terça-feira, 4 de maio de 2010

Amém a mim

Lembro ter um dia acreditado
Na leveza etérea
No sono tranquilo
Nos mistérios simples
Na bondade infinda

No edredom macio
Em dias de frio
Sob o qual me escondia
Vasta imensidão

Sorria por nada
Brincava com tudo
Gritava e esperneava
Jamais quedava mudo

Eu cria nas pessoas
Almas grandes e boas
Eram tão sabedoras
Nasciam professoras

Mas eis que vi a maldade
Todos sentiam saudade
Dos tempos de infância
Eu era criança

E não sabia

Mamãe, você também vai morrer?
E chorei
Lágrimas de verdade

Por que tudo muda tanto
E o mundo vira complexo
Onde antes tinha canto
E em tudo havia nexo

Dormir na casa do melhor amigo
Era o dia mais feliz da vida
E mia vida era infinita
Acreditava na vida
E ela em mim

Devolvam já minha infância
Minha noite eterna de sonhos
Dom Quixote e Sancho Pança
Lidos deitado na fronha

Cavaleiros de quem sonha
Com um mundo imaginado
Para quem não há vergonha
E os amigos são sagrados

Quero a ingenuidade
Simples, dos tempos roubados
Pelo tempo e sua maldade
De instituir pecados

Onde antes jamais houve
Ruindades de gente alheia
A matar meus pés de couve
Mia tenra hortinha de aveia

Eu era mau, mas sincero
E chorava de emoção
Ao contar meu lero-lero
Respingava o coração

Lacrimejava de dor
Que, hoje, eu prendo e seguro
Lábios premidos sem cor
Próprios de um homem maduro

Piá virou homem grande
Responsável, respeitado
Lágrimas de quando infante
Não o levam ao passado

Cunhatã virou mulher
O seu príncipe encantado
É de um mundo rosicler
E faz parte do passado

O sonhado já se foi
E nós fomos já também
Sonhadores do depois
Onde estavam todos bem

4 comentários:

Edison Junior disse...

Eu ainda acredito em sonhos tranquilos. Se não sonhos propriamente ditos, que raramente os tenho, mas pelo menos numa noite bem dormida, o que dá no mesmo. Nada como deitar a cabeça sossegada no travesseiro, sem ter feito inimigos durante o dia que passou, nem deixado pendências irrealizáveis para o futuro. É difícil, mas às vezes dá. E não tem coisa melhor no mundo.

Fernando J. Pimenta disse...

Concordo inteiramente contigo, Édison. Pra mim, nunca houve nada melhor no mundo que uma boa noite de sono. E enquanto eu as tiver, julgo-me um ser humano ao menos parcialmente realizado. Das pequenas coisas, às maiores. Jamais o inverso.

Arthur Attili disse...

Hahaha, adoro o léxico de suas obras.
Rosicler. Muito bonito. Não conhecia!
Acredito que o segredo pra viver mais tranquilo é ter a maturidade de um adulto e o lado lúdico e brincalhão de uma criança. Temos com elas muito a(re)aprender.

Fernando J. Pimenta disse...

Exato, Arthur. Até porque a arte tem um espírito brincalhão, e nós que nos dedicamos - ao menos parcialmente - a esse ofício, temos muito a aprender.