quarta-feira, 3 de março de 2010

Ao monge imolado, Thich Quang Duc


O vivo poder
De indignar-se
Autoimolar-se
Na praça central

Flama
Fogo
Luz

O corpo que inflama
Veloz se reduz

Cinza, carvão
Cinzas no chão

Roto produto
Da combustão

A paz d'alma instaurada
Na nua cabeça
Seu corpo inerte
Por mais que aqueça

Quietude
Plenitude

Cultivadas desd'infância
No mosteiro abobadado
Pôr a alma na balança
O divino alcançado

Na aguda seta da lança

Abdicar-se da vida
Passo a passo consumida
Somente a um espírito
Feito rocha empedernida

Feito a dedo pela vida
Nobremente ofertada
Para o Uno e a Mãe querida
Fez na alma a sua morada

Oh! Alma iluminada
Não se perca jamais
Nos meandros da estrada
Onde o porto e o cais
São a Pátria amada
Dos seres celestiais.

***

Em 11 de junho de 1963, numa intersecção movimentada da então capital do país, Saigon, o monge budista vietnamita Thich Quang Duc desceu de um carro, junto com dois amigos; um deles pôs uma almofada no asfalto, sobre a qual Quang Duc sentou-se calmamente na posição de prática meditativa budista de lótus, ao passo que o outro amigo foi ao porta-malas e pegou um galão de 5 litros de gasolina, que esvaziou sobre a cabeça do mártir. Quang Duc por último recitou uma prece budista, após o que acendeu o fósforo e deixou caí-lo sobre si.

Thich Quang Duc deixou uma carta, na qual dizia:

Antes de fechar os meus olhos e me dirigir à visão de Buda, eu peço respeitosamente ao presidente Ngo Dinh Diem para que tenha compaixão às pessoas de nossa nação, e que implemente igualdade religiosa, para assim manter a força de nossa terra natal eternamente. Eu conclamo os veneráveis, reverendos, membros do sangha (ordem monástica, composta por monges e monjas budistas) e os budistas laicos para que se organizem em solidariedade e façam sacrifícios a fim de proteger o budismo.

O repórter estadounidense que testemunhou a cena, David Halberstam, disse:

Aquela não seria a primeira vez que eu veria aquilo, mas uma vez já teria sido suficiente. Chamas saindo de um ser humano; seu corpo vagarosamente se encolhendo e perdendo as forças, sua cabeça ficando preta e carbonizada. No ar sentia-se o cheiro de carne humana queimada; seres humanos queimam surpreendentemente rápido. Atrás de mim eu podia escutar o choro dos vietnamitas que agora se aglomeravam. Eu estava chocado demais para chorar, confuso demais para tomar notas ou fazer questões, tão desnorteado que não podia pensar... Ao passo que queimava ele jamais moveu um músculo, jamais emitiu um som sequer, sua compostura externa em ríspido contraste com os prantos das pessoas acumuladas em volta dele.

Policiais que tentaram alcançá-lo não conseguiram passar pelo círculo formado pelo clero budista. Um dos policiais jogou-se ao chão e prostrou-se diante de Thich Quang Dunc em reverência. Os espectadores estavam quase todos paralisados em silêncio, mas alguns choravam e vários começaram a rezar. Muitos dos monges e monjas, assim como alguns transeuntes chocados, prostraram-se diante do monge em chamas. Em inglês e vietnamita um monge declarava repetidamente ao microfone: "Um monge budista queima-se à morte. Um monge budista torna-se um mártir."

Após aproximadamente dez minutos o corpo de Thich Quang Duc tombou para frente na rua e o fogo se debelou. Um grupo de monges cobriu o corpo chamuscado com roupões amarelos, levantaram-no e tentaram fazê-lo caber dentro de um caixão, mas seus membros não se dobravam, e um dos braços projetou-se para cima enquanto ele era transportado ao pagode (templo) de Xa Loi, na Saigon central.

Seu corpo foi cremado durante o funeral, mas o coração de Thich Quang Duc permaneceu intacto e simplesmente não queimou. Consideraram-no sagrado e o colocaram num cálice de vidro, no pagode de Xa Loi. Essa relíquia é tida como um símbolo da compaixão, e Thich Quang Duc tem sido subsequentemente reverenciado por budistas vietnamitas, como sendo um bodisatva ('ser de existência iluminada').

Fonte: Wikipedia.

Bom, agora creio que você pode reler o poema e entendê-lo da primeira à última letra, tão bem quanto eu o entendo e o sei de cor.

8 comentários:

MAM disse...

Obrigado mais uma vez pelas suas palavras...
Essa foto é impressionante
Foi capa do disco de estréia do Rage Againest Machine.

Estou seguindo o seu blog

Abraços

Fernando J. Pimenta disse...

Sou eu que agradeço suas visitas. Sim, essa foto coroou a carreira jornalística do fotógrafo Michael Browne. Tinha lido sobre ter sido a capa do disco de estreia do Rage Against the Machine. Embora não conheça a banda.

Fico feliz por seguir este meu blogue. Isso significa que apreciou meus esforços.

Abraço!

Bruno disse...

Pra mim essa é, ao lado daquele homem bloqueando o avanço dos tanques em Tiananmen, a cena mais contundente do século XX.

E seu poema está de acordo, inspiradíssimo. Parabéns.

Fernando J. Pimenta disse...

Sim, Bruno, pois você acaba de me lembrar destoutra cena que marcou o século XX. E aquele homem que literalmente parou os tanques com sua coragem e tenacidade é um completo anônimo. Aparentemente ninguém sabe o nome dele, ninguém sabe o que aconteceu com ele após aquele ato de enérgica braveza, mas as imagens estão lá para mostrar do que um ser humano é capaz em tempos de opressão.

E é capaz de muito. É capaz de fazer-se mito e eternizar.

Obrigado, Bruno.

Edison Junior disse...

Belíssimo poema para uma tristíssima história. Me lembro um pouco dessa época, esse não foi o único a autoimolar-se.

Fernando J. Pimenta disse...

Bem dito, Édison. Esse não foi o único, é há até uma discrepância entre a atenção voltada a ele, e a atenção que todos os demais que vieram após ele receberam. Os suicidas são sempre marginalizados de uma forma ou doutra em nossa sociedade global, não há jeito. São vistos como covardes, tidos como anátemas, mas já vou logo dizendo: Matar-se desse jeito, com essa honra e essa dignidade, sujeito a essa dor lamuriosa das chamas torrando o próprio corpo em minutos que devem assemelhar-se ao infinito, é preciso de muita alma e muita bravura.

Porque Thich Quang Duc (e todos os que vieram antes, durante e depois dele) são os verdadeiros mártires: defender uma causa comum extirpando a própria vida, sem levar junto a de ninguém que não pediu por isso, só pode ser um ato nobre. Só pode ser... nobre.

Rodolfo disse...

Sinistro o coração não ter queimado.

Fernando J. Pimenta disse...

Sinistro mesmo!

Há milagres?

...