terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Saco Cheio D'água

Moacyr Lopes Junior-08.dez.2009/Folha Imagem

Milagre!
A água uniu
Rua e rio
Tempestade

Nos deixou
Tremendo de frio
No torpor da cidade

Buzinas de moto, de carro
Um cuspe, um arroto, um escarro
Ninguém se lembra dos índios navajo
Nossos pés estão sujos de lama

A madame, irascível, reclama
Sentar-se no carro é deitar-se na cama
E a madame ainda se inflama

Oh, Grã-cidade estagnada!
Das sujas ruas sem pelada
Nossa vida: refinada, poluída -
Inundada
Nossa alma esburacada,
Grita em dor -
Congestionada.

O cruzamento -
Encruzilhada
O primeiro tiro certeiro - Paf!
Eis a moto derrubada.

Bem-vindo à nova ordem!
E um brinde final:
À inescapável morte!
Hoje coletiva e civilizada,
Nesta triste bacanal.

2 comentários:

Renato disse...

Bem-aventurado és, Fê, que endossas a resistência ao caos sem se renderes à rotineira amargura! Sabe que me fez lembrar do Michael? Que cantou resistência, repúdio à injustiça e à miséria sem perder o amor. Uma pessoa que desprendeu votos de bênçãos sinceras... Amargura gera amargura, eu acho, e é assim que o ambiente vai gradualmente se tornando hostil "à nossa volta, no chão".

Fernando Pimenta disse...

Eu também acho que amargura gera amargura. E escrever com amargura também dá um ressaibo amargo ao fim do processo. É melhor apelar para o que há de melhor no ser humano, e nesse caso eu vi essa possibilidade na crítica construtiva: o mero fato de se encontrar preso no congestionamento não faz de ninguém uma vítima. Aliás, se formos vítimas, somos, portanto, vítimas das ações da nossa sociedade, da qual fazemos parte.

Criticar a sociedade em que vivemos, então, é uma forma de autocrítica - se isso nos ajudar a mudar um tantinho aqui outro ali, simbora!