domingo, 25 de janeiro de 2009

Na Calada da Noite

Ambos deambulavam despreocupados, como que ingênuos da escuridão que viria os encobrir. Entrincheirados pelas sinuosidades da estrada espremida entre a densa mata, nem sequer faziam idéia que, poucos minutos adiante, seriam apenas os astros estelares sua companhia e seu guia sob a noite e as trevas. Sob o desconhecido.

Enquanto era luz, pouco mesmo dialogaram, compenetrados, passo a passo, no bater oco do caniço de bambu que portavam - um o levava em mão direita, o outro na esquerda, numa constância viva e demonstrativa. Numa contância, pois, que passava a impressão correta de ser aquele pau rijo um terceiro membro, auxiliar às suas fortes pernas bem-trilhadas.

Porém, quando enfim adveio a penumbra noturna, principiaram um longo debate e compartilhamento de saberes e conhecimentos e futuros ideais de vida. Estavam amedrontados, pêlos eriçados ante ao ignoto e incognoscível. Como um deles ressaltara na noite precedente: a escuridão remonta ao homem seus medos primitivos.

Os pés bem erguidos nas passadas para evitar onipresentes penedos num caminho tortuoso, mais um em direção a algo recendente a Deus. As cabeças voltadas para riba, ao céu estrelado - o primeiro assim que avistavam desde terem desembarcado naquela localidade -, a única forma de fato de conseguirem se guiar. O piguara era o vislumbre do céu, onde mesclavam-se as copas das árvores, que pendiam de ambos os lados para o centro da estrada.

Vagalumes luziluziam e traziam memórias de luz em meio às sombras e cavernosidades de uma vida vivida enxergando-se somente retoques do Real. Ora azuis, ou amarelos, ou mesmo brancos, os insetos conseguiam preencher o vazio do escuro hiante e faminto à sua volta. Era um terror imanente caminhar sobre um chão ininxergável, e comprimidos num ambiente com arredores tão próximos e paradoxalmente inescrutáveis.

De certa forma, passavam a compreender melhor a condição humana. Aquele dia foi o ensaio da cegueira de suas vidas. Andavam como cegos, e ambos eram guias, mas nenhum podia de fato enxergar. Ambos eram piguaras, mas seus pés desprovidos de garras e suas pernas bamboleantes só retinham a força nas varas manejadas habilmente por mãos calejadas. Nada podiam fazer senão seguir em frente. Nada podiam fazer, senão acordar suas mentes dormentes e unir sua meta em um uníssono vitalício: chegar ao ancoradouro. Chegar onde fosse preciso chegar, para tirar a névoa que lhes encobria gradualmente os olhos e os corpos, num manto de morte e olvido.

Não queriam morrer.

Eram jovens.

Criam ter toda a vida pela frente.

E o que era a vida... senão seguir em frente?

A jornada incessante. Os pés hesitantes escorregavam no piso molhado pela chuva e humidade da mata. Os pés cambaleantes tropeçavam em obstáculos intangíveis pelos órgãos da visão. Todos os medos colocavam em jogo seu objetivo. Toda a fobia pueril do escuro os assolava naqueles instantes sem fogo e sem horas. Sem vida humana por perto, além da do companheiro ao lado. Eram dois, mas apenas dois humanos diante do desconhecido.

Como poderiam atinar com seus próprios passos, se apenas seus ouvidos atentos os detectavam? Como poderiam reunir forças quando premidos a andar com pressa sobre um asfalto de terra, pedra e detritos impossíveis de serem vistos? Como?

Não sabiam. Ignaros ignaros ignaros. Néscios néscios néscios. Viam quão fraca era a força humana. Viam quão chã e rala era a permanência da alma frente ao indetectável. Quando desprovida do habitual conforto diuturno. O habitual e banal... e blasé conforto quotidiano. Eram duas manchas de vida em meio à impenetrabilidade da floresta. Eram dois humanos sendo observados sem poderem qualquer coisa ou ser observar. Viam um ao outro e, mesmo assim, mal a mal.

Escuro. Frio. Solidão. E de repente um choro. Nada semelhante aos sons atribuíveis às feras das virgens matas. Nada parecido com qualquer som dos tão depreciativamente denominados animais. Um choro. Plangente. Crescente. Rapidamente envolvendo-os num crescendo aterrador: o choro, o berro, o grito, o espernear... de uma criança. Em meio à mata. Em meio à noite. Em meio à solidão da penumbra e da caminhada apressada rumo ao lar. Um berro cada vez mais alto, na medida que apressavam o passo, tremendo de medo, em busca de um sino divino que repicasse e os livrasse do medo. Do medo. Do medo.

Por quê? Como? De onde? De quê? Todas as mudas indagações que lhes percorreram a cabeça ao escutarem um choro terrível e desesperado de criança vindo de cima, da mata, do inperscrutável. De um ponto cego. Deram as mãos. Já não era mais possível fingirem-se imbatíveis. Dobravam-se de medo. Já não podiam agüentar com o peito bravo o desconhecido. Não quando este mostrava-se tão despido e nu. Tão onipotente e tão onisciente de seus medos e suas falhas e todas suas brechas e seus vazios interiores. A escuridão destruía tudo que não fosse sólido. A escuridão ruía todas as ilusões, e fazia um se virar para o outro no momento final. O fim.

E o grito tornava-se cada vez mais alto e mais furioso. E mais opressor. Sentiam-se sós. E esse é o pior sentimento. Esse é o mais cruel e o mais incisivo. O mais profundo grito humano. O desespero de sentir-se só e desamparado. Sentiam-se assim, apesar de terem um ao outro como mútua companhia. Apesar de seus corações trabalharem para a meta de retornarem. De saírem daquela situação incontornável. Não queriam o escuro. Não queriam a solidão. Não queriam o medo da noite se instaurando em suas almas. Não queriam pensar em nada concernente ao sobrenatural. Mas estavam transidos de medo.

Era consternador aperceberem-se da situação humana em condições tão desfavoráveis à sua própria existência. De que serviria descobrir num baque quão fracos eles realmente eram, se a continuidade da vida seria quebrada no primor da juventude? Por que uma revelação de tamanha magnitude se essa experiência não poderia ser futuramente compartilhada com outros mortais, fracos e pecaminosos como eles mesmos admitiam ser naquele instante de assombro?

Pois a criatura que berrava loucamente numa voz de criança nos estertores de uma morte violenta caiu e fez no solo 'plof'. Um 'plof' tão surdo e potente que sobressaltou aqueles dois amigos desandados. Aqueles dois amigos tomados pelo medo primitivo e remanescente do homem: o medo de não saber. Desconhecer o porvir. O medo de não saber o que era aquilo os trespassava como uma navalha fria na noite. Uma morte muda. Incapaz de provocar angústia em seus compatriotas humanos, porque morriam longe da civilização, por causas irreconhecíveis.

Mas não morreram.

E eis sua história, relatada por um dos dois.

Oxalá, Leonardo. Sim, nós vivemos!

Here's to light, here's to light!!

2 comentários:

Léo disse...

Nossa, pra mim já é quase impossível imaginar essa cena. Apesar daquele momento tão vívido e do texto tão bem escrito, essa situação me parece fruto de uma mente que pareceria assombrosa até para Stephen King ou até mesmo para o próprio Allan Poe. São experiências que a vida na metrópole não possibilita de forma alguma.

Belo texto Fernando, caro amigo.

Fernando Pimenta disse...

Companheiro, valeu! Porque talvez eu não estivesse aqui para contar nossa história se houvesse retornado sozinho naquela estrada das trevas.

Portanto, sou grato pela sua leitura. Porque é um texto dedicado, primeiramente, àquele que vivenciou todo o terror da mata ao meu lado.

E me deu forças para seguir em frente. Nós fomos o apoio mútuo e inabalável do outro - naquele momento que nem mesmo Buda teria suportado só.