terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Gaza, em brasas, Gritou!

Alguns usam a Arte para expressar a dor e o desespero. Edvard Munch pintou Skrik (O Grito), uma obra que marcaria a Humanidade pelo caos e o sofrimento estampados em cada pincelada, e, claro, pelo grito que ecoa através da pintura para nossos ouvidos poéticos. Pablo Picasso pintou o trágico painel Guernica, que mostra as torturas de uma Guerra Civil, a loucura, o ensandecimento geral de todos diante de tanto terror. Surpreendi-me ao achar este recente vídeo produzido por um músico, mostrando que poesia, arte e música são emanações de uma mesma substância formadora. Farinha de um mesmo saco, denominado coração.



Por que, para mim e muitos outros, ainda é extremamente penoso ver fotos do que realmente está acontecendo. Ninguém chora por um prédio destruído, como são mostrados os edifícios em ruínas nos jornais e revistas que supostamente abordam o assunto. Mas chora-se com força ao ver o sofrimento materno, paterno, pela perda de uma futura geração provinda de seu próprio suor e sangue. A vida descontinuada de um povo.

Tenho a impressão que ver o relato de repórteres já nos deixou insensibilizados com a miséria alheia. É tudo muito formal, muito bonito, todo o esmero do discurso falsamente neutro e jornalístico. Uma criança consegue muitas vezes transmitir mais do que um noticiário todo:



E está cada vez mais aparente e óbvio que esta nossa mídia ocidental não se interessa em divulgar o que se passa em canais do Oriente Médio, quando há cobertura de mortes de civis. Falar em número e cifras e estatísticas é papo. Papo furado. O luto do povo palestino já dura 60 anos. O escritor e ativista palestino Ghassan Kanafani, brutalmente assassinado em 8 de julho de 1972, por uma bomba plantada em seu carro pelos israelenses, já dizia que sua gente vive "do vento e da esperança".

O martírio árabe.




Eis, pois, minha contribuição:

Para onde corres, criança?
Por que esta malévola dança,
De morte, dor e desatino?
Por que agora o repicar do sino?

Por que rodopia sobre o chão,
E desaba com um baque, irmão?
O que te fez cair ainda arromba
A porta, o lar, que logo tomba
E tudo é pó e tudo é sombra.

Por que gritas, mãe?
És, pois, txucarramãe?
Foste tua tribo extinta,
E varrida do mapa?
Falta na parede tinta, não é?
Foi dada na tua face um tapa, pois não?
Mas onde está a fé?
E onde parou enfim o perdão?

Cadê o inimigo, a mão assassina?
Estou contigo, vó, é nossa sina.
Pois e o vizinho, o que o acometeu?
Está sozinho? Pois, sim, morreu...

Onde está Deus? nossa lamúria...
E os filhos teus? E a tertúlia?
Pereceram, não foi?
Abateram-nos... como bois!

Que lama escorregadia é esta?
Não é mangue.. é sangue!
Por que os soldados fazem festa?
E a criança de rosto exangüe?

Por que tingido rubro o teto?
Que zumbido é esse, pai?
Pai? Por que está tão quieto?
Não sinto... mais... aai...

Por que este longo estertor?
Quem desfalece, doutor?
Sabe, já não tenho mais família
Isolado (meu povo), náufrago (numa ilha)

Que féretro portas?
Meu amigo, cadê a cabeça?
Seu caixão são duas portas,
Que o mundo não esqueça!

A de baixo, vai trancada
Pra fechar o inferno
A de cima, escancarada
Pro paraíso eterno

Que mal ela fez?
Que crime cometeu?
Quanta insensatez,
Ó, mundo ateu!

Plangente o lamento
Pela janela afora
Não há mais sustento
Somos mortos à tora!

Minto s'eu disser
Que perdoo toda mágoa
Já não vejo o rosicler
No rio não corre água.

Por que respiras ofegante?
Deita, e te acalma
É teu último instante
Descansa em paz tua alma.

Lá vem o inimigo beligerante
Fera do caos indomada
Sua bestial voz tonitruante
Criatura assombrada

Pode até perder o rumo
Se perder do caminho
Mas sempre atira co'aprumo
Mata gente, mata ave, mata ninho.

Filho, onde você está?
Nossa casa ruiu...
Sou a viva Pietá
Que nos escombros caiu...
Sinto fri-io!

Perdi algo, minha visão
Por que tudo tão escuro?
Tão úmido... é a prisão?
[É o apartheid, é o muro]
Por que já não toco mais o chão?
[É a destruição do futuro]
Por que tanta solidão?
Somente corpos, monturo.

Não se pode recomeçar?
[Não se sabe. Incerteza]
Quero reconstruir o lar
[Mas, e a tristeza?]
Quero um País pra morar
[É preciso trocar a toalha da mesa]
Quero terra para arar
[Nossa vida é dureza]
Quero o futuro renovar
[Um tempo de realeza]
Quero de volta meu lar
[Oh! Madre Teresa!]

Sou palestino.
Sou guerreiro.
Nordestino.
Trabalhador.
Sou o que veio
(Libertar)
De toda dor.

2 comentários:

Nina disse...

Impossível ficar indiferente às fotos do massacre e a suas palavras duras e cortantes.Confesso que, em minha covardia, fiquei receosa depois que cliquei no link das fotos.Mais uma prova que é mais fácil fechar os olhos a tudo isso.
Se me perdoa a ignorância, me responda: a guerra ainda é por um estado judaico na Palestina?Ainda é a luta por terras?Senão, qual o motivo dessa dizimação de vidas?
Me pergunto qual vai ser o fim disso...Sinceramente, tenho medo da resposta.

Fernando Pimenta disse...

Nina, a guerra se dá por um motivo supostamente simples: os palestinos viviam em sua terra, quando de repente foi declarado pela ONU que seria constituída uma nação judaica no seio do território palestino, sem nunca terem-lhes perguntado nada, sem jamais terem tido a chance de ofertar tal terra, concedê-la - ou negá-la! Essa imposição implicou a resistência, e posterior trucidação dos palestinos.

Não seria possível abrigar os judeus devastados pela perseguição nazista com um pouco mais de democracia? Com uma verdadeira diplomacia, com um digno diálogo entre as partes envolvidas? Imagine, Nina, com o nosso Brasil, se de repente tomassem São Paulo e dissessem que agora tal território seria propriedade de pessoas que nunca vimos, com quem nunca conversamos, e que de repente o tomam como garantido, com violência, truculência, manchando esta terra sagrada para nós, habitantes, com o nosso próprio sangue, e o dos nossos parentes e amigos e pais...!

Nuca veríamos isso como uma ação justa, não importa quanto tais "invasores" tivessem sofrido sob mãos alheias. Os palestinos nada tiveram a ver com as vilezas e torpezas do nazismo! Tomassem um pedaço da Alemanha, onde eclodiu tal doutrina satânica. A Palestina e os palestinos nada tinham nem terão a ver com isso.

O fim, Nina... é preocupante. Aqui no Brasil o alistamento militar é obrigatório. Em Israel, o serviço militar é obrigatório. Ou seja, todos os jovens têm, obrigatoriamente, de servir o exército, quer queiram, quer não. E esse exército atua exatamente nos territórios fronteiriços tomados dos palestinos, onde vivem famílias angustiadas pela probreza e pela miséria já há três gerações, desde que suas terras foram pilhadas e violadas.

Todos nós sabemos o que acontece com as crianças no tráfico: dar uma arma de ódio e violência em suas mãos, e o poder irrestrito da coação, não tem um final feliz. Eu tenho meu quinhão de esperança, mas antes disso as pessoas devem tomar conhecimento de que Israel é um Estado fora-da-lei, isto é, ilegalmente estabelecido em terras alheias, roubadas, vilificadas.

Tenhamos esperança, sim, Nina, mas antes nos expressemos sobre as falsas verdades que arruínam determinadas partes do mundo - tão distantes, mas tão próximas de nós.