria a transubstanciação
Todo o enunciado do Evangelho
Morreria de aflição
Vivendo a vida de um velho

Perdoar eu não perdoo
Seria, sem asas
Alçar o meu voo
Queimando, nas brasas
Do meu próprio enjoo

Querer-te bem eu quero
Mas, cá entre nós,
Sem mais lero-lero

...

Eu o matei
Naquela noite
Atado ao poste
Vergastado no açoite

E agora te mato
Depois eu me mato
E mato teu gato
E o rato também.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Doar Vida

Ontei doei sangue. Doei em nome da irmã da ex-namorada de um amigo que eu conheci trabalhando na exposição Bossa na Oca, que aconteceu de 07 de julho a 07 de setembro de 2008. Há mais de um ano. Nunca mais vi o Samuel, e sua ex-namorada, a vi uma única vez, ainda na condição de namorada. Quanto a irmã, nunca a vi na vida. Todavia, felizmente, os pedidos de ajuda chegam longe.

Suei a noite inteira, rolava de um lado para o outro ansioso, deixando o lençol extremamente úmido e cada vez mais dificultoso par'eu pegar no sono. Dormi muito pouco, minha mãe me acordou. Havia agendado minha doação pelo site do Centro de Hematologia de São Paulo, que fica próximo à estação de metrô Brigadeiro, linha verde.

Exercitei-me de manhã, comi bem, pus uma camiseta verde, porque eu gosto da palavra Esperança, e sempre a associei à cor verde. Torço pro Palmeiras também, mas isso é indiferente. Acho que só torço pra esse time por causa de sua cor, o resto é baboseira futebolística. Assisto à maioria dos jogos, mas e daí? Life goes on, man. Ganhar e perder são fatos diários na vida de quem estuda, trabalha, ajuda em casa, tem amigos, ou seja, alguém como qualquer outro.

Não faço do blog um diário, mas abro hoje uma exceção. Já consolidei meu pensamento com o meu irmão: Só não tem medo de agulha quem é sado-masoquista ou quem injeta drogas, lícitas ou ilícitas, em si mesmo. E gostar de sangue eu nunca gostei. Passo mal de ver, minha cabeça gira, aí tudo é neblina e branquidão. Aconteceu isso também quando eu estava doando, mas foi quando tiraram a agulha, e logo as bem-intencionadas enfermeiras me abanaram um pouquinho, me conforaram com palavras, me trouxeram um suquinho bem doce de uva.

Normalmente, o açúcar é uma coisa que eu abomino. O único açúcar que eu consumo é o presente na cerveja, e minhas libações são cada vez menos frequentes. Abandonei a fase Baco da minha vida. Quando tomo, eu gosto de brindar Heineken. Propagandas de lado, eu posso dizer que eu só doei porque eu quis. Meu pai, minha mãe e meu irmão nunca doaram. Que eu conheça, da minha família, que doava, era o meu avô. É, ele fez da vida dele uma série de bons exemplos. Merece minha mais grata saudação por ter sido um ser humano digno, sanguíneo, homem tal qual não se faz nesses tempos modernos. Um forte - de alma, de corpo. A força e o vigor da hombridade exsudavam de sua pele como a sempre presente evotranspiração da floresta amazônica. Era uma aura que ele portava consigo. Voltemos, porque não é minha intenção traçar uma biografia desse homem magnífico aqui. Primeiro porque daria muito trabalho, e o Jazz da Cultura está prestes a terminar.

Então é isso, pessoal. Fui lá, fui bem atendido, bati uma boquinha bacana com os lanchinhos gratuitos, com o suquinho de uva doce doce, e papeei com todas as enfermeiras e os compadres doadores, como é de praxe a alguém que tem medo dos procedimentos, da picada, da grossura da agulha. Termino este post descrevendo uma sensação de maravilhamento quando vi a espessa agulha me espetando.

No momento em que eu fitei a agulha, fui abraçado por uma segurança plena: Eu vim aqui porque eu quis, e só estou fazendo isto porque eu quero. Naquele momento deslumbrador, qualquer dor ou desconforto me deixaram de vez. C'est la vie, mon ami, c'est la vie!

Usando a frase rocambolesca e agramatical atribuída ao nosso polêmico Jânio Quadros, fi-lo porque qui-lo. Ho ho!

Life is funny, boy!
(screenshot do filme Breakin'[1984])

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Good Night, Sweet Girl

Inspirado em parte no filme Brincando de Seduzir (tradução insensata, o nome original é Beautiful Girls, ou seja, Garotas Bonitas), 1996, do diretor Ted Demme. Belíssimo.


Tentei pensar no termo humanidade
Sem falsa sensação de intimidade
Não pude senão sentir saudade
De momentos não vividos nesta vida

Que escorre e morre, ressentida
Sob o duro sol da nossa lida
Minha amada, minh'amante,
Mia querida

Que é que podemos nesta vida...


***

E ela me disse:
"Podemos muito, amor
A começar pelo agora."

"Fazer de cada dia um'aurora
E viver esta vida, esta hora
Ao sabor do sol, que ri e que chora
Você meu senhor, eu sua senhora
Tua face enrubesce, o meu rosto cora"

"Somos duas vertentes
Do amanhã, do agora..."

+++

E meus aplausos à artista ucraniana Kseniya Simonova, por esta obra pungente, marcante e humanizadora. Acerca da guerra, invasão e ruína de seu país, e da hecatombe dos sonhos de toda uma sociedade. Palmas!:


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Amor e Paixão - Qual a Relação

Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão - do grego pathos, que designa a situação em que sou passivo (em oposição à ação) e minha razão fica inibida - não é boa juíza de caráter ou de relações (...). O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu "eixo") sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. O amor apaixonado não substitui minha obrigação de saber quem sou, o que eu desejo, o que vou fazer. Mas, como a paixão não é amor, isso não reduz o sentimento mais profundo pelo outro. Apenas coloca na ordem do dia uma questão que afronta o consumismo afetivo de nosso tempo: a necessidade de converter o entusiasmo passional, que leva ao erro, em amor. A mídia fala muito em paixão, pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que "foram felizes para sempre" só é possível com o amor, não com o fulgor passional.

***
Renato Janine Ribeiro, professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo. In: A Insuportável liberdade do Amor, artigo publicado no caderno "Aliás", do Jornal O Estado de São Paulo, domingo, 22/11/2009.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ei, flor!

Te ofereço esta rosa
Cheirosa, dengosa
Como você

Que me espreita
Me olha
Mas nunca me vê.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Awake

What kind of world is that we live in
When all that matters is to win
Where love is mistaken
Our souls firmly shaken
On a fiery foundation
Contempt for another man's nation
And utter isolation

What kind of world is that we live in
When daily pleasures are taken as sin
Our values stepped upon received
With a goarish grin

Aye! Man must find a way
Farther than kneel and pray
The strongest bridge will sway and fall
A novel man born from a fissure small
A new beginning for it all.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Nature's Call

Early midnight spring
What news do you bring?
Will you rip my heart open
For me to finally sing?

My soul is soaken
My bones are broken
Not a word left unspoken
And yet no king to be seen...

Though nothing is as it seems
I guess... one nightmare... has killed all my dreams.

May I be wrong

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Louvor aos dias que seguem, incólumes

Todos os velhos foram jovens um dia, como nós
E também pensaram que a doença não viria
Jamais estariam sós

Rostos vetustos, maduros, marcados
Pelo tempo timbrados
Sorriram em seu dia
Como a rosa em botão
O Sol reluzia
Sem jamais cogitar solidão

Todas as broncas e reprimendas que recebemos
Todas as vezes que os mandamos aos demos
E as torturas que na vida sofremos
Sulcaram suas almas também

Gerações antecessoras, tais quais as vindouras
Creram na juventude eterna
E o tempo insaciável respondeu - com a finidade da vida
A morte materna

Promessas não cumpridas, o tempo as desfez
E a seriedade com que se leva a vida
Tornou-se insensatez.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Ex-perança

Nós górgios nos prendem
Tua mão à minha
Em vã e fominha esperança
Perfuras meu cor com tua lança
E prostras teus olhos de cabra em mim

Impondo em mim teu sigilo
Teu segredo - dás-me ânsia
Sinto medo
Não diz agora essa palavra -
Ainda é cedo.

O que há de errado nisso?
Não firmamos compromisso...

Cada um pra sua praia
Você de calça, eu de saia
Você de jeans, eu de cambraia

Fundir-se é termo ultrapassado
Amar é coisa do passado
Amor é manco, cego, surdo, mudo...
Um velho retrogrado

Eu fui seu ideal - e você
Mais um ex-namorado, ou melhor:
Namorico, ou melhor:
Um incômodo fardo.

****

Duas notas: o eu lírico é feminino do início ao fim do poema, e eu o atribuo a uma pessoa que deixo sob a égide do anonimato. O que tal pessoa pensa (ou, ao menos, o que eu supus que pensasse), não condiz em nada com que eu penso. Eu acredito no amor - não por ingenuidade, mas porque tenho exemplos da vida real para me fundar. E, para mim, nunca houve um "cedo demais". Isso é restrição, é baboseira, hoje me faz rir. Mas quando ouvi da boca dela, me deixou bastante chocado. Talvez fosse cedo demais para ela, mas de forma alguma para mim. Enfim, se não é mútuo, não é verdadeiro. Ao menos nisso ela acertou. Ah, e todas as falas do poema são dirigidas da parte dela para mim, ou seja, eu sou o receptor dessa mensagem suficientemente incisiva (para quem acreditou amar do fundo do coração). Só posto isso porque faz parte da minha maturidade emocional. Hoje eu tenho os olhos bem mais abertos, o diálogo bem melhor construído, e nem por isso deixo de crer no poder edificante do amor genuíno. Eu tenho como firme crença artística minha que o poeta não deve ser hipócrita com a própria vida - não que seus poemas sejam necessariamente autobiográficos - nesse ponto, vários poemas postados neste blog podem ser tomados como exemplo. Mas detrás do poeta está uma pessoa que se esforça por viver uma vida não-hipócrita, e avessa às mentiras, calúnias e seduções mesquinhas.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Olhar c'os olhos

Ó, doce vida, como é duro despertar!
Vogo a esmo pelos mares, sobre as vagas a sonhar...
Ó, doce vida, como é triste despertar!
É tão lindo o sol poente, que me põe a ponderar...

Ó, doce vida, como custa despertar!
O sol, a lua, o vento me impelem a lutar...
Ó, doce vida, a que custo despertar!
Quando o amor se vai e a alma se desfere a gritar...

O amor perdido, assim fundido
Na tristeza do viver
A paixão arrefecida, relegada
Ao sofrer
O ser humano, cabisbaixo, boquiaberto
Em sua ânsia de enxergar
O pôr-do-sol, a lua nova, e o que mais há de mudar...

Luziluze cudelume

Teus olhos, como fogo
Acalentam meu lar
São fagulhas que pululam
E a tocha a dançar

O pirilampo incendiado
Pelo brilho da chama
Morre agoniado,
Clama em terror:

Sei que és luz,
E a ti eu procuro
Alumia minha breve estada no mundo -
Me arranca do escuro!

Não há flama mais
Forte e ardente
Eis, no ocaso, a sorte
Dest'alma penitente

Minhas asas faíscam
Minha prece esquecida
Minh'alma fenece -
Perco a vida.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Encounter

All of a sudden
You die - and you can't remember
Why
All of a sudden
You cry - and you don't know
Why
All of a sudden
You doubt - it ever really
Happened

[Perhaps just a lie
But is sounds so true... -
Who are You?]

Why are you hidden?
Why can't I see your eyes?
Why am I smitten
By your woeful, midnight cries?

When will I find
You?
Oh, it really doesn't matter
There're still many a glass
To break and
Crash and
Shatter.

sábado, 17 de outubro de 2009

As Simples Coisas

Benjamim, meu amigo. Quando nós não temos força para levantar, nos levantamos mesmo assim, não é mesmo? E quando falta força para gritar, soltamos o grito dentro d'alma, não é assim? Pois é esse meu presente estado. Conto as horas dormidas à noite, preocupado em reter algum ritmo à minha vida. Qualquer que seja, este já é o primeiro passo. De uma longa caminhada? Quem sabe.

Lembro-me que foi mais fácil compreender a depressão em você, que a exprimiu, que em mim. Pois como proferira um sábio já morto, é uma característica comum aos homens ver mais facilmente as falhas nos outros que em si próprio. Perdemos o apetite, ficamos como que pasmos, incapazes de usufruir os devidos momentos de alegria que nos vêm no dia a dia. De súbito, notamos que rimos e sorrimos pouco, e quando o fazemos, é com certo pesar.

Cortei meu dedo sem querer ontem à noite, no fio do canivete. Sabe que eu nem senti a dor? O sangue fluía vermelho, e eu nem sequer me assustei. Segui com o que estava fazendo, até meu irmão exclamar incrédulo com o absurdo da situação, e meu organismo puxar as rédeas. Sim, além do meu irmão, meu organismo ordenou-me, imperativamente, pôr fim àquilo - não fosse pelos dois, eu continuaria, como alguém desprovido de vontade própria. Um autônomo, um robô com funcionamento pré-ordenado, mecânico, insensível.

E apesar de toda essa insensatez conosco mesmos, volta e meia damos conta da estranheza da situação, não concorda? Creio que você também, em certos instantes, pergunta-se o porquê do dia passar tão rápido e por que mesmo os momentos mais únicos, singulares, irrepetitíveis do dia simplesmente passam e vão, sem que dispensemos maior atenção a eles. Deixamos de perceber que algumas circunstâncias, providas de maior carga emotiva, nos animaram aqui e acolá no decorrer das horas. É como se o cérebro entrasse sem prévio aviso num estado catatônico passivo, em que põe igual peso às mais variadas vivências, e assim nada mais pudesse nos abalar. Sugiro que seja um mecanismo de defesa, mas extremamente falho no que tange à assegurar uma vida plena. No máximo, garante nossa sobrevivência. No máximo, porque, nos nossos casos, o suicídio não é uma alternativa incomum. Reitero: longe de nós entrever tal possibilidade!

É agora que escrevo a você (esta carta aberta) que me recordo de alguns desses instantes que fizeram meus olhos luzirem e minhas bochechas corarem, num sopro de vida que veio e se foi. Mas, pondo-os no papel deste caderno, à tinta azul de uma caneta Molin, e com as páginas devidamente numeradas e datadas, tenho a esperança de que no futuro tais momentos possam me trazer de volta à tona. Já não aguento mais essa submersão, esta falta de voz. E o pior é reconhecer que o algoz somos nós. Quero subir à superfície mais uma vez, ver o Sol enquanto ele ainda existir. Sonho que isso aconteça num futuro próximo.

Vamos aos fatos. Na faculdade, mais especificamente no ponto de ônibus, eu aguardava minha linha, Jaçanã. Ele parou, eu entrei, não sem hesitar na porta, já que eu vira vir correndo uma garota, na óbvia intenção de alcançá-lo, e eu era o último do ponto a subir. Puxa, pensei. Mas foi eu subir que o motorista fechou a porta. Fiquei estupefato - aliás, o ônibus não estava lotado! Todos os passageiros estavam sentados, sobrando lugares, e não havia explicação para ele deixar um passageiro pagante para trás. Vamos lá, meu amigo, o que são meros 5 segundos de espera, no máximo (se ela tropeçasse) 10?! Daí veio minha voz embargada ao motorista: "Tem mais um passageiro". Ao que ele retorquiu, verbalmente, acompanhado do típico (e expressivo!) levantar dos ombros: "Ah, fazer o quê." Eu, Benjamim, sei muito bem o que farei da próxima vez, caso haja outra semelhante: colocarei meu pé no primeiro degrau, e acenarei para a pessoa, dizendo: "Ô, amiga, vem logo!". Que ele feche a porta em mim! Eu não gostaria nem um pouco de ser deixado para trás. Ainda mais no caso de uma linha que demora cerca de 40 minutos para passar. Até onde eu entendo, é nesse sentido que cada um de nós pode fazer a diferença neste chamado mundo fominha, mundo-cão. Eu fiquei bastante irritado com a minha inação. Que os outros sejam ignorantes, eu não gosto de sê-lo. Mas é assim que a gente muda, né? Quem tem sangue de barata não sente a necessidade premente e pulsante de mudança.

A outra circunstância da qual fui testemunha, esta já de teor feliz, foi quando eu me encontrava dentro do ônibus Butantã-USP, a caminho da faculdade. Não relato em ordem linear, mas isto é porque os eventos que me causam maior impacto vêm naturalmente à frente, é inevitável. Pegamos um congestionamento caótico no centro da cidade, e eu já estava por aqui incomodado e impaciente, após já duas horas dentro do veículo e nenhum sinal substancial de progresso. Bom, uma hora deu-se um jeito no engarrafamento, e mais à frente nós passávamos pelos cemitérios ali nas redondezas das Clínicas. Havia muita gente na calçada, visivelmente aguardando outras linhas de ônibus, visto que poucas entraram no meu. Mesmo depressivo, eu sigo curioso. E uma pessoa curiosa, sem nada de particular importante para fazer, tira os olhos do umbigo e vê o exterior da janela. O trânsito ainda estava no molha não chove, de forma que eu podia me dar ao luxo de fitar sem pressa os transeuntes em seus afazeres. Qual não foi meu sorriso quando eu vi uma mulher - talvez a mãe - e uma menininha de uns 5 ou 6 anos numa brincadeira bem bobinha, e aí meu regozijo. A cunhantã cheia da graça dava pequenos passinhos até a mulher e fazia um touché! na coxa dela, emitindo gritinhos de júbilo na ação. Ao que a mulher se divertia e retribuía um touché! de leve na barriga saliente da garotinha. Eia, alegria! As duas não se continham de contentamento.

Eu sorri de aprovação, mesmo que ninguém me visse. Puxa, há momentos na vida que julgamos tão enfadonhos, justamente por olvidarmos os prazeres mais simples - os mais leais no correr do tempo. A vida pode ser divertida, pensei. Basta olhá-la com a vista menos cansada. Uma criança feliz quer com tamanha vontade descobrir o mundo, que de início pouco se importa do que os outros pensarão, de bom ou ruim, do que fazem ou do que dizem. Depois todos são moldados mais intensamente e perde-se um pouco dessa curiosidade insaciável. O fato é que ela deveria se aguçar. Os grandes gênios souberam direcionar sua curiosidade e cá estamos nós, com muitos deles a servirem de exemplo. Amar é tão pleno nessa idade, que basta um momento de felicidade para se dizer: "Aproveitei o dia!". E isso, sem uma sombra de dúvida, pois um dia de brincadeiras nunca é em vão.

É senão por isso que pego na caneta a essas horas, meu amigo. São os momentos mais simples - e inesperados - de alegria, justamente os mais gratificantes. É só eles passarem despercebidos que a vida se faz menos luminosa, e perde-se o intuito de viver (ainda mais quando ele anda já fraco das pernas). Fiquemos, pois, atentos. E, ah, quanto ao incidente do ônibus, foi uma lição de solidariedade. Parece-me, posso estar errado, que as lições mais simples são as mais caras. Não se pode viver bem e dignamente sem elas.

Por isso me toca a seguinte canção, mais bela ainda na voz vibrante da recentemente falecida Mercedes Sosa. Chama-se Canción de las simples cosas. Ei-la:



Do seu amigo,
Fernando.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Amanhã de manhã

A Parábola dos Cegos (1564) - Peter Bruegel,
o Velho
(Óleo s/ tela, 86 x 154 cm)



Nas manhãs que desperto deitado na cama, descerrando meus olhos com dificuldade, noto, não sem me amargurar um tanto, que já trago uma perspectiva de mundo cansada, talvez atoleimada, e é duro levantar-me do leito sáxeo. Não por dores, que felizmente não vieram ainda, mas por perceber que já foi diferente, e não faz muito tempo.

Lembro-me, não sem sentir certo pesar, que antes sorri como as orquídeas lilases de meu jardim: abrem com fulgor suas pétalas na aurora, para fenecer orgulhosas tão logo é chegado o fim do dia. Recordo-me ter certa vez aberto os braços em cruz, o peito estirado e palpitante, entregue a uma paixão que desabrochava, completamente nova, repleto de alegria e desejo. Todavia, quando menos esperava, cortaram minha esperança, como se poda uma árvore. Não obstante, por erro ou infortúnio, arrancaram dessa árvore, que então nada podia suspeitar, não seus ramos putrefatos, mas justamente seus galhos viçosos recém-nascidos, que despontavam para abraçar o mundo, numa expectativa edênica de ingenuidade e sabedoria.

Tão logo os cortaram, senti a dor da punhalada no peito, perdi de arremate os sentidos, retraí-me contorcido, ostracizado. Por um longo período antes desse inglório acontecimento, eu me sentira como um náufrago sem companhia, ao qual cada rumorejar dum novo dia soava como um recomeço repetido e invariável. No entanto, fora-me dada a oportunidade de sonhar de olhos abertos novamente, e, entretido nessa experiência extática, mística e há tanto apagada, distraí-me a ponto de não considerar um bem possível fim abrupto. E abrupto foi. Toda minha seiva borbulhante foi sugada por escarificações cutâneas profundas, e a venda hipnagógica retirada dos meus olhos ainda em deleite, par'eu ser testemunha do espetáculo mais horrorizante. Meu sangue, branco, leitoso e purificado, mesmo denso, escorria impiedoso das chagas recém-abertas - gotejava na relva, ecoava na selva. Ecoava na selva delimitada do meu ser, que quedava imóvil ante à violência jamais vista. Nada estancava a profusão sanguínea. Barbárie.

Meus braços desde então não mais abriram em 180°, na pujança varonil de enlaçar o ser amado. Meu amplexo perdeu a força, e o ósculo, a virilidade. A entrega ao outro deixou de vez de ser incondicional, tornou-se racional, mesquinha, frívola, parcial. Tão longos aqueles breves momentos de gozo inquestionável, total. Há maior tristeza no mundo, que acaso supere a dum pássaro recém-liberto, que de chofre se vê novamente engaiolado? Ele adejava e silvava livre e melífluo pelos campos virginais, sem ousar suspeitar a temerosa mão invisível vir-lhe roubar a vida reconquistada.

Pois sim. A vida propriamente dita é a vida que se sente em curso, em fluxo - a corrente do rio que renova em desova. Germina incólume a vida subaquática, uma multitude de peixes embrionários eclodindo a extensão do organismo materno, gerador. A tênue película se rompe, eis a vida - periclitante. Eis o risco, a gana de peitar a morte, os colhões: tentar a sorte, independente do resultado. Eis a única razão de ser, para ser, só assim crescer.

O pássaro quer voar, e é feliz enquanto o pode. O ser humano quer amar, mas eis uma tragédia que o sacode. De súbito, as grades da jaula retinem no escuro, e já se vê que os olhos estavam firmemente cerrados, em êxtase, no júbilo primordial. Ao medo, sobrevém a dor: as asas feridas no baque da portinhola recusam-se a alçar voo. Os olhos lacrimejantes miram o vazio, o pipilar perdeu o brio, e com eles se vai a última memória de um largo e infinito rio, corredio. Anil e transluzente. Tudo isso a alma capturada sente.

A solidão dói tamanha, que se perde a vontade de comer. Vai-se o brilho, a sanha de viver. Viver? O que é a vida no interior de uma jaula, àquele que até pouco sorvera da liberdade ilimitada, tão-sonhada, realizada?! Aquilo era vida - isto, não mais. Há um parâmetro muito forte em jogo, que não pode ser descartado. O homem livre ou morre ou se adapta à servidão das galés. Mas, uma vez acorrentado, pouco a pouco o remo suado a sangue oblitera a noção integral da liberdade doutrora. O calor, a cãibra e a dor pungente obnubilam-lhe os sonhos que tivera quando de seu veio não-subjugado. Solte-o, e ele nadará até o inferno, ou morrerá tentando, se preciso, isto é, se restarem-lhe forças, ou ao menos parcas lembranças. Sem estas, nada é possível. E, antes disso, procurará desagrilhoar seus mais queridos, seus colegas, seus amigos, semblantes sofridos.

O quinhão restante de vida ao escravo é tão-só o anseio irrevocável pela libertação. Quebrar em pedaços as grilhetas malditas e berrar e gritar e se esgoelar como só pode o feliz homem que se redescobre vivo! Cuspindo o torrão de terra acre que lhe meteram boca adentro, tirando do pelo e cabelo o pó nefasto do chão piolhento da cela da morte. Esse homem, que até então viveu a vida e o correr desenfreado dos dias como uma instância fatal, submetida ao banal, ao pão imundo concocto com cal - este homem, caso preso nova vez, escolherá a morte. Psicossomática, e mesmo assim: morte.

Ninguém é tão forte. Mas, quem sabe, ele possa livrar-se das cadeias sem ser recapturado - e, quem sabe, esperançosamente, ele possa estranhamente novamente sentir-se amado. E, quem sabe, ele possa de novo amar. De olhos abertos entregar-se a quem o ama, reabrir lentamente os braços e expor o peito - desta vez c'os olhos bem abertos, perspicazes. Olhos fechados somente quando lhe couber o fato mortuário. Chega de vendas! De um mundo adulterado por lentes destoantes, que o põem ora em cores senis, ora em tons berrantes. O mundo é, já sem ajuda de instrumentos inacurados, multicor. Se ali houver amor, melhor. Contanto, mergulhar em águas desconhecidas requer cautela.

Nosso homem terá de reaprender a voar. Suas asas, fora de uso, já não podem alar. Seu piar é agora um chiado cacofônico - terá também de reaprender seu canto. Voar de novo dói. Os olhos mareados lembrar-se-ão dos cavos e ermos momentos nos confins da prisão. Mas as mãos malévolas e agourentas serão avistadas à distância, e não mais colocarão em cheque o voo libertário do ex-prisioneiro.

sábado, 10 de outubro de 2009

Terminologia

Não que eu não soubesse que o fim estava próximo. Eu sabia. Não que eu não soubesse o que eu havia de fazer - isso, também, eu sabia. Mas, abatido. Eu estava abatido, e mesmo vendo a porta, não podia alcançá-la. Uma espécie de paralisia, talvez. Mas eu precisava tanto tocá-la, tangê-la, rangê-la, levantar-me de onde me encontrava sentado e tentar dalgum modo chegar àquilo. À maçaneta, ao ferrolho, àlguma reentrância daquela porta sombreada, escura. Ela estava logo à frente, mas eu não podia fazer nada.

Eu estava recostado na cadeira escutando jazz. Minha música preferida, após Piazzola. Eu deveria fazer aquilo, mas a força me impedia, repelia. Eu preciso chegar lá! Mas não adiantava - se eu acreditasse no fado, no destino ou na Sentença, até que vai. Mas eu não tinha tais credos, e não podia explicar doutra maneira essa falta de vontade, mesmo ante ao dever. O dever não vinha, minha cabeça espiralava, a morte me sondava. A morte de entes queridos, os meus olhos fechados, feridos. Desnorteado, eu já havia esquecido da porta. Poderia fingir que ela continuava ali, mas era como se eu tivesse sido transportado a outro tempo, a outra era.

Abri meus olhos e me vi numa praia desértica. A água batia na rocha, e o firmamento plenamente azul brincava com a minha imaginação. Os cirros plúmbeos planavam em algum outro recanto do mundo naquele momento, pois ali era o azul mais azul, e nem sequer era azul. Que cor era aquilo? Não sei. Era a cor e a luz da vida. Alguma plaga esquecida. Eu estava ali. Atrás de mim havia uma mata, e na frente era o mar, a rorejar, a tocar os penedos indeléveis. Entre a natureza e a dimensão inexpugnável de uma existência rediviva. Um ser. Um ser humano num ermo arcano, mirando o céu o sol e as nuvens. A água transluzente, a vida piscosa transparente, tudo aquilo era minha vida. E não havia nada naquele mundo que eu não pudesse almejar.

Reabri os olhos, ressentindo ter perdido um mundo tão belo e singelo e distante. Apoiei-me nos braços da poltrona, firmei meus músculos e me ergui. Vi então a porta, entreaberta, luminosa. Cambaleei, fustiguei meu rosto com um tapa e disse: É lá que eu quero chegar. Cada passo me doía o corpo inteiro, como se carregasse o mundo nas costas, mas eu não desistia. Não importa que carga se põe sobre o dromedário, ele mantém a cabeça altiva, pois conhece mais que a cáfila em derredor, conhece Deus - e sabe seu centésimo nome, o ignoto e incognoscível a meros humanos. Eu era o dromedário naquele instante. Meu corpo retesado era meu único meio de alcançar o clarão que me anuviava a vista.

Quase cego, em genuflexão, eu roguei aos céus por força. Não por piedade, nem misericórdia, não por isso. Eu necessitava força espiritual. Minha oração era o meu ponto de encontro comigo mesmo. Com o único elemento em mim impermeável à opinião dos outros. Poderiam opinar à vontade equanto eu me encontrasse em contato com minha essência. Ela reinava coroada naqueles passos escorregadios mas firmes, titubeantes mas alegres. Eu sabia minha direção, eu cheirava meu caminho, eu chegava até a lâmina de vidro que era a porta. Entreabri-a resvalando-me no vão e caí morto.

Acordei. Sentado na "poltrona". Minha cadeira de rodas, da qual jamais levantaria.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Balanguê

Jean-Honoré Fragonard, "O balanço" (1767)

Apesar dos pesares,
A vida vai bem,
Vai vem.

(Meu)



O constante balanço, entre o ir e o voltar, o constar. O ser definido por estar, aqui e acolá, um meio definido pela passagem, a inércia do movimento que transmuda o rápido em lento, um auspício agourento, um eterno "vivo e tento". Tento ser o que não sou, estar onde não estou, voltar de onde eu vou. Meu voo, minha reflexão, estar planando parado em movimento, até parece miragem, mas é a vida.

Destituída de limites, infinita. O poeta fita o horizonte dalém da ponte, multicor, destoando no ódio, corando no amor, neutralizar-se é rancor é morrer é toda a dor o fim do ardor. O poeta colore e percorre milhas e milhas de sendas e lendas e vendas e vê. Povos e lugares, o vinho dos lagares, os velhos e os novos - os que jamais morreram. Pois viveram como vive a luz do sol enquanto é dia, sem se preocupar jamais com o despertar do sonho - a poesia.

O poeta retesa o arco, atira a seta. O querubim do fim da festa, o rememorar após a sesta - o poeta testa e atesta um viver diferente, um "viver com a gente", entre nós, dentre nós. Um ouvir, um dizer, um nascer fenecer, e o vivo manter da canção. Redivivo revivendo a tradição do toma lá e dá cá, um pega-pega inexaurível. Brincadeiras, jovialidade, o amor, o doce ninar da criança no berço na rede, que volta e avança, cantiga antiga... adormece.

E renasce todo santo dia pululando de alegria, recheando o biscoito da vida com uma bonança quase esquecida. E monta o cavalo alazão de um salto do chão, sem sela nem trela, e galga. Montanhas e vales, pega ela. Pega nada. Foi a vida. Estando na tua frente, te pegou por trás. Abracadabra, taí a surpresa. O bafo que aquece a tua mesa no café da manhã, no sacro arrebenta-diabos duma vida sã.

Ai, cunhã! Vem cá, dá um abraço no pai.

Para alguém como ninguém

Que é a minha esperança
E inspiração
A minha dança
De renovação

O mar que roreja
Bravio
A vela acesa
No fim do pavio

A mão que enseja
E deseja
Tocar o rocio

O mar qu'esbraveja
Contra o navio
Singrando auroras e trevas
Almejando encontrar
O Porto:

O Ponto Morto

Do outro lado do globo
Que seja!
Ele busca a luz que lampeja
E essa luz é você:

Já a encontrou.

Mas para isso, rodou o mundo
Cortando mares
Tocando o leito profundo
Respirando novos ares

Peitou o frio
Feriu-se no fio
Da faca afiada
E ficou atilado.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Sai, bichão!

Taturana não me queime -
Eu sou curioso
Por mais qu'eu teime
Em subir este pé.

Este pé de abacate,
O meu acicate,
O meu chevrolé

Já estou arranhado
Suado,
Mordido
Não queira você tomar partido

Eu sou pé
Pé de moleque
Sobe em pé-de-amora
De manga e abacate

Subir é uma luta
Minha luta é a vida
Quem vive sou eu

Prometeu...
Não cumpriu
Um deslize...
Caiu.

Dos céus ao chão
De volta à terra

...

E que guerra.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Meu canto de amor

Que mundo bonito
Eu fito
Deitado
No topo da mangueira
Suado

Entoo
O fado
E rogo à minha maneira

Perambula o vento
Deambula o mundo
Tudo treme
E eu deitado
Mudo
Teso e manso

Nas alturas
Encontro, enfim
O meu descanso
E danço, danço

Com a ponta dos pés
E das mãos
Agarrado à árvore
Olhos cerrados
Este símbolo eterno da vida

Minha... vida
Meu olhar
Sobre o mundo
Vivendo no mundo
Eu irei te encontrar

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

My Morning Jacket

Bonita a letra, gostei do som - e da ideia inusitada de se cantar, e ainda tão afinadamente, no interior duma garagem.


(Eu) Só (e) Ela

Abro a janela
Que vejo?
É ela, entrando,
Pelo vão da janela
Adentra a luz da vela
Acesa
Alumiando meu chão i-mundo

Meu coração palpita
Minh'alma grita
Mudo: sou criança!

"É ela!
É a luz
É a vela
Luzerna
Luar'

"Dê tua mão
Vamos cantar
Me sinto Sansão
Me sinto em meu lar
Me sento ao luar"

"Só de te olhar...
Só pra te olhar
Você mudou meu mundo
Com tua força,
O teu olhar"

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A vi na chuva, Zorba

Zorba, reprodução de escultura de Anthony Quinn

A viúva - nobre uva
Cor da chuva
Imolestada - nua
Sua sua sua
Recua... a figura nua
Seminua sob a lua recua...

Fosse a culpa tua
Fosses tu a grua
Que me acua e amua
Que a degolou na rua

Eu vi a uva
Suando carmim
Em mim, em mim
Mim:
Minto se eu vi
Não era suor
Era a aurora do leiteiro
Que jamais reabriu os olhos

A chuva manchou a rua
Maculou com a cor da paixão
Inumana.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Despertar dum Sonho

Acabo de despertar dum sonho. Nele, as pessoas eram genuinamente felizes. Nele, as pessoas escolhiam livremente quem beijavam, e não se discutia algo chamado orientação sexual. Nele, vivia-se com conforto, sem esbanjar. Mas era um mundo-fantasia. O encontro de uma realidade cotidiana com uma realidade virtual, e a mescla confusa resultante de dois âmbitos essencialmente distintos.

Não se sentia fome no sonho. Não se falou em comida. Parecia-me que todos eram sorrisos, descobertas, momentos silentes imbuídos em instantes sociais, o que se permitia viver sem mentiras superficiais.

Sonhei com esse mundo prescindível de epítetos: feliz, livre, bom ou ruim. Éramos o que éramos, sem necessitar nomear o estado emocional por que passávamos. Sem conclamar nossa existência como única ou superior às demais. Um mundo que desconhecia, por ingenuidade, os termos trégua, guerra ou paz.

O mundo que Tolstói ousou erigir em suas herdades aristocráticas? Seja lá. Um mundo orbe e urbe. Não se sabe direito o que se quer, ante a indefinibilidade de um sonho. O fato é que eu seria um hipócrita (comigo mesmo, não com o que os outros esperam de mim, como "politicamente correto") se afirmasse não desejar um mundo "melhor". Mas eu mesmo desconheço a que, concretamente, tal subjetiva terminologia se refere, e fico perdido quando indagado das soluções para melhorá-lo: educação, saúde, um mundo sem psicopatas no poder. Mas até aí, escolas não fazem a maior parte das crianças feliz - ok, o velho argumento defendendo a hipótese de que não se sabe ao certo o que se deseja quando ainda está no primário, secundário, enfim, enquanto se encontra nos antros da educação escolar. Mas o fato é que a maioria não é tão feliz quanto aparenta (ou procura aparentar) ser, e não basta arrancarem-lhes o véu chamando-as de anátemas e receitando-lhes Prozac. Não, as drogas não funcionam (The Verve), e só te deixam pior - cognitivamente, e o pior "pior" de todos: pior consigo mesmo. Deixa-se de acreditar na própria potencialidade para a cura.

Bem, e quanto à saúde? Autismo e vacinas, cada dia mais notícias evocando o surgimento da doença com a implementação da suposta panaceia. E na saúde há mentiras como na política. Em língua inglesa já se publicou enorme quantidade de livros e materiais concernentes aos perigos à saúde advindos da fluorização - o emprego de fluoreto - na água que bebemos. Desde problemas dentários até o colapso do sistema nervoso.

Sobretudo, um mundo sem psicopatas no poder. Sem George W. Bushs, sem Condoleeza Rices, sem Dick Cheneys, sem Colin Powells, sem Donald Rumsfelds, sem Tony Blairs, sem Ehud Olmerts, sem Sarkozys, sem todos esses títeres do terrorismo e da estupidificação massificada. Sem suas meias-palavras sacripantas que resultam no planejamento e alavancamento de guerras e invasões ilícitas, bárbaras e criminosas de nações menos poderosas.

Mas, para isso, seria necessário que uma parcela grande das pessoas conhecesse o que é, de fato, a psicopatia. E por que divulgar o conhecimento que identifica tais indivíduos, e os impede de uma maior contaminação da política e da sociedade, e de nós mesmos, como indivíduos. Já vivemos sob uma patocracia global, que envolve desde a medicina até os três ramos religiosos mais propagados mundialmente - judaísmo, islão, cristianimsmo - até... sim, já estamos infectados.

Puxa, eu despertei e percebi quão fundo pode-se ir à lama, estando-se mentalmente anestesiado. E cheguei à conclusão de que as aparências enganam (sim, Elis, Belchior). Descobri que é preciso saber o que causa a dor, e preveni-la, ou remediá-la, enquanto há tempo. Remediá-la, com consciência:

http://www.sott.net/

Um site de notícias definitivamente diferente dos demais.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Nietzscheano

O que deixa de ser dito, acaba sendo feito. Cuidado, pois, com o efeito retardado das palavras. Palavras interditas, quando exprimidas, têm seu poder reduplicado. Os desejos proibidos são reavivados, o gigante que dormia, despertado, o níveo sonho torna-se num instante um pesadelo tresloucado. E daí não demora muito à perda do significado daquela vazão de dor, desespero, insanidade, todo o torpor acometido por um baque repentino, golpes de todos os lados destruindo a áurea santidade que havíamos imposto ao nosso ser.

Este ser definido pela ambiguidade, e que tolamente tentamos separar numa de suas vertentes: bem ou mal. Um bastão, não importa quantas vezes diminuído, manterá duas pontas, e essa é sua essência. Como deixar apenas uma, portanto, num ser humano? Acue-o, e ele virará um animal, mais rápido do que você pensa. Nutra-o de carinho, e ele não negará o próprio ninho. É claro, há exceções. Por toda parte haverá exceções. Algo tem de ser não-determinista neste universo, não é mesmo? Que aporrinhação seria se tudo fosse homogeneamente padronizado pelo meio.

Mas quanto às palavras, engaioladas, um dia elas irão quebrar o envoltório, pouco importa a força que as reprime, que as suprime, elas irão se libertar. Da angústia de viver nascerá o dom maior: a vivacidade. Ser vivo implica gostar, desgostar, sentir-se feliz, sentir-se com raiva, essa é a propriedade do caráter. Não é ser eternamente bonzinho, risonho, um fofo. Ou vestir-se para sempre da carapuça do herói trágico, impelido pelo fado, semblante pesado e penetrante. Pode-se apreciar ambos os lados da moeda.

Deve-se negar o que não nos apraz. Deve-se afirmar o que gostamos. Com a mesma tenacidade. Dizer: "Não, obrigado" com a mesma força que um "Sim, é claro!". E nisso resguardar a potência de um ser que se exprime não importa onde, não importa a quem. Disse Gandhi certa vez que o homem não deve temer ninguém, senão a Deus. E, bem, nesse mundo o que mais tememos são os poderosos, mas eles não são Deus, nem individualmente, nem tomados como um todo. Eles são reles, e vis, e ordinários, como a plebe de nariz arrebitado que eles tanto vilipendiam e odeiam e contêm com o aparato policial.

Eles nos temem mais do que nós poderíamos algum dia temê-los. Porque a ira do povo, unido, massificado, reduz quem quer que esteja imediatamente acima. A hierarquia é inicialmente destituída, mas tão logo cai a anterior, instaura-se uma nova, igualmente abusiva, igualmente cruel e desnecessária. Porque assim o querem os cegos, os parvos, os crentes. Quem crê não vê. E quem deixa de ver só pode ser inevitavelmente levado à beira do precipício, e provar uma vez na vida o gosto do medo, o suor frio do degredo. O degredo da vida destroçada no rochedo, que a aguarda nas profundezas abismais da ignorância.

A ignorância como ânsia pelo agradável e tangível, jamais o abstrato, o dificultoso. A ignorância como arma dos poderosos para obliterar as massas atoleimadas, abestadas, azêmolas a serviço de uma força invisível que as dobra tão logo tem vontade. E, dobrado, o ignorante não torna a se erguer. Mantém-se prostrado, negando-se, dissolvendo-se, é morto. É morto já com condescedência, sem resistência. É aniquilado como a mais rente vegetação, socada diariamente pela planta dos pés. Mas ao contrário daquela, ele não renasce tão logo pisado. Ele expia sentindo ainda o efêmero prazer da ignorância. E disso não resta esperança de um eterno retorno. É somente a morte, a cruz, o esquife, e nada mais.

Em alguns poucos, porém, correrá o veio da coragem, da impetuosidade, da vida sem limites que há na alma e nela apenas. Nesses raros, algo desde cedo chamará sua atenção: a busca inexaurível pelo conhecimento, do mais prático ao mais abstrato, desde suportar a dor, a fome, até suportar as tentações mais infames. Eles nunca se imaginarão como santos. Suas ações espelham o brio, o ardor, os colhões. E eles só se sentirão em fogo fazendo o que lhes é cabido desde o início. De alguma forma aquela informação veio ao mundo inculcada na porção intocável de seu ser, e não importa se ricos ou pobres, a faúlha fará fogueira, e a fogueira, externa e sujeita às vicissitudes da chuva e da nevasca, abrirá caminho para o fogo eterno da lareira, protegida de vis olhares e visitas pouco desejadas. A lareira será parte inseparável de seu lar, e crepitará tão logo o lar manter-se em pé.

Ali, serão acolhidos somente os escolhidos a dedo pelo dono. Receberão o calor das áureas flâmulas, sentados na proximidade das chamas terão a sensação de vida, esmaecida no contato com seres sem autenticidade. Seres de rocha fria, cujo calor superficial e enganoso advém do contato com os fortes adormecidos, que não travaram ainda conhecimento com a substância que corre dentro deles, e se aliam aos mais fracos, sem disso desconfiar. Mas chegará o momento, em que eles se descobrirão. Finalmente ou tardiamente - uma vez descoberto o tesouro, não mais quererão chafurdar no chiqueiro. A imundície os repelirá, enojados, e os fará criar belas obras acerca da potencialidade semi-divina dos homens.

E o conhecimento, uma vez propagado, despertará do sono profundo novos homens, e a hora será chegada para compartilharem entre si suas histórias de vida. Descobrirão, no fel, o mel, no joio, o trigo, na noite, a luz. A escuridão do prazer será dispensada em prol de uma vida multifacetada. E as múltiplas facetas trarão no imo senão a manifestação das fagulhas do divino. O divino estará ao alcance como um objeto próximo encontra-se ao alcance da mão.

Chega de solidão. Os homens descobrirão um outro igual a si. E outros, que, à guisa de igualdade, predavam e dali tiravam sua seiva. A seiva dos vivos fortificando os mortos. Será chegada a hora em que as escarificações se fecharão, e dali nenhuma seiva será novamente tirada. As bestas ficarão desnorteadas, e procurarão a próxima vítima em si mesmas. Dos fortes, para os fortes. Esse apenas o caminho.