terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Holocausto no Horto das Oliveiras


À hecatombe palestina
Celestina-mãe
De toda dor do mundo


Deus nos deu seu adeus final
E eu dei-me por morto
Estendido no horto
No chão lodaçal

Botinas a esmagar
Mi'a terra e meu lar
Rotinas da guerra
Sempre certa,
Nunca erra.

De viés eu vi a arma
Do gendarme a marchar
Quão vil pisada
Quão teso olhar

As reiúnas do soldado
Orgulhosas a gerar
Medo, angústia
Dor e mal-estar

As lindas, fortes
Oliveiras derrubadas
A cartada da sorte
Sob mãos ensanguentadas

Alvo de piadas
De mau gosto
Humilhados tomamos
O tabefe no rosto
Deixados e sós

Ó, pata atroz!
Mãe do terror
Quem somos nós...
Filhos da dor!

Estrangulados em nós
Da corda genocida
Netos, pais e avós
Sem teto e sem vida

Querem nossa alma
Levam-na embora
Para a casa calma
Onde o diabo mora

Ele as devora
Sem demora
Num riso amargo
Livre do encargo

Da consciência
Que chora
Deplora e
Implora

Justiça e amparo
Um'outra vida
Mas custa tão caro...
Curar tal ferida

Covarde, infligida
Num povo inocente
Essa seca cuspida
Noss'alma sente

Todo dia mentem
E consentem
C'o nosso holocausto
Digno de versos!
Digno de Fausto!

Valores inversos
E nós no calabouço
Na escuridão.

Quer tamanha tristeza...
Viver no porão
Sem a luz
Sem razão...

O suíno nos conduz
À eterna prisão
Vítimas da cruz
E da difamação

Os bravos bradarão
Contr'a cruel invasão
E ilícita pilhéria
De nossas vidas

Detidas
Torturadas
Sucumbidas

Mas a mentira...!
Convence e prevalece
Suplanta qualquer ira
O invasor enriquece
Decreta morte à Lira
E assim fenece a
Nossa Nação

Não dirigi vós preces
A esta messe
Diabólica!

Não prestai atenção
À mentirosa
Retórica!

Sob borzeguins
Nós morremos
Sob a prole do demo

Uma queda sem fim
Sob o descaramento pleno
Lento veneno...
Inoculado.

Cristo no Jardim das Oliveiras, Andrea Mantegna

(...)Chegaram a uma granja chamada Getsêmani, e Jesus diz aos seus discípulos: "Ficai aqui enquanto Eu orar."

Depois tomou consigo Pedro, Tiago e João e começou a sentir pavor e angústia. E disse-lhes: "A Minha alma sente uma tristeza de morte; ficai aqui e vigiai."

Adiantando-Se um pouco, prostrou-Se por terra e orava para que, se fosse possível, se afastasse para longe d'Ele aquela hora. E dizia: "Abba (Pai), tudo Te é possível: afasta de Mim este cálice; contudo, não se faça o que Eu quero, mas sim o que Tu queres."

Texto bíblico: Pe. FLORENT. Jesus, A Sua vida, narrada pelos grandes artistas plásticos. Lisboa: Verbo. 1985.

***

Ofereço este humilde poema e a sacra dedicatória que o segue aos palestinos e em especial a Ghassan Kanafani (1936 - 1972), o escritor dessa santa terra que tanto lutou com palavras contra o estado sionista vigente em Israel, e foi por isso assassinado pelas mãos da Mossad.

***

Outros dois poemas de minha autoria com inspiração palestina:

Gaza, em brasas, gritou

Wayward road to Gaza

4 comentários:

Fernando Lessa disse...

Caro,

Muito obrigado por seu acesso e comentários em meu BLOG. Fico feliz por saber que você está me seguindo. Gostei muito do seu BLOG etmbám vou seguí-lo. Abração. E viva a poesia!

Fernando J. Pimenta disse...

Puxa, muito obrigado, Fernando, meu xará.

Um brinde à poesia, sempre!

Senão ela, o que seria a vida?

Volte sempre, pois serei sempre grato com suas visitas!

Bruno disse...

Linda homenagem. Linda mesmo.

Jerusalém, Bagdá... até quando perderemos nossas cidades do passado para a guerra?

Fernando J. Pimenta disse...

Muito obrigado, Bruno! Fico feliz por ter apreciado tanto. Abraço!