sábado, 14 de agosto de 2010

Família Ideal

Mamãe, papai e vovô
Vovó, titio e titia
Todos tramando tricô
No seio nu da família

Minha irmandade de sangue
É como as portas que rangem
Só o ranger incomoda
Logo suave se tranca

Dobradiças sem azeite
E bisagras a sangrar
O azedo amargo leite
O range-range a rilhar

Engonços desengonçados
Ora rangindo, ora rindo
Marcados rostos e traços
Neste suceder infindo

Falam de tempos tão árduos
Como o próprio termo gínglimo
Leitos com pulgas, moscardos
Digo, um viver dificílimo

"São os quícios emperrados"
...não entendo patavinhas...
Do linguajar antiquado
"As vinhas da ira" -.... quem vinha?

De charneiras enguiçadas
Também muito já ouvi
São parentas mal-amadas
Frustradas e já cricri

Há também as aves negras
Fora dos eixos e gonzos
As ignoradas ovelhas
Chamadas de mongo-sonsos

Borboletas sem casulo
Parentes desmiolados
Com as paixões de Catulo
Cujo perdão é negado

E o rebuliço é maior...
As chamadas machas fêmeas...
De coração colorido
E seu amor por gardênias...

Pois sem quícios nem resquícios
Os mancais que ainda mancam
Tornam-se os tabus do vício
E as trancas suaves se trancam.

***

Um poema meu no qual brinco com os "segredos" de família, os tópicos evitados, "difíceis". E como eles são, duma forma ou outra, trancados num quartinho até que surja um curioso que queira porque queira descobri-los, escancará-los, e chutar o pau da barraca. Daí também brincar com a ambiguidade de uma palavra como "macha fêmea", sinônimo de dobradiça, e que aqui adquire outra conotação... assim como "mongo sonso", igualmente sinônimo de dobradiça, e que traz aqui outro significado. E assim vou brincando com outros sinônimos de "dobradiça" (já que, sem a dobradiça, portas e janelas seriam bem mais difíceis de se fechar e se trancar...):

...bisagra, engonço, gínglimo, quício, charneira, eixo, gonzo, mongo-sonso, borboleta, macha fêmea, mancal.

E, claro, qual família é ideal?

7 comentários:

Edison Junior disse...

Muito legal sua brincadeira com as palavras.
Quanto ao tema da poesia, é como dizia um amigo meu: família é bonita só no retrato.

Fernando J. Pimenta disse...

Exato. Para o retrato até perfume passamos!

Fulana d'Tal disse...

Nossa Fe, eu sempre tentei escrever algo sobre a família essa coisa boa embora complicada que faz parte da gente. Eu simplesmente ñ consigo, e penso tanta coisa à respeito
Amei o seu e certamente o usarei como inspiração... Ando tão sem tempo que escrevo esporadicamente, e nem fico tanto tempo elaborando, abro o world qndo to fazendo minha monografia e escrevo o que sai da minha cabeça, coisas aleatórias ao que estou fazendo!rsrs... Muitas saudades de trocar mensagens com você... Vamos combinar de fazer algo sim, ms vamos deixar pra outubro? que estou prevendo um furacão em minha vida nesses ultimos dias!rs
Um beijo Fê, até mais versos

Fernando J. Pimenta disse...

O mais engraçado de tudo, Karen, é que esse assunto caiu no tópico da família completamente por acaso! Eu pensei na palavra dobradiça, pensei em como ela range quando não está bem azeitada, e procurei no dicionário os sinônimos. E então eu pensei em todas as dificuldades pelas quais uma família passa, de entendimento, e conflitos que surgem dessa algazarra de personalidades e caráteres, estranhamente unidos por uma linhagem de sangue que não explicaria, jamais, tantas diferenças, uma mais acentuada que a outra!

E, por incrível que pareça aos meus olhos hoje, o poema ficou sutil na crítica, o que é bom (isto é, não ficou amargo, ou azedo, ou pesado, ou um confessionário dolorosamente emotivo). Por muito tempo deixei esse engavetado por ter o achado horrível, inacessível pelo vocabulário. Mas hoje percebo que tudo, até mesmo os sinônimos mais inutilizados de "dobradiça" se contextualizam perfeitamente no tópico da família.

Karen, Édison, e todos que o leram: vocês não acreditam como algo que cremos ser descartável num primeiro olhar, pode às vezes transformar-se em um pote de ouro (simbolicamente, claro, meus bolsos continuam como sempre... rs), bastando, para isso, que mudemos de perspectiva. É realmente inacreditável que algo que eu cri ser tão péssimo quando produzi, hoje tenha um aspecto de algo altamente trabalhado.

E o foi. Mas não soube valorizá-lo então. E agora, que tenho pouco tempo de sono, de ócio, e pouca reserva de criatividade para produzir novos poemas, pelo auê que está meu dia a dia, eu consigo dar o devido valor a isso. E vocês também souberam, muito antes que eu!!!!

Sem vocês eu não teria relido e notado que há, sim, uma dose de qualidade nele. Nenhum absinto, mas supera a cervejinha...

Obrigado a vocês, que me fizeram ver o que era invisível!!

Abraço!

Hippie Surl Jou disse...

Olá estimado Fernando...

Obrigada por sua postagem e seu parecer diante de meu blog.
O seu é genial, interessante e inteligente.
Parabéns.

Abraços,
Manuela

Fernando J. Pimenta disse...

Manuela, muito obrigado mesmo!

E o fato é que sem vocês este blogue não representaria nada. Sou sempre grato por todos os leitores. São eles/vocês que avaliam o que aqui está escrito e fazem com que isso tenha valor.

É isso!

Hippie Surl Jou disse...

Interessante Fernando, é a questão família...
Amo a simplicidade que a vida oferece, amo minha família com todos seus defeitos e maravilhas. Teu poema sobre tal, é espetacular.
Faz jus ao meu momento atual.
Acho que percebestes não é? hihihi

Grata.
E nós temos a agradecer à ti, escritor.