domingo, 14 de fevereiro de 2010

Iracema, ou, Martim Perde a Razão

Iracema (Antônio Parreiras, 1909)

Você é tão formosa
Parece até um mamão
Que a gente aperta e apalpa
Co'a lisa palma da mão

O vermelho das bochechas
Rubi com'as madeixas
Fabulosa sempre
Uma perfeita gueixa

Sem pintas nem tinta
Você é a Mulher
Mais linda do mundo
E ainda assim me quer

Eu mal te conheço
Eu nunca te vi
Nem sei se a mereço
Por que você ri...

Não, não te idealizo
Contento-me em teu riso
Canoro bem-te-vi

Sonho e choro
Em teu busto
Inteira te adoro
Teu rosto augusto
Teu timbre sonoro

E por que é que choro...
Se você é mi'a alegria...
Pois agora me recordo
Do momento em que partia

Levou consigo meus poemas
Minh'antiga cantoria
Por que partiste, Iracema
Minha vida é tão vazia...

Moacir e o rafeiro
Estão comigo neste barco
Sou Martim, o ex-guerreiro
E na dor do amor me marco

Amada, eu não minto!
Vivo em ilusão...
Neste negro labirinto
Neuroses, loucuras, esfinges...
Eu remo sem rumo
E remo em vão.

4 comentários:

Jefferson disse...

Da ode à lamentação, do elogio à pena, constrito que Martim parece!

Nina disse...

saudades de ler esses poemas tão lindos, com um ritmo só seu!
ando meio sumida, mas quando volto é essa apoteose de lindas palavras *-*

Edison Junior disse...

Nem sempre comento, mas tô sempre por aqui batendo ponto.

Fernando J. Pimenta disse...

Hahaha... ok, Édison! Eu fico alegre demais por saber que você bate ponto por aqui. Mesmo!

Nina, eu gostaria de ser criativo e mirabolante o tempo todo, e produzir sempre bons poemas, mas a verdade é que somente um a cada três que começo eu consigo em transformar em coisas boas... rs. É um trabalhinho danado, e a recompensa está sempre no próprio ato de pensá-lo, moldá-lo, maleá-lo. E depois, claro, nos comentários recebidos.

Irmão, você sabe melhor do que ninguém o processo neurótico que foi a construção desse poema. A linearidade do autor e da obra igualmente rompidas no processo de criação.

Abraço!