sábado, 27 de novembro de 2010

Missiva dum intelectual ocidental em crise

Para mim, é insuportável a passagem dos dias. Lembranças, que evocam lembranças... que evocam lembranças. Verdades contadas à meia boca, em sussurros, inacreditáveis, ainda que inegáveis. Mentiras hoje comungadas como verdade.

A boca enorme e hiante das passagens subterrâneas, obnóxias e cavas dos mineiros de Emile Zola. Páginas lidas no arrefecimento do vinho que restou sobre a mesa após a farta ceia de Natal. Imaginando-me em cada morte terrível que se sucede sem fim naquele livro desolador, cada desgraça relatada enquanto deitado invertido na cama, devorando suas linhas, embriagado pelo vinho, empático, humano.

Fazia coisas boas naqueles tempos com meu tempo. Com minha vida. Alguns comemoravam a passagem do ano velho para o ano novo, quero dizer: muitas pessoas no mundo todo, 2005 para 2006. Eu chorava e me mordia e suava frio de tristeza por aquelas vidas que me pareciam desperdiçadas numa labuta aviltante e inacabável nos intestinos sórdidos da terra, e pelo excesso de vinho Porto que metera sem pensar duas vezes goela abaixo. Fora-se a garrafa inteira no decorrer da madrugada. 15 anos recém completos.

Eu ainda tinha a nobre capacidade de sentir-me melancólico pela miséria alheia, porque tinha saúde, porque teria, sem dúvida, bons e longos sonhos após tanto sofrer por vidas outras. Pode-se compadecer-se muito quando se está bem. Pode-se ser solidário, compassivo, pode-se viver, ou alimentar a ilusão de viver, muitas outras vidas simultâneas. Há muito chão pela frente - é o que nos dizem - é-se novo, está-se no auge das forças e da vitalidade, no ápice da embriaguez sóbria, sente-se o coração pulsar firme e espaçado, e não há vida melhor que esta.

Ou que aquela, pois já passou. Já passou e não a vivo mais. Apaixonava-me porque cria numa espécie idealista e platônica e máxima do amor, indestrutível. Indestrutível. Anos depois, não me resta uma migalha dessas crenças enaltecedoras, até então inabaláveis. Na minha cabeça de adolescente inexperiente, o sexo era fruto do puro amor, e o puro amor era palpável, tão tocante como a vida, tão verdadeiro como aquela, o mais alto sonho tornado verdade.

Quero aquela vida sem querelas quixotescas de volta. Olhava as pessoas nos olhos e não havia quem honestamente não gostasse de mim. Nos meus olhos via-se respeito à humanidade, ao que há de melhor e mais divino em cada homem, e não os desviava jamais. No meu olhar infundia-se minha fé suprema nas palavras proferidas por Cristo: Não julgueis, e não serás julgado. Não precisava frequentar o adro da igreja para aprender na ternura de meu espírito ingênuo os mais caros ensinamentos dessa figura mais que humana, mítica, nomeada Jesus. Jesus de Nazaré, onde há luz há fé, há conhecimento e poder, poder de ser, crer, criar e viver, poder ser-se (como diria Fernando Pessoa, meu xará), isto é, ser humano no mais amplo sentido. Um leque inesgotável abria-se multicor como um pavão imponente aos meus olhos maravilhados, e a vida aparecia-me como um caminho reto em direção à amplidão da alma, suficientemente duradouro para nutri-la até o segundo que precederia o fenecimento deste corpo. Cada passo contava-se supremo rumo ao infinito, cada passo consistia no caminho inteiro.

A morte. Era um fenômeno distante, mas igualmente próximo. Passei minha adolescência figurando-a no instante seguinte, meu eterno incentivo para fazer o que houvesse de ser feito, dizer o que quer que houvesse de ser dito, sem delongas, sem preguiça, sem sensação de baixa autoestima. Outra frase atribuída a Jesus no Novo Testamento ressoava-me na cabeça: Não ajudeis os preguiçosos. Atividade era o meu lema, meu tema, meu rema. Atividade, bondade, altruísmo e amor.

Mas o que é a humanidade, mesmo? Ambição, fornicação desconexa a qualquer idealismo de amor e união, tirar proveito dos mais fracos e ignóbeis, explorar, lucrar, manipular, persuadir e dominar. Há neste mundo algum espaço, exíguo e insignificante que seja, para santos e monges fora de seu monastério e eremitério? É uma questão que anseio por responder positivamente não por mim mesmo, mas por parte de minha tia pia e freira, a quem amo tanto. Quiçá o consiga assim que voltar a olhar nos olhos os cegos, os injustos, os aflitos, os sacanas e os pobres d'alma que me rodeiam. Gente infeliz que crê na permanência e só existência do corpo, uma tolice sem tamanho, mas aceita como um amém. Falsa hóstia boca adentro.

Olho ao redor, olho-me ao redor, e já não desejo que meus olhos vejam absolutamente nada mais. Quero paz, mas tenho guerra, almejo o céu mas prendo-me à terra, o real me desterra, e eu fora de mim nem suspeito onde estou. O etéreo foge-me entre os dedos e fenece, desacordada, minha esperança na boa-aventurança da vida humana sobre a Terra. Há males que vêm para o bem, mas eu quero o além, e não viver me torturando na cotidiana autoflagelação desta pele sensível, queimada pelo sol, povoada por veias e decisão latejantes, embora incapaz de tatear este mundo nauseabundo em sua temível integridade, o que me rememora sempre os terrores que esta pútrida terra testemunhou e testemunha de forma contínua, porque não deixa de ser a mesma, habitada pelos mesmos seres mesquinhos e egoístas de séculos, senão milênios e decênios atrás.

Só há uma coisa ainda a ser dita. Creio na humanidade. Creio no elemento humano. Seria insânia descrer até nisso. Não obstante tudo o que eu disse entre meus dentes rilhados até aqui, creio solenemente em ti, e de ti tiro a imbatível crença abençoada em mim e, por natural extensão, em todos nós. Somos farinha do mesmo saco vazado. Pois não importa onde estamos, o único ponto relevante é o que somos, verdadeiramente somos e nos compremetemos a ser.

4 comentários:

Edison Junior disse...

Muito bom o texto, caro Fernando, embora o tenha achado um tanto pessimista.
Chega uma hora que cansa mesmo sofrer pelos outros. Não que a solidariedade deva ser abandonada, pelo contrário, mas é preciso pensar primeiro em você. Parece meio egoista isso, mas é como nas emergências de avião: primeiro ponha o respirador em você, depois ajude os demais. Espero que sua crença na humanidade e no elemento humano lhe deem a esperança de um mundo mais alegre.

Fernando J. Pimenta disse...

Com certeza, Edison. Ontem escrevi esse texto e saí para o mundo, encontrei meus colegas de grupo, fizemos boa parte do nosso trabalho em grupo para a faculdade, no domingo (amanhã) nos reencontraremos para terminá-lo, e na segunda-feira chegaremos antes do horário da aula para apresentá-lo.

É, sim, um texto bastante pessimista, mas eu queria justamente fechá-lo com o mais alto otimismo. Dizer que creio na humanidade do fundo do coração é ser otimista, o mais otimista que se pode ser. Conheço muitos que jamais teriam os colhões para dizê-lo, e, num sentido maior, VIVÊ-LO.

E quanto a fazer as coisas por nós mesmos, você está mais que correto. Em outras palavras, você compreendeu integralmente a alma do texto e por esse motivo te parabenizo: pois a lição mais dura que eu tenho ainda de aprender é como ser a pessoa que sou sem ser enganado pelos espertos. Em outras palavras, ser mais egoísta - no BOM sentido, sempre.

Obrigado pelo comentário!

Absinto Muito disse...

Gostaríamos que conhecesse o nosso blog. Achamos que vai gostar! Um abraço!
http://absintomuitorock.blogspot.com/

Fernando J. Pimenta disse...

Opa!