sábado, 17 de outubro de 2009

As Simples Coisas

Benjamim, meu amigo. Quando nós não temos força para levantar, nos levantamos mesmo assim, não é mesmo? E quando falta força para gritar, soltamos o grito dentro d'alma, não é assim? Pois é esse meu presente estado. Conto as horas dormidas à noite, preocupado em reter algum ritmo à minha vida. Qualquer que seja, este já é o primeiro passo. De uma longa caminhada? Quem sabe.

Lembro-me que foi mais fácil compreender a depressão em você, que a exprimiu, que em mim. Pois como proferira um sábio já morto, é uma característica comum aos homens ver mais facilmente as falhas nos outros que em si próprio. Perdemos o apetite, ficamos como que pasmos, incapazes de usufruir os devidos momentos de alegria que nos vêm no dia a dia. De súbito, notamos que rimos e sorrimos pouco, e quando o fazemos, é com certo pesar.

Cortei meu dedo sem querer ontem à noite, no fio do canivete. Sabe que eu nem senti a dor? O sangue fluía vermelho, e eu nem sequer me assustei. Segui com o que estava fazendo, até meu irmão exclamar incrédulo com o absurdo da situação, e meu organismo puxar as rédeas. Sim, além do meu irmão, meu organismo ordenou-me, imperativamente, pôr fim àquilo - não fosse pelos dois, eu continuaria, como alguém desprovido de vontade própria. Um autônomo, um robô com funcionamento pré-ordenado, mecânico, insensível.

E apesar de toda essa insensatez conosco mesmos, volta e meia damos conta da estranheza da situação, não concorda? Creio que você também, em certos instantes, pergunta-se o porquê do dia passar tão rápido e por que mesmo os momentos mais únicos, singulares, irrepetitíveis do dia simplesmente passam e vão, sem que dispensemos maior atenção a eles. Deixamos de perceber que algumas circunstâncias, providas de maior carga emotiva, nos animaram aqui e acolá no decorrer das horas. É como se o cérebro entrasse sem prévio aviso num estado catatônico passivo, em que põe igual peso às mais variadas vivências, e assim nada mais pudesse nos abalar. Sugiro que seja um mecanismo de defesa, mas extremamente falho no que tange à assegurar uma vida plena. No máximo, garante nossa sobrevivência. No máximo, porque, nos nossos casos, o suicídio não é uma alternativa incomum. Reitero: longe de nós entrever tal possibilidade!

É agora que escrevo a você (esta carta aberta) que me recordo de alguns desses instantes que fizeram meus olhos luzirem e minhas bochechas corarem, num sopro de vida que veio e se foi. Mas, pondo-os no papel deste caderno, à tinta azul de uma caneta Molin, e com as páginas devidamente numeradas e datadas, tenho a esperança de que no futuro tais momentos possam me trazer de volta à tona. Já não aguento mais essa submersão, esta falta de voz. E o pior é reconhecer que o algoz somos nós. Quero subir à superfície mais uma vez, ver o Sol enquanto ele ainda existir. Sonho que isso aconteça num futuro próximo.

Vamos aos fatos. Na faculdade, mais especificamente no ponto de ônibus, eu aguardava minha linha, Jaçanã. Ele parou, eu entrei, não sem hesitar na porta, já que eu vira vir correndo uma garota, na óbvia intenção de alcançá-lo, e eu era o último do ponto a subir. Puxa, pensei. Mas foi eu subir que o motorista fechou a porta. Fiquei estupefato - aliás, o ônibus não estava lotado! Todos os passageiros estavam sentados, sobrando lugares, e não havia explicação para ele deixar um passageiro pagante para trás. Vamos lá, meu amigo, o que são meros 5 segundos de espera, no máximo (se ela tropeçasse) 10?! Daí veio minha voz embargada ao motorista: "Tem mais um passageiro". Ao que ele retorquiu, verbalmente, acompanhado do típico (e expressivo!) levantar dos ombros: "Ah, fazer o quê." Eu, Benjamim, sei muito bem o que farei da próxima vez, caso haja outra semelhante: colocarei meu pé no primeiro degrau, e acenarei para a pessoa, dizendo: "Ô, amiga, vem logo!". Que ele feche a porta em mim! Eu não gostaria nem um pouco de ser deixado para trás. Ainda mais no caso de uma linha que demora cerca de 40 minutos para passar. Até onde eu entendo, é nesse sentido que cada um de nós pode fazer a diferença neste chamado mundo fominha, mundo-cão. Eu fiquei bastante irritado com a minha inação. Que os outros sejam ignorantes, eu não gosto de sê-lo. Mas é assim que a gente muda, né? Quem tem sangue de barata não sente a necessidade premente e pulsante de mudança.

A outra circunstância da qual fui testemunha, esta já de teor feliz, foi quando eu me encontrava dentro do ônibus Butantã-USP, a caminho da faculdade. Não relato em ordem linear, mas isto é porque os eventos que me causam maior impacto vêm naturalmente à frente, é inevitável. Pegamos um congestionamento caótico no centro da cidade, e eu já estava por aqui incomodado e impaciente, após já duas horas dentro do veículo e nenhum sinal substancial de progresso. Bom, uma hora deu-se um jeito no engarrafamento, e mais à frente nós passávamos pelos cemitérios ali nas redondezas das Clínicas. Havia muita gente na calçada, visivelmente aguardando outras linhas de ônibus, visto que poucas entraram no meu. Mesmo depressivo, eu sigo curioso. E uma pessoa curiosa, sem nada de particular importante para fazer, tira os olhos do umbigo e vê o exterior da janela. O trânsito ainda estava no molha não chove, de forma que eu podia me dar ao luxo de fitar sem pressa os transeuntes em seus afazeres. Qual não foi meu sorriso quando eu vi uma mulher - talvez a mãe - e uma menininha de uns 5 ou 6 anos numa brincadeira bem bobinha, e aí meu regozijo. A cunhantã cheia da graça dava pequenos passinhos até a mulher e fazia um touché! na coxa dela, emitindo gritinhos de júbilo na ação. Ao que a mulher se divertia e retribuía um touché! de leve na barriga saliente da garotinha. Eia, alegria! As duas não se continham de contentamento.

Eu sorri de aprovação, mesmo que ninguém me visse. Puxa, há momentos na vida que julgamos tão enfadonhos, justamente por olvidarmos os prazeres mais simples - os mais leais no correr do tempo. A vida pode ser divertida, pensei. Basta olhá-la com a vista menos cansada. Uma criança feliz quer com tamanha vontade descobrir o mundo, que de início pouco se importa do que os outros pensarão, de bom ou ruim, do que fazem ou do que dizem. Depois todos são moldados mais intensamente e perde-se um pouco dessa curiosidade insaciável. O fato é que ela deveria se aguçar. Os grandes gênios souberam direcionar sua curiosidade e cá estamos nós, com muitos deles a servirem de exemplo. Amar é tão pleno nessa idade, que basta um momento de felicidade para se dizer: "Aproveitei o dia!". E isso, sem uma sombra de dúvida, pois um dia de brincadeiras nunca é em vão.

É senão por isso que pego na caneta a essas horas, meu amigo. São os momentos mais simples - e inesperados - de alegria, justamente os mais gratificantes. É só eles passarem despercebidos que a vida se faz menos luminosa, e perde-se o intuito de viver (ainda mais quando ele anda já fraco das pernas). Fiquemos, pois, atentos. E, ah, quanto ao incidente do ônibus, foi uma lição de solidariedade. Parece-me, posso estar errado, que as lições mais simples são as mais caras. Não se pode viver bem e dignamente sem elas.

Por isso me toca a seguinte canção, mais bela ainda na voz vibrante da recentemente falecida Mercedes Sosa. Chama-se Canción de las simples cosas. Ei-la:



Do seu amigo,
Fernando.

4 comentários:

Meg / Bombs disse...

quando a ignorancia é desmascarada, não é mais ignorancia, certo? é conhecimento. e nem tudo eu acho q dói mais saber depois do q no começo. por exemplo, quando eu desisti de um tal esporte uma amiga minha disse "eu sabia q vc não aguentava". se eu soubesse disso antes de desistir eu teria ficado bem desestimulada, q tipo de fé é essa?! mas depois eu nem liguei. fato, eu não consegui mesmo. então a ignorancia foi uma benção xD mas se eu me lembro bem, nós já tivemos essa discussão por email e vc foi bem claro ao falar q não concorda comigo, então eu acho q começar tudo de novo não vai mudar mt coisa =P


aaah e desculpa pelo video do "dançar como macaca" hahaha não era pra ser engraçado, mas eu acho q valeu a pena... se bem q acredito q vc já tivesse visto.

benjamim realmente existe? fiquei confusa se era só uma forma de escrever oq vc queria ou se foi realmente uma carta xD

Renato disse...

Fe, vc já faz parte do memorialismo brasileiro.
Eu aprecio muito o seu senso de justiça, e, às vezes, sinto certa
dificuldade em priorizar o meu, fazê-lo efetivo a despeito da vontade, diria natural, de suprir um desejo egoísta. Acho que é isso que diferencia os fortes... Como nossos pais, que geralmente declinam tanta coisa em nome do nosso bem-estar.

Fernando Pimenta disse...

É, Re, eu gostaria de pôr em prática esse senso de justiça, sem insultar ninguém, sem machucar ninguém - e assim mostrar que, com tal "senso" as pessoas podem viver muito melhor. Aliás, é um "senso" muito pragmático! É uma solidariedade aplicada ao dia a dia, se é que isto é possível sem charlatanismo, nesta sociedade citadina onde o ceticismo onipresente vem já carimbado de nascimento.

O problema do individualismo extremado da sociedade em que nos encontramos é que depositamos toda a fé do mundo em nós mesmos, o que, dentro de uma sociedade co-dependente (apesar da pseudo-moralidade individualista e narcísica que prega), é de todo irracional.

Nós precisamos do outro, e o outro precisa de nós. O mundo será um lugar muito triste quando as pessoas passarem a contar piadas para um programa de computador, e quando os apertos de mão forem proibidos devido à gripe suína/do frango (qual mais), e quando o cigarro fizer tão mal que as conversas com esses indivíduos de péssimo caráter terão de ser completamente apagadas.

Ser inteligente é extremamente deprimente quando não se tem ninguém com quem testar, compartilhar e germinar essas ideias tão caras a nós.

Eu não sei como o Benjamim está hoje, mas foi conhecendo ele que eu descobri que eu estava em depressão. Os nossos sintomas eram os mesmos - a única diferença era a de que eu procurava com todas as forças escondê-los, empurrá-los para debaixo do tapete, trancafiá-los em qualquer lugar isolado de minha alma.

Mas as lágrimas sobem à tona, numa espécie de decantação do espírito. E aí já não podemos negá-las. Temos de enfrentar nossos monstros - e é nessa altura do campeonato que vemos o quanto nossos amigos (próximos e distantes) de fato fazem por nós, numa simbiose fortificante.

C'est la vie, I'd say.

Fernando J. Pimenta disse...

E, Natasha, um grande obrigado por sempre que pode vir aqui! Fico feliz de suas visitas.