sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Nietzscheano

O que deixa de ser dito, acaba sendo feito. Cuidado, pois, com o efeito retardado das palavras. Palavras interditas, quando exprimidas, têm seu poder reduplicado. Os desejos proibidos são reavivados, o gigante que dormia, despertado, o níveo sonho torna-se num instante um pesadelo tresloucado. E daí não demora muito à perda do significado daquela vazão de dor, desespero, insanidade, todo o torpor acometido por um baque repentino, golpes de todos os lados destruindo a áurea santidade que havíamos imposto ao nosso ser.

Este ser definido pela ambiguidade, e que tolamente tentamos separar numa de suas vertentes: bem ou mal. Um bastão, não importa quantas vezes diminuído, manterá duas pontas, e essa é sua essência. Como deixar apenas uma, portanto, num ser humano? Acue-o, e ele virará um animal, mais rápido do que você pensa. Nutra-o de carinho, e ele não negará o próprio ninho. É claro, há exceções. Por toda parte haverá exceções. Algo tem de ser não-determinista neste universo, não é mesmo? Que aporrinhação seria se tudo fosse homogeneamente padronizado pelo meio.

Mas quanto às palavras, engaioladas, um dia elas irão quebrar o envoltório, pouco importa a força que as reprime, que as suprime, elas irão se libertar. Da angústia de viver nascerá o dom maior: a vivacidade. Ser vivo implica gostar, desgostar, sentir-se feliz, sentir-se com raiva, essa é a propriedade do caráter. Não é ser eternamente bonzinho, risonho, um fofo. Ou vestir-se para sempre da carapuça do herói trágico, impelido pelo fado, semblante pesado e penetrante. Pode-se apreciar ambos os lados da moeda.

Deve-se negar o que não nos apraz. Deve-se afirmar o que gostamos. Com a mesma tenacidade. Dizer: "Não, obrigado" com a mesma força que um "Sim, é claro!". E nisso resguardar a potência de um ser que se exprime não importa onde, não importa a quem. Disse Gandhi certa vez que o homem não deve temer ninguém, senão a Deus. E, bem, nesse mundo o que mais tememos são os poderosos, mas eles não são Deus, nem individualmente, nem tomados como um todo. Eles são reles, e vis, e ordinários, como a plebe de nariz arrebitado que eles tanto vilipendiam e odeiam e contêm com o aparato policial.

Eles nos temem mais do que nós poderíamos algum dia temê-los. Porque a ira do povo, unido, massificado, reduz quem quer que esteja imediatamente acima. A hierarquia é inicialmente destituída, mas tão logo cai a anterior, instaura-se uma nova, igualmente abusiva, igualmente cruel e desnecessária. Porque assim o querem os cegos, os parvos, os crentes. Quem crê não vê. E quem deixa de ver só pode ser inevitavelmente levado à beira do precipício, e provar uma vez na vida o gosto do medo, o suor frio do degredo. O degredo da vida destroçada no rochedo, que a aguarda nas profundezas abismais da ignorância.

A ignorância como ânsia pelo agradável e tangível, jamais o abstrato, o dificultoso. A ignorância como arma dos poderosos para obliterar as massas atoleimadas, abestadas, azêmolas a serviço de uma força invisível que as dobra tão logo tem vontade. E, dobrado, o ignorante não torna a se erguer. Mantém-se prostrado, negando-se, dissolvendo-se, é morto. É morto já com condescedência, sem resistência. É aniquilado como a mais rente vegetação, socada diariamente pela planta dos pés. Mas ao contrário daquela, ele não renasce tão logo pisado. Ele expia sentindo ainda o efêmero prazer da ignorância. E disso não resta esperança de um eterno retorno. É somente a morte, a cruz, o esquife, e nada mais.

Em alguns poucos, porém, correrá o veio da coragem, da impetuosidade, da vida sem limites que há na alma e nela apenas. Nesses raros, algo desde cedo chamará sua atenção: a busca inexaurível pelo conhecimento, do mais prático ao mais abstrato, desde suportar a dor, a fome, até suportar as tentações mais infames. Eles nunca se imaginarão como santos. Suas ações espelham o brio, o ardor, os colhões. E eles só se sentirão em fogo fazendo o que lhes é cabido desde o início. De alguma forma aquela informação veio ao mundo inculcada na porção intocável de seu ser, e não importa se ricos ou pobres, a faúlha fará fogueira, e a fogueira, externa e sujeita às vicissitudes da chuva e da nevasca, abrirá caminho para o fogo eterno da lareira, protegida de vis olhares e visitas pouco desejadas. A lareira será parte inseparável de seu lar, e crepitará tão logo o lar manter-se em pé.

Ali, serão acolhidos somente os escolhidos a dedo pelo dono. Receberão o calor das áureas flâmulas, sentados na proximidade das chamas terão a sensação de vida, esmaecida no contato com seres sem autenticidade. Seres de rocha fria, cujo calor superficial e enganoso advém do contato com os fortes adormecidos, que não travaram ainda conhecimento com a substância que corre dentro deles, e se aliam aos mais fracos, sem disso desconfiar. Mas chegará o momento, em que eles se descobrirão. Finalmente ou tardiamente - uma vez descoberto o tesouro, não mais quererão chafurdar no chiqueiro. A imundície os repelirá, enojados, e os fará criar belas obras acerca da potencialidade semi-divina dos homens.

E o conhecimento, uma vez propagado, despertará do sono profundo novos homens, e a hora será chegada para compartilharem entre si suas histórias de vida. Descobrirão, no fel, o mel, no joio, o trigo, na noite, a luz. A escuridão do prazer será dispensada em prol de uma vida multifacetada. E as múltiplas facetas trarão no imo senão a manifestação das fagulhas do divino. O divino estará ao alcance como um objeto próximo encontra-se ao alcance da mão.

Chega de solidão. Os homens descobrirão um outro igual a si. E outros, que, à guisa de igualdade, predavam e dali tiravam sua seiva. A seiva dos vivos fortificando os mortos. Será chegada a hora em que as escarificações se fecharão, e dali nenhuma seiva será novamente tirada. As bestas ficarão desnorteadas, e procurarão a próxima vítima em si mesmas. Dos fortes, para os fortes. Esse apenas o caminho.

2 comentários:

Nina disse...

Peço que me permita, em minha ignorância, reverenciar tuas palavras.Nunca antes vi expresso de forma tão clara a sede pelo conhecimento.É contagiante tua fé na propagação do saber, é um alento para a alma e uma injeção de sonhos que somos capazes de realizar, independente do que digam os ignorantes e desrespeitosos.
Inevitavelmente tomei pra mim, me 'apossei' das coisas que você disse, e só tenho a lhe agradecer por mais estas linhas.
Quero acreditar, saber, conhecer, e divulgar o que penso, quero sentar-me à frente da minha lareira e fazê-la crepitar cada dia mais intensamente.
Chega de solidão, chega de medo daqueles que nos devem temer, o povo unido, massificado mas preservando a individualidade de cada um.
A metáfora que você usou para definir bem e mal foi...perfeita!Somos todos um bastão, e o espaço entre as duas vértices eterna talvez seja nosso conhecimento.Quanto mais deixado de lado, menor a distância entre as duas 'metades' do ser humano.Quem busca saber discerne entre bem e mal, e não se contenta em apenas se deixar resumir numa única idéia, visto que ambas estão impregnadas de pré-conceitos sociais.Eu, pelo menos, nãoquero ser apenas boazinha, se isto implica, como pregam, a passividade.
Eu peço, por último, que nunca cale tuas palavras, não as aprisione.Não é justo contigo, com elas, nem com quem te acompanha na vida.

Fernando J. Pimenta disse...

Obrigado, Nina, pelo carinho das tuas palavras. Fico muitíssimo feliz. O conhecimento é a libertação do homem, o saber de si e o saber do mundo. Nenhum caminha bem sem o outro. Um eterno obrigado!