quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Mouro Mar

Desmanchando a machadadas
Chagas dum amor doente
Xícaras de chá deixadas
Cheias de vil aguardente

Nas prateleiras ruídas
De minha fiel estante
Onde um dia vi saídas
À mia vida inconstante

Por só ser um ser humano
Em um mundo animal
O único bicho insano
Dividido em bem e mal

Como eu posso ser um deus
Se resido neste corpo
Se vejo dejetos meus
Como besta serei morto

E memória infalível
Nunca tive nem terei
E o sublime alto nível
Não pertence nem ao rei

Sobre o trono como um mono
Babuíno empoderado
Assombrado em seu sono
Com um mundo inalterado

Por reger e comandar
Sob o peso da coroa
Tudo no mesmo lugar
E a inércia amaldiçoa

Longas noites sem dormir
Debruçado em seu cachimbo
E as volúpias do devir
Lascivamente sorrindo

"Ficarei louco", murmura
Poço de sexo e cobiça
Minha mente é uma tortura
Se aqui ou na Suíça

Pouco importa onde estou
Sigo sendo sempre o mesmo
Sem saber o que eu sou
Singro esta selva a esmo

Miro o céu e as estrelas
Abundando o fundo breu
Minha vida quero enchê-la
Mas o quão vazio sou eu

E se olho o denso mar
Auriverde glauco azul
Pura glória de estar
Norte oeste leste sul

E não mais me ensimesmar
Em vãs vaidades chãs
Maravilhado no mar
Feminino das cunhãs

Das sereias endeusadas
Prata cobre açafrão
Como um conto de fadas
Onde o mal e o bem estão

Sabiamente separados
Numa oposição polar
Inatravessável a nado
Mouro mar a marulhar...

2 comentários:

Edison Junior disse...

Olha só quem tá voltando de férias! Abraços, Fernando!

Fernando J. Pimenta disse...

Hahaha... pois, sim, férias demais cansa a gente! Sempre há um trabalho que nos anima. No meu caso é a poesia. Ainda que mal saída do berço.

Um abraço, meu amigo!