domingo, 6 de junho de 2010

Quem sabe amanhã...

Pálido, esquálido, inválido
Por onde andara o bom homem
Cálido, quente e humano
Tornado um lobo inumano

O vento, o frio, a poeira
Uivos, latidos, gemidos
Quer, não quer - queira ou não queira
Vejo o bem destituído

O bem maior almejado
De tranco em tranco ao baranco
E o velho em seu cajado
Em seu passo débil e manco

Vista turva, vã saúde
Assim valeu-lhe a virtude
Valeram-lhe anos, enganos
Lutou no fétido pântano

Mais de um doce-amaro amor
Chamuscou-lhe inteiro o peito
Deu-lhe cor, rubor, ardor
E c'os anos foi desfeito

Olha a magia do dia
Meu velho, sinta a alegria!
Irrompendo de seus prantos
Comovendo os próprios santos

O dia alumia a mágoa
Lava, esfrega, enxágua
Vexame ficou, morreu.
Agora surge outro eu

De esperança, mudança
Frenética dança
Embalado no ritmo
E ritos de pajelança

Passam-se horas, dias
Ribomba a melancolia
Mais forte, aguda no corte
Remexendo na bacia

Cantarola sobre a morte
De feitiços a quebrantos
Juras, perjuras, encantos
Macumba, canjerê, catimbó

Ai qu'enlaça e atiça!
E fatia lagartixas
Conjura uma má poção
E me atira à solidão

Vejo em delírio arcanjos
Fadas, morcegos e anjos
Brutos, ogros, e marmanjos
Espio e volto ao sono. Credo.

Morrer é bem esquisito
O antes e o depois mesclados
Lado a lado presente e passado
O sussurro é silêncio e é grito...

Psiu.

2 comentários:

Edison Junior disse...

Muito bom Fernando. Gostei. Abraço!

Fernando J. Pimenta disse...

Grato, Éd!! Abraço!