segunda-feira, 12 de abril de 2010

Pesadelos d'El Salvador (atualizado em 10/09/2010)


Eu bebi, meu bem, bebi
Pesadelo a noite inteira
Pós o rum co'abacaxi
Quem dera fosse a primeira

Você mugia canhestra
Balia em timbre soprano
Uma cena picaresca
Sem como, onde, nem quando

Monsenhor Romero* estava
Pregando homílias no púlpito
Postura ereta, voz cava
Tudo cessou tão de súbito

Ó branda dita mal dita
Dura, acerba rapa dura
É dita e feita e desdita
Açucarada tortura

Eu bebi, meu bem, bebi
Mas jamais pude esquecer
A cena guardada aqui
Você, o nosso bebê...

Cadê.

***

* Monsenhor/Dom Óscar Arnulfo Romero Galdámez, mais conhecido apenas como "Monsenhor Romero", ou "Dom Romero", foi assassinado em 24 de março de 1980, quando reinava o terror em El Salvador, em mais um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos da América. Ele havia acabado de pregar uma de suas notáveis homilias ("exortação religiosa fundada num ponto da Escritura"), em que debruçava-se sobre a religião cristã para combater com palavras enérgicas e valentes a ditadura que se instaurara sorrateiramente em seu país. O projétil fatal foi disparado de uma distância de 45 metros, atravessando a praça em frente à igreja, suas portas de madeira esculpida abertas, e acertando o alvo em cheio na testa. A mira de um mercenário, franco-atirador, mui bem treinado. Seu(s) assassino(s), assim como os cúmplices e os mandantes do crime, jamais foram condenados - e não há indício algum de que algum dia o serão. Já é tarde. E a justiça não raras vezes falha com o tempo.

Monsenhor Romero era de uma tal bravura que, tendo conhecimento da presença de elementos do setor militar nas missas que rezava, em momento algum mostrou-se inibido em contrariar o silêncio do sistema ditatorial, silêncio ancorado na violência, e esta naquele, num elo inquebrantável de abusos de poder, chacinas e assassinatos promovidos para eliminar todos os - supostos, isto é - opositores. E dessa forma intrépida Dom Óscar Romero contrariava os interesses dos altos escalões militares-políticos em manter o povo - a grande maioria frequentadora dos ofícios litúrgicos cristãos - na mais escura ignorância e sensação de impotência.

Romero restaurava o poder da voz em direção à verdade e desmentia as falácias do governo, abertamente tirano e carrasco. Muitas foram as homilias em que julgou execrável a atitude cínica do governo de perseguir e matar membros do campesinato, e arruinar quaisquer planos de melhorias sociais à miserável nação. Foi um desses homens nos quais a fé suprema liga-se à coragem d'alma, e ambas andam inexoravelmente de mãos dadas. Um dentre esses poucos que podem mudar o coração dos homens alienados para melhor, pela pura probidade e idoneidade de caráter que demonstram em suas ações, e não meramente por palavras dispersas ao vento.

Descanse em paz, Monsenhor Romero. E um brinde malogrado aos nossos tempos tupiniquins modernos de corrupção, nepotismo, propinas, subornos, velados desvios de verba e prosperidade dos oligarcas, aproveitando-se da ignorância predominante da população governada - alienada, viciada em Big Brother, novelas imbecis e seriados televisivos (importação direta da onipresente telebasura estadounidense), e que confiam em demasia no sanduíche (Futebol + "Notícia Ruim" + Inutilidades) extra-light do Jornal Nacional, e extensivamente não-política, não-literária, não-sabedora do que sua estupenda nescidade provoca, indiretamente, a nível político, sob o domínio dos psicopatas no poder.

Um viva aos mártires, que se vão e são, para o espanto dos homens conscientes, definitivamente esquecidos e enterrados dentre as ruínas da história, com 'h' minúsculo, porque eternamente corrompida por - e creditada aos - vencedores, cuja atribuição maior é uma maior tendência e capacidade para a brutalidade generalizada, além de uma propensão crônica ao unilateralismo de pensamento, também caracterizado como estupidez incurável.

Uma bênção a Malcom X, Robert F. Kennedy, John F. Kennedy, Martin Luther King Jr., todos eles vistos em sua turbulenta época como uma grande ameaça ao status quo, e devidamente apagados das páginas da história. Dorothy Stang, Chico Mendes. Seus assassinos são joães-ninguéns, claro. Por que não crer na versão oficial dos fatos? Os tempos de dita dura (ou seria dita branda, Folha de São Paulo?) já passaram, pois não é? Não, não é não. A diferença é que de escancarada passou a silente, e a braveza de todos tornou-se dormente. Vivemos uma sociedade sem heróis, sem mais o protótipo do Che revolucionário, de um mundo genuinamente melhor. Simplesmente aceitamos tudo, anuímos dopados pelo soma hodierno, e morremos lentamente numa lassidão de espírito vergonhosa.

Pois vergonhosa.

***

Recomendo de coração, por fim, o filme do sempre excelente cineasta Oliver Stone: Salvador (1986).

4 comentários:

Edison Junior disse...

"Ó branda dita mal dita
Dura, acerba rapa dura
É dita e feita e desdita
Açucarada tortura"

Li várias vezes isso...

Fernando J. Pimenta disse...

Que bom que surtiu efeito, Édison. Creio que foi uma das estrofes que eu melhor lapidei até hoje.

Arthur Attili disse...

Muito bom! Não conhecia a história desse cara! Sem dúvida, um dos muitos heróis que morreram com a bala da ditadura vigente... Parabéns

Fernando J. Pimenta disse...

Um corajoso e beato, sem dúvida! Obrigado, Arthur.