domingo, 5 de outubro de 2008

Re-vi...ver.

No início, era a azia. Depois venho a tempestade. Entremeado aos dois, o sentimento de solidão, soledade, solitude. Ribombavam os trovões, o tempestear externo em paralelo ao meu plano interno. Rajadas evocavam angústias, passagens, ritos e memórias. Tarefa inglória ver tudo, sem participar. A reflexão mostrava-se unicamente presente. A inação do corpo sob o turbilhar das emoções. E a chuva...

De repente, tudo alagou. O dilúvio enxarcou minha alma, a chuva não cessava. Eram lágrimas, milhões delas a escorrer em frente aos meus pés, e a garganta ressequida, rouquenha, inaudível, porque sem voz. E os olhos premiam-se contra a fúria das tormentas. Minha goela ardia, como se se incandescesse por palavras, fonemas que fossem. Mas as gotas a escorrer, sem cessar, eram minhas palavras, inefáveis, insondáveis. O coração queria tornar-se fértil novamente, então debulhava em mim seus medos e receios. Todas as puerilidades que o consciente tenta mover para longe, bem longe do meu eu social.

Em mãos eu tinha o pano, e à vista uma bela provisão desses farrapos secos, ansiantes por lágrimas, desejosos de água que os completassem como o líqüido a uma esponja. Nos braços eu tinha a força, toda a força de que me muniram os anos. Dezoito anos, e tanta angústia. Nas pernas toda a energia, tão vital. E o pano, maltrapilho pano, exíguo exemplar, jazendo imóvel nas calejadas mãos. "É chegada a hora", disse-me o Oráculo, aquele que reside em cada um de nós.

Não poderia ter sido diferente. Secava tudo o que a chuva trouxera, agachado, visionário. Cada curso d'água era uma história que deixara para trás, mas o fluxo era imparável. Impossível captar tanta fonte d'água, a correr desesperadamente, buscando uma saída que fosse. E tudo eram saídas. E tudo era vazão. E simplesmente não parava. Os braços latejavam, as mãos se avermelhando e tudo aqui pulsando. Dilatavam-se as veias, e a cara de esforço representava tudo. Modelava meu ser, expressão do real.

Cada passo, cada gesto braçal, o esforço de passar a seco toda a umidade que me trouxera a realidade. Nuvens declamavam suas poesias, em choro. E que choro copioso. Foi dada a mim a tarefa de ombro amigo para todas as almas que choravam no mundo. E o pano enchia-se facilmente. As mãos, machucadas e feridas pelo esforço, não só secavam diligentemente, mas também limpavam. E como limpavam. Doridas mãos clamavam por clemência, mas o degelo era pungente.

Quantas pessoas lacrimejavam em mim suas mágoas. Cada retorcida daquele material de algodão gasto trazia-me memórias. Cada repuxada e cada músculo estirado gritando de dor e impotência frente àquela batalha recendia a lembranças. Estava tudo armazenado, mas os esforços não me bastavam para trazer tudo à tona. Estava chovendo no molhado, e minha cabeça, submersa, pendia semi-inconsciente, lutando para viver. Meu corpo rijo batalhava e pelejava, e eram tudo convolutas. Voltas, reviravoltas, o distorcer molhado, o torcer enxuto. Misturavam-se todos os sofrimentos para compor um univalente. Totipotente.

Se fosse só isso. O que, todavia, não era. Doíam-me as mãos, mas o trabalho hercúleo, de alma e corpo, matéria e imatéria, não podia parar. A máquina funcionava a todo vapor. Redescobria em mim esta máquina humana, complexa e ferida. Não podia parar de acalentá-la, de raê-la, de roê-la, de esfregar minhas mãos no chão. Meus quatro membros naquela luta de mim contra mim mesmo. Retomava um aspecto mitológico: o herói a lutar contra o próprio destino, fixado, imutável. Mas mesmo assim lutando, aquela luta inelutável. Tinha tudo para ser o protagonista, então porque não sê-lo, então porque não premí-lo naquele momento de tanta energia focada num único ato. Valente ou covarde, era um ato de auto-limpeza. Era minha ação individual neste mundo, era o perdão que pedia, era a dor ressentida pela última vez, para finalmente despachá-la adiante. Não a queria mais. Não me fazia bem.

A chuva adiava seu fim, assim como eu a minha luta interior. Havia tristeza, havia solidão, havia, sim, muita dor. Mas nada me impedia. O ímpeto do fogo que ardia cá dentro era mesmo de limpar e secar todo aquele mar sem horizontes de lágrimas. Bradava por luta, por continuar esta jihad interior. A maior batalha de todas sendo travada enquanto fraquejava o corpo e fortalecia cada parte imaterial de meu ser. E se remunia de vitalidade meu intangível. Toda a água que eu secara na verdade evaporara para minha garganta. Agora ela conseguia exprimir a vida. Os olhos se haviam tornado enxutos, todas as lágrimas haviam se dispersado. Não fora em vão. E nada é em vão. Eu cuspira o pão que Barrabás amassou. Mas essa entidade estava aqui dentro a causar-me aflições, e eu a reneguei. Expatriada, anátema. Não te quero mais, não vês que por pouco não me destruíste?

No lugar da solidão abismal, venho a solidão da paz. Pacificadora reanimação da anima. Da alma que tanto pedira por água e só encontrara desertos cheios de miragens, a estontear-lhe as vontades, a amedrontar-lhe a esperança de viver. Mas o corpo que tanto lutara para esfregar o chão enxarcado acabara de nutrir sua força motivadora com água suficiente para tirar-lhe daquela angústia sedenta. Revivia algo dentro de mim. Renascia a fertilidade, volvia o cheiro do cravo, daquela flor branca e pristina, simbolismo, simbolismo.

Era o começo de uma nova vida. Desta vez, repleta de significado.

2 comentários:

Patricia São Miguel disse...

Compartilho de tuas lagrimas e angustias! E mesmo o sol não reaparecendo no dia seguinte, vejo luminosidade e sinto cheiro de bom da primavera que me acorda para reviver, um novo eu, uma Borbaleta, cheia de novos significados!
Nao me canço de ler teu blog! Parabens!
um enorme beijooo

Fernando Pimenta disse...

Obrigado, amiga!

"Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor"

...passemos, pois!