quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Encontro Final


As madrugadas são só minhas
Tão sozinhas na surdina
Do meu ser

Espezinhando a luz do dia
Impedido de crescer
Numa tal monotonia
Nessa estranha sanha
Me empurrando a perecer

Não quero eu ser alegre -
E correr como uma lebre
Aproveitando a luz do sol?

Mas eis-me à parte
Em meu casebre
Como um triste caracol

Por que meter-me nesta concha
Refugiando-me do mundo
Enquanto a luz reluz afora
No céu azul e rubicundo?

Um mergulho tão profundo
Incapaz de emergir
Afogado, triste, insano
No mais total nadir

E assim afundo...
Sem jamais poder sair.

***

Eu havia escrito este poema há exatos cinco dias, em 16/01, e deliberado naquele mesmo dia que ele seria publicado apenas hoje, 21/01. Tal deliberação veio do fato de que eu prefiro postar um por vez, um por dia (quando possível), e, inusitadamente daquela vez, eu tinha escrito logo de cara uns cinco ou seis seguidos (inclusive este), de forma que eu os fui numerando em ordem de criação. O primeiro a ter sido criado ficou para o dia seguinte, o segundo para o próximo dia em relação ao seguinte, e assim por diante. E acima deste pairava a anotação a lápis (meu encrustado hábito de escrever a quase totalidade dos meus poemas num caderno 96fls, 203x280mm, 31 pautas, a lápis): publicar 21/01/2010.

Hoje amanheci com a notícia de que um tio-avô meu havia falecido. Que desenvolver um trabalho artístico trazia consigo seu lado misterioso, eu já desconfiava. Mas, dessa vez, tenho de admitir qu'eu fiquei um tanto espantado, apesar de certa forma já estar preparado.

Até porque logo em seguida à escritura deste poema, eu compus outro de temática similar - ao menos no que tange à morte. Mas bastante diferente em todos os outros aspectos, estruturais e vocabulares, líricos mesmo. Enfim, é o ciclo da vida. Abençoada seja a alma dele, que tanto sofreu nos seus anos derradeiros.

No dia em que aceitarmos a nossa morte com a mesma naturalidade que aceitamos a morte de outrem, aí sim teremos realizado uma ação cabal na vida. Sabemos que na maior parte das vezes as coisas não são assim, mas a esperança é a última a morrer, e conosco.

8 comentários:

PIRES disse...

OLÁ, OBRIGADO PELAS VISITA SUA FORÇA É IMPORTANTE PARA ESSE TRABALHO SE REALIZAR.
ABRAÇOS PIRES!!!

Ju [Rumy] disse...

Sorry pelo seu tio-avô.

Sabe, no 1º dia de 2010, a maior parte da família do meu avô veio nos visitar. E uma coisa não deixamos de reparar: como os mais velhos envelheceram! São 3 casais. E estavam os 3 sentados à mesa, comendo e conversando, lembrando...
Eu não consigo imaginar quando aquela mesa estiver faltando gente...principalmente se forem um dos meus avós os ausentes.

Anyway...gosto das suas publicações ^^
As vezes, o "mistério" que envolve essas "coincidências" faz parecer que não são meras coincidências, né?
Creepy! hauhauha

\o/

Fernando J. Pimenta disse...

Obrigado, gente!

Wlamir (WROD) disse...

Fernando,
Gostei dos textos e reflexões...Mas eu adorei essa imagem...Muito bacana...
Abraço...

Fénix disse...

Bonita homenagem.

P.S.- Não consigo comentar através do meu blog devido às opções de identidade para adicionar o comentário

Ana Lúcia
Arco-Íris Reloaded

Fernando J. Pimenta disse...

Muito obrigado, Ana! Até criou um perfil para comentar, como eu agradeço esse gesto! Continuarei sempre comentando as suas belas fotos.

Obrigado a você também, Wlamir! A fotografia é do artista Rein Nomm, acabei de corrigir o link, identificando-o. Aprecio as suas talentosas caricaturas!

Biratan Porto disse...

Fortísima essa. Embora não tenha o senso crítico dos que realmente gostam e leêm livros de poesias, mas ahei exelente .
abs Biratan

Fernando J. Pimenta disse...

Tiro o chapéu pra você, Biratan! Sua opinião é tão valiosa como a de qualquer intelectual. Você veio, leu e gostou! Só isso importa.

Um grande abraço!