terça-feira, 13 de abril de 2010

Diabolismo Endemoinhado na Taverna de São Bento

Entrou um rapaz beiçudo
Ele era coxo e careca
Veio junto um cão-miúdo
E uma serpente irrequieta

Chamava o cão de Diogo
Coisa à toa de figura
Capa-verde cor de fogo
Já mostrava a diabrura

O indivíduo vil e sujo
Mancava no pé de pato
Diz-se amigo do cujo
Inimigo humano nato

Bebia só no caneco
Usava o membro canhoto
Cheirava à coisa o boteco
A bicho mofento e roto

Trabalhou como tendeiro
Bem tramava tentação
Cão-tinhoso e o companheiro
De pé-cascudo no chão

Pé ruim feito pé-de-cabra
Mal-encarado e careta
Sua esposa, a diabra,
Se apelidava Canheta

Eu pensava em coisa-má
Quando entrou o porco-sujo
Olhos mofinos, sabujos,
O seu nome era Diá

"Não devo pro debo
Não sou condenado!
Sou porco-mancebo
Sou o arrenegado!"

"Este lugar é sarnento..."
Foi falando o gato-preto
"Pois tem fala o bicho-preto?!"
E benzeu-se o Seu Bento

Não sei que diga, menino!
Um rabão rompeu a porta
Veio um mau cheiro malino
Veio a diáboa torta

Temba! A cabeça na táboa!
Lá fora o dragão se riu
Rabudo não guarda mágoa
Pé de peia não tem frio

"Na rodovia Anhanguera
Passam muitos bodes-pretos
Grão-tinhoso e a galera
Colecionam esqueletos..."

Pé de gancho, ex-pirata
Foi entrando e logo disse
"O maioral está triste
É a droga do haxixe!"

"Coisa-ruim nunca quis morte..."
Prosseguiu o anhangá
"Nem tem corte a foice d'ele -
Tampouco a de Satanás"

"Rodovia é diabo humano!
O excomungado dianho
Gosta é de briga, que diga!
Ama atrito a diabada...!"

Um treme-terra abalou
O prosear do satânico
"Lúcifer deu um alô..."
A taverna entrou em pânico

Logo adentrou um moleque
"Gosto de fute, cafute
Futebol e muito cheque
Diabretes nuas ao sol"

O pé-preto é bom de papo
Tem o timbre tentador
O diabim é esperto inato
Nem sei que diga é o amor...

A taverna encheu de demo
Anhanga grande e pequeno
E até um bebezinho
Romãozinho Nazareno

O cifé e o demônio
Com sono, bebiam café
Pedro-Botelho, o galã
Cochichava com Satã

Seu irmão gêmeo viera
Era o tal Pero-Botelho
Caolho dum olho e outro
De alcunha Capiroto

Capete Capeta viu
Da porta o aglomerado
Reluziu seu rebolado
Sorriu maligno e malvado

Sapucaio e seu aio
Entraram bem de finim
Na coleira o canhim,
O cachorrinho azucrim

Cafuçu, o Zulu,
Pulou de bute e de bote
"O que vale é o diale!"
Revidava piparotes

Debaixo do chão pra riba
Pulou o grão-diacho
Mordia seu pão dialho
Requentado no tição

"Ê ambiente maldito"
Berrou e gemeu Seu Bento
"Tinhoso não é mais mito...
O Tisnado está cá dentro!"

***

Tarefa: Encontre ao menos cem epítetos do tal!

***

Resposta(dispostos em ordem de aparecimento; as variações de um mesmo termo existem de fato, não foram inventadas!):

diabolismo, endemoinhado (2) [título do poema]

rapaz, beiçudo, ele, coxo, careca, cão-miúdo, serpente, cão, Diogo, coisa à toa, figura, capa-verde, diabrura, indivíduo, sujo, pé de pato, cujo, inimigo, caneco, canhoto, coisa, mofento, tendeiro, tentação, cão-tinhoso, pé-cascudo, pé-de-cabra, mal-encarado, diabra, canheta (30)

coisa-má, porco-sujo, mofino, diá, debo, condenado, porco, arrenegado, sarnento, gato-preto, bicho-preto, não sei que diga, rabão, mau, malino, diáboa, temba, dragão, rabudo, pé de peia, anhanguera, bode-preto, grão-tinhoso (23)

pé de gancho, maioral, droga, coisa-ruim, anhangá, Satanás, diabo, excomungado, dianho, que diga, diabada, treme-terra, satânico, Lúcifer, moleque, fute, cafute (veja com que rimou "fute" e "cafute"... é ou não é conterrâneo nosso?), diabrete, pé-preto, tentador, diabim, nem sei que diga (22)

demo, anhanga, Romãozinho (volte ao poema e veja onde "Romãozinho" foi nascer!), cifé, demônio, Pedro-Botelho, Satã, Pero-Botelho, capete, capeta, maligno, malvado, sapucaio, canhim, azucrim, cafuçu, bute, diale, diacho, dialho (confira o contexto de "dialho"!), tição, maldito, tinhoso, tisnado (25)

***

[Consulta do vocabulário para composição do poema: sinonímia de "diabo" no dicionário Houaiss de Língua Portuguesa - esse auxílio léxico foi imprescindível! -, e do próprio João Guimarães Rosa, minha maior inspiração imagética para compor esta brincadeira lírica ao mesmo tempo culta, alegre, popular e macunaímica. O ateu que ler este poema volta a crer em Deus! Nem queira apostar...]

4 comentários:

Arthur Attili disse...

Hahaha! Excelente! Muito bom mesmo!

Lerei umas 10X antes do recreio xD

Belo trabalho

Fernando J. Pimenta disse...

Valeu, comparsa ;D

\O/

Tá vendo?! você me deu uma bela de uma ideia!

Edison Junior disse...

Engraçado, durante a leitura me lembrei de Guimarães Rosa, mesmo. Legal!

Fernando J. Pimenta disse...

Valeu, Edison! É um orgulho ter um Guimarães como fonte de inspiração, mas ao mesmo tempo um eterno desafio.