segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Amor e Paixão - Qual a Relação

Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão - do grego pathos, que designa a situação em que sou passivo (em oposição à ação) e minha razão fica inibida - não é boa juíza de caráter ou de relações (...). O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu "eixo") sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. O amor apaixonado não substitui minha obrigação de saber quem sou, o que eu desejo, o que vou fazer. Mas, como a paixão não é amor, isso não reduz o sentimento mais profundo pelo outro. Apenas coloca na ordem do dia uma questão que afronta o consumismo afetivo de nosso tempo: a necessidade de converter o entusiasmo passional, que leva ao erro, em amor. A mídia fala muito em paixão, pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que "foram felizes para sempre" só é possível com o amor, não com o fulgor passional.

***
Renato Janine Ribeiro, professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo. In: A Insuportável liberdade do Amor, artigo publicado no caderno "Aliás", do Jornal O Estado de São Paulo, domingo, 22/11/2009.

4 comentários:

Nina disse...

Mas eu me pergunto...e o amor?É juiz imparcial, enxerga as verdades sem se enganar?Não sei...como dito, ele tbm mergulha na nossa subjetividade, ficando sujeito às antíteses do ser.
Concordo plenamente quando se diz que a relação com outro deve ser antecedida pelo direcionamento do eixo...
Demorei um pouco a aprender, confesso, a me desvincular dessa paixão trágica pregada pela mídia.Demorei a sentir em mim a calmaria, o porto seguro, o desligamento com o ímpeto impulsivo que são, a meu ver, características do amor verdadeiro.Apaixonar-se é intenso, mas amar é imprescindível para a realização plena.
Bom, realmente, é tenso entregar o amor, como uma rosa, sem conseguir chegar ao estado de ''iluminação'' que você mencionou no comentário do post anterior, mas quem, em são consciência, se nega a arriscar a própria felicidade por uma dúvida que, de outro modo, não pode ser respondida?E...uma idéiazinha meio piegas e romântica :$ eu acredito sim que uma maneira de iluminar-se, de passar a enxergar o outro como a si mesmo, de encarar a vida do outro, a mente, o coração com olhos verdadeiramente abertos só é possível a partir do amor.Mas nem todos os amantes se permitem isso...E isso também fica sujeito ao que eu mencionei no primeiro parágrafo.São uma série de fatores, é verdade, mas amor, paixão, ódio até...O importante é não deixar de sentir intensamente, apesar das desilusões, das dores, das feridas, dos segredos das mentes alheias...Isso faz parte de ser humano né?^^
Beejo rapaz ;*

Fernando Pimenta disse...

Bom, quanto ao amor ser "juiz imparcial", acho que nenhum de nós é, né? O interessante é essa distinção entre paixão e amor que o autor faz, e que tem sentido.

E concordo contigo: negar a felicidade do momento por causa de uma dúvida nos deixaria loucos! Quando é que temos certeza de algo? Poucas vezes temos certeza absoluta de alguma coisa, então não faria sentido investir só naquilo que temos certeza.

E, sim, devemos manter nossos olhos abertos, por mais que sobrevenham dificuldades, dor, e mágoas. De repente a mão amiga estava estendida o tempo todo em nossa direção, e nós, que fechávamos os olhos devido à intensidade da dor, não nos apoiamos naquele ombro amigo, naquele momento, tão necessário.

:D

Lucas Pascholatti Carapiá disse...

Nós já falamos desse assunto tantas vezes! Verdade, nunca esqueço de você falando sobre a efemeridade das coisas atuais. Algo que li aí e que quero chamar atenção (inclusive discutimos isso numa aula de redação no Etapa) é que a paixão nos desperta as reações mais inconscientes. Mas isso nem sempre é ruim, é muito bom se apaixonar também, fazemos besteira, sofremos... Claro! Mas o que de fato deve ser ressaltado é o excesso de paixão! Isso é que complica! A vida não é e não deve ser só paixão, só fogo, só momentos de prazer pleno... Estava falando agora disso... Não é bacana dois amantes que se conheceram na mesma noite se entregarem um ao outro de corpo sem ao menos se conhecerem bem, isso é deveras esquisito! Mas a paixão, ao mesmo tempo, move a vida! Já pensou pra reparar nisso? Apesar de ficarmos cegos, inconsequentes, inconscientes... Ela nos faz fazer muitas coisas! É por paixão que as vezes fazemos as coisas, estudamos certas coisas, nos matamos de fazer certas coisas... É por paixão que quero estudar RI e não penso em mais nada, estou cego, não penso em outras possibilidades, mas é assim que sinto ânimo para estudar, ir ao Etapa! E tudo mais... Posso me arrepender no futuro? Sim! Mas também não... E se não é essa paixão de agora, não poderei amar o que farei no futuro... A paixão também leva ao amor... Foi ao menos assim que sempre pensei... Se nunca tivesse me apaixonado pela pessoa que até hoje sei que amo muito, nunca a teria amado como hoje sei que amo. Bacana o texto! =)

Fernando J. Pimenta disse...

Sim, Lucas, concordo contigo: apaixonar nos renova, e é da paixão que brota o amor, mas não necessariamente. Então cuidado nessas trilhas pelas quais enveredamos - algumas são espessamente espinhosas, e delas saímos com mais cortes que marcas de carinho.