quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Pia Só o Carcará

Carne seca seca ao sol
O facão já amolado
Carne seca, seca, ao sol
Meu facão mal amolado

Se há carne sobre a mesa
Demos conta da despesa
Mas a mão segue tão tesa
Nada pode agarrar

Se há água na represa
São tempos de realeza
Mas nos mata a moleza
E a garganta a apertar...

Sobe o sol sempre tão cedo
Como se sorrise agora
Quando bate firme a hora
De amansar o meu mancebo

Meu mancebo mal nascido
Descortina a solidão
Desd'o berço destruído
Sabe quais os males são

Antes mesmo de falar
A mãe o ensina a rezar
O pai o ensina a calar
Segue quieto e seco o lar

Irrompe o choro faminto
Se há algum pão, eu minto
O menino se esgoela
O pai monta sobre a sela

Espora a besta esfaimada
Secas costelas à mostra
A seca pele o sol tosta
Racha no meio a estrada

Se vier chuva, vivemos
Caso não venha, morremos
Essa alegria nós temos
Esta tristeza dos demos

Quando é que nós perdemos
O rumo reto - a vitória
Sucumbindo à vida inglória
De viver nos esfalfando

Uma sombra quando em quando
Pois nem isto bastará
Sem palavras pra sonhar
Pia só o carcará.

4 comentários:

Edison Junior disse...

Voltou! E inspirado!

Fernando J. Pimenta disse...

Valeu, meu velho amigo. Um dia vou te visitar aí na tua terra natal! Um abraço!

Edison Junior disse...

Traga casaco, porque está frio...

Fernando J. Pimenta disse...

Então eu vou esperar chegar o verão! De frio eu to por aqui já... haha