segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Sanctum Sanctorum: A Guerra Santa é Cá Dentro


Sanctum Sanctorum: A Guerra Santa é Cá Dentro

Deixa meu sacrário em paz!
Tu não quererás saber,
O que aqui jaz.

Tua curiosidade assaz,
Fá-lo em vão padecer,
Ó ser contumaz!

Não sabes, mesmo, o que faz,
Vá procurar viver,
Criatura pertinaz!

Teu rosto sangüíneo
E olhar perscrutador
Conhecem prazeres,
Ignorando a dor.

Aflige-se, no entanto.
Com matérias triviais,
Coisas vis sem encanto,
Que entoas em fúteis lais!

Que poeta queres ser,
Se morre em ti a vontade
De buscar o conhecer,
A calmaria na tempestade!

Não me diga:
"-É verdade."
Antes prossiga
No culto à inverdade.

Pois as argúcias que empregaste
Irão cobrir-te inteiro com taticumã
Tu não passas, hoje, de reles traste
E não te salvarás ímpio talismã!

Se aind'um dia disseres
"-Minha vida é vã!"
Deixarás de ser um alferes
Impostor, comedor de marrã!

Siga, pois, tua vida
O rubor já te largaste
A vergonha, já esquecida,
Dos inocentes que mataste!

Ó guerra rubra!
Evento Infame!
Qu'a História te cubra.
Não mais sangue derrame!

Rifles e fuzis
Assassinando civis!

Cadáveres chasqueados,
Adunados aos milhares na sarjeta,
As ordens seguidas, atroz matança
Por cruéis soldados fardados
Surde então a Esperança,
Da incólume e alheia greta

De corações humanos
Condenadores de Massacres!

Malferidos sentimentos
Vão tardar a recuperar
Devido aos crimes pardacentos,
Que seus donos foram impelidos a causar!

Novos olhos divisarão novos horizontes
Mas antes volverão aos crimes cometidos
Agônicas faúlhas saltar-lhe-ão aos montes
Para que os torturadores sejam jamais esquecidos!

O zinir das cigarras substituirá, então,
O zunir das violentas, cruentas balas
Os medos humanos enlear-se-ão
E a humanidade terá aprontado suas malas...

Os epígonos de regimes ditatoriais
Serão finalmente condenados
Às penas que lhes cabem
E os desalmados terão voz não mais...
Tendo uma vez sido despertados
Os altos brados dos que sabem!

O martírio cederá seu lúgubre lugar
A ações de homens, desta vez dotados de emoções
Profundas e menos evanescentes:
Entre elas o verdadeiro amar!
E cantar-se-ão belas e inolvidáveis canções!

Feitas por poetas, músicos e ascetas
Todos vestidos de azeviche, em forte luto
Por todos os heróis vitimados pelas setas
Que destruíram o mundo,
Mas não deixaram o ser humano mudo...

Quem viveu nesse período contristador
Sabe mais que nós sobre a perda e a dor
Infligidas em belicosidades sem qualquer valor...

Fulgurantes íris virão iluminar
Os pórticos outrora escancarados
Aos demônios do guerrear,
Tenazes, vilões e mascarados
Os demos que intentaram dominar
Todos os homens, analfabetos ou letrados!

Nesse comenos, o vozear humano gritará:
"-Liberdade dos conflitos, a nós duramente impingidos!"
E o tatalar nas árvores, o ruflar da ave que enfim gorjeará:
"-Luto aos homens e mulheres, e todos os civis falecidos,
Nesta Guerra Mundial!
O homem jura ad aeternum hoje: não mais matará!
As cruezas e os combates desferidos,
Não serão com o tempo esmaecidos,
Porque já não vive mais o homem bestial!
Declaro, por fim, neste momento final:
Terminam hoje as façanhas dos demos do Mal!"

E assim morreram os homens bestiais.
Com o renascimento de conscientes mortais.
Que souberam, finalmente, clamar, em voz alta,
Um sonoro, e inesquecível: Jamais!

5 comentários:

Lucas Pascholatti Carapiá disse...

"Cadáveres chasqueados,
Adunados aos milhares na sarjeta,
As ordens seguidas, atroz matança
Por cruéis soldados fardados
Surde então a Esperança,
Da incólume e alheia greta"

Pobres soldados também, tirados de seus lares, enganados pelas ambições daqueles desprezadores da vida, enganadores, dos que ignoram o corpo ... Homens de "Deus"... Pobres soldados, o que levou-os a fazer tais feitos? Pobres homens, pobres. Me pergunto? Quem perde mais, os que matam ou os que morrem perante ao crédulo cego? Ou melhor dizendo, o incrédulo da vida. Me pergunto... Me pergunto... Quem vive mais?

Poema maravilhoso! Concreto, parnasiano. Me lembra o grande príncipe da poesia nacional. Olavo Bilac, se lesse isso eu qualquer lugar juraria que isso saiu das mãos dele e não das suas! Maravilhoso poema! Colocaria ele em um altar do que chamo de poemas para nunca mais esquecer! Poemas para serem lidos e analisados 100x antes de saber o que significa ele realmente. Belo, belo, belo... Você se supera a cada dia mais! Poema belo em forma e em idéia!

Obrigado por dar aos meus olhos a leitura disto esta noite!

=)

Abraços!

Alguma coisa pra dizer disse...

Não se sabe, o que é pior um homem fiel a seus ideias ou então um homem, que não tem ideias. Por seus ideais, se justifica quse tudo, se justifica matar, morrer, fazer sofrer e castigar-se. Por suas crenças, se criam ilusões, verdade absolutas, das quais luto contra. Por se achar e saber o que é certo, se fazem mortes tanto da alma como o do espirito.
Então lhe pergunto o que é pior? Ser é crer? Ou se é ser cético? Tudo depende do que se cre? Não sei, essas perguntas não tem respostas. Ou terão?
Cre no amor e lutar por ele é tão digno quando acreditar, que outro deve morrer por um bem maior.

Eis a questão como crença, a falta de resposta como solução, talvez não saber o que crer é melhor do acretidar em alguma coisa.

òtimo texto polêmico, e constestador, não gosto muito deste estilo, de texto (não sei escrever não leva muito em conto nas coisa que digo) Porém talvez usar algo que já foi usado pra falr de uma coisa que não foi tão bem falando seja tão (morderno) Contemporâneo, do que usar os recursos que temos hoje. Simplesmente Lindo, (o pensamento, o mundo das ideias de platão é SIMPLESMENTE lindo).

Fernando Pimenta disse...

Muito obrigado, Naiara. Sinto-me honrado em tê-la como "ledora" do blogue!

Jefferson disse...

Perfeito, e tão acima das minhas capacidades, pelo menos hoje.

Claro e contumaz, certeiro e cravado com todo o ardor pelo que vale a pena.

Continue assim, meu irmão!
Talvez um dia esquecerei de minhas vãs promessas e covardias e desejarei incólume
tamanha prece, sem consternação.

Espero pelo dia em que estarei atento à inspiração, senhora dos poetas, pois hoje escrevi bobagens perto das suas palavras, fui fraco e quem sabe mais o quê.

Fernando Pimenta disse...

A poesia discorre sobre a vida. Não há bobagens poéticas, se for feita de coração.