sábado, 14 de junho de 2008

Os Sofrimentos do Jovem Werther (atualizado em 22/06)


Como eu, Carlota, enxergava Werther¹

Werther! Ah, mas que amigo, que doce criatura, sempre almejando o nenúfar dos deuses em sua mente que tudo procurava abarcar!

A primeira vez que me foi dada a feliz oportunidade de conhecer essa linda criatura enviada pelos deuses foi em um dia particularmente ensolarado, no qual eu me encontrava com as crianças, meus lindos irmãos e irmãs, infantes encantadores. Seu olhar sempre foi o de um apaixonado, de um ser superior, inalcançável e majestoso.

Encontrava-me então já compromissada com o homem sóbrio e de pés no chão, meu querido Alberto. Pensava eu que a presença de Werther era insubstituível, uma vez que com ele pude usufruir de belíssimos e memoráveis momentos, que estarão sempre gravados em minhas mais tenras memórias.

Ah! A noite em que dancei com ele mais se assemelha a um fabuloso sonho! Um sonho que sei não mais retornará, por sua pesarosa decisão de extirpar a própria vida... Embriagamo-nos ao som da música, e usufruímos de um átimo que mais poderia ter sido minha vida toda. Nossos corpos pareceram se unir naqueles mágicos instantes quando a alma parece se despregar do corpo, e nossos péss mal relam o chão, tamanha é a alegria, em sua mais pura toatlidade e extensão.

Daquele evento para a frente, no entanto, tive a merencórica impressão de que Werther me amava de tal forma qual não poderia corresponder, e isso pesou-me deveras o coração. Sua paixão era avassaladora, transbordante, porém não superficial. Pelo contrário, ele amou-me profundamente, mas eu, tola, não quis sacrificar meu engajamento com Alberto.

Que amor tórrido, que paixão violenta! Quando tomei conhecimento de que ele se mudaria, por ser inagüentável estar ao meu lado sem poder preencher seus desejos e, sobretudo, o vazio que ele vivenciava dentro de si, tive vontade de revelar as turbulências de meus sentimentos para Alberto. Todavia, meu intuito deparou-se com a gelidez glacial da racionalidade do meu então noivo, e percebi que sua natureza era incompatível com a emoção que eu estava vivendo, por encontrar-me defronte a mais meiga e adorável criatura que em toda minha vida pudera encontrar.

Seu afastamento produziu toda sorte de nostalgia e melancolias dentro de mim, efeito este que me deixou desolada, ansiosamente aguardando seu retorno. E ele enfim retornou, mas mais balouçado por sua paixão do que dantes, pois não conseguira expurgar de suas lembranças a minha pessoa, que ele considerava divina. Pudera eu mostrar-lhe que se enganava, que eu nunca passei de uma criatura humana, e que nada de especial eu tinha. Mas seu coração apaixonado e sua mente inebriada pelo amor seriam simplesmente incapazes de encarar essa simples, porém crua e fria verdade.

Eu nunca imaginara que alguém pudesse urdir tamanho afeto por mim, e cria ser aquela jovial paixão arrebatadora um fenômeno passageiro, efêmero por sua natrureza. Ledo engano meu, visto que ele já nem sequer podia viver sem minha presença envolvendo-lhe o olhar hiante, sua alma suplicante.

O inesquecível dia em que ele em meu lar apareceu, contrariando minhas ordens expressas para não me procurar enquanto estivesse só, considerando minha posição de casada, foi provavelmente o momento em que ele se apercebeu de sua miserável situação, e julgou humanamente insuportável continuar vivendo em tal estado. Poesias soberbas ele declamou, e choramos juntos, pelo impedimento de gozar um amor socialmente malvisto, impossível de se concretizar. A tonalidade que sua voz assumiu tornou-se um deleite para os meus ouvidos, e as emoções que me passou cofidenciaram a profundidade de sua paixão. Ah, Werther! Tu eras humano, demasiado humano, meu único e verdadeiro amor!

Beijamo-nos como nunca o fora com meu próprio marido... Seus quentes lábios aqueceram minh'alma, o que me faz arrepender amargamente de ter seguido meu terrível papel de fiel esposa... Os tempos não voltam, agora sei, e largar-te foi uma besteira que excomungou qualquer amor que eu poderia ainda nutrir dentro de mim! Ai, se eu pudesse perscrutar o que tu sentias, jamais o teria afastado de meu corpo, que vazava amor por ti. Amei-te, homem, mas meu racionalismo não pôde decifrar os hieróglifos de meu coração a tempo!

Dizer que eu sabia que tu já não agüentarías mais dói-me demais, é-me torturante dizê-lo. A ferida que o amor não expressado abriu em meu âmago cicatrizar-se-á somente no ocaso, no eclipsar da minha dorida vida. Amo-te postumamente, e quão desumano afirmá-lo é... Quão absurdo ter eu pego nas armas que lhe tiraram a vida horas depois. Oh, que tragédia ter me tornado cúmplice de sua morte, de seu martírio!
Julgava-me cristã, mas se o fosse, teria trilhado o caminho que meu coração bravamente deslindou. Parece-me, no entanto, que eu não era eu mesma ao acatar a ríspida ordem de meu marido, para apanhar os instrumentos letais de que tu... de que tu te servistes para partir deste horrendo e abominável mundo! Meu ser calculista e gélido premiu-se entre a cruz e a espada, entre o amor que tudo demanda e a (in)feliz vida estável de casada! As aventuras que me negaram o destino, quereria eu dizer. Mas seria apenas mais uma mentira para mitigar a aspereza da realidade: pois fui eu quem me negou os regozijos de viver intensamente ao teu lado, à flor da paixão.

Encontro-me, meu amor, à deriva, e meu navio de esperanças, soçobrado no racionalismo duro e materialista, que compõe este mar negro como a noite em que vogo a esmo, perdida na vida, debatendo-me o mínimo possível para, em vão, manter-me viva.

Termino a confessar: sua morte era pressaga: no imo de meu ser pude pressentir a lamentável escolha que tu estavas tentado a fazer. Infelizmente, tu seguiste a tentação. Malgrada, pois, seja a razão, quando prova-se um óbice intransponível - exatamente quando mais ardemos internamente por realizar o bem. Juro-te, apesar de nada valer jurar a ti, agora que morreste: homem igual nao haverá para mim nesta Terra. Minha existência sorumbática prolonga-se sem o viço d'outrora, sem o encanto d'olhar, sem o marulho do pensar. A vermelhidão nas maçãs do rosto há tempos me desertou. Vivo lânguida, pálida, a sofrer pelas escolhas que fiz, e com as conseqüências das quais terei de viver. Cada dia sinala o gradual contubescer de minh'alma, a paulatina desrazão de seguir adiante, que quer que isso signifique para os vivos, o que já não mais sou.

P.S.: Amei-te sem saber amar. Confessei-te meu amor sem sabê-lo confessar. Amancebei-me de ti, impossibilitada de me amancebar. Vivo hoje, sem poder saber O QUE É AMAR. Seu espírito e as flamas de seu amor incondicional aquecerão, ad infinitum , a sacra lareira de meu lar - aquela escondida de vil olhar, e que somente o tempo... só o tempo irá... um dia... apagar...

Apêndice - Carta encontrada no baú de Charles Springfield, pai de Carlota (na carta, ele chama sua filha pelo nome de Lotte, abreviação de Charlotte, o nome com o qual ele a batizara)

No dia em que nasceu minha filha, recebi em casa a visita de uma velha encarquilhada pela avançada idade, de aparência decrépita, já centegenária, Disse-me ela: "Tua filha tem um destino. O nome dela não pode ser senão Lotte". Saiu sem mais palavras, sem mesmo despedir-se. Fui a porta em seguida para pedir-lhe explicações, e - Jesus Cristo seja testemunha - ela desaparecera! Hipnotizado pelas palavras daquela velha, eu pus o nome sugerido em minha filha. Ao tomar fato da trágica morte do viril rapaz que o era Werther, e rememorar pormenorizadamente sua íntima conexão com Lotte, caí inconsciente por intermináveis dias de desvarios oníricos, quase ficando ensandecido ao retomar consciência. Pois não é Lotte derivado de Lot, "destino, fado", em sua acepção antiga na língua inglesa? Werther selou seu amor, sem saber, não com minha filha, mas com o próprio destino. Isso me foi revelado nos dias e noites de extáticas divagações e digressões, por negras florestas repletas de verdades indizíveis, firmemente arraigadas como o mais varonil sicômoro existente. Sem mais.

Charles Springfield


¹Devido a mal-entendidos havidos, quero deixar claro que todo o texto acima foi escrito por mim e que Charles Springfield, suposto pai de Carlota, não existe nem nunca existiu. Especificando: o nome surgiu na minha cabeça, então qualquer relação com um Charles Springfield real não deve ser levada em consideração. Outro ponto: o texto foi feito como trabalho para o meu projeto de Literatura da Federal.

O livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe, é epistolar, ou seja, escrito em cartas. E todas as cartas, sem exceção, são escritas de Werther a William ou, uma ou duas vezes - não me lembro - de Werther para Alberto, marido de Carlota. Assim, eu quis fornecer uma perspectiva de como Carlota *pode*(é bem provável que não) ter se sentido após o trágico suicídio daquele que tanto a idealizava - não direi "amava" porque soaria como cliché e porque amar deve ter embasamento na realidade. Acho que é algo que aprendi com este livro ultra-romântico.

Quem leu Amor de Perdição, do Camilo Castelo Branco, tem uma leve noção do que é Werther. Terceiro ponto, para fechar: caso você for ler o livro algum dia, aconselho-o para que não esteja apaixonado(a) ou em vias de se apaixonar... porque aí ler Werther é pedir - e não estou brincando, porque passei por isso e foi um pouco grave [sem brincadeira] - para entrar em depressão ou até pior - tirar a própria vida. Leia-o com moderação. Considere-o uma bebida alcóolica...lógico, se vc não levar um pé na bunda não tem problema, mas ninguém fica apaixonado esperando que vai levar um pé na bunda, de qualquer forma...^^{considero a mensagem dada})

2 comentários:

Lucas Pascholatti Carapiá disse...

Eu não entendi mto bem... Você fez um resumo a cerca do romance "Os Sofrimentos do Jovem Werther"?

Ou você adicionou um resumo sobre o livro?

Mas é um bela obra romantica!

=)

O sofrimento de uma mulher impedida de amar por ser casada e seu sofrimento por isso! Escrito de uma forma maravilhosa!

Fernando Pimenta disse...

Obrigado!
Escrevi-o em um período de jejum alimentício. Um estado pré-depressão, muito intenso, muito vívido e, ao mesmo tempo, de um cansaço físico indescritível...