domingo, 6 de setembro de 2009

Ver a Cidade

Por que palavras grossas, quando poderíamos nos entender tão bem? E o tom de voz extremamente alto, de estourar os tímpanos, perder a razão? E as gírias escalantes, o baixismo gritante, os olhos distantes, o coração palpitante? E as portas fechadas, o som ecoando pra rua, chamando a mulher que concebeu teu filho de perua. O que é isso? Como iremos nos entender desse modo, se nenhum ouve, só fala fala, nunca cala, palavra-bala palavra-vento.

Isso não faz bem. Já é tempo de perdermos o receio de ver o que fizemos de errado, cara, consertar o quebrado. Já é hora de deixar o pudor de lado, tirar o mau olhado - isso não é vida, é fado. Não me manda calar a boca. Por força não se cala a cavidade falante mas nem com estopa. Já não é hora de lavar a roupa suja? Pois então, o que esperamos, o fim do mundo? Já estamos cá no fundo do poço do fosso essa vida é osso.

Meu irmão, vou me calar pra te ouvir. Não grita, não, não manda, não, me dá tua mão. Chega de briga, bagulho, vida inimiga. Esse monte de entulho é uma urtiga. Me queima, me corta, eu to te ouvindo. Tá me mandando tomar no cu, isso eu não gosto. Me mandando me fuder? Também não curto. Caralho? Esse termo não vem ao caso. Tá berrando pra quê? Viado? Eu não sou. E se fosse? A vida é minha. Homem? A gente nasce homem ou mulher. Orgulho disso? Não tenho. Pra quê me serviria? Não serve. Essa carapuça apodreceu há tempos.

Você tá gritando ainda. Bom, aqui não tem dono do pedaço. A rua é NOSSO espaço. Não teu, não meu. Amizade? Que amizade é essa, irmão, sem um escutar o outro? Pô, tá rolando alguma confusão. Amizade é dialogada, é conversa troca partilha paciência. Esse caminho tá torto, tá morto. Nesse momento eu esqueço o bem que você fez pra mim, joe, e você esquece o qu'eu te fiz de bem. Não é estranho? Pois é, não funciona desse jeito, esse ar é rarefeito e nós vamos sufocar. Palavra-tiro, bala perdida rouba a vida, mata quem tava de boa.

Você tá de boa? Eu tô de boa. Vamo falá? Que bom que o tom baixou. Meu irmão, o diálogo começou. Percebe a diferença? Foi difícil? Bom, e quem disse que escutar era fácil? A palavra é de quem fala, e quem ouve a terá. Nhenhenhém, blá-blá-blá? É assim desse jeito. O etéreo eterno só vem depois do beabá. Ninguém qu'eu conheço nasceu santo. É limpando o chorume que aprendemos a apreciar o belo. E quanto não trilhamos pra chegar até aqui. Hein? É ali. É ali. Quem disse isso não sabia o quão longe haveríamos de andar sobre as brasas do averno a vim de alcançar o Éden.

E quem diria... o mendigo apontou o caminho: siga humilde. A vida é um aprendizado. Adaptar-se é sobreviver, já viver... viver, meu amigo, é aprender. Qual você escolhe? Siga reto o caminho. O mendigo é Jesus, é Atena, é Buda, é a Luz. Meus olhos ardem, minh'alma chora. Meu nome é Abel, aquele que pôde ver o belo sem véu. Esta terra é o céu eu vejo os astros ao léu. Eu não trago comigo um puto no bolso, eu não tenho um manto no corpo, e eu sorrio como jamais sorri.

E você só ri. Era hora.

2 comentários:

Nina disse...

É mais fácil não ouvir, não aprender, não buscar, acreditar que o Éden é logo ali, taxar com rótulos e fechar os olhos pros problemas que erroneamente achamos que não são nossos.Estamos todos num mesmo barco, e só quando percebermos que a riqueza de um significa a pobreza de muitos e passarmos a OUVIR nossa própria consciência, nosso inferno particular, é que talvez haja esperança de encontrarmos não o paraíso, mas algo digno do que a maioria das religiões aceita como certo, se tornando assim uma só: o bem.
Belíssimo texto.Parabéns.

ps: como vc encontrou o meu blog?eu não o via a mais de um ano!!axei ke tinha se auto-excluído!O.ô realmente não acreditei quando vi que alguem o seguia, e tinha comentarios ainda por cima!!!obrigada por me fazer reencontrá-lo!abraços \o/

Fernando J. Pimenta disse...

Muito obrigado! Sinto-me imensamente grato por produzir algo de importância. Venha sempre.