terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Spartacus!


Das cinzas ele veio,
De fendas insondáveis irrompeu,
Cindindo a Terra ao meio,
Retornou aonde morreu.

Espártaco em mãos brandia
O gládio com que lutou
Tanta pompa jamais faria
Quem o crucificou

Maculado de sangue e traição,
Não foi por vendeta sua volta
Clamou da plebe toda atenção
Dispensando qualquer escolta

"Venho cá, amigos, vos dizer
Que a coragem ainda existe!
Assim que o Sol renascer
Não quero ver um de vós triste!"

"Vejam que belo é este mundo!
Corrupto por vis indivíduos, sim,
Mas há de ser limpo, este chão imundo,
Basta lembrar-vos de mim"

"Sacrifiquei minha vida por idear
A liberdade de uma raça agrilhoada
Somos nós, gladiadores, que morremos
Para divertir, debalde, ditadores e demos!"

"E que direitos temos nós?
E o que disseram vós?
Ante nossa morte ignota, no palco da guerra
Artifício do Pão e Circo
Engendrado para distrair-vos
Com vidas e almas alheias..."

"Por que ficam calados, homens?
Será que não veem nosso fado?
O guerreiro luta ferido, cansado,
Para morrer escravo e dilacerado
Pela crueza inumana que paira no coliseu
Monumento erigido pelo mais torpe Ateu!"

"O Anticristo o pôs em pé
Para que nos lacerássemos vivos
Enquanto ri toda a claque, ignorante,
Sedenta pela dor lancinante
Que nos devora:
Edaz boca leonina!"

"Dia-a-dia nos pisoteia e domina
Faz da vida de cada uma sina
Mas não somos diferentes, não!
Somos também fruto da Criação!"

"Se é bela a Natureza e o Desenho bíblico
Somos belos, ora, pois somos humanos!
Somos teus irmãos, homens insanos!
O Karma que rege o mundo é cíclico!"

"E vós haveis de reencarnar sob nossa pele
Aturando o suor, o maltrato, a lâmina que fere
A fome, a extenuação, o medo da morte
Tua própria vida ... lançada ... à sorte...!"

(foto: Kirk Douglas no papel de Espártaco, em filme homônimo ["Spartacus", 1960], dirigido por Stanley Kubrick. Excelente obra cinematográfica. O anseio de um homem íntegro, por justiça e igualdade, pode sublevar uma sociedade. Basta ele se lembrar de que nasceu da mesma forma que seus opressores.)

4 comentários:

Lucas Pascholatti Carapiá disse...

Tenho uma vontade gigante de ver este filme do Kubrick!

E que poemas tu fazes! Hein? Maravilha... Amei... E sobre a criação do grande Ateu, melhor dizendo, Pagão, veio se postar a alienação a procura de pão! Aqueles que eles tinham orgulho de matar, por perceberem de longe a moral do fraco! Sentiram tal perigo, desfrutaram de sangue a esperar por uma solução! O sofrimento era tanto e até para os grandes anticristos esta era a maior saída, pedir pelo perdão e pela vida humilde, jogar suas ultimas esperanças a uma pós-vida, ao céu! E dali surgiu a grande mudança do pensamento, entre as diferentes morais, dos nobres e dos escravos... Das sangrentas e dilaceradas mãos de gladiadores, mostravam o puro sofrimento social romano, e o gritar desesperado e depravado popular! Desvairado! Por um resto de pão ou vis prazeres! Eles haviam sucumbido, o que um dia fora uma pequena república, agora eram todos Nero e Calígula, adeus Júlio César, Cícero parece que todos agora eram filhos de Marco Antônio e Cleópatra, sendo que na verdade, Otávio Augusto era César! Todos se sucumbiram, e como o gladiador sangrento a lutar, até a ultima força no coliseu, o coliseu e tudo lutou até a ultima força desaparecendo para sempre, se tornando museu, assim como uma sociedade que um dia foi grande, forte! Inovadora! Uma massiva rocha que parecia inquebrável! Hoje sobrevive sob os corpos cruéis daqueles que um dia foram as maiores vítimas nos coliseus destes anticristos, agora, estes, presam por ele, cristo... O salvador, aquele que salvaria tudo desta crueldade, in hoc signus vincis, sob aquela cruz, aquela... Tudo estaria salvo... E assim roma sucumbia... O gladiador dava seu ultimo suspiro!

Lucas Pascholatti Carapiá disse...

E assim a sociedade enfraqueceu por anos e mais umas centenas de anos, depois da queda deste gladiador e a vitória dos fracos, dos perdedores, das sofridas vítimas julgadas erroneamente como desumanas... Roma sucumbiu a eles... Morreu junto! Como? Como? Se juntar ao perdedor, perder com ele! Roma a cada cristão que matava, sucumbia mais ainda e mais cristã ficava! E depois? O que se tornou o cristianismo? Na idade média, se vingou por todas as mortes cometidas pelos romanos...

Não consigo parar de viajar!

Me desculpa!

Hehehe²

Lucas Pascholatti Carapiá disse...

"E vós heis de reencarnar sob nossa pele
Aturando o suor, o maltrato, a lâmina que fere
A fome, a extenuação, o medo da morte
Tua própria vida ... lançada ... à sorte...!"

Extremamente belo!

Fernando Pimenta disse...

Lucas, obrigado!

Eu ideei esse poema em um momento pessoal particularmente difícil - muitos conflitos internos, justapostos, fazendo de mim uma massa aglutinadora de estresse, raiva e angústia.

Pensei então na batalha, no momento do olvido, no átimo em que se larga o corpo, ferido, mal-amado, mesmo ridicularizado. Senti-me, se é que posso dizê-lo, no coração do gladiador.

Todo o medo que precede a morte. Eu senti medo, depois sono, e salvei o poema como rascunho (no próprio blogue), achando que estava horrivelmente escrito e que eu bem poderia morrer se não conseguia escrever melhor do que aquilo.

Quando acordei, renovado, com uma perspectiva mais aberta - enfim, com a cabeça fresca e livre daquela intrusão negativa... eu reli o poema, tive uma impressão completamente oposta da que havia tido anteriormente... fiz algumas correções ortográficas...

e, bem, que ótimo que tu tenhas apreciado!