sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Mal do Canavial


Soa o sino na capela
Mão fechada sobr'o cabo
O sol a pino da janela
Pé de cana já ceifado

Veias grossas como artérias
Vivas pulsam em estertor
Essa vida a sol é séria
Estonteada no calor

Forte cãibra treme as pernas
Apoiadas sobr'o solo
Nossa força subalterna
Debruçada sobr'o colo

Cana doce tão amarga
É medida em toneladas
Para azêmolas de carga
Sob os raios esfalfadas

Rostos jovens encobertos
Pela aba do chapéu
Um destino tão incerto
O impiedoso céu

A terçã monocultura
E a febre do facão
Nossa ênea pele atura...
Cessa o ar par'o pulmão

A colheita já madura
Fornece o nosso pão
Essa ceia sem fartura
Uma letra sem canção

Bruta luta sem permuta
Sob o áureo firmamento
Se Deus a tudo escuta
Pois fique, então, atento

Com todos seus rebentos
Esfaimados nesta lida
Meu terçado cai gemendo
Minha alma perde a vida.

***

Nota: Trabalhei fazendo o inventário de fotos do Museu da Imagem e do Som de São Paulo. No todo, percorri meus olhos por 5.164 fotos. Foram três meses de um trabalho recompensador por todas as descobertas que me trouxe, apesar da tremenda dificuldade em conciliar 8h de trabalho a 4h de aulas, de segunda à sexta. Entrava no trabalho às 9h e saía às 18h, pegava o Butantã-USP ou Cidade Universitária e descia em frente ao Instituto de História e Geografia, de onde andava até a Letras, que é o meu curso.

Minhas aulas começavam às 19h30. Muitas foram as vezes em que cheguei atrasado, e todas foram as vezes em que lá cheguei cambaleando de cansaço, sono maldormido, e premido na difícil escolha entre abocanhar alguma coisa pra enganar o estômago ou seguir direto pra sala de aula, a fim de pegar um bom lugar, mesmo tendo apenas o almoço e o café da manhã na barriga. Afora todo esse corre-corre, passou-me pelas mãos um ensaio fotográfico do qual esquecerei jamais, realizado pelo exímio fotógrafo Juvenal Pereira. Chama-se Canavial, e consiste em fotos P&B que flagram a árdua labuta de um canavial, focando desde as mãos esburacadas e os braços inchados dos cortadores, até o rosto vincado e a própria plantação e instalações nas redondezas.

De forma que este poema não é nada mais do que meu veio poético acordado pela singular experiência ocular que tive ao inventariar esse ensaio magnânimo. Obrigado, Juvenal Pereira, e obrigado, leitores.

4 comentários:

Edison Junior disse...

Que maratona, hein! Se você fosse cortador de cana dava até pra dormir um pouco mais. Abraços!

Fernando J. Pimenta disse...

Hehe... foi uma maratona, sim, Édison! Tempos muito difíceis pra mim, mas sem dúvida que me amadureceram de uma forma que nada mais me amadureceria.

Obrigado, mais fiel leitor!

Joakim Antonio disse...

Certas coisas nos fazem pensar muito na nossa própria condição, quem sabe num desses dias de cansaço, o que lhe deu uma força extra, foi justamente o pensar, naquelas pessoas na labuta do canavial.

E assim a cada nova observação amadurecemos cada vez mais, deixando de ser apenas observadores, descobrindo-se também, observados.

Bons temas sempre!

Parabéns!

Fernando J. Pimenta disse...

Joakim, pois é isso mesmo. A sensação que tenho ao escrever é a mesma que tenho ao assistir àqueles filmes no correr dos quais nos identificamos de repente com alguma vítima ou algum personagem que passa por uma situação na qual jamais nos encontramos, mas é como se estivéssemos justamente ali, sob a máscara de ferro, sob o mesmo suplício inenarrável.

E é assim que busco a inspiração em mim. Colocar-me no lugar dos outros é não só "louvável", mas superiormente artístico. Vide Guernica, de Picasso. Uma obra ímpar pelo sofrimento que denota.