sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Concatenar-se

Muitas coisas não são aparentes à primeira vista. Entre elas, nossa própria ignorância. Quantas vezes não pensamos que sabíamos algo, e na hora H, não houve ação, porque realmente não podíamos fazer nada. Nossa ignorância passara ignorada até então, e na hora de agir, ela finalmente se demonstrou, ficou à mostra, nos surpreendeu - porque pensávamos saber.

E pensar que esta é a primordial das ilusões. Há, no entanto, um corolário delas, sempre a surpreender-nos, a nos pegar desprevenidos - ficamos boquiabertos, desconcertados por não saber. Por não saber da existência incipiente dessas ilusões. Grandes, pequenas, médias, qualitativamente é escabroso fazer distinções. O fato é que, grande ou pequena, devastadora ou não, uma idéia ilusória sempre nos deixa um amargor na boca - insatisfação derivada da momentânea consciência de nossa própria incompletude.

Exemplos abundam, meus, teus, nossos, talvez compartilhemos das mesmas, quiçá não saibamos apontá-las, ou não queiramos - esta última hipótese, convenhamos, é a mais provável. Não há nada que nos faça vê-las, nada imperioso o suficiente para que sejamos forçados, compelidos a enxegá-las. O esforço, parece - aliás, como sempre - provir de nosso próprio ser, de nosso interior. Não querendo vê-las, não serão as circunstâncias, mesmo as mais duras, que nos entreabrirão os olhos, cegando-nos por átimos eternos.

Ensaio Sobre a Cegueira. Quando assisti a esse filme, encontrava-me plenamente cego. Admito-o, talvez por fraqueza, para não ser forçado a me entregar, dizendo que ainda me encontro neste estado. Sim, não farei uma assunção descabida afirmando que não possa estar cego, metaforicamente cego, neste mesmo instante em que tu lês.

E, mesmo assim, a tendência é que a luz soerga nossas pálpebras, contra esforços nossos contrários, contra toda a resistência, contra nossa rejeição dorida dessa invasão de nossa própria escuridão cavernosa, das trevas que há dentro de nós.

Recantos jogados, esmaecidos, derretendo como o relógio e os ponteiros da Persistência da Memória, quadro de Dalí. As formigas a decompor as sobras, os rebotalhos de uma civilização. Por que a nossa seria a mais avançada? Por que temos celulares e sistemas GPS, por que dissimulamos tão cabalmente nossa própria ignorância? É bem capaz que sim, quanto a esta última. Aprendemos, desde pequenos, o estranho artificio de esconder o que não sabemos, de nos calarmos e nos enclausurarmos em nosso próprio não-saber - tão tenebroso, tão silente. Carência - é o resultado direto dessa lição inculcada em nós.

Penso de uma forma radicalmente diferente: se ignoramos, devemos perguntar. Antes começar com muitas perguntas, do que com muitas certezas. As certezas se rompem e balouçam num mar de incertezas, conquanto as perguntas atraem naturalmente respostas. Erradas, errôneas, mal-calculadas? Sim, em sua grande maioria. Mas é para isso que talvez tenhamos o aparato encefálico mais desenvolvido e aprimorado dentre os seres viventes desta Terra multiforme, multicores.

Quiçá o que nos mais atrapalhe seja nossa auto-comiseração, nossa auto-piedade, esse obstáculo que se interpõe tão tenazmente entre nós e nossas metas, entre o que queremos de coração que aconteça e o que os outros querem por conveniência que queiramos que aconteça. São essencialmente diferentes, tais desejos, se podemos alcunhá-los dessarte. Não viver é viver primordialmente pelos outros. Viver é saber viver para si mesmo, e somente depois desse egoísmo fetal, é possível tornar-se melhor. Melhor, aqui, é obviamente inquantificável, impossível de receber um apelo qualitativo. Melhor é melhor, é o bom e o bem, aperfeiçoados. E isso faz parte da Ética interpessoal.

Como ouvi recentemente no rádio, duas metades, ao serem juntadas, continuam existindo em sua condição a priori. Isto é, a tua cara-metade é a tua cara-metade, nada mais, nada menos. E pensar que grande parte da infelicidade humana jaz nisso. Neste credo de que há alguém perfeito para nós - não que não haja. Mas, talvez, tenhamos que trilhar uma longa e sinuosa estrada de auto-aprimoramento e auto-conhecimento antes de desenvolvermos a capacidade de sermos útil a quem nos ama. É um egocentrismo de imensa magnitude pensarmos que nascemos já sabendo amar. Ã, ã. Amar se aprende, não é um atributo nato. E olha que digo amar o próximo. Outro amor além desse é fortemente implausível.

Querer estar ao lado de alguém é não querer estar sozinho. E não querer estar sozinho é ter medo de si próprio. E só tem medo de si próprio quem não se conhece por dentro. A escuridão tira o sono de muitas pessoas. Mas, possivelmente, se estas mesmas pessoas lançassem um breve olhar para dentro de si mesmas, veriam, se aperceberiam, de que as trevas e a noite que realmente temem são as que habitam seu âmago. Sim, é tudo o que se esconde de nós ao vivermos apeados em nosso Admirável Mundo Novo. Fábrica do saber inútil, junk science, e toda a propaganda tão bem ensinada pelo mais querido mestre dentre os propagandistas: Goebbels. O cão fiel de Hitler. Ah, esse estudou muito bem publicidade e propaganda. Com paixão.

Para quê? Por quê? Como? Sem ter aprendido a questionar, indagar, perscrutar e investigar, o homem não é sequer um símile de Sherlock Holmes. E Sherlock Holmes era um homem improvável de ser enganado. Talvez porque soubesse separar o joio do trigo em todas as situações e circunstâncias. Talvez porque houvesse concluído, a duras penas, que ninguém, absolutamente ninguém, pensaria por ele, ninguém passaria cola pra ele na hora que demandasse uma atitude contumaz; talvez porque ele tenha percebido que um ser humano devoto é um ser concafinado dentro de si próprio.

Haja distinção. Este sim, é um requerimento fundamental para se viver - e mais do que viver: vivenciar. Sim, senhor.

2 comentários:

Renato disse...

O que fazer se rotina é a disciplina? Talvez buscar a desorganização total ou qualquer método que, evitando a repetição, faça do reinício disposição. E esta crive a alma com uma sucessão de aflições e esperas... que sob certa ótica definem a vida.

Fernando Pimenta disse...

A vida sem hábitos traz sempre surpresas, e as surpresas têm, sempre, o que nos ensinar.

Aflições e esperas? Sim, parece que dificuldades como essas sempre terão mais a mostrar do que uma 'belle époque' ou um 'american dream of life'. Aliás, a grande ilusão de viver um sonho manufaturado e pré-determinado por anseios consumistas não apraz. É insuficiente.

É necessário um motivo mais substancioso para se viver verdadeiramente.

Rotinas. O que dizer delas? Cerceiam-nos diariamente, a cada instante, até neste momento em que te respondo estou subjugado pela rotina.

Mas, o poder está em nós. O conhecimento pode trazer grandes mudanças no nosso modo de viver.

E ei-lo para ser adquirido. Busquemos o que nos fortalece.