quinta-feira, 17 de julho de 2008

O Romantismo presente em "Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980)"

Assim como nas histórias do Romantismo, que são histórias de amor, o filme "Em Algum Lugar do Passado", dirigido por Jeanot Szwarc, também discorre sobre o amor, eleito como o principal objetivo da existência de Richard Collier e Elise Mckenna, os protagonistas do filme.

A vida de Richard passa a seguir uma ordem, isto é, adquire significado e sentido a partir do momento em que ele busca o amor de Elise.

Mesmo com o sucesso que o circundava, Richard só encontra sua raison d'être (razão de ser) ao voltar ao passado em busca de sua amada, Elise Mckenna. Traçando um paralelo entre o livro Amor de Perdição - do escritor lusitano Camilo Castelo Branco - e o filme, Richard Collier, ao ver-se impossibilitado da realização amorosa, após seu regresso acidental ao futuro, é levado à morte, em seu caso, por inanição voluntária.

As aparências físicas das personagens são de igual importância no filme. Assim como nas histórias românticas, Richard e Elise, além de serem belos, são igualmente corajosos, intrépidos e "limpos". Como exemplo da coragem e intrepidez de Richard, personagem atuado por Christopher Reeve, vemos que ele enfrenta a severidade e o ciúme do empresário de Elise, o personagem William Fawcett Robinson, para alcançar a realização amorosa junto de seu amor. Já Elise, almejando voltar para o seu amado, decide fugir e reencontrá-lo no Grand Hotel, onde passam bons - e breves - tempos, já perto do fim do filme. Como exemplo da pureza das personagens, constatamos que Richard renuncia a sua namorada, no futuro, para unir-se a sua amada no passado. Elise, por sua vez, infere ao espectador que nunca tivera namorados e era virgem, "casta", preparada para integrar-se a seu amado no momento "certo".

Perseguindo com a análise, é possível perceber que W.F. Robinson, o empresário que criara Elise para que ela se tornasse uma atriz renomada, usa-se dos meios mais cruéis possíveis para separá-los. Ele é mesquinho, baixo e vil, antagonizando as características positivas apresentadas pelos protagonistas e constituindo, assim, um verdadeiro maniqueísmo na história. Essa é uma característica inerente ao romance romântico, o embate entre esses dois elementos, encarnados como o amor versus ódio/intolerância; a beleza X feiúra; a verdade em oposição à mentira. Portanto, toda a "arte" dos romances românticos estrutura-se em um universo maniqueísta. Neste cenário, o bem, para existir, deve, naturalmente, opor-se às forças do mal, isto é, todas as forças que visam impedir a realização do amor.

Do mesmo modo que os protagonistas dos romances burgueses, Richard ama - e seu amor é uma vontade impossível. Ele volta ao passado por meio da auto-hipnose, a única forma de realizar esse desideratum (desejo) que o consome por dentro. Além de ter de regressar no tempo, Richard é castigado por todo tipo de sofrimentos. Na primeira noite, vê-se obrigado a dormir no sofá do saguão de entrada do hotel, em virtude de não ter um quarto reservado. Ele também é forçado a enfrentar as exigências do meio, estando sujeito a toda sorte de reveses. Isso fica bem caracterizado quando, mesmo após cair numa emboscada - planejada por W.F. Robinson - tendo sido firmemente amarrado e jogado na estrebaria - ele desperta e se solta, com o único desejo em mente de rever Elise, que partira.

Outro aspecto abordado no filme é a defesa do casamento. Richard Collier encontra-se com W.F. Robinson, o empresário, e diz que deseja casar-se com Elise. No romance romântico, a prática sexual não é comumente admitida antes de sacramentado, oficialmente, o amor - isto é, antes do casamento. Nesse ponto, o filme rompe com a tradição desse estilo literário, tendo em vista que Richard e Elise consumam seu amor antes do matrimônio ser consagrado. Todavia, a tradição ainda está presente no filme, tendo em vista que a primeira pergunta que Elise faz no café da manhã é se ele aceita casar-se com ela. Dessa forma, a família remanesce no mais alto pedestal.

Abordarei, por tópicos, alguns fundamentos do Romantismo e sua relação com a película:

Idealização de tudo à sua volta: Movido pelo ímpeto de retornar à sua amada, Richard passa a idealizar tudo: o mundo não é visto como ele realmente é, já que ele não aceita o regresso no tempo como sendo impossível, fazendo tudo em seu alcance para realizar seu desejo de reencontrá-la. Elise Mckenna é vista como virgem (e de fato é), frágil, bela, como um ser superior e difícil de ser atingido. Durante o baile, Elise não se deixa conquistar facilmente pelo (suposto) desconhecido. Richard precisa conquistá-la com palavras, com sua inteligência e, claro, persuassão amorosa. [comentário do meu irmão enquanto eu digitava esta última linha: "Êê, Ricardããão...!!", lol...]

Sentimentalismo: Certos sentimentos são exaltados: a saudade (saudosismo) está presente logo no início do filme, quando Elise Mckenna, já idosa, entrega a Richard o relógio que ele lhe dera no passado, dizendo: "Volte para mim". A tristeza, quando Elise, após entregar-lhe o relógio, volta taciturna para sua casa e não responde aos chamados de sua criada, que lhe indaga se está tudo bem com ela. Ela segue desolada para o quarto em falece naquela mesma noite. A nostalgia, que leva Richard a renunciar sua carreira promissora como escritor de peças de teatro para voltar ao passado e revivenciar o amor perdido. A desilusão, quando ele volta - por acidente - ao presente e, incapaz de retornar ao momento que vivera com sua amada, dispõe-se dias sem ingerir quaisquer alimentos, profundamente amargurado, vestido de preto - ou seja, de luto -, e sentando-se a esmo a observar, inerte, a janela de seu quarto no hotel.

Egocentrismo: Não se apresenta tão fortemente no filme. Entretanto, a atitude de Richard de voltar ao passado é claramente egocêntrica, apesar de romanticamente admirável, uma vez que para regressar é necessário terminar com sua namorada - no presente - além de abandonar todos seus conhecidos, e tudo isso para atingir seu ideal amoroso.

Pessimismo: O fim do filme é sobrecarregado por esse aspecto, onipresente nas obras Amor de Perdição, de Castelo Branco, A Carne, do escritor brasileiro Júlio Ribeiro, e Thérèse Raquin, do escritor francês Emile Zola. Outras obras literárias - dignas de menção - marcadas pelo pessimismo são: O Germinal e Naná, ambas de Zola, sendo ótimas referências para entender esse sentimento. Richard vê-se impossibilitado de realizar o sonho do "eu", caindo, por conseguinte, em amara tristeza, angústia, solidão, inquietação, desespero e frustração, todos esses sentimentos interligados e finalmente consolidados por uma depressão crônica (que o leva à morte). Em conjunto, esses sentimentos culminam em seu suicídio, por meio da inanição. Por esse meio ele vai aos poucos se degenerando e encontra, na morte, a solução definitiva para o mal-du-siécle ("mal-do-século", como ficou conhecido o pessimismo, apontado por alguns como sinônimo de sentimentalismo, mas com evidentes nuâncias que o diferem daquele).

Evasão da realidade (ou escapismo psicológico): Espécie de fuga; como Richard não consegue aceitar a realidade da não-realização amorosa no presente, ele volta ao passado. Quando, por acidente, retorna ao presente e, novamente, é-lhe impossível aceitar a dura realidade que o persegue, ele evade para a morte, onde reencontra Elise, desta vez com um - romântico - ponto final.

Culto ao imaginário (a presença do mistério): O primeiro exemplo dá-se logo na abertura do filme, quando o espectador vê o semblante de uma senhora, sentada em um canto escuro do recinto onde Richard e sua namorada estão comemorando com amigos. Não sabemos a identidade dela, neste primeiro momento, o que cria uma atmosfera de suspense ("o que irá acontecer em seguida?"). Em segundo lugar, pode-se perceber o mistério se assentando na atmosfera do filme quando a (suposta) desconhecida se revela subitamente, levantando-se e dirigindo-se ao protagonista, Richard Collier, e pondo em sua mão - para o espanto geral - o antigo relógio de bolso que ele lhe dera dezenas de anos antes, como "prova de amor", para logo depois sumir de cena. Todos os convidados olham, assombrados, para Richard, que responde aos olhares indagadores nunca ter visto aquela longeva senhora antes. Por fim, a última instância em que pude identificar o mistério foi no momento em que Elise e Richard encontram-se conversando, descontraídos, na verde e fresca relva, e ela diz que seu empresário, W.F. Robinson, prognosticara que algum homem iria transformar sua vida, indicando, de certa forma, o poder (sobrenatural) de clarividência do empresário "vilão".

Culto à natureza: Se bem que de maneira bem mais tênue que todos os demais aspectos até agora mencionados, essa característica pode ser observada quando ambos estão a passear pelas paisagens salientadas por bosques e pradarias, ou quando estão a conduzir cavalos. Ao experienciarem esses cenários/motivos naturais, ambos se encontram mais próximos espiritualmente e, ao mesmo tempo, emanam uma liberdade de espírito inefável, porque transcendente. Relembrando agora o maniqueísmo presente no Romantismo e, por extensão, no filme, tais momentos são antagonizados pelos momentos vividos no interior do Grand Hotel, onde são interminavelmente vigiados pelo empresário ciumento, W.F. Robinson. Dessa forma, a natureza confere, de forma indireta/inintencional, a liberdade almejada a ambos, permitindo a vazão de seus sentimentos mútuos, recíprocos, correspondidos.

Conclusão
Embora as relações estabelecidas por mim entre o Romantismo e o filme "Somewhere in Time" não terem sido poucas, há certamente muito mais a ser explorado. Pela exposição dos principais tópicos do Romance Romântico (não, portanto, o Romance como um todo), assim como pela exemplificação feita a partir de cenas presentes na película, espero, contanto, que os diversos aspectos do Romantismo fiquem mais fundamentados para quem tenha assisitdo a esse belíssimo filme.

5 comentários:

disse...

Nossa...eu tinha até esquecido desse filme...xD

Gostei da sua análise e do paralelo estabelecido, apesar de eu não ter lido nenhum dos livros mencionados...xD²

Bjos!

marian. disse...

Nossa, trabalho da Marta...eu lembro de ter feito...
XD

Lucas Pascholatti Carapiá disse...

Você pego o trabalho da Marta do ano passado e coloco no Blog!
Que bacana a idéia! Eu tirei 10 nesse trabalho o meu ta muito bom, lembro que foi uma das melhores conclusões que fiz, uma grande descrição das características principais do romantismo! O filme é bom até! Bem bacana... Até que gostei! Gostei do ator! O cara é foda, queria ter lido o livro dele...
Lembro da Marta falando que ele era lindo! Huahuha... Esqueci o nome dele agora... Deixe-me ver se há no texto (não li ainda, mas imagino tudo que está escrito)...

Christopher Reeve

Agora eu li.

Ta muito parecido com o meu... Se eu achar te mostro depois.
Foda!

Queria ver aquela conclusão de novo! Mas sempre deleto trabalhos ou jogo fora.

Os trabalho ta parecido com o meu, pois creio que todas respostas se convergiriam...

Cristiane Menezes disse...

nossa adorei mesmo , ajudou bastante em meu trabalho... bjoos

Fernando J. Pimenta disse...

Fico feliz que tenha ajudado! Boa sorte.