sábado, 28 de agosto de 2010

Buona Sera!

O que houver de acontecer,
Acontecerá.

Será

domingo, 15 de agosto de 2010

Insônia dos Sonâmbulos

Em meu sono insone os sonhos
Aparecem como alerta
São meus medos mais medonhos
A vontade me desperta

A vontade de acordar
E fazer quando acordado
E sorver de novo o ar
Majestoso desse estado

Onde as fendas mais escuras
Permanecem escancaradas
E aos meus males acho a cura
Sem a cura não sou nada

Logo desperto, adormeço
Fundas sendas sem saída
Meu retorno ao recomeço
Minha vontade esquecida

Como pude eu esquecê-la
Uma náufraga ilhada
Sem nem mesmo nunca tê-la
Nesta infinita escada

Demarcada por degraus
Perfazendo o labirinto
Onde medram bons e maus
E minhalma pouco eu sinto

Corpo e cor descompassados
Repetidos cada instante
Meus simultâneos passados
No tarô da cartomante

Morte ao bravo cavaleiro
Vida ao astuto rapaz
Paira em mim um nevoeiro
Negro, intrépido, sagaz

Anoitece novamente
Rumo ao novo limpo dia
Num mormaço deprimente
Antevendo a carestia.

sábado, 14 de agosto de 2010

Família Ideal

Mamãe, papai e vovô
Vovó, titio e titia
Todos tramando tricô
No seio nu da família

Minha irmandade de sangue
É como as portas que rangem
Só o ranger incomoda
Logo suave se tranca

Dobradiças sem azeite
E bisagras a sangrar
O azedo amargo leite
O range-range a rilhar

Engonços desengonçados
Ora rangindo, ora rindo
Marcados rostos e traços
Neste suceder infindo

Falam de tempos tão árduos
Como o próprio termo gínglimo
Leitos com pulgas, moscardos
Digo, um viver dificílimo

"São os quícios emperrados"
...não entendo patavinhas...
Do linguajar antiquado
"As vinhas da ira" -.... quem vinha?

De charneiras enguiçadas
Também muito já ouvi
São parentas mal-amadas
Frustradas e já cricri

Há também as aves negras
Fora dos eixos e gonzos
As ignoradas ovelhas
Chamadas de mongo-sonsos

Borboletas sem casulo
Parentes desmiolados
Com as paixões de Catulo
Cujo perdão é negado

E o rebuliço é maior...
As chamadas machas fêmeas...
De coração colorido
E seu amor por gardênias...

Pois sem quícios nem resquícios
Os mancais que ainda mancam
Tornam-se os tabus do vício
E as trancas suaves se trancam.

***

Um poema meu no qual brinco com os "segredos" de família, os tópicos evitados, "difíceis". E como eles são, duma forma ou outra, trancados num quartinho até que surja um curioso que queira porque queira descobri-los, escancará-los, e chutar o pau da barraca. Daí também brincar com a ambiguidade de uma palavra como "macha fêmea", sinônimo de dobradiça, e que aqui adquire outra conotação... assim como "mongo sonso", igualmente sinônimo de dobradiça, e que traz aqui outro significado. E assim vou brincando com outros sinônimos de "dobradiça" (já que, sem a dobradiça, portas e janelas seriam bem mais difíceis de se fechar e se trancar...):

...bisagra, engonço, gínglimo, quício, charneira, eixo, gonzo, mongo-sonso, borboleta, macha fêmea, mancal.

E, claro, qual família é ideal?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Do Alto Abaixo

Minha dúvida na vida
Minha dívida de vida
Serei quem almejo eu ser
Doa muito a quem doer

Doa, fira, decepcione
Serei quem almejo eu ser
Seja eu Sérgio Leone
Venha eu recrudescer

Se o que me importa é meu ser
Esta pútrida aparência...
Ou será mia séria essência
Pronta sempre a se esconder?

Esta larga porta aberta
Do outro lado, outra vida
E eu cá ensimesmado
Vejo a reta tão comprida

Encurtado o horizonte
Olho a meta indefinida
Que podia ser mia ponte
Entre esta e outra vida

Que atravessa o alto monte
Numa trilha tão dorida
É melhor que não me conte
Nada mesmo desta vida

Antes me tornasse insano
Procurando uma resposta
Afundado em desenganos
Preso à fria e crua encosta

Pétreo e rijo nesta crosta
Já acumulada em mim
Sem qu'eu nem mexer me possa
Enxergar no chão carmim.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Estranhos na Cidade

Ele era mais baixo que eu, talvez em seus 1 metro e 68 centímetros. Talvez 1 e 65. Tenho um bom olho para arriscar-me em "chutes" de dimensões corpóreas, mas não há a mínima necessidade de delongar-me enfadonhamente nisto. Tinha a barba rente, grisalha, e aparentemente a idade do meu pai. 55 anos. Daria menos, mas logo se notava que não havia passado pelas melhores das situações na vida. O dia era frio, 15ºC, e ele vestia uma jaqueta um tanto escurecida pela sujeira acumulada, que não era excessiva a ponto de causar repugnância, nem tampouco fedia, mas seria de pronto rejeitado em qualquer entrevista de trabalho. As pessoas do ponto de ônibus visivelmente evitavam olhá-lo. As pessoas, como uma regra geral, não costumam fixar a vista no que lhes é desagradável. E as aparências contam muito.

Veio esse homem até mim e perguntou-me: Aqui passa o Butantã? Respondi-lhe num gutural que me assustou, assim como a outro jovem homem que estava próximo: É! E então veio a pergunta desse homem que me deixou estupefato: Lá dentro [da USP] "ele" faz denúncia em todos os lugares? Respondi-lhe: Faz! Monossílabos esses que me permitiam elocubrar o que esse desconhecido estava afinal querendo dizer, e refletir se ele estava em plena posse da razão. Do nada, então, ele começou a relatar sua vida em pormenores... e eu, que nunca o havia visto antes, passei a escutar e anuir com a cabeça, olhando-o nos olhos...

As irmãs dele o haviam colocado num "manicômio", para embolsarem o dinheiro da assistência do governo. "Coisa pouca" de dinheiro. "E isso se faz a alguém?" Respondi-lhe: Não, não se faz. Continuou, dizendo que o pai lhe negara e o encomendara ao diabo, já no leito de morte, negando-o também como filho de seu próprio sangue. O pai o odiava. A mãe, desnaturada, prendera-o no galinheiro, forçando-o a comer o "lodo" pisoteado e emporcalhado pelas aves. "E isso se faz a um homem?" Não, meu senhor, coisa dessas não se faz...

Ele, pois, queria "fazer denúncia" desses abusos dos quais tinha sido vítima, e viera de Bauru, cidade do interior paulista, para esse fim. Disseram-lhe - sabe-se lá quem lhe disse semelhante asneira - que "aqui" ele poderia denunciar esses maus-tratos sofridos e angariar uma indenização. Por conta dessas terríveis tribulações, às quais fora submetido pela própria família, havia sobrevivido à tuberculose, pneumonia, febre amarela, e estava "doente das pernas", morando na rua. Não, não me pediu dinheiro. Queria mesmo era relatar sua história, sem quês de piedade ou súplica. Relatava sem sorrir, sem mostrar um dente sequer - talvez não os tivesse, talvez os escondesse muitíssimo bem, sabe-se lá por quê tal procedimento.

Sua aparência era de fato frágil, sendo ele um homem de fenótipo magro, as bochechas sugadas, os olhos estranhamente azuis... havia trabalhado "no Estadão", ganhava uma boa grana, mas o enganaram, dizendo-lhe para largar aquele emprego pois haviam lhe encontrado "coisa melhor". Viera e se desiludira. Novamente tapeado pela vida, ou por aqueles que a transformaram pouco a pouco num inferno. Já dentro do ônibus, desatou a tossir. Tossiu uma ou duzas vezes, mas foi o suficiente para ter uma ideia precisa do estado de seus pulmões. Haviam-lhe tirado a moradia, e "nem que fosse para andar lá dentro" [da USP], ele queria porque queria encontrar o tal lugar onde se pudesse fazer a tal denúncia.

O problema era que... ele não conhecia absolutamente nada da USP... nunca estivera sequer lá dentro. Pensei: esse homem não sabe o que está fazendo... ninguém quererá ouvi-lo lá dentro, e caso peça informações a algum transeunte, de três, uma: ou lhe ignorarão ao ver suas vestes malcuidadas, ou tirarão graça da cara dele (há sempre quem se divirta com a miséria alheia), ou, por fim, não saberão lhe informar aonde ir, como ir. Para todos os três casos, a certeza única é que ele se encaminhava para a própria perdição.

Disse-lhe: Senhor, pergunta para o motorista qual é o ponto do hospital lá dentro (Hospital Universitário), e desça lá. "Hospital? Por quê?". Porque lá é capaz que lhe deem a informação [de onde fazer a "denúncia"]. Ele agradeceu, sempre olhando-me direto nos olhos, mas permaneceu estanque. Num determinado ponto de sua história pessoal, antes de chegar nosso ônibus, lágrimas quase lhe brotaram dos olhos. Era ou um ator, ou um sofredor. Mas isso de ficar estanque após minha sugestão de indagar ao motorista, eu não pude compreender. Perguntar no lugar dele, eu não perguntaria. Se esse homem tivera a capacidade de dirigir-se a mim e pedir informações, e contar sobre seu maldito passado, inegavelmente poderia perguntar o que fosse ao motorista. A fala ele tinha.

Apesar de sua situação, verdadeira ou não, morador de rua ou não, vítima da maldade alheia ou não, fosse ele salafrário ou honesto, o fato que me avivou a memória foi que esse homem retinha consigo uma certa dignidade, e olhava bem nos olhos - característica já mencionada -, sem, no entanto, dar a impressão de que intencionava manipular pelo olhar, ou retirar desse contato visual qualquer favor para si, explícito ou implícito. Parecia mesmo que ele estava procurando fazer a tal "denúncia", e tudo leva a crer que ele cria piamente que isso pudesse ser realizado dentro da USP. Em qual faculdade, ele não sabia... A rua, o endereço, o número desse tal lugar no seio da cidade universitária, tampouco conhecia...

Eu não sei quem era esse homem de boné com temática de exército, à venda em qualquer camelô. Mas se um dia eu ficar lelé da cuca, ou me tomarem por algum lunático ou coisa similar, a imagem, a voz, a tosse e a pungência - real ou não - da vida desse homem, haverão de me vir à memória. Contra todas as minhas suspeitas, eu devo ter "cara de conversa", ou de ouvinte aberto, ao menos a algumas pessoas. Não é possível... não foi a primeira vez que alguém me contou sua história, sem nada pedir em troca... Exato. Sem nada pedir ou pegar em troca. Meu digno pagamento é calar, ouvir e aprender com os erros alheios.

Não posso senão me pôr a imaginar onde esse homem está neste exato instante, e o que faz...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Haicai Insubmisso (XVI)

Mãos e dedos
Nãos e medos
Irreconciliáveis.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Admirável Mundo Novo

A Aldous Huxley

Ferraduras nos cavalos
Focinheiras nos cachorros
A mordaça em nós humanos
Civilização. Bem-vindo!

Antes carroças
Hoje carrões
O mundo na roda
E a roda no homem.

Novas angústias modernas
Maus e velhos pesadelos
Quando a voz tão doce e terna
Não nos permite esquecê-los

Como o homem muda o mundo
Sem a si obter o mesmo
Basta olhar petrificado
Pasmo olhar e assim ficar

Mudo - quieto - teso - só.
Para então se recordar
De quando ousara sonhar
No firme aperto da avó

Naquele aperto de abraço
Olhos nos olhos... tão vivos!
Para afastar o fracasso
O tenro amor de um amigo

Sem gênero, raça ou cor
Amor sem pudor - Amor.
Como só podem os velhos
Por verem o invisível

Verem iguais as lições
Repetidas nos seus netos
E as mesmas reações
E seus gostos prediletos

Quão estranho este Universo
Refletido nesta Terra
Vêm e vão filhos submersos
A lutar sua própria guerra

Para alguns, muito difícil
Para outros - corriqueira
Escrita como um ofício
Cada letra à sua maneira

Para estes, sempre mística
Para aqueles, sempre asneira
Uma neta nasce tísica
Depois cresce uma guerreira

Outro, com tanta saúde
Sequer teve uma virtude
Vivendo à custa de todos -
Lábia, carisma e engodos.

Reflete a velha anciã:
Alguns são bem mais que os outros
Mais de vida e mais de alma...
Sempre são trapaceados.

Até um dia aprender
Esta mais dura lição
A quem querer ver: os olhos.
Quem os negar não terão

Quem os negar tentará
Espalhar sua cegueira
Para aqueles com maná
Engolirem a besteira

De que todos são iguais
Alguns menos, outros mais
Os valentes rechaçados
Acorrentados ao Cais

Para verem o mar infindo
E assim morrerem rindo
Crendo ter vivido tudo
Sendo prisioneiros mudos.

domingo, 8 de agosto de 2010

Vanilóquios do Armagedão

Fruto que nasce malandro
Também vai cair do pé
Não importa qual meandro
Vai cair como um mané

Se até isso fosse injusto
Nem viver teria custo
Nem morrer seria justo
Nem a vida existiria

Nem a luz teria o dia
Nem a noite brilharia
Onde o mal reinasse impune
Sem a força que nos une

Homem bom seria mito
Na vitória pelo grito
Coisa nenhuma haveria
Na total misoginia

Na total misantropia
Onde a luz não alumia
Sacrifício humano é regra
E a lei humana é cega

Cega-cega de verdade
Rima de passividade
Quando os fatos inventados
São a última verdade

Ser gente é futilidade
Na ausência de amizade
E o pássaro alegre
Vira rara raridade.

Vira mera vaidade.

sábado, 7 de agosto de 2010

Liberto

"Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda
o que nos vale é poder chorar, o choro muitas vezes é
uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se
não chorássemos."
(Ensaio Sobre A Cegueira, do benquisto, finado José Saramago)


***

Ah, não! Veja só quem veio
De seu campo de centeio
O jovem apanhador
Preso às rédeas do amor

Ah, sim! Olha quem chegou
Lutou e se libertou
Piruetas, traquinagens
E um punhado de coragem

Índio de instinto selvagem
Boca larga, riso sempre
Peito cheio de contente
Mente livre de bobagem

De ser maior ou menor
De ser melhor ou pior
De ser quem nunca será
De ser aquele acolá

Não se pode ser que é
Aspirando a ser igual
Não se pode nem ter fé
Se a fé é desigual

Cultivada no amplo templo
Onde Deus não somos nós
Presos soltos neste Tempo
No Universo de almas sós

Onde o amor é findo e morto
E o saber padece roto
Nossas lágrimas enxutas
Seco o sangue desta luta

Onde o fim não recomeça
Numa parva finitude
Onde a vida corre às pressas
Nada vale qu'eu me mude

E por mais qu'eu me emudeça
Não tirarei da cabeça
Antes morro a me esquivar
Deste rarefeito ar

O trabalho não liberta
A verdade nunca é certa
Valho mais que esta oferta
De uma vida após a morte.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Santo Atrito

Não sou quem pareço ser
Nem pareço quem eu sou
Quem é este em meu ser?
Quem é este quem eu sou

Se não sou minha aparência
Se nem isto é verdadeiro
O qu'eu posso na descrença?
De não ser por mim inteiro

O que faz desde nascença
A criança do celeiro
Pra vencer a desavença?
De Seu ser cindido ao meio

O que faz em Sua passagem
Assolada sobre a Terra
Para ver sob a miragem?
Sua Paz cingida à Guerra

domingo, 25 de julho de 2010

Teresa diária

Lua minguante. Ó, lua...
Cante esta música tua
Em meu lar enluarado
Respirarei teu recado

Tua lei, o teu ditado
Este mar cruzado a nado
Quando a noite cai prudente
No céu limpo negrejado

Quando a noite cai e sente
O orvalho já gelado
O choro deste parente
Seu soluço entrecortado

A lamúria de um doente
Cujo sonho é pesadelo
O estranho em sua mente
Carrega o sétimo selo.

Inquebrável juramento
Lacre timbrado e lavrado
Este banco onde eu me sento
Não me livra do estrado

Onde deitam os leprosos -
Deitam quietos mas não dormem
Teresa de Calcutá...
Onde há dor a vida está.

***

O Sétimo Selo (dir. Ingmar Bergman, 1957): Um filme extraordinário sobre a vida, e a morte, inelutável. Sobre o sentido de ser e estar neste mundo, que, não raro, supera nossa própria compreensão. Belíssimo filme - admito que preciso revê-lo. Lembro-me apenas de cenas díspares, marcantes, e não do todo, como pretendia agora. Perdão...

Madre Teresa de Calcutá (1910-1997): Esta boa irmã que cuidou dos afligidos pela hanseníase, dos miseráveis e dos desesperançados, sob condições tão insuportáveis, e com uma fé sem tamanho. Impressionante.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Eu sou sul-americano

Eu sou sul-americano
Lá dos campos de algodão
Mãos de calos - mãos de amo
Apesar da plantação

Eu sou sul-americano
Cá nos campos da canção
Onde canta o ser humano
Apesar da escravidão

Eu sou um negro africano
Longos anos desertado
No seu choro o pelicano
Me relembra emocionado

Eu sou alto e muito forte
Não confiem no meu porte
Não me deu a maior sorte
De um dia eu ter digna morte

Eu sou de cor colorido
Preto, moreno e amigo
Olhos, orelha e umbigo
Homem, humano e parido

Eu sou pai do Jazz, do Blues
Pai do Martin Luther King
Eu sou negro e vim do Sul
Serei sempre o rei do ringue

Eu sou pai do Malcom X
Billie Holiday, meu bem
Estou vivo por um triz
Minha voz é como um trem

Passa e fica para sempre
Sarah Vaughan nos cativa
Não há quem jamais se lembre
Da Nina Simone - a diva.

Não há quem se lembre e diga
Isso já foi. É passado.
Pois na noite a voz amiga
Acompanha-nos no fado.

***

Escrito após ter visto o encantador filme O Sol é Para Todos (To Kill a Mockingbird, 1962, dir. Robert Mulligan), baseado na obra homônima da escritora, também estadounidense, Nelle Harper Lee. Recomendo-os (o filme, como o livro, que há pouco li e adorei) de coração.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Lelé da cuca

Milhões de passos com pressa
Andando a esmo o caminho
Mil avenidas avessas
Nós nos sentimos sozinhos.

Nós nos sentimos tão sós.
A gente não é plural
Senão um monte de nós
Um nó górgio sem igual

Um grande nó no pescoço
A grande amarra na boca
No cotidiano insosso
Desgraça tão grande é pouca

Desgraça esconder-se em roupas
Engraçado ficar nu
No hospício de almas loucas
Cada um em seu iglu

Nosso manicômio urbano
É totalmente perfeito
Ali - fulano e sicrano
Sonham a sós em seus leitos

Sonham imagens explícitas
Da realização máxima
Papai Noel traz na lista
Suas vontades de lástima

De amar as árvores verdes
Índias impuras tomadas
Nas mãos sedentas de sede
Sequiosas das amadas

Mãos calejadas nos barcos
Vidas guiadas por remos
Podres mantimentos parcos
Seres entre o mar pequenos

Egoístas, cobiçosos
Ó formosos navegantes!
Matem índios ociosos
Os selvagens ignorantes

Os ímpios dalma, os hereges
Adoradores das plantas
Como bem prega o Evangelho
Filhos das grutas das antas

Salvem suas almas
Trucidem seus corpos
Índios sob as palmas
Índios hoje mortos

Sob a cruz religiosa
O cruzeiro estrelado
A Maria milagrosa
Limpadora de pecados

A espada não tem fé.
Nunca teve nem terá.
Mas o mar e a maré
Têm na marca o mal-estar.

O tenso sono pesado
Dos tantos doidos dormentes
A loucura, esse estado
Muitas vezes consciente.

Malogrado ser maluco
Neste mundo tão normal
Onde bate firme o cuco
Para o juízo final...

Eu sou louco - quer um pouco?
Da mia mente ensandecida?
Sou tão oco como um coco...
Cuja água é minha vida.

***

Após ter assistido ao absurdo e genial filme Bad Boy Bubby (dir. Rolf de Heer, 1993)... um dos filmes mais insanos, mais comoventes, mais tragicômicos, mais kafkianos, mais abrangentes, revoltantes, repugnantes, encantadores, calorosos, que eu já vi na vida. E é bem capaz que seja o ápice máximo de todos esses adjetivos. É o paradoxo da vida humana levado ao extremo, sem romantizações de caráter, destino, Deus. Até hoje eu não creio que outro diretor¹ tenha se imbuído da coragem de rodar algo tão fascinante, discrepante, revelador e realista. Algo tão "tudo" ao mesmo tempo, sem pecar por excesso de cautela, ou mesmo por sinais evidentes de ambição. Jamais vi algo como esse filme, e creio que qualquer outro que, por acaso, se assemelhasse, ou, por intuito, buscasse se assemelhar a essa avis rara do gênero (gênero... ultimamente inclassificável e inantecipável), não o alcançaria de modo algum.

Esse filme gerou, por veios e meios indiretos, um poema (o acima) que eu estimo muito. Nele eu busco, na descrição dos navegadores e da "descoberta", cenas de um filme do diretor alemão Werner Herzog (1942 - ), ao qual tive a grata oportunidade de assistir. Chama-se Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972). A descoberta da América Espanhola de uma maneira nada romanesca, portanto, nada ilusória.

Nota:

1. Há diretores que foram longe na unicidade de suas obras, como o próprio estadounidense James Broughton (1913-1999), cujos filmes (uma parcela deles) espantam pelo teor abertamente lascivo, descaradamente sensual, apelando à intimidade de nossos corpos. São difíceis de tragar, confesso, como espectador atônito que sou.

Três filmes de J. Broughton, que foram extremamente desafiadores para mim, por seu inegável teor voyeurístico:

1. Hermes Bird (1979)
2. The Golden Positions (1971)
3. Devotions (1982)

Você sabe quem é...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Fernando Pessoa

O cão late - a porta bate
Crianças brincam na rua
Cai com estrondo o abacate
E a grácil moça se amua

Prostrada em sua janela
Radiante em seu sorriso
Sabe-se lá o que há nela
Quando passa o Seu Narciso

Seu Narciso, grande e gordo
Bonachão e brincalhão
Evinha, eu beijo, não mordo...
Dê-me cá tua bela mão.

Narciso logo gargalha
Rir é meu maior amigo
Coisa boa é ser canalha
Mas bem isso eu não consigo...

Rir é coisa muito boa
Chorar de rir, pois então...!
Como o leve som ressoa...
Quando tudo é solidão

Como o leve som ecoa
Quando a vida já diz não
E desperta na garoa
O desejo de união

O céu cerrado trovoa
É a chuva, Narcisão...!
O bom Fernando Pessoa
Nos deixou sua emoção

Emoção deste viver
Em versos nossa versão
Maravilhada da vida
Como a chuva no verão.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Almeida Júnior

Olha a passagem do vento
Passagem sequer comprada
De um pétreo punho avarento
Passagem - passou... Passada.

Olha a passagem do vento
Passando, voando além
Um respiro poeirento
Carregado de Belém

Vem vindo o vento passando
De um calor arrefecido
Nas paixões de Marlon Brando
Meu Brasil recém-parido

Olha, olha, olha.. o belo
Caipira picando o fumo
Basta olhar tamanho esmero
Cada traço com seu rumo

Cada traço com aprumo
Almeida Júnior pintou
O roceiro com seu fumo
Ele, sim, se eternizou.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Índio Alado

Cauí, beberagem
Me dê mia coragem
Cauí, beberagem
De volta selvagem

Cauí, beberagem
Meu sonho, miragem
Cauí, beberagem
Mia real imagem

Cauí, anuaí
O pássaro ri
Cauí, anuaí
Mil milhas daqui

Cauí, ó, cauí
E eu, onde estou
Me leve aí
Mia alma voou

terça-feira, 6 de julho de 2010

Tu me chamas

Quando tudo fica mudo
E se impõe o meu escudo
É macio como veludo
E pesado como o luto

Abro o peito já desnudo
Olhos cegos - surdo ouvido
Ensombrece tudo, tudo
É um fardo como o luto

Pelo e pele, todo hirsuto
O frio corpo eu cutuco
Estéril, como um eunuco
Tudo é sombra e tudo é luto

Quanto dura a sepultura
Esta tumba tão escura
O ressaibo da amargura
O eterno que perdura

Quanto custa um susto assim
Duplo meu falando a mim
Aonde eu fui donde eu vim
Morto o gênio de Aladim

Morta a lâmpada sincera
Ó Medusa, mia quimera
O destino que me espera
Na fissura da cratera

Olhos negros da pantera
Temerosos como a fera
Medo vindo de outra era
Tão eterno como as serras

Vales, colinas, montanhas
Estranhas à vida, estranhas
Abismos do breu - do Eu
O réu maior sob o céu

Então surge a tocha acesa
E muge a vaca indefesa
O clarão do lampião
Labareda sobre a mesa

Fogo humano do saber
O ardor aquece o ser
Ó fogueira alvissareira
Lança a luz nesta lareira

Lança a luz alumiada
Na mia erma e só morada
Ó fogueira alvissareira
Chama mais abençoada.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Duendes doentes não há

E a folha se desprende
E recai na imensidão
Pousa na mão do duende
Tão maroto, garotão

Assovia e logo aprende
Todos os modos do mundo
Como é sábio esse duende
Não sente o odor nauseabundo

Ou talvez o sinta e saiba
Ver o todo de outra forma
Sem nem dar lugar à raiva
Seu olhar que se transforma

E o transforma em conjunto
Em todas as coisas boas
Ver os outros, ver o mundo
A quem nada está à toa

Quão lindo o sol e a garoa
A maré a ir e vir
Pois em tudo o som ressoa
No sempiterno devir

E a voz de uma pessoa
Na distância vem e vai
Sobre o rio uma canoa
Sobre o rio o próprio pai

Em vida o triste magoa
Chora o lençol bifurcado
Ruge a lava em Krakatoa
Faz do presente, passado.

E faz da vida um ditado
Passa passa passageira
Quem não provou do pecado
Não viveu à sua maneira.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Caixinha de Pandora

Como aquele eterno instante
Na surda noite ecoando
Tua figura esvoaçante
Teu espesso véu, tão brando

O luzir dos diamantes
Envolvendo teu pescoço
Num contradizer chocante
Com o teu viver insosso

Teu viver tão refinado
Uma esmola, dois trocados
Teu corpo como os ditames
Estéticos dos reclames

Obsoleto como a moda
Teu jeito aéreo e sublime
Na reinvenção da roda
Dos teus prediletos filmes

Glamour, finesse, teus trejeitos
Feios defronte ao espelho
Dando passos escorreitos
Em teu perene ar pentelho

Descomprometidamente
Vejo-te agora como és
Libertina e leniente
Vã e chã como os teus pés

Encantadora
Eleanora
A realidade...
...comprometedora.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Pevides Lançadas Além

Meus entreabertos olhos
Entreolhavam você
Eu entretido em olhá-la
Como quem primeiro vê

E não crê, não pode crer
E suspende o pensamento
Num suspense muito lento
Lentamente a escorrer

Como lágrimas rolando
Dois olhos semi-cerrados
Pingo a pingo gotejando
O timbre teso, calado.

Minha garganta entupida
As narinas ressequidas
Num grito clamando a vida
Perdida, querida, a vida

Quem a levou de repente?
As veias pulsando ainda
Tornado triste o contente
Não quero ir, minha dinda

E vale minha vontade?
Minha íris rebrilhando?
Escuto Sheherazade
E tudo, tudo é tão brando

E tudo, tudo vibrando
Nada é nefando, terrível
O incrível é possível
E o fim vai começando

Ouço as canções de infância
Não há saudade nem ânsia
Apenas vãs cantilenas
Vãs e belas e serenas

Vãs, singelas e pequenas
Como humildes Madalenas
Perfumando Os pés alheios
Sem ofensas, sem rodeio

Irá embora quem veio
Cultivado seu centeio.
Qual tristeza haverá nisso?
E qual maior compromisso...

Nasceu, semeou, brindou
Das alegrias provou
Sem asas alçou seu voo
E voou, voou, voou...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Estéril Solo

Um punhado de mias lágrimas
Diagnóstico:
Tristeza incurável.
O desespero tranquilo
De quem se vê a morrer

E com lágrimas se dissolve
Revolve-se em luta inteiro
Não é por Frida ou por Nicole
Sim por ser um mensageiro

A quem ninguém dá ouvidos
E por que por deus daria?
O choro é logo esquecido
No colo da mãe, mamãe
No colo da tia, tia...

Gotas, pingos pluviais
Sem plúmbeas nuvens cinzentas
Só ais, mais ais, tais quais ais
Oh, soluço, angústia lenta!
Crimes capitais, sem pais!

Dor sem parentesco ou alma
Não curada por ar fresco
Calma - tu ficas patética
Ao entregar-se ao sofrer

Não pranteie ou lamurie
Queira Deus desfaça ou crie
Rios do tolher, infinitos
Sob pontes pênseis de gritos
Rarefeitas no abandono

A saída inexistente
Esteve escondida ali
Onde o rio flui e sorri
Dentro de ti, dentro, sim,
Teu cultivado jasmim

Não jaz em mim, mas em ti
Espreguiça-se o saci
E ri, e ri, e ri, ri
O ensandecido feliz...
Só ri, só ri, só ri, ri.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Azul

Jamais vejo o azulejo
Pintado como um painel
Sob a sombra me protejo
Do seu áureo azul do céu

O anil das flores, cores
Espraiadas como ao léu
Meu buquê de amores murchos
Na mia triste mão de réu

Vagos olhos, secos lagos
Onde a água já parou
Já passaram os reis magos
A manjedoura ficou

Esperando um simples gesto
Um carinho, abraço, um beijo
Meigo que fosse e modesto
Só sobrou o azulejo...

Azul, anil, oceânico
E tirânico e satânico
Toda uma calma de pânico
Por que te vejo, azulejo?

Seu azul, seu anil, seu
Mar infindo a me olhar
Meu esgar, minha aspereza
Quem dera eu jamais me veja.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Haicai Insubmisso (XV)

Da asma
Entusiasmada
Ao miasma.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Haicai Insubmisso (XIV)

Conheço poucas pessoas
E menos ainda
A mim mesmo

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Espada Embainhada

Mato-me um pouco por dia
Se é que ninguém percebe
Nem me condena a uma pena
Quiçá maior que esta

Mãos se oferecem no ar
Irresoluto, já débil
Quererão me ajudar
Meu teso corpo, mi' alma leve

Minh'alma leve embora
Os maus presságios
As tristes cantilenas
Do merencórico agora

Um desarrazoado medo
Do desarrazoado homem
Me abala logo cedo
Minha empatia some

Integridade almejada
Numa vida de facetas
Partes do todo - do nada
O ressoar das grilhetas

Algemas e estigmas
O que é, o que são
Um vasto mundo de enigmas
Ora herói, ora vilão

São os mesmos, já não
O mesmo nunca é o mesmo
Sabe-se lá o que são
Sob o sol só da solidão

Sabe-se lá o que é
O que está parado
E paira de pé

O chão chamuscado
Formas disformes em pilhas
Meu medo, nosso degredo
Nossa abominável ilha

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Deslumbrar de um menino

Quem já fez uma criança feliz pode morrer com um sorriso nos lábios. Recordo-me de Natã, no norte de Minas, há pouco tempo, mas um tempo que transcorreu numa tal violência inexplicável, que bem me parece outra vida. Natã era residente da cidadezinha, com seus 6 anos então. Era um pouco doente, tossia uma tosse cheia de catarro no peito, o que o deixava um pouco diferente dos outros de sua idade. Por tomar xaropes e fortes antibióticos, tinha um dos dentes de leite da frente espreteado. Não me esqueço jamais de seu rosto. Eu brincava, chamando-o de "indiozinho". Natã tinha, de fato, as feições de um guri do mato. Cabelo cuia, negro azeviche do brabo, lisinho, escorrido.

Às vezes, sem aparente explicação, Natã corria em disparada, em direção ao meio da rua, pouco movimentada, como de todo bom interior, e ali se deitava, nos paralelepípedos quentes. Permanecia inerte, só os pulmões subindo e descendo, mudo. Gritavam: Natã, sai da rua! Eu ia até ele, o levantava, como se faz erguer um boneco, mas um boneco animado, serelepe, inexplicável. Um original. Não era meramente bonitinho e fofinho e atentadinho como praticamente todo o conjunto infantil do mundo. Sua própria consciência da saúde frágil, seu fenótipo destoante, e seus pais a maior parte do tempo ausentes, transformavam-no numa criança única. Se fosse já adulto, o tomariam logo de cara por louco, e sua exclusão do mundo dos normais não demoraria muito a vir.

Eu me encantava com o garoto. De verdade, como que diante dum objeto raro, exótico, e com o qual poderia aprender profundamente por anos. Ser tão diferente dos demais lhe caía como uma qualidade natural perante os meus olhos benévolos. Admito que ele talvez pouco pudesse entender dessa minha perspectiva. Não tenho notícias de como ele está hoje, mas desejo-lhe o mais fundo bem. Não o bem genérico que se deseja aos ignotos confrades humanos nas suas empreitadas do dia a dia, ou a má soante "Boa Sorte" que encomendamos a torto e à direita, sem refletirmos que isso soa mais como "Boa Morte" que qualquer outra coisa. É um sinal de que pouquíssimos leram O Apanhador dos Campos de Centeio, Sallinger. Jamais desejariam Boa Sorte novamente, ou não da mesma maneira casual como o fazem hoje, ontem, amanhã.

Natã me fez ver o mundo, reconheço após esses breves-longos anos sem vê-lo, a partir dum novo ponto de vista. Há em alguns um tesouro rutilante escondido sob uma opacidade normalizante. Sob a camada de poeira, reluz algum ouro, algumas vezes, em alguns. A opacidade d'alma dos fracos de espírito que subjuga os bem dotados deste mundo.

Após tê-lo conhecido, não, eu jamais acreditaria outra vez na baboseira de que todos nascem iguais, ou são iguais, ou em algum momento tornam-se iguais. Nem a morte iguala ninguém. A homogeneidade é a síntese da decadência do homem, uma bola de ferro que lhe esmaga e lhe tolhe o que nele há de melhor, o que dele distancia-se da mesmice deste mundo. Tudo isso ele me ensinou, em sua mudez habitual. Natã, você já viu o muro daquela casa? Era uma casa abandonada, ou melhor, um terreno abandonado, mas não baldio. Pelo contrário, era rico em bananeiras, que despontavam por sobre o muro, e uma ou duas mangueiras, verdejantes e folhosas. Dava mesmo vontade de ver se por detrás do alto muro se ocultava o jardim tupiniquim de um príncipe desleixado com suas posses terrenas, como que cansado da temporalidade escravizante e massacrante deste mundo.

Não. Foi a resposta do piá. Mas um "não" curioso, indagativo, reticente... Então vamos ver! Peguei-o pela mão, no pique atravessamos a rua e disse a ele: Confia em mim! Levantei seu corpo pesado com um pouco de esforço até ele alcançar com suas mãos o limiar do muro, e lá do alto ele tomou um impulso com os braços e manteve-se assim, olhando. Seus pés estavam suspensos sobre os meus ombros. Quietara. Quer descer? Ele assentiu com a cabeça, e desceu. Depois corremos desenfreadamente para cá e para lá na rua, e enfim quietamos. Ou antes, eu me quietei. Ele de costume já era quieto e não se revelava. Mas entrevi naquele instante uma luz de êxtase rebrilhando em seus olhos levados, e pude compreender em silêncio tomos de sabedoria.

O que ele havia visto, guardava-o para si como o maior presente do mundo. O presente de um Robin Hood, pois alguém, um estranho àquela terra, que por fim o pôde entender uma vez na vida. Ou ao menos alguém que a ele não procurou se impor, como soía acontecer. Aventura, loucura. O impossível tornara-se possível com uma mãozinha amiga, sincera, fato único na vida. O regozijo de seu interior inflava-lhe o peito, que chiava baixinho, em movimentos lépidos, e suas narinas espelhavam aquele movimento de trepidação de um júbilo, um entusiasmo fantástico. Cintilava em seu rostinho ajeitado de Macunaíma uma vivência que jamais se apagaria de sua memória. Poder ver o insondável, então, era uma possibilidade mais que teórica ou hipotética - era plenamente real! Aquele alto muro a delimitar fronteiras, o permitido do proibido, o passível e o não passível de ser visto, era - surpresa! - trespassável com o auxílio de alguém como ele, alguém que se sentisse um tanto perdido e restrito em um mundo moralista e conservador.

Não pode, menino, é feio! Deixara de existir na minha presença, que lhe complementou a unicidade de sua alma, cujo ritmo fluía numa velocidade destoante das dos demais. Natã, tantã, natã, tantã, na tã tan tã. A musicalidade de um coração que se conscientizou, de súbito, da importância irreprimível de se estar aqui nesta terra agora. E aos diabos com as fúteis conveniências. Deixe aos diabos os fracos, nós somos fortes, Natã. Teu nome ecoa. Tão fortes como as teimosas batidas do que há de mais caro em nosso peito. Tantã.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Haicai Insubmisso (XIII)

A morte: inexorável
Ficar velho: irreversível
Há o agora.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Meditações

Já faz tempo não medito
Nem vejo além do papel
Não fico acima do grito
Da minha torre de babel

Já faz tempo não escolho
Vou me deixando levar
O olho não olha o olho
O pulmão não toca o ar

Como se o mundo encolhesse
E a vida em si eu temesse
Sinto-me só - cinzas e pó
Nada me ergue ou soergue

Abra as portas e comportas
Quero sair, não me importa
Para onde eu possa ir
Se como monge, ou faquir

Quero sair, pouco importa
Este pousar da mão morta
Sobre meu crânio escaldante
A boca do averno hiante

Queimo no inferno de Dante
Teimo em estar na Geena
Tudo é real e pulsante
Mia vida soa pequena

Batem grilhões e grilhetas
Cadeias e cadeados
Peias alheias, muletas
Formam sombras do passado

Procuro no escuro a luz
Corpos gelados já rijos
Trevas e esconderijos
Meu choro sob o capuz

Meu choro é mudo por todos
Chafurdando neste lodo
Atraídos pelo engodo
De ser tudo sobre a terra

Engolidos na cratera
De seu próprio pensamento
Hoje escravos da quimera
Em seu anseio avarento

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Idílio

Dormi indo pro Tucuruvi
Sonhando pecados
Co'a moça ao lado
Meu corpo suado
E ela que ri

domingo, 6 de junho de 2010

Quem sabe amanhã...

Pálido, esquálido, inválido
Por onde andara o bom homem
Cálido, quente e humano
Tornado um lobo inumano

O vento, o frio, a poeira
Uivos, latidos, gemidos
Quer, não quer - queira ou não queira
Vejo o bem destituído

O bem maior almejado
De tranco em tranco ao baranco
E o velho em seu cajado
Em seu passo débil e manco

Vista turva, vã saúde
Assim valeu-lhe a virtude
Valeram-lhe anos, enganos
Lutou no fétido pântano

Mais de um doce-amaro amor
Chamuscou-lhe inteiro o peito
Deu-lhe cor, rubor, ardor
E c'os anos foi desfeito

Olha a magia do dia
Meu velho, sinta a alegria!
Irrompendo de seus prantos
Comovendo os próprios santos

O dia alumia a mágoa
Lava, esfrega, enxágua
Vexame ficou, morreu.
Agora surge outro eu

De esperança, mudança
Frenética dança
Embalado no ritmo
E ritos de pajelança

Passam-se horas, dias
Ribomba a melancolia
Mais forte, aguda no corte
Remexendo na bacia

Cantarola sobre a morte
De feitiços a quebrantos
Juras, perjuras, encantos
Macumba, canjerê, catimbó

Ai qu'enlaça e atiça!
E fatia lagartixas
Conjura uma má poção
E me atira à solidão

Vejo em delírio arcanjos
Fadas, morcegos e anjos
Brutos, ogros, e marmanjos
Espio e volto ao sono. Credo.

Morrer é bem esquisito
O antes e o depois mesclados
Lado a lado presente e passado
O sussurro é silêncio e é grito...

Psiu.

sábado, 5 de junho de 2010

Haicai Insubmisso (XII)

Um, dois, três.
Contou?
Pois se fez.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

KKK

O vulto a vagar vampiro
Ébrio em ruelas sombrias
Lê em voz alta um papiro
Cheio de galimatias

Crê ensimesmado nelas
Parcas linhas emporcadas
Vêm à sua mente vielas
Jamais antes palmilhadas

Não sabe se lá esteve
Parece que sim, recorda
Padeceu de muita sede
Asfixiado na corda

A turba ajuntou-se toda
Ria, gargalhava e ria
Corpos linchados na roda
Sob o sol do meio-dia

Encapuzados. Macabros
Eram homens de família
Um bando de desalmados
Progenia da matilha

O vulto velho virou-se
Faces negras, voz suave
Era mia gente na foice
Hoje ninguém mais o sabe.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Haicai Insubmisso (XI)

Branco no preto
Preto no branco
Bombom

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Pequenas Grandezas

Eu quero um novo acordar
Maravilhado admirar
O luar, cheio de ar
E gritar, gritar, gritar

Gritar feliz com meu jazz
Lamber picolés sorrindo
Um riso alegre tinindo
Nos lábios em sonhos meus

Feliz como quem sonha com Deus
Só no sono o luxo de crer
Em um mágico bruxo
Em seu ateliê

Repleto de quadros, tintas
Paletas, pincéis, estantes
A vida em instantes
Lidos por belas cartomantes

A vida jactante, pungente
Pulsante - um jorro infantil
Ingênuo e genial
Rojões explodindo. Uau.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Haicai Insubmisso (X)

Qué o quê?
Quero nada.
Qué caqui?

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Qual nobre amor

Boa noite, cinderela
Um beijinho bem banguela
Pra ti, mia feia donzela

Bom dia, meiga feinha
Vou visitar a vizinha
Ela pede ajuda, auxílio
Roga socorro, ai qu'eu morro!

S'eu não for até ela
Se não for até lá
Ai qu'eu caio da sela
Se me pôr a amar

Minha adarga e minha lança
Estão prontas pra batalha
Salvar moças já me cansa
Nada há nisso que me valha

Balanceio na navalha
Galgo e corro sobr'a sela
Luto debaixo da malha
Do frio metal do cor delas

Feminilidade, onde?
A brincar de esconde-esconde
Uma grita, a outra urra
Sou sempr'eu quem leva a surra

Ser cavaleiro não paga
Ser bondoso hoje é chaga
Serei mau e cruel. Adeus!

domingo, 30 de maio de 2010

Haicai Insubmisso (IX)

Minha dádiva da vida
Minha diva, meu divã
Onde estás...?

sábado, 29 de maio de 2010

Poetar Poetisas Monalisas

Escreva a escrita escrava
Fale de flores felizes
Cujas cores e matizes
Resplandeçam como lava

Abrace o amor - a clava
Abandone a todos insones
Da população eslava
Bárbaros feitos de cones

E nós no nosso quadrado
Aparado, facetado
Angulado, quatro lados
Não perdidos, mal achados

Escreva a escrita escrava
O poema começava
A dizer da dor, do amor
Terminou em estertor

E a beleza própria à vida
Deificada, expandida
Deixa então de ser vivida
Ao rimar co'a dura lida

Escreva a escrita submissa
Rezada como uma missa
Posta no mais alto altar

Basta amar e jorrar juras
De amor sempiterno, lindo
Um péssimo gosto infindo

Sucedâneo instantâneo
E pegajoso acréscimo
Da real loucura

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Haicai Insubmisso (VIII)

Caixa, caixinha, caixão
Neste caso ser tão grande
Não é uma boa opção

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Senti nela

Vi certo dia uma moça
Cuja face disse assim
Olha nos olhos de mim
Olha-me bem quem eu sou

A moça se foi sem mais nada
Sem sequer uma outra mirada
Sumiu-se abençoada
Eu jamais a vi de novo

Enxergo às vezes a sombra
Da luz emanada por ela
O brusco clarão da vela
Quem terá sido a donzela

Quem terá sido, pois, ela
Uma ilusão senti nela
Sem nome me some a bela
Vertigem singela da vida

A mais bela cena esquecida
A amena sombra amiga
Me aliviou e deixou
Co'a alma ao meio partida

Posso implorar e chorar
Para alncançá-la onde está
Nela me vi - ela está aqui
Eu nunca na vida a perdi

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Haicai Insubmisso (VII)

Feiura não é ser feio
É não dizer eu te amo
Eu te odeio

terça-feira, 25 de maio de 2010

Irmandade d'alma

Os cacos de vidro no chão
O cacto espinhudo, irmão
Parecia brincadeira
Até a explosão - de estilhaços

Jorrando em pedaços
Destroços de laços
Fraternos de irmão

Bem maior que nosso sangue
Muito além de nossa raça
É a graça que nos une
E agora nos torna imunes

Às coisas más da boa vida

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Haicai Insubmisso (VI)

A melhor mulher, quem é?
A que pega na mão
E não pega no pé.

domingo, 23 de maio de 2010

Comboio bichado

Soca gente no metrô
Pilão na carne moída
Premida, prensada, cozida
Aperta mais, seu doutô

Segunda à sexta me esfrego
Corpos distantes, colados
O sábio olho faz-se cego
Não vê o vizinho calado

Não o vê, não se vê
De cima a tevê
Ciente emudece

Cresce o silêncio oneroso
No túnel infernal
No forno coletivo
O barulho me faz mal

O ruído ensurdecedor
Da mudez cativa
Da nudez coletiva
Ajuntados seres alheios

Metidos em devaneios
O que farão, onde estarão
Olhos no teto, pés no chão
Presos aos próprios anseios

Diário gosto da angústia
Na boca selada
Nos olhos vendados
Ouvidos tapados

Estão todos tapeados
No túnel-túmulo
Sozinhos em seu mundinho
Do fechado cadeado

sábado, 22 de maio de 2010

Haicai Insubmisso (V)

Um sorriso sincero
Imperfeito que seja
Sempre perfeito será.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

De boa

Eu sabia que um dia
Tudo iria se acabar
Quando choro de alegria
Estou rindo de pesar

Corre cotia
Na casa da tia
Corre cipó
Na casa da avó

A menina bonitinha
Cheirando coca em pó
A imagem do indiozinho
Balançando no cipó

Na rave o doce na boca
Pati e playboy vida louca
Bala solta na balada
Mo cidade alienada

Namorada é que nem roupa
Ó, sente só a pegada
Mina e mano dando sopa
O bagulho é da pesada

Se pá eu vô colá lá
Na real, ficá bem noia
Noite e dia - paranoia
Ei, maluco, eu vô surtá

Sacô, é nóis no pedaço
Nóis na fita, mano brown
Sê certinho é zoadaço
'Só curtindo a pegação

Cê qué coisa melhor, Joe?
Nóis na parada arrasando
Teus truta, teus irmão
Só cara sangue bom

Ô, chapa, tu não gostô?
Vai lá, pede pra saí
Eu não tô nem aí
Vai procurá tua galera
E vê se some daqui

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Haicai Insubmisso (IV)

Falta-me ar
E me falta tudo
Meu medo é mudo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Haicai Insubmisso (III)

Acordo revolucionário
E durmo burguês
Minha imensa pequenez.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Saco Vazio

O deserto, decerto
Estava à espreita
O céu encoberto
Desd'onde o sol deita

Que sombras enormes
Que sombras disformes
O mundo conforme
A morta colheita

Desd'onde o sol dorme
Desd'onde ele some
Esconde-se a fome
Disforme, à espreita

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Gaiato Meneghetti

Sou o ladrão dos telhados
Juro! Você não sabia?
Salto de telha em telha -
E caio na calha vazia

Vocês podem me apanhar
Podem mesmo me bater
Não sou quem vai largar
O meu jeito de viver

Lá em cima no abandono
Encontro um mundo sem dono
Estrelas-guias, esguias
Astros sem rastros - sem sono

Você não vê o sentido?
Eu vejo o lampejo, amigo
Rastejo, estendido, e vejo:
Não desejo nem almejo

Somente vejo, enxergo
Olho, noto e observo
O negro-escuro dos cegos -
Servos a vida inteira

domingo, 16 de maio de 2010

Confessionário

Não é raiva o qu'eu tenho
Franzido o meu cenho
É meu medo do degredo
Por teu amor terreno

Correspondê-lo é loucura
Ignorá-lo, desrazão
O coração que o atura
Nega a si a salvação

Contesto as profecias
Da castidade santa
Nesta ébria travessia
Me transformo em sacripanta

Do celibato escolhido
Aos prazeres libertinos
Um passo curto miúdo
Ao graúdo desatino

sábado, 15 de maio de 2010

Vovô

O ar insiste em entrar
Pelas frestas em meu ser
Tão brusco invade o meu lar
E será mesmo você?

Uma senha proferida
Prenhe de significado
Ter mudado minha vida
Quando tudo era negado

Quando tudo era negado
Uma imagem se afirmou
Adeus sombras, adeus fado
O sorriso do vovô

Vovô, ficará comigo
Aquele amor tão fraterno
Teu terno jeito de amigo
Na mais gelidez do inverno

Minhas tão frias orelhas
Você aqueceu co'as mãos
Esse gesto se assemelha
A um amor entre irmãos

Desse gesto eu me nutri
Não quereria outra herança
Modelo maior de amor
Vossa crença na criança

Vossa crença na criança
No fundamento da vida
Onde a alma enfim descansa...
Doce memória esquecida

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Acolá

A água que banha os mortos
Não pode lavar os vivos
Não pode, não pode
E dessa água eu me esquivo

Até quando no entanto?
Bem te digo: mal eu sei...
E mia vida vou levando
Num fértil fair play

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Haicai Insubmisso (II)

Quero morrer. Mas já?
Quero ouvir ainda
O piar do carcará.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Um infinito olhar a penas

O uivo seria ruivo
Se tivesse coloração
O ruivo uivo vermelho
A voz carmim do leão

Encarnados vozerios
Delineando uma lâmina
Donde despontassem fios -
Filetes de sangue - drama

Dentre o rubro pegajoso
Tremeluziria a alma
Enlameada no grosso
Vazar sensabor da calma

E no rutilar do gume -
Cume da ponta afiada
O claro a piscar no negrume
A luzente mão da fada

Cujo sorriso indagasse
Um porquê jamais expresso
Lá - bem de onde o sol nasce
Esconde-se um véu espesso

Olvida-se um ser distante
Seus vagos ecos nos soam
Como sinos neste instante
Os tempos sem fim ecoam

terça-feira, 11 de maio de 2010

Formiguinhas

Era agora a garoa
Amanhã quem saberá
Era agora reza boa
Um céu propício ao amar

Amar, quiçá, as formigas
Em seu anseio pequeno
Suas minúsculas intrigas
Imiscuídas no feno

E o feno tão solto e livre
No paiol acumulado
Quem ali nas trevas vive
Junta as pontas do passado

Todas pontas pontiagudas
Das memórias fugidias
As formigas na labuta
Em sua breve travessia

No passo leve e entregue
Sob a nova luz do sol
Que mais um dia prossegue
Alegre, ao arrebol

terça-feira, 4 de maio de 2010

Amém a mim

Lembro ter um dia acreditado
Na leveza etérea
No sono tranquilo
Nos mistérios simples
Na bondade infinda

No edredom macio
Em dias de frio
Sob o qual me escondia
Vasta imensidão

Sorria por nada
Brincava com tudo
Gritava e esperneava
Jamais quedava mudo

Eu cria nas pessoas
Almas grandes e boas
Eram tão sabedoras
Nasciam professoras

Mas eis que vi a maldade
Todos sentiam saudade
Dos tempos de infância
Eu era criança

E não sabia

Mamãe, você também vai morrer?
E chorei
Lágrimas de verdade

Por que tudo muda tanto
E o mundo vira complexo
Onde antes tinha canto
E em tudo havia nexo

Dormir na casa do melhor amigo
Era o dia mais feliz da vida
E mia vida era infinita
Acreditava na vida
E ela em mim

Devolvam já minha infância
Minha noite eterna de sonhos
Dom Quixote e Sancho Pança
Lidos deitado na fronha

Cavaleiros de quem sonha
Com um mundo imaginado
Para quem não há vergonha
E os amigos são sagrados

Quero a ingenuidade
Simples, dos tempos roubados
Pelo tempo e sua maldade
De instituir pecados

Onde antes jamais houve
Ruindades de gente alheia
A matar meus pés de couve
Mia tenra hortinha de aveia

Eu era mau, mas sincero
E chorava de emoção
Ao contar meu lero-lero
Respingava o coração

Lacrimejava de dor
Que, hoje, eu prendo e seguro
Lábios premidos sem cor
Próprios de um homem maduro

Piá virou homem grande
Responsável, respeitado
Lágrimas de quando infante
Não o levam ao passado

Cunhatã virou mulher
O seu príncipe encantado
É de um mundo rosicler
E faz parte do passado

O sonhado já se foi
E nós fomos já também
Sonhadores do depois
Onde estavam todos bem

terça-feira, 20 de abril de 2010

Permeabilidade

E como posso eu sozinho
Caminhar sobr'esta estrada
Pernoitar neste caminho
Onde reina a navalhada

E como posso eu mesquinho
Entender o universo
Bebum e ébrio no vinho
Derramado nos meus versos

Pinto diante do espelho
Um moço atraente imberbe
Pinta o viço em si o velho
Já tão bêbado se perde

Pede perdão de joelho
A batina no cabide
Sou um verme escaravelho
Mia fé tem dor de artrite

Dor, rinite, celulite
Meu casto corpo está gasto
A nostalgia me agride
Pervago no mar sem lastro

E me encontro do outro lado
Estranha figura eu vejo
Um duplo meu sem pecado
Livre de todo desejo

Liberto de todas peias
Face a face com si mesmo
Sem mais vontades alheias
Fluxo contrário ao esmo

Eis a essência do ser!
Ver-se entregue ao turbilhão
Leve leve esmorecer
No pulsar do coração

Bate bate repercute
Ecoa como a garoa
Dentro, a mãe sente o chute
Eis ao mundo uma pessoa

De déu em déu e de Deus
João, Mateus, Maria
Paria o útero grávido
Ávida fonte de "eus"

Populou-se o multiverso
Povoei-me cá por dentro
Em mim mesmo estou imerso
Gravito em torno do centro

Giram meus olhos na órbita
Dos mil astros da galáxia
Curiosidade mórbida
Volátil essência sáxea

domingo, 18 de abril de 2010

Anuaí


Nasce um pássaro de fogo
Denso silêncio da selva
No principado de Togo
Ensombrecido na névoa

Penas queimadas-carvão
Olhos brancos perolados
Perfuram a negridão
E a tumba do passado

Penetrar a ignorância
As chagas da violência
O destino ao qual se lança
Desd'a virgem mata densa

Crer ainda em homens sãos
Tira suas noites de sono
Um véu se põe entre irmãos
E os lega ao abandono

Como pode alguém ser dono
De alheia alma outra vida
Na alheia terra, o colono
Roga a um Deus fratricida

Ora em sua súplice hipócrita
Nomeia a si ortodoxo
Gera a irmandade inóspita
Engendra o seu paradoxo

Reza a si boas-venturas
Faz do vizinho seu pária
Leva uma vida segura
Entrega o outro à malária

"Demonizar-te eu irei!"
O algoz parece dizer
"Súdito, sou o teu rei!
Curva-te sob o poder!"

Tiranias e massacres
Vê do alto o sóbrio pássaro
Ó, Pandora, não há lacre...
O mundo é o enfermo Lázaro

Haverá hoje um Jesus...
Que o possa ressuscitar?
Sobram mártires na cruz
Negras candeias no altar

Sobram cárceres sem luz
Infames peias no lar
As verdades, quem traduz
Vira oferenda no altar

Falsidades vêm à luz
Quem quererá as olhar...
Mas o pisado alcaçuz
Derrubará o altar

sábado, 17 de abril de 2010

O que o vento não leva


Ver o verde de verdade
Vislumbrar a tal visão
A virtude e a vaidade
Já vêm vivas no verão

Viver sem ver a verdade
Dói-me enquanto humano
Vejo apenas veleidades
O obscuro véu insano

Vilifico minha vida
Em busca de instantes
Desvaneço em mia lida
E vivo inconstante

Em vão verto o vaso
De vinho vermelho e velho
Eu sou oco e raso
E ainda em mim me espelho

Sou o oco eco seco
A ruflar no mar vazio
Trecos, cacos, cacarecos
De meu terreno baldio

Vinténs voando ao vento
Varridos e sem valor
Serei eu este momento
Sem vocábulos de amor?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Testamento Póstumo


Pensamentos condensados
Num pedaço de papel
Pensamentos lado a lado
Num pedaço infiel

Falsidade ideológica
Eu - nem ali eu estou
Linhas sem eu e sem lógica
Sem meta, bola, sem gol

Quem por acaso aquilo escreveu
É vida sem prazo
Já não é mais eu

É o fundo do vaso
Tão meu quanto teu
O negro do ocaso
A sombra do breu

A flor - outrora se abriu
Sem sequer saber, viveu
Puro azo juvenil
Aquilo jamais foi eu

Entendes? Vejo tua face
Risonha - é um disfarce
A face dalguém a sonhar
Com dor se torna tristonha

A velha tricota alegre
Ignorante da morte
Célere como uma lebre
E nisto está toda sorte

A seta certeira
Virá amanhã
E esta cadeira
Será teu divã

As boas maneiras
Amor, foram vãs
Tornaram poeira
...teu taticumã

terça-feira, 13 de abril de 2010

Diabolismo Endemoinhado na Taverna de São Bento

Entrou um rapaz beiçudo
Ele era coxo e careca
Veio junto um cão-miúdo
E uma serpente irrequieta

Chamava o cão de Diogo
Coisa à toa de figura
Capa-verde cor de fogo
Já mostrava a diabrura

O indivíduo vil e sujo
Mancava no pé de pato
Diz-se amigo do cujo
Inimigo humano nato

Bebia só no caneco
Usava o membro canhoto
Cheirava à coisa o boteco
A bicho mofento e roto

Trabalhou como tendeiro
Bem tramava tentação
Cão-tinhoso e o companheiro
De pé-cascudo no chão

Pé ruim feito pé-de-cabra
Mal-encarado e careta
Sua esposa, a diabra,
Se apelidava Canheta

Eu pensava em coisa-má
Quando entrou o porco-sujo
Olhos mofinos, sabujos,
O seu nome era Diá

"Não devo pro debo
Não sou condenado!
Sou porco-mancebo
Sou o arrenegado!"

"Este lugar é sarnento..."
Foi falando o gato-preto
"Pois tem fala o bicho-preto?!"
E benzeu-se o Seu Bento

Não sei que diga, menino!
Um rabão rompeu a porta
Veio um mau cheiro malino
Veio a diáboa torta

Temba! A cabeça na táboa!
Lá fora o dragão se riu
Rabudo não guarda mágoa
Pé de peia não tem frio

"Na rodovia Anhanguera
Passam muitos bodes-pretos
Grão-tinhoso e a galera
Colecionam esqueletos..."

Pé de gancho, ex-pirata
Foi entrando e logo disse
"O maioral está triste
É a droga do haxixe!"

"Coisa-ruim nunca quis morte..."
Prosseguiu o anhangá
"Nem tem corte a foice d'ele -
Tampouco a de Satanás"

"Rodovia é diabo humano!
O excomungado dianho
Gosta é de briga, que diga!
Ama atrito a diabada...!"

Um treme-terra abalou
O prosear do satânico
"Lúcifer deu um alô..."
A taverna entrou em pânico

Logo adentrou um moleque
"Gosto de fute, cafute
Futebol e muito cheque
Diabretes nuas ao sol"

O pé-preto é bom de papo
Tem o timbre tentador
O diabim é esperto inato
Nem sei que diga é o amor...

A taverna encheu de demo
Anhanga grande e pequeno
E até um bebezinho
Romãozinho Nazareno

O cifé e o demônio
Com sono, bebiam café
Pedro-Botelho, o galã
Cochichava com Satã

Seu irmão gêmeo viera
Era o tal Pero-Botelho
Caolho dum olho e outro
De alcunha Capiroto

Capete Capeta viu
Da porta o aglomerado
Reluziu seu rebolado
Sorriu maligno e malvado

Sapucaio e seu aio
Entraram bem de finim
Na coleira o canhim,
O cachorrinho azucrim

Cafuçu, o Zulu,
Pulou de bute e de bote
"O que vale é o diale!"
Revidava piparotes

Debaixo do chão pra riba
Pulou o grão-diacho
Mordia seu pão dialho
Requentado no tição

"Ê ambiente maldito"
Berrou e gemeu Seu Bento
"Tinhoso não é mais mito...
O Tisnado está cá dentro!"

***

Tarefa: Encontre ao menos cem epítetos do tal!

***

Resposta(dispostos em ordem de aparecimento; as variações de um mesmo termo existem de fato, não foram inventadas!):

diabolismo, endemoinhado (2) [título do poema]

rapaz, beiçudo, ele, coxo, careca, cão-miúdo, serpente, cão, Diogo, coisa à toa, figura, capa-verde, diabrura, indivíduo, sujo, pé de pato, cujo, inimigo, caneco, canhoto, coisa, mofento, tendeiro, tentação, cão-tinhoso, pé-cascudo, pé-de-cabra, mal-encarado, diabra, canheta (30)

coisa-má, porco-sujo, mofino, diá, debo, condenado, porco, arrenegado, sarnento, gato-preto, bicho-preto, não sei que diga, rabão, mau, malino, diáboa, temba, dragão, rabudo, pé de peia, anhanguera, bode-preto, grão-tinhoso (23)

pé de gancho, maioral, droga, coisa-ruim, anhangá, Satanás, diabo, excomungado, dianho, que diga, diabada, treme-terra, satânico, Lúcifer, moleque, fute, cafute (veja com que rimou "fute" e "cafute"... é ou não é conterrâneo nosso?), diabrete, pé-preto, tentador, diabim, nem sei que diga (22)

demo, anhanga, Romãozinho (volte ao poema e veja onde "Romãozinho" foi nascer!), cifé, demônio, Pedro-Botelho, Satã, Pero-Botelho, capete, capeta, maligno, malvado, sapucaio, canhim, azucrim, cafuçu, bute, diale, diacho, dialho (confira o contexto de "dialho"!), tição, maldito, tinhoso, tisnado (25)

***

[Consulta do vocabulário para composição do poema: sinonímia de "diabo" no dicionário Houaiss de Língua Portuguesa - esse auxílio léxico foi imprescindível! -, e do próprio João Guimarães Rosa, minha maior inspiração imagética para compor esta brincadeira lírica ao mesmo tempo culta, alegre, popular e macunaímica. O ateu que ler este poema volta a crer em Deus! Nem queira apostar...]

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Pesadelos d'El Salvador (atualizado em 10/09/2010)


Eu bebi, meu bem, bebi
Pesadelo a noite inteira
Pós o rum co'abacaxi
Quem dera fosse a primeira

Você mugia canhestra
Balia em timbre soprano
Uma cena picaresca
Sem como, onde, nem quando

Monsenhor Romero* estava
Pregando homílias no púlpito
Postura ereta, voz cava
Tudo cessou tão de súbito

Ó branda dita mal dita
Dura, acerba rapa dura
É dita e feita e desdita
Açucarada tortura

Eu bebi, meu bem, bebi
Mas jamais pude esquecer
A cena guardada aqui
Você, o nosso bebê...

Cadê.

***

* Monsenhor/Dom Óscar Arnulfo Romero Galdámez, mais conhecido apenas como "Monsenhor Romero", ou "Dom Romero", foi assassinado em 24 de março de 1980, quando reinava o terror em El Salvador, em mais um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos da América. Ele havia acabado de pregar uma de suas notáveis homilias ("exortação religiosa fundada num ponto da Escritura"), em que debruçava-se sobre a religião cristã para combater com palavras enérgicas e valentes a ditadura que se instaurara sorrateiramente em seu país. O projétil fatal foi disparado de uma distância de 45 metros, atravessando a praça em frente à igreja, suas portas de madeira esculpida abertas, e acertando o alvo em cheio na testa. A mira de um mercenário, franco-atirador, mui bem treinado. Seu(s) assassino(s), assim como os cúmplices e os mandantes do crime, jamais foram condenados - e não há indício algum de que algum dia o serão. Já é tarde. E a justiça não raras vezes falha com o tempo.

Monsenhor Romero era de uma tal bravura que, tendo conhecimento da presença de elementos do setor militar nas missas que rezava, em momento algum mostrou-se inibido em contrariar o silêncio do sistema ditatorial, silêncio ancorado na violência, e esta naquele, num elo inquebrantável de abusos de poder, chacinas e assassinatos promovidos para eliminar todos os - supostos, isto é - opositores. E dessa forma intrépida Dom Óscar Romero contrariava os interesses dos altos escalões militares-políticos em manter o povo - a grande maioria frequentadora dos ofícios litúrgicos cristãos - na mais escura ignorância e sensação de impotência.

Romero restaurava o poder da voz em direção à verdade e desmentia as falácias do governo, abertamente tirano e carrasco. Muitas foram as homilias em que julgou execrável a atitude cínica do governo de perseguir e matar membros do campesinato, e arruinar quaisquer planos de melhorias sociais à miserável nação. Foi um desses homens nos quais a fé suprema liga-se à coragem d'alma, e ambas andam inexoravelmente de mãos dadas. Um dentre esses poucos que podem mudar o coração dos homens alienados para melhor, pela pura probidade e idoneidade de caráter que demonstram em suas ações, e não meramente por palavras dispersas ao vento.

Descanse em paz, Monsenhor Romero. E um brinde malogrado aos nossos tempos tupiniquins modernos de corrupção, nepotismo, propinas, subornos, velados desvios de verba e prosperidade dos oligarcas, aproveitando-se da ignorância predominante da população governada - alienada, viciada em Big Brother, novelas imbecis e seriados televisivos (importação direta da onipresente telebasura estadounidense), e que confiam em demasia no sanduíche (Futebol + "Notícia Ruim" + Inutilidades) extra-light do Jornal Nacional, e extensivamente não-política, não-literária, não-sabedora do que sua estupenda nescidade provoca, indiretamente, a nível político, sob o domínio dos psicopatas no poder.

Um viva aos mártires, que se vão e são, para o espanto dos homens conscientes, definitivamente esquecidos e enterrados dentre as ruínas da história, com 'h' minúsculo, porque eternamente corrompida por - e creditada aos - vencedores, cuja atribuição maior é uma maior tendência e capacidade para a brutalidade generalizada, além de uma propensão crônica ao unilateralismo de pensamento, também caracterizado como estupidez incurável.

Uma bênção a Malcom X, Robert F. Kennedy, John F. Kennedy, Martin Luther King Jr., todos eles vistos em sua turbulenta época como uma grande ameaça ao status quo, e devidamente apagados das páginas da história. Dorothy Stang, Chico Mendes. Seus assassinos são joães-ninguéns, claro. Por que não crer na versão oficial dos fatos? Os tempos de dita dura (ou seria dita branda, Folha de São Paulo?) já passaram, pois não é? Não, não é não. A diferença é que de escancarada passou a silente, e a braveza de todos tornou-se dormente. Vivemos uma sociedade sem heróis, sem mais o protótipo do Che revolucionário, de um mundo genuinamente melhor. Simplesmente aceitamos tudo, anuímos dopados pelo soma hodierno, e morremos lentamente numa lassidão de espírito vergonhosa.

Pois vergonhosa.

***

Recomendo de coração, por fim, o filme do sempre excelente cineasta Oliver Stone: Salvador (1986).

domingo, 11 de abril de 2010

Maria


Um doce de moça
Me faz companhia
Um beijo que fosse
É nossa alegria

Tão bem lava a louça
Tão bem limpa a pia
Que prazer de moça
Mia virgem Maria

Gostoso ela ri
Cheinha de luz
Seus lábios sorri
E me põe na cruz

Tão pura, tão simples
Maria, Maria
"Cadê teus requintes?"
A gente dizia

A moça é comadre
Na dança arrepia
Atrai até padre
Tão bem rodopia

Maria, Maria
Você se escondia
Debaixo da pia
Brilhava e sorria

Maria, Maria
Tu és estrangeira
De Andaluzia
Lá eras parteira

Ao mundo trazia
Crianças prendadas
A grande alegria
Em ti revelada

Nasciam sorrindo
Olhando pra ti
O céu se abrindo
De estares ali

Um mundo magia
Pulava o saci
Maria, Maria
Tão bela te vi

Daria hoje tudo
Pra ver-te de novo
O sol rechonchudo
Eu louvo, eu louvo

***

Escrito após assistir ao lindo filme Mutum (2007, dir. Sandra Kogut), baseado livremente em um conto de João Guimarães Rosa - conto este que eu particularmente desconheço. Um filme muito inspirador, por remontar as origens do meu próprio pai. Maria, um nome tão comum, pode se transbordar de um sentimento bem incomum neste mundo nosso: o amor cordial, fraterno, ingênuo: o único real amor.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Haicai Insubmisso (I)

Ah, vida!
Mostra-me tua ferida
Existencial

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Bright You


The pencil was incredibly sharp
As it scribbled in the dark
The lead wrote in remarks

Your world is dark
Your soul sparks

Long-fanged sharks
Live in dark-blue
Your soul sparks
Your soul is you

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Fim da Heroicidade (II)

Não creio em heróis
Não creio em vilões
São ambos os mesmos
Iguais as canções

Stálin o monstro dorme
Tranquilo em seu mausoléu
Ri em seu rosto disforme
Repousa em seu cilo o réu

Quem ora venceu
Tudo cometeu
Atos tão ateus
Pois nunca houve um Deus

Em nome do eu
Se fez o sagrado
Em nome do eu
E o mal coroado

À frente canhões
Para a batalha
À frente sermões
Para a mortalha

À frente reis vis
Toda a canalha
À frente guerreiros
Por sob a malha

Soldados de chumbo
Condecorações, medalhas
O céu róseo-plúmbeo
Em luto se cala

A luta na vala
Trincheiras exangues
Maneiras de sangue
O sangue na sala

O rifle e o fuzil e as balas
Cartuchos, cantis, balelas
Homens murchos, pueris
Sequelas da guerra exalam

Postos de combate póstumos
Virilidade senil
Marionetes se prostram
Ao sempre à margem do rio

terça-feira, 6 de abril de 2010

O Fim da Heroicidade (I)

Cinzas jamais plantam mudas
Cinzas dispersas
Cinzas silentes
Miúdas, graúdas: mudas

Perdem todas sua cor
Pelo vento a seu sabor

Cinzas cinzentas lançadas
Pó seco, crespo, tão branco
Cinzas ao vento aladas
Indissolúveis no pranto

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Fluxo Doentio

Anita Malfatti: O homem amarelo II (1915)

Eu me olho nos seus olhos
Eu me enxergo tão simplório
Pelo reflexo molhado

O que é que há em mim
Eu me vergo em meu jardim
Vou em busca de jasmins

Cavo a terra com mias mãos
Faço minha ablução
Grãos e sementes desterro

Garras ferrenhas me arranham
Soco o chão em solidão
Vozes atrozes me chamam
Não aceitam negação

São minhas as vozes
São minhas neuroses
São meus os algozes

Vozes velozes
Me tornam um celerado
Tresloucado acelerado

Não posso apartar
Virtude e pecado

domingo, 4 de abril de 2010

Ramadã Eterno


Fanfarrões jamais
Faltarão no mundo

O poeta abstém-se de farras
Põe-se em sua alma triste
Pr'assim livrar-se de amarras
E manter-se sempre em riste

sábado, 3 de abril de 2010

Sufi

Frustrado, sim
Eu estou muito frustrado

Já não sei a quem buscar

Se na vida resultados
Ou no Além o Alto Alá

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Poeta Profano Sonha Com Deus


Nutre o poeta um desdém
Abstêmio em seu coração
Por coisas do mundo aquém
Pronto a dizer sempre um não

Asceta d'alma e de vida
Difícil fundir-se ao mundo
É sua alma sua querida
Mergulhá-la no profundo

Sonhar à noite com astros
Fatos calcados em si
Veleja ao mar sobr'o mastro
Ouve o silente cri-cri

Coisas quais eu nunca vi
Surtem efeito em meu imo
Livros quais eu jamais li
Lançam-me ao monte e ao cimo

Estou cá, posto defronte
A Deus, Iavé e Alá
Cá eu leio Xenofonte
Embebido em meu maná

As histórias do orbe
As memórias do globo
Meu espírito absorve
E ausculta a tudo probo.

***

Xenofonte de Atenas, filósofo e historiador grego (Erkhia, Ática, c. 430 a.C. - ? c. 355 a.C). Foi discípulo de Sócrates, cujos ensinamentos o marcaram em definitivo. Sua obra inclui tratados relativos a Sócrates (Memórias de Sócrates), relatos históricos (Helênicas), obras técnicas (A economia, A equitação), políticas (A República dos Espartanos), e um romance histórico (A Educação de Ciro).

[Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998]

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Memórias Compiladas de Raimundo Nonada

Eu numerei postumamente todos os arquivos da minha mente. Em cada um deles havia a seguinte instrução: Pule este, passe para o da frente. Pule este, passe para o da frente. No fim, não havia nada. No nada, não havia fim.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sou o Voo do Enjoo (II)

"Vertigem", mosaico de Dimitryi Polyakov

Sou o voo do enjoo
Minhas lágrimas entoo
Nestas idas canções

Com voz rouca eu troo
E com ela abençoo
O meu Solimões

Negra a mão que ara o solo
Negra é a mãe, negro o colo
Negros todos aldeões

A madeira e o cinzel
A paleta e o pincel
Sob chuva de trovões

É azul o limpo céu
De cor bege o doce mel
São tão tênues... as estações

Ela vem envolta em véu
E eu vou com meu chapéu
Na fusão dos corações

Confusão sob os trovões
No Rio Negro e Solimões
Toca o sino lá no céu

Oh pequenino menino
É você quem toca o sino...
Cuja corda traz em mãos

Ouça o som do violino
Ouça o som tão cristalino
O bambino tem irmãos

Todos andam de mãos dadas
Ladeados pela estrada
Crentes na ressurreição

Uma alma estagnada
Pode ser sempre a morada
Do divino e a criação.

terça-feira, 30 de março de 2010

Sou o Voo do Enjoo (I)


No vazio eu me vejo
Um breve lampejo
Daquele que sou

E assim me protejo
O nada eu almejo
Sendo eu quem sou

Minh'alma a varejo
Eu nem pestanejo
Sou quem eu sou

Pães rotos e queijos
Abraços e beijos
Eu nada mais sou

Mentiras ensejo
Cartas, desejos
Este sou eu

Sertão sertanejo
Em teu vilarejo
Distante de Deus

Teus pés benfazejos
Teus olhos, revejo
E cá estou eu

Em teu lugarejo
Teus olhos alvejo
O que me restou

Sinto um enjoo
Alço meu voo
Eu me ecoo

Ecoo o Vácuo
Cacos que sou
O Caos me sobrou