sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Sem título

Quer o homem
Pode o homem
Chama Deus:
As mágoas somem

***

Apregoar um sentido estritamente cristão, islâmico ou judaico aos versos acima por pouco não me fez demover de publicá-lo. Iria adicionar à primeira estrofe uma segunda, ou mesmo compor uma peça inteira, mas achei que a primeira bem poderia ser a única. Eu mesmo não sei, cientificamente, que é esta que promulgo nestes versos. Gosto de templos, aprecio visitá-los, mas o mesmo não posso dizer da religião que neles se instala. A paz que se atinge no interior de um templo é inefável, mas os sermões não me servem. Prefiro ver antes um sorriso, com dentes ou sem dentes, perfeitos ou imperfeitos, postiços ou não, com a única condição de que venha do coração. Sorrisos assim, e pessoas assim, vêm sem pedidos ou rogos, intervêm sem saber. Eis a segunda stanza, malgrada, creio eu:

***

Eis sua fé: firme e forte
Vence o medo, o fado, a morte
Indica o certo, o meio, o Norte
Eis sua fé diante a morte.

***

Malgrada, porque acho que de nada vale desembainhar uma espada cega e embaciada. Uma espada deve reluzir, e necessariamente cortar. Caso contrário, deixa de ser espada. A analogia se estende ao poema. Algum gérmen deve trazer em si, não se pode ater meramente aos recursos estilísticos. Os parnasianos eram, aliás, mestres na rima, na métrica, mas o tema era, majoritariamente, esdrúxulo. E a quem hoje apraz tais versos, há longo tidos como desprovidos do 'fulgor poético'?

2 comentários:

Renato disse...

mas a substituição do parnasianismo pelo simbolismo foi natural, né? Arrisco dizer que assim caminha a fé, com seu magnânimo poder de substituição. Tendo que doutrinas enraizadas no comportamento do individuo, por mais deploráveis, admiráveis, incompreensíveis... no meu ponto de vista, como o desprezo pela vida, transmutam-se em crença e pregação, daí essa babilônia de perdição e absurdo. É a auto-suficiência que nao se encontra quando se vacila nas convicções... aqueles axiomas reconfortantes (ou ainda mais instigantes caso se pense no tempo e o espaço, grandeza maior, imponente e categórica no campo físico)

Fernando J. Pimenta disse...

Rê, é verdade... a substituição se dá com o tempo. Tudo é passível de tornar-se um sucedâneo com o passar desse tempo tão intangível, e ainda assim presente.

Sim, as convicções (e em especial as dogmáticas) também são abaladas, mas enquanto não caem, trazem um estrago enorme à nossa auto-suficiência como indivíduos, capazes de pensamento autônomo.

Precisamos da coletividade para sobreviver, mas não é dela que devemos subtrair todos os nossos valores, quanto mais nesses tempos de caos e valores dúbios propagados pelos grandes canais midiáticos.