quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

(A) História Real [1999]


Uma memorável história sobre o amor fraterno. Quão longe você iria para perdoar teu irmão? Ou mesmo teu amigo?

É difícil imaginar-me fazendo o mesmo que Alvin Straight, o protagonista dessa estória. Quiçá porque a importância elevada que atribuímos às nossas próprias ações nos coloquem justamente sobre os outros. E esse outro, quem sabe, pode vir a ser aquele - ou aquela - a quem mais amamos. Não importa a forma como se dá esse amor, ou essa correlação, que seja: o fato sobressalente é que há amor - e isso define tudo.

Distância ou tempo não são barreiras. Pois se fossem, poucas aventuras realizaríamos em vida. E nenhuma jornada é mais marcante que aquela ulterior - precedente à morte desse corpo. A façanha de Alvin remete a isso. Sabendo que não viverá muito mais para amargar a briga que o separou de seu irmão, decide-se, pois, por fazer o que provavelmente jamais haveria feito na aurora de sua vida: perfazer milhas e mais milhas, com uma vibrante tenacidade de espírito, para rever quem o havia ofendido anos anteriormente.

Cain e Abel: Alvin engole o próprio orgulho e o próprio fel, num embarque catártico, cuja destinação final é o perdão. A rixa de irmão a irmão dissolve-se ao observarem, juntos, um lindo céu estrelado, multitudinário - em celebração ao hábito já consagrado entre ambos na juventude. Querendo perdoar, ele deu o primeiro passo - de outro modo, não poderia nunca ser. O longo viajar, no filme, simboliza o rejuvenescer da alma. Se é fato que os anos gradualmente degeneram o corpo, mais verdadeiro ainda é o poder regenerador do perdão.

Parece que o ato de perdoar vem imbuído de uma significância toda sua: ao perdoar, se é perdoado. E assim desaba a concepção de pecado: Maria Madalena osculou os pés de Jesus - e por esse gesto se perdoou, e assim foi perdoada. Se, naquele momento, pesava-lhe o fardo da culpa, esta foi lavada. Por onde passam as águas da mudança, sobram apenas os mais resilientes traços. Sua função é apontar a existência daquilo que outrora perturbou a mente dos homens - o que se julgava indestrutível, mas que o ciclo da vida de da morte não poupou.

Se é que tudo se renova num eterno recomeçar, há-se de ser mau, antes de transfigurar-se no ícone da bondade. Há-se de conhecer a maldade, a malícia e as maledicências, para poder agir de maneira benevolente. Por que perdoar é tão duro, e amaldiçoar tão corriqueiro? Talvez a resposta tenha a ver com o fato de que, ao enunciarmos o perdão a outrem, nossos olhos viram-se, por breves instantes, à reflexão do quê levou a quê, e, desse modo, ao quê fizemos (de errado).

Portanto, fugir é bem mais fácil do que escrever sobre aquilo que remonta, em mim, à existência de uma humanidade que vai muito além da palavra grafada. O homem que pede perdão dá a cara à tapa; e o que o concede muitas vezes recebe bofeteadas duplas: a primeira vai diretamente no auto-orgulho e na auto-importância. A segunda, quando se é traído uma segunda vez, e perde-se a confiança no ato de conceder perdão. Por isso, é essencial saber a quem - e a quê - perdoar, porque é inegável que esse nosso orgulho useiro e rezeiro é um resqüício do instinto de auto-preservação, e já deve ter salvado muitos de incontornáveis ciladas à espreita.

Ajoelhar é mais fácil que pedir perdão: aquele que pede o pé, não raro requisita a mão.

Perdoar ou não perdoar é mais que uma simples questão: é um ato que irá delinear o desenvolvimento do aprendizado. Matar a víbora que te pica pode te deixar sem o antídoto responsável pela cura - e sobrevivência. Não matá-la pode resultar numa segunda picada, e o olvido final.

A morte não perdoa - o gume é afiado, a lâmina é boa. Perdoar pode ser a virada da canoa - em vão sonharás co'a proa. Decisão acertada... decisão correta... quem as conhece, senão quem as faz?

It's always up to you.

2 comentários:

Lucas Pascholatti Carapiá disse...

Eu já assisti este MARAVILHOSO filme de David Lynch um grande diretor! Este filme me comoveu muito!

Se lembra da filha dele, toda estranha? E o amor mútuo entre eles?

Da menina que ele da carona?

Dele adaptando o cortador de grama dele para viajar?

Quando o cortador de grama perde?

MARAVILHOSO!

E sobre o perdão, Nietzsche dizia...

Todo os dias são dias para se começar de novo, destruir tudo, e das cinzar, reconstruir, um eterno começar de novo... Nós somos pequenos barcos navegando sobre um grande oceano, todos os momentos são sublimes, os maldizeres do passado já não se encontrarão de novo no mesmo rio que se encontrarão duas pessoas separadas por desavenças... Por que não em quebrar o orgulho e fazer tratados de paz, mas isso não diz que ter inimigos é muito bom, mas que neles temos nossos próprios amigos, amigos e inimigos em um só!

Como boas também são as guerras, quanto elas não nos fazem crescer, admitir que erramos... E ser perdoados!

Fernando Pimenta disse...

Muito bom, Lucas! Ótima alusão à Nietzsche. Eu mesmo nunca havia lido esse trecho... ótimo!