quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Awake

What kind of world is that we live in
When all that matters is to win
Where love is mistaken
Our souls firmly shaken
On a fiery foundation
Contempt for another man's nation
And utter isolation

What kind of world is that we live in
When daily pleasures are taken as sin
Our values stepped upon received
With a goarish grin

Aye! Man must find a way
Farther than kneel and pray
The strongest bridge will sway and fall
A novel man born from a fissure small
A new beginning for it all.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Nature's Call

Early midnight spring
What news do you bring?
Will you rip my heart open
For me to finally sing?

My soul is soaken
My bones are broken
Not a word left unspoken
And yet no king to be seen...

Though nothing is as it seems
I guess... one nightmare... has killed all my dreams.

May I be wrong

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Louvor aos dias que seguem, incólumes

Todos os velhos foram jovens um dia, como nós
E também pensaram que a doença não viria
Jamais estariam sós

Rostos vetustos, maduros, marcados
Pelo tempo timbrados
Sorriram em seu dia
Como a rosa em botão
O Sol reluzia
Sem jamais cogitar solidão

Todas as broncas e reprimendas que recebemos
Todas as vezes que os mandamos aos demos
E as torturas que na vida sofremos
Sulcaram suas almas também

Gerações antecessoras, tais quais as vindouras
Creram na juventude eterna
E o tempo insaciável respondeu - com a finidade da vida
A morte materna

Promessas não cumpridas, o tempo as desfez
E a seriedade com que se leva a vida
Tornou-se insensatez.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Ex-perança

Nós górgios nos prendem
Tua mão à minha
Em vã e fominha esperança
Perfuras meu cor com tua lança
E prostras teus olhos de cabra em mim

Impondo em mim teu sigilo
Teu segredo - dás-me ânsia
Sinto medo
Não diz agora essa palavra -
Ainda é cedo.

O que há de errado nisso?
Não firmamos compromisso...

Cada um pra sua praia
Você de calça, eu de saia
Você de jeans, eu de cambraia

Fundir-se é termo ultrapassado
Amar é coisa do passado
Amor é manco, cego, surdo, mudo...
Um velho retrogrado

Eu fui seu ideal - e você
Mais um ex-namorado, ou melhor:
Namorico, ou melhor:
Um incômodo fardo.

****

Duas notas: o eu lírico é feminino do início ao fim do poema, e eu o atribuo a uma pessoa que deixo sob a égide do anonimato. O que tal pessoa pensa (ou, ao menos, o que eu supus que pensasse), não condiz em nada com que eu penso. Eu acredito no amor - não por ingenuidade, mas porque tenho exemplos da vida real para me fundar. E, para mim, nunca houve um "cedo demais". Isso é restrição, é baboseira, hoje me faz rir. Mas quando ouvi da boca dela, me deixou bastante chocado. Talvez fosse cedo demais para ela, mas de forma alguma para mim. Enfim, se não é mútuo, não é verdadeiro. Ao menos nisso ela acertou. Ah, e todas as falas do poema são dirigidas da parte dela para mim, ou seja, eu sou o receptor dessa mensagem suficientemente incisiva (para quem acreditou amar do fundo do coração). Só posto isso porque faz parte da minha maturidade emocional. Hoje eu tenho os olhos bem mais abertos, o diálogo bem melhor construído, e nem por isso deixo de crer no poder edificante do amor genuíno. Eu tenho como firme crença artística minha que o poeta não deve ser hipócrita com a própria vida - não que seus poemas sejam necessariamente autobiográficos - nesse ponto, vários poemas postados neste blog podem ser tomados como exemplo. Mas detrás do poeta está uma pessoa que se esforça por viver uma vida não-hipócrita, e avessa às mentiras, calúnias e seduções mesquinhas.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Olhar c'os olhos

Ó, doce vida, como é duro despertar!
Vogo a esmo pelos mares, sobre as vagas a sonhar...
Ó, doce vida, como é triste despertar!
É tão lindo o sol poente, que me põe a ponderar...

Ó, doce vida, como custa despertar!
O sol, a lua, o vento me impelem a lutar...
Ó, doce vida, a que custo despertar!
Quando o amor se vai e a alma se desfere a gritar...

O amor perdido, assim fundido
Na tristeza do viver
A paixão arrefecida, relegada
Ao sofrer
O ser humano, cabisbaixo, boquiaberto
Em sua ânsia de enxergar
O pôr-do-sol, a lua nova, e o que mais há de mudar...

Luziluze cudelume

Teus olhos, como fogo
Acalentam meu lar
São fagulhas que pululam
E a tocha a dançar

O pirilampo incendiado
Pelo brilho da chama
Morre agoniado,
Clama em terror:

Sei que és luz,
E a ti eu procuro
Alumia minha breve estada no mundo -
Me arranca do escuro!

Não há flama mais
Forte e ardente
Eis, no ocaso, a sorte
Dest'alma penitente

Minhas asas faíscam
Minha prece esquecida
Minh'alma fenece -
Perco a vida.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Encounter

All of a sudden
You die - and you can't remember
Why
All of a sudden
You cry - and you don't know
Why
All of a sudden
You doubt - it ever really
Happened

[Perhaps just a lie
But is sounds so true... -
Who are You?]

Why are you hidden?
Why can't I see your eyes?
Why am I smitten
By your woeful, midnight cries?

When will I find
You?
Oh, it really doesn't matter
There're still many a glass
To break and
Crash and
Shatter.

sábado, 17 de outubro de 2009

As Simples Coisas

Benjamim, meu amigo. Quando nós não temos força para levantar, nos levantamos mesmo assim, não é mesmo? E quando falta força para gritar, soltamos o grito dentro d'alma, não é assim? Pois é esse meu presente estado. Conto as horas dormidas à noite, preocupado em reter algum ritmo à minha vida. Qualquer que seja, este já é o primeiro passo. De uma longa caminhada? Quem sabe.

Lembro-me que foi mais fácil compreender a depressão em você, que a exprimiu, que em mim. Pois como proferira um sábio já morto, é uma característica comum aos homens ver mais facilmente as falhas nos outros que em si próprio. Perdemos o apetite, ficamos como que pasmos, incapazes de usufruir os devidos momentos de alegria que nos vêm no dia a dia. De súbito, notamos que rimos e sorrimos pouco, e quando o fazemos, é com certo pesar.

Cortei meu dedo sem querer ontem à noite, no fio do canivete. Sabe que eu nem senti a dor? O sangue fluía vermelho, e eu nem sequer me assustei. Segui com o que estava fazendo, até meu irmão exclamar incrédulo com o absurdo da situação, e meu organismo puxar as rédeas. Sim, além do meu irmão, meu organismo ordenou-me, imperativamente, pôr fim àquilo - não fosse pelos dois, eu continuaria, como alguém desprovido de vontade própria. Um autônomo, um robô com funcionamento pré-ordenado, mecânico, insensível.

E apesar de toda essa insensatez conosco mesmos, volta e meia damos conta da estranheza da situação, não concorda? Creio que você também, em certos instantes, pergunta-se o porquê do dia passar tão rápido e por que mesmo os momentos mais únicos, singulares, irrepetitíveis do dia simplesmente passam e vão, sem que dispensemos maior atenção a eles. Deixamos de perceber que algumas circunstâncias, providas de maior carga emotiva, nos animaram aqui e acolá no decorrer das horas. É como se o cérebro entrasse sem prévio aviso num estado catatônico passivo, em que põe igual peso às mais variadas vivências, e assim nada mais pudesse nos abalar. Sugiro que seja um mecanismo de defesa, mas extremamente falho no que tange à assegurar uma vida plena. No máximo, garante nossa sobrevivência. No máximo, porque, nos nossos casos, o suicídio não é uma alternativa incomum. Reitero: longe de nós entrever tal possibilidade!

É agora que escrevo a você (esta carta aberta) que me recordo de alguns desses instantes que fizeram meus olhos luzirem e minhas bochechas corarem, num sopro de vida que veio e se foi. Mas, pondo-os no papel deste caderno, à tinta azul de uma caneta Molin, e com as páginas devidamente numeradas e datadas, tenho a esperança de que no futuro tais momentos possam me trazer de volta à tona. Já não aguento mais essa submersão, esta falta de voz. E o pior é reconhecer que o algoz somos nós. Quero subir à superfície mais uma vez, ver o Sol enquanto ele ainda existir. Sonho que isso aconteça num futuro próximo.

Vamos aos fatos. Na faculdade, mais especificamente no ponto de ônibus, eu aguardava minha linha, Jaçanã. Ele parou, eu entrei, não sem hesitar na porta, já que eu vira vir correndo uma garota, na óbvia intenção de alcançá-lo, e eu era o último do ponto a subir. Puxa, pensei. Mas foi eu subir que o motorista fechou a porta. Fiquei estupefato - aliás, o ônibus não estava lotado! Todos os passageiros estavam sentados, sobrando lugares, e não havia explicação para ele deixar um passageiro pagante para trás. Vamos lá, meu amigo, o que são meros 5 segundos de espera, no máximo (se ela tropeçasse) 10?! Daí veio minha voz embargada ao motorista: "Tem mais um passageiro". Ao que ele retorquiu, verbalmente, acompanhado do típico (e expressivo!) levantar dos ombros: "Ah, fazer o quê." Eu, Benjamim, sei muito bem o que farei da próxima vez, caso haja outra semelhante: colocarei meu pé no primeiro degrau, e acenarei para a pessoa, dizendo: "Ô, amiga, vem logo!". Que ele feche a porta em mim! Eu não gostaria nem um pouco de ser deixado para trás. Ainda mais no caso de uma linha que demora cerca de 40 minutos para passar. Até onde eu entendo, é nesse sentido que cada um de nós pode fazer a diferença neste chamado mundo fominha, mundo-cão. Eu fiquei bastante irritado com a minha inação. Que os outros sejam ignorantes, eu não gosto de sê-lo. Mas é assim que a gente muda, né? Quem tem sangue de barata não sente a necessidade premente e pulsante de mudança.

A outra circunstância da qual fui testemunha, esta já de teor feliz, foi quando eu me encontrava dentro do ônibus Butantã-USP, a caminho da faculdade. Não relato em ordem linear, mas isto é porque os eventos que me causam maior impacto vêm naturalmente à frente, é inevitável. Pegamos um congestionamento caótico no centro da cidade, e eu já estava por aqui incomodado e impaciente, após já duas horas dentro do veículo e nenhum sinal substancial de progresso. Bom, uma hora deu-se um jeito no engarrafamento, e mais à frente nós passávamos pelos cemitérios ali nas redondezas das Clínicas. Havia muita gente na calçada, visivelmente aguardando outras linhas de ônibus, visto que poucas entraram no meu. Mesmo depressivo, eu sigo curioso. E uma pessoa curiosa, sem nada de particular importante para fazer, tira os olhos do umbigo e vê o exterior da janela. O trânsito ainda estava no molha não chove, de forma que eu podia me dar ao luxo de fitar sem pressa os transeuntes em seus afazeres. Qual não foi meu sorriso quando eu vi uma mulher - talvez a mãe - e uma menininha de uns 5 ou 6 anos numa brincadeira bem bobinha, e aí meu regozijo. A cunhantã cheia da graça dava pequenos passinhos até a mulher e fazia um touché! na coxa dela, emitindo gritinhos de júbilo na ação. Ao que a mulher se divertia e retribuía um touché! de leve na barriga saliente da garotinha. Eia, alegria! As duas não se continham de contentamento.

Eu sorri de aprovação, mesmo que ninguém me visse. Puxa, há momentos na vida que julgamos tão enfadonhos, justamente por olvidarmos os prazeres mais simples - os mais leais no correr do tempo. A vida pode ser divertida, pensei. Basta olhá-la com a vista menos cansada. Uma criança feliz quer com tamanha vontade descobrir o mundo, que de início pouco se importa do que os outros pensarão, de bom ou ruim, do que fazem ou do que dizem. Depois todos são moldados mais intensamente e perde-se um pouco dessa curiosidade insaciável. O fato é que ela deveria se aguçar. Os grandes gênios souberam direcionar sua curiosidade e cá estamos nós, com muitos deles a servirem de exemplo. Amar é tão pleno nessa idade, que basta um momento de felicidade para se dizer: "Aproveitei o dia!". E isso, sem uma sombra de dúvida, pois um dia de brincadeiras nunca é em vão.

É senão por isso que pego na caneta a essas horas, meu amigo. São os momentos mais simples - e inesperados - de alegria, justamente os mais gratificantes. É só eles passarem despercebidos que a vida se faz menos luminosa, e perde-se o intuito de viver (ainda mais quando ele anda já fraco das pernas). Fiquemos, pois, atentos. E, ah, quanto ao incidente do ônibus, foi uma lição de solidariedade. Parece-me, posso estar errado, que as lições mais simples são as mais caras. Não se pode viver bem e dignamente sem elas.

Por isso me toca a seguinte canção, mais bela ainda na voz vibrante da recentemente falecida Mercedes Sosa. Chama-se Canción de las simples cosas. Ei-la:



Do seu amigo,
Fernando.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Amanhã de manhã

A Parábola dos Cegos (1564) - Peter Bruegel,
o Velho
(Óleo s/ tela, 86 x 154 cm)



Nas manhãs que desperto deitado na cama, descerrando meus olhos com dificuldade, noto, não sem me amargurar um tanto, que já trago uma perspectiva de mundo cansada, talvez atoleimada, e é duro levantar-me do leito sáxeo. Não por dores, que felizmente não vieram ainda, mas por perceber que já foi diferente, e não faz muito tempo.

Lembro-me, não sem sentir certo pesar, que antes sorri como as orquídeas lilases de meu jardim: abrem com fulgor suas pétalas na aurora, para fenecer orgulhosas tão logo é chegado o fim do dia. Recordo-me ter certa vez aberto os braços em cruz, o peito estirado e palpitante, entregue a uma paixão que desabrochava, completamente nova, repleto de alegria e desejo. Todavia, quando menos esperava, cortaram minha esperança, como se poda uma árvore. Não obstante, por erro ou infortúnio, arrancaram dessa árvore, que então nada podia suspeitar, não seus ramos putrefatos, mas justamente seus galhos viçosos recém-nascidos, que despontavam para abraçar o mundo, numa expectativa edênica de ingenuidade e sabedoria.

Tão logo os cortaram, senti a dor da punhalada no peito, perdi de arremate os sentidos, retraí-me contorcido, ostracizado. Por um longo período antes desse inglório acontecimento, eu me sentira como um náufrago sem companhia, ao qual cada rumorejar dum novo dia soava como um recomeço repetido e invariável. No entanto, fora-me dada a oportunidade de sonhar de olhos abertos novamente, e, entretido nessa experiência extática, mística e há tanto apagada, distraí-me a ponto de não considerar um bem possível fim abrupto. E abrupto foi. Toda minha seiva borbulhante foi sugada por escarificações cutâneas profundas, e a venda hipnagógica retirada dos meus olhos ainda em deleite, par'eu ser testemunha do espetáculo mais horrorizante. Meu sangue, branco, leitoso e purificado, mesmo denso, escorria impiedoso das chagas recém-abertas - gotejava na relva, ecoava na selva. Ecoava na selva delimitada do meu ser, que quedava imóvil ante à violência jamais vista. Nada estancava a profusão sanguínea. Barbárie.

Meus braços desde então não mais abriram em 180°, na pujança varonil de enlaçar o ser amado. Meu amplexo perdeu a força, e o ósculo, a virilidade. A entrega ao outro deixou de vez de ser incondicional, tornou-se racional, mesquinha, frívola, parcial. Tão longos aqueles breves momentos de gozo inquestionável, total. Há maior tristeza no mundo, que acaso supere a dum pássaro recém-liberto, que de chofre se vê novamente engaiolado? Ele adejava e silvava livre e melífluo pelos campos virginais, sem ousar suspeitar a temerosa mão invisível vir-lhe roubar a vida reconquistada.

Pois sim. A vida propriamente dita é a vida que se sente em curso, em fluxo - a corrente do rio que renova em desova. Germina incólume a vida subaquática, uma multitude de peixes embrionários eclodindo a extensão do organismo materno, gerador. A tênue película se rompe, eis a vida - periclitante. Eis o risco, a gana de peitar a morte, os colhões: tentar a sorte, independente do resultado. Eis a única razão de ser, para ser, só assim crescer.

O pássaro quer voar, e é feliz enquanto o pode. O ser humano quer amar, mas eis uma tragédia que o sacode. De súbito, as grades da jaula retinem no escuro, e já se vê que os olhos estavam firmemente cerrados, em êxtase, no júbilo primordial. Ao medo, sobrevém a dor: as asas feridas no baque da portinhola recusam-se a alçar voo. Os olhos lacrimejantes miram o vazio, o pipilar perdeu o brio, e com eles se vai a última memória de um largo e infinito rio, corredio. Anil e transluzente. Tudo isso a alma capturada sente.

A solidão dói tamanha, que se perde a vontade de comer. Vai-se o brilho, a sanha de viver. Viver? O que é a vida no interior de uma jaula, àquele que até pouco sorvera da liberdade ilimitada, tão-sonhada, realizada?! Aquilo era vida - isto, não mais. Há um parâmetro muito forte em jogo, que não pode ser descartado. O homem livre ou morre ou se adapta à servidão das galés. Mas, uma vez acorrentado, pouco a pouco o remo suado a sangue oblitera a noção integral da liberdade doutrora. O calor, a cãibra e a dor pungente obnubilam-lhe os sonhos que tivera quando de seu veio não-subjugado. Solte-o, e ele nadará até o inferno, ou morrerá tentando, se preciso, isto é, se restarem-lhe forças, ou ao menos parcas lembranças. Sem estas, nada é possível. E, antes disso, procurará desagrilhoar seus mais queridos, seus colegas, seus amigos, semblantes sofridos.

O quinhão restante de vida ao escravo é tão-só o anseio irrevocável pela libertação. Quebrar em pedaços as grilhetas malditas e berrar e gritar e se esgoelar como só pode o feliz homem que se redescobre vivo! Cuspindo o torrão de terra acre que lhe meteram boca adentro, tirando do pelo e cabelo o pó nefasto do chão piolhento da cela da morte. Esse homem, que até então viveu a vida e o correr desenfreado dos dias como uma instância fatal, submetida ao banal, ao pão imundo concocto com cal - este homem, caso preso nova vez, escolherá a morte. Psicossomática, e mesmo assim: morte.

Ninguém é tão forte. Mas, quem sabe, ele possa livrar-se das cadeias sem ser recapturado - e, quem sabe, esperançosamente, ele possa estranhamente novamente sentir-se amado. E, quem sabe, ele possa de novo amar. De olhos abertos entregar-se a quem o ama, reabrir lentamente os braços e expor o peito - desta vez c'os olhos bem abertos, perspicazes. Olhos fechados somente quando lhe couber o fato mortuário. Chega de vendas! De um mundo adulterado por lentes destoantes, que o põem ora em cores senis, ora em tons berrantes. O mundo é, já sem ajuda de instrumentos inacurados, multicor. Se ali houver amor, melhor. Contanto, mergulhar em águas desconhecidas requer cautela.

Nosso homem terá de reaprender a voar. Suas asas, fora de uso, já não podem alar. Seu piar é agora um chiado cacofônico - terá também de reaprender seu canto. Voar de novo dói. Os olhos mareados lembrar-se-ão dos cavos e ermos momentos nos confins da prisão. Mas as mãos malévolas e agourentas serão avistadas à distância, e não mais colocarão em cheque o voo libertário do ex-prisioneiro.

sábado, 10 de outubro de 2009

Terminologia

Não que eu não soubesse que o fim estava próximo. Eu sabia. Não que eu não soubesse o que eu havia de fazer - isso, também, eu sabia. Mas, abatido. Eu estava abatido, e mesmo vendo a porta, não podia alcançá-la. Uma espécie de paralisia, talvez. Mas eu precisava tanto tocá-la, tangê-la, rangê-la, levantar-me de onde me encontrava sentado e tentar dalgum modo chegar àquilo. À maçaneta, ao ferrolho, àlguma reentrância daquela porta sombreada, escura. Ela estava logo à frente, mas eu não podia fazer nada.

Eu estava recostado na cadeira escutando jazz. Minha música preferida, após Piazzola. Eu deveria fazer aquilo, mas a força me impedia, repelia. Eu preciso chegar lá! Mas não adiantava - se eu acreditasse no fado, no destino ou na Sentença, até que vai. Mas eu não tinha tais credos, e não podia explicar doutra maneira essa falta de vontade, mesmo ante ao dever. O dever não vinha, minha cabeça espiralava, a morte me sondava. A morte de entes queridos, os meus olhos fechados, feridos. Desnorteado, eu já havia esquecido da porta. Poderia fingir que ela continuava ali, mas era como se eu tivesse sido transportado a outro tempo, a outra era.

Abri meus olhos e me vi numa praia desértica. A água batia na rocha, e o firmamento plenamente azul brincava com a minha imaginação. Os cirros plúmbeos planavam em algum outro recanto do mundo naquele momento, pois ali era o azul mais azul, e nem sequer era azul. Que cor era aquilo? Não sei. Era a cor e a luz da vida. Alguma plaga esquecida. Eu estava ali. Atrás de mim havia uma mata, e na frente era o mar, a rorejar, a tocar os penedos indeléveis. Entre a natureza e a dimensão inexpugnável de uma existência rediviva. Um ser. Um ser humano num ermo arcano, mirando o céu o sol e as nuvens. A água transluzente, a vida piscosa transparente, tudo aquilo era minha vida. E não havia nada naquele mundo que eu não pudesse almejar.

Reabri os olhos, ressentindo ter perdido um mundo tão belo e singelo e distante. Apoiei-me nos braços da poltrona, firmei meus músculos e me ergui. Vi então a porta, entreaberta, luminosa. Cambaleei, fustiguei meu rosto com um tapa e disse: É lá que eu quero chegar. Cada passo me doía o corpo inteiro, como se carregasse o mundo nas costas, mas eu não desistia. Não importa que carga se põe sobre o dromedário, ele mantém a cabeça altiva, pois conhece mais que a cáfila em derredor, conhece Deus - e sabe seu centésimo nome, o ignoto e incognoscível a meros humanos. Eu era o dromedário naquele instante. Meu corpo retesado era meu único meio de alcançar o clarão que me anuviava a vista.

Quase cego, em genuflexão, eu roguei aos céus por força. Não por piedade, nem misericórdia, não por isso. Eu necessitava força espiritual. Minha oração era o meu ponto de encontro comigo mesmo. Com o único elemento em mim impermeável à opinião dos outros. Poderiam opinar à vontade equanto eu me encontrasse em contato com minha essência. Ela reinava coroada naqueles passos escorregadios mas firmes, titubeantes mas alegres. Eu sabia minha direção, eu cheirava meu caminho, eu chegava até a lâmina de vidro que era a porta. Entreabri-a resvalando-me no vão e caí morto.

Acordei. Sentado na "poltrona". Minha cadeira de rodas, da qual jamais levantaria.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Balanguê

Jean-Honoré Fragonard, "O balanço" (1767)

Apesar dos pesares,
A vida vai bem,
Vai vem.

(Meu)



O constante balanço, entre o ir e o voltar, o constar. O ser definido por estar, aqui e acolá, um meio definido pela passagem, a inércia do movimento que transmuda o rápido em lento, um auspício agourento, um eterno "vivo e tento". Tento ser o que não sou, estar onde não estou, voltar de onde eu vou. Meu voo, minha reflexão, estar planando parado em movimento, até parece miragem, mas é a vida.

Destituída de limites, infinita. O poeta fita o horizonte dalém da ponte, multicor, destoando no ódio, corando no amor, neutralizar-se é rancor é morrer é toda a dor o fim do ardor. O poeta colore e percorre milhas e milhas de sendas e lendas e vendas e vê. Povos e lugares, o vinho dos lagares, os velhos e os novos - os que jamais morreram. Pois viveram como vive a luz do sol enquanto é dia, sem se preocupar jamais com o despertar do sonho - a poesia.

O poeta retesa o arco, atira a seta. O querubim do fim da festa, o rememorar após a sesta - o poeta testa e atesta um viver diferente, um "viver com a gente", entre nós, dentre nós. Um ouvir, um dizer, um nascer fenecer, e o vivo manter da canção. Redivivo revivendo a tradição do toma lá e dá cá, um pega-pega inexaurível. Brincadeiras, jovialidade, o amor, o doce ninar da criança no berço na rede, que volta e avança, cantiga antiga... adormece.

E renasce todo santo dia pululando de alegria, recheando o biscoito da vida com uma bonança quase esquecida. E monta o cavalo alazão de um salto do chão, sem sela nem trela, e galga. Montanhas e vales, pega ela. Pega nada. Foi a vida. Estando na tua frente, te pegou por trás. Abracadabra, taí a surpresa. O bafo que aquece a tua mesa no café da manhã, no sacro arrebenta-diabos duma vida sã.

Ai, cunhã! Vem cá, dá um abraço no pai.

Para alguém como ninguém

Que é a minha esperança
E inspiração
A minha dança
De renovação

O mar que roreja
Bravio
A vela acesa
No fim do pavio

A mão que enseja
E deseja
Tocar o rocio

O mar qu'esbraveja
Contra o navio
Singrando auroras e trevas
Almejando encontrar
O Porto:

O Ponto Morto

Do outro lado do globo
Que seja!
Ele busca a luz que lampeja
E essa luz é você:

Já a encontrou.

Mas para isso, rodou o mundo
Cortando mares
Tocando o leito profundo
Respirando novos ares

Peitou o frio
Feriu-se no fio
Da faca afiada
E ficou atilado.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Sai, bichão!

Taturana não me queime -
Eu sou curioso
Por mais qu'eu teime
Em subir este pé.

Este pé de abacate,
O meu acicate,
O meu chevrolé

Já estou arranhado
Suado,
Mordido
Não queira você tomar partido

Eu sou pé
Pé de moleque
Sobe em pé-de-amora
De manga e abacate

Subir é uma luta
Minha luta é a vida
Quem vive sou eu

Prometeu...
Não cumpriu
Um deslize...
Caiu.

Dos céus ao chão
De volta à terra

...

E que guerra.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Meu canto de amor

Que mundo bonito
Eu fito
Deitado
No topo da mangueira
Suado

Entoo
O fado
E rogo à minha maneira

Perambula o vento
Deambula o mundo
Tudo treme
E eu deitado
Mudo
Teso e manso

Nas alturas
Encontro, enfim
O meu descanso
E danço, danço

Com a ponta dos pés
E das mãos
Agarrado à árvore
Olhos cerrados
Este símbolo eterno da vida

Minha... vida
Meu olhar
Sobre o mundo
Vivendo no mundo
Eu irei te encontrar

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

My Morning Jacket

Bonita a letra, gostei do som - e da ideia inusitada de se cantar, e ainda tão afinadamente, no interior duma garagem.


(Eu) Só (e) Ela

Abro a janela
Que vejo?
É ela, entrando,
Pelo vão da janela
Adentra a luz da vela
Acesa
Alumiando meu chão i-mundo

Meu coração palpita
Minh'alma grita
Mudo: sou criança!

"É ela!
É a luz
É a vela
Luzerna
Luar'

"Dê tua mão
Vamos cantar
Me sinto Sansão
Me sinto em meu lar
Me sento ao luar"

"Só de te olhar...
Só pra te olhar
Você mudou meu mundo
Com tua força,
O teu olhar"

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A vi na chuva, Zorba

Zorba, reprodução de escultura de Anthony Quinn

A viúva - nobre uva
Cor da chuva
Imolestada - nua
Sua sua sua
Recua... a figura nua
Seminua sob a lua recua...

Fosse a culpa tua
Fosses tu a grua
Que me acua e amua
Que a degolou na rua

Eu vi a uva
Suando carmim
Em mim, em mim
Mim:
Minto se eu vi
Não era suor
Era a aurora do leiteiro
Que jamais reabriu os olhos

A chuva manchou a rua
Maculou com a cor da paixão
Inumana.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Despertar dum Sonho

Acabo de despertar dum sonho. Nele, as pessoas eram genuinamente felizes. Nele, as pessoas escolhiam livremente quem beijavam, e não se discutia algo chamado orientação sexual. Nele, vivia-se com conforto, sem esbanjar. Mas era um mundo-fantasia. O encontro de uma realidade cotidiana com uma realidade virtual, e a mescla confusa resultante de dois âmbitos essencialmente distintos.

Não se sentia fome no sonho. Não se falou em comida. Parecia-me que todos eram sorrisos, descobertas, momentos silentes imbuídos em instantes sociais, o que se permitia viver sem mentiras superficiais.

Sonhei com esse mundo prescindível de epítetos: feliz, livre, bom ou ruim. Éramos o que éramos, sem necessitar nomear o estado emocional por que passávamos. Sem conclamar nossa existência como única ou superior às demais. Um mundo que desconhecia, por ingenuidade, os termos trégua, guerra ou paz.

O mundo que Tolstói ousou erigir em suas herdades aristocráticas? Seja lá. Um mundo orbe e urbe. Não se sabe direito o que se quer, ante a indefinibilidade de um sonho. O fato é que eu seria um hipócrita (comigo mesmo, não com o que os outros esperam de mim, como "politicamente correto") se afirmasse não desejar um mundo "melhor". Mas eu mesmo desconheço a que, concretamente, tal subjetiva terminologia se refere, e fico perdido quando indagado das soluções para melhorá-lo: educação, saúde, um mundo sem psicopatas no poder. Mas até aí, escolas não fazem a maior parte das crianças feliz - ok, o velho argumento defendendo a hipótese de que não se sabe ao certo o que se deseja quando ainda está no primário, secundário, enfim, enquanto se encontra nos antros da educação escolar. Mas o fato é que a maioria não é tão feliz quanto aparenta (ou procura aparentar) ser, e não basta arrancarem-lhes o véu chamando-as de anátemas e receitando-lhes Prozac. Não, as drogas não funcionam (The Verve), e só te deixam pior - cognitivamente, e o pior "pior" de todos: pior consigo mesmo. Deixa-se de acreditar na própria potencialidade para a cura.

Bem, e quanto à saúde? Autismo e vacinas, cada dia mais notícias evocando o surgimento da doença com a implementação da suposta panaceia. E na saúde há mentiras como na política. Em língua inglesa já se publicou enorme quantidade de livros e materiais concernentes aos perigos à saúde advindos da fluorização - o emprego de fluoreto - na água que bebemos. Desde problemas dentários até o colapso do sistema nervoso.

Sobretudo, um mundo sem psicopatas no poder. Sem George W. Bushs, sem Condoleeza Rices, sem Dick Cheneys, sem Colin Powells, sem Donald Rumsfelds, sem Tony Blairs, sem Ehud Olmerts, sem Sarkozys, sem todos esses títeres do terrorismo e da estupidificação massificada. Sem suas meias-palavras sacripantas que resultam no planejamento e alavancamento de guerras e invasões ilícitas, bárbaras e criminosas de nações menos poderosas.

Mas, para isso, seria necessário que uma parcela grande das pessoas conhecesse o que é, de fato, a psicopatia. E por que divulgar o conhecimento que identifica tais indivíduos, e os impede de uma maior contaminação da política e da sociedade, e de nós mesmos, como indivíduos. Já vivemos sob uma patocracia global, que envolve desde a medicina até os três ramos religiosos mais propagados mundialmente - judaísmo, islão, cristianimsmo - até... sim, já estamos infectados.

Puxa, eu despertei e percebi quão fundo pode-se ir à lama, estando-se mentalmente anestesiado. E cheguei à conclusão de que as aparências enganam (sim, Elis, Belchior). Descobri que é preciso saber o que causa a dor, e preveni-la, ou remediá-la, enquanto há tempo. Remediá-la, com consciência:

http://www.sott.net/

Um site de notícias definitivamente diferente dos demais.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Nietzscheano

O que deixa de ser dito, acaba sendo feito. Cuidado, pois, com o efeito retardado das palavras. Palavras interditas, quando exprimidas, têm seu poder reduplicado. Os desejos proibidos são reavivados, o gigante que dormia, despertado, o níveo sonho torna-se num instante um pesadelo tresloucado. E daí não demora muito à perda do significado daquela vazão de dor, desespero, insanidade, todo o torpor acometido por um baque repentino, golpes de todos os lados destruindo a áurea santidade que havíamos imposto ao nosso ser.

Este ser definido pela ambiguidade, e que tolamente tentamos separar numa de suas vertentes: bem ou mal. Um bastão, não importa quantas vezes diminuído, manterá duas pontas, e essa é sua essência. Como deixar apenas uma, portanto, num ser humano? Acue-o, e ele virará um animal, mais rápido do que você pensa. Nutra-o de carinho, e ele não negará o próprio ninho. É claro, há exceções. Por toda parte haverá exceções. Algo tem de ser não-determinista neste universo, não é mesmo? Que aporrinhação seria se tudo fosse homogeneamente padronizado pelo meio.

Mas quanto às palavras, engaioladas, um dia elas irão quebrar o envoltório, pouco importa a força que as reprime, que as suprime, elas irão se libertar. Da angústia de viver nascerá o dom maior: a vivacidade. Ser vivo implica gostar, desgostar, sentir-se feliz, sentir-se com raiva, essa é a propriedade do caráter. Não é ser eternamente bonzinho, risonho, um fofo. Ou vestir-se para sempre da carapuça do herói trágico, impelido pelo fado, semblante pesado e penetrante. Pode-se apreciar ambos os lados da moeda.

Deve-se negar o que não nos apraz. Deve-se afirmar o que gostamos. Com a mesma tenacidade. Dizer: "Não, obrigado" com a mesma força que um "Sim, é claro!". E nisso resguardar a potência de um ser que se exprime não importa onde, não importa a quem. Disse Gandhi certa vez que o homem não deve temer ninguém, senão a Deus. E, bem, nesse mundo o que mais tememos são os poderosos, mas eles não são Deus, nem individualmente, nem tomados como um todo. Eles são reles, e vis, e ordinários, como a plebe de nariz arrebitado que eles tanto vilipendiam e odeiam e contêm com o aparato policial.

Eles nos temem mais do que nós poderíamos algum dia temê-los. Porque a ira do povo, unido, massificado, reduz quem quer que esteja imediatamente acima. A hierarquia é inicialmente destituída, mas tão logo cai a anterior, instaura-se uma nova, igualmente abusiva, igualmente cruel e desnecessária. Porque assim o querem os cegos, os parvos, os crentes. Quem crê não vê. E quem deixa de ver só pode ser inevitavelmente levado à beira do precipício, e provar uma vez na vida o gosto do medo, o suor frio do degredo. O degredo da vida destroçada no rochedo, que a aguarda nas profundezas abismais da ignorância.

A ignorância como ânsia pelo agradável e tangível, jamais o abstrato, o dificultoso. A ignorância como arma dos poderosos para obliterar as massas atoleimadas, abestadas, azêmolas a serviço de uma força invisível que as dobra tão logo tem vontade. E, dobrado, o ignorante não torna a se erguer. Mantém-se prostrado, negando-se, dissolvendo-se, é morto. É morto já com condescedência, sem resistência. É aniquilado como a mais rente vegetação, socada diariamente pela planta dos pés. Mas ao contrário daquela, ele não renasce tão logo pisado. Ele expia sentindo ainda o efêmero prazer da ignorância. E disso não resta esperança de um eterno retorno. É somente a morte, a cruz, o esquife, e nada mais.

Em alguns poucos, porém, correrá o veio da coragem, da impetuosidade, da vida sem limites que há na alma e nela apenas. Nesses raros, algo desde cedo chamará sua atenção: a busca inexaurível pelo conhecimento, do mais prático ao mais abstrato, desde suportar a dor, a fome, até suportar as tentações mais infames. Eles nunca se imaginarão como santos. Suas ações espelham o brio, o ardor, os colhões. E eles só se sentirão em fogo fazendo o que lhes é cabido desde o início. De alguma forma aquela informação veio ao mundo inculcada na porção intocável de seu ser, e não importa se ricos ou pobres, a faúlha fará fogueira, e a fogueira, externa e sujeita às vicissitudes da chuva e da nevasca, abrirá caminho para o fogo eterno da lareira, protegida de vis olhares e visitas pouco desejadas. A lareira será parte inseparável de seu lar, e crepitará tão logo o lar manter-se em pé.

Ali, serão acolhidos somente os escolhidos a dedo pelo dono. Receberão o calor das áureas flâmulas, sentados na proximidade das chamas terão a sensação de vida, esmaecida no contato com seres sem autenticidade. Seres de rocha fria, cujo calor superficial e enganoso advém do contato com os fortes adormecidos, que não travaram ainda conhecimento com a substância que corre dentro deles, e se aliam aos mais fracos, sem disso desconfiar. Mas chegará o momento, em que eles se descobrirão. Finalmente ou tardiamente - uma vez descoberto o tesouro, não mais quererão chafurdar no chiqueiro. A imundície os repelirá, enojados, e os fará criar belas obras acerca da potencialidade semi-divina dos homens.

E o conhecimento, uma vez propagado, despertará do sono profundo novos homens, e a hora será chegada para compartilharem entre si suas histórias de vida. Descobrirão, no fel, o mel, no joio, o trigo, na noite, a luz. A escuridão do prazer será dispensada em prol de uma vida multifacetada. E as múltiplas facetas trarão no imo senão a manifestação das fagulhas do divino. O divino estará ao alcance como um objeto próximo encontra-se ao alcance da mão.

Chega de solidão. Os homens descobrirão um outro igual a si. E outros, que, à guisa de igualdade, predavam e dali tiravam sua seiva. A seiva dos vivos fortificando os mortos. Será chegada a hora em que as escarificações se fecharão, e dali nenhuma seiva será novamente tirada. As bestas ficarão desnorteadas, e procurarão a próxima vítima em si mesmas. Dos fortes, para os fortes. Esse apenas o caminho.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A Vida Secreta das Palavras (2005)


Assisti a esse belíssimo filme dirigido por Isabel Coixet no Centro Cultural São Paulo, aproveitando a VII Mostra do Cinema Catalão em Sampa, que terminou ontem, 13/09/2009. Fiquei encantado, porque é um filme que lida com sentimentos enterrados, difíceis de serem trazidos à tona, pela carga emocional neles imbuída.

No enredo central, Sarah Polley faz o papel de Hannah, uma operária que tira férias, mas, ao invés de descansar - após quatro anos trabalhando sem uma folga -, propõe-se a trabalhar como enfermeira numa plataforma de refinamento de petróleo. Lá, ela irá conhecer pouco a pouco seu paciente Josef, interpretado por Tim Robbins. Josef recupera-se de queimaduras sofridas ao tentar salvar seu melhor amigo dum incêndio ocorrido pouco tempo antes, na própria plataforma.

Não só Hannah irá adentrar o mundo de Josef, mas mostrará a ele, após passado um período inicial de silêncio e esquiva, que sua vida atravessou um longo período de sofrimento, dum sofrimento, aliás, insólito a muitos de nós, um sofrimento de tempos de guerra. Ela é sobrevivente dos conflitos armados ocorridos na região dos Bálcãs na década de 1990.

Hannah se esconde, em suas conversas com Josef, sob o nome fictício de Cora - seu nome real só será conhecido por Josef quando ela, a enfermeira até então muda, se abrir, revelando ao paciente acamado os maus bocados pelos quais passou, em seus tenros 20 anos. No filme, faz-se menção ao Genocídio dos Armênios, sobre o qual já tratei neste blog(segundo link), pois por algum acaso benquisto, adquiri num sebo, há anos, um livro magistral sobre o assunto, com fotos das vítimas, dos algozes sorrindo ao lado dos corpos empilhados, e um texto de arrepiar os pêlos e cabelos. Não é um livro de fácil leitura - a primeira resposta é atirá-lo para o lado, para longe, e fingir que o mundo vai bem, obrigado.

Mas não vai. E a história que Hannah conta evoca lágrimas, porque esse sofrimento indizível segue como prática comum em regiões de conflito e guerra - estuprar mulheres é o único espetáculo da guerra para muitos soldados - os quais, sem dúvida, apresentam os mais evidentes sinais de psicopatia. Já na República Democrática do Congo, enquanto escrevo isto, até homens estão sendo estuprados. Digo "até", porque, mesmo nos tempos atuais, o estupro de homem por homem é visto como algo aberrante, inimaginável (imaginável, talvez, no interior de uma cela, de uma penitenciária) - mas é um crime que chama uma atenção muito maior do que quando a vítima é mulher. Isto mostra um pouco sobre o nosso mundo, que insiste em enxergar diferenças no tratamento de homem e mulher. Mas o estupro, seja contra homem, mulher ou criança, é um crime igualmente execrável e horrendo, ao qual não deveria jamais ser concedida impunidade, expressa ou tácita, uma vez que visa extirpar da vítima seu senso de dignidade e auto-afirmação, mais ainda, creio eu, que a tortura. Por meio desse ato atroz, o criminoso brande a arma do poder no interior do corpo da vítima, exatamente onde ela se vê resguardada. O último quinhão da liberdade e do livre-arbítrio, a interioridade individual, é maculada num fazer bestial, num des-fazer do indivíduo, do outro, da alteridade - num ato bruto, desumano e absolutamente covarde.



Daí a força do filme, ao explorar as facetas de pessoas, que, traumatizadas, expõem a causa do mal que as acomete, e somente assim há a catarse. O filme em si veste-se dum manto catártico, pois o espectador vê-se impelido a olhar para dentro de si e buscar algum resquício que seja de uma situação-limite pela qual tenha passado. Uma situação assustadora, temerária, violenta, que talvez já esteja nos cantos recônditos da memória, do Inconsciente, para ali empurrada porque esse é o processo mais fácil encontrado pelo nosso corpo e nossa mente para seguir vivendo. Levar o tapa e dar a outra face - o erro crasso já pregado pelos grilhões da religião.

Enquanto não enfrentarmos nossos fantasmas imanentes, eles continuarão nos assombrando, fazendo-nos mal, destruindo-nos. É preciso extirpá-los, se é que se almeja viver bem. Mas quanto custa?

O preço é alto, porém o bem que advém, inefável.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Platônico

Eu amo a ideia de te amar.

domingo, 6 de setembro de 2009

Ver a Cidade

Por que palavras grossas, quando poderíamos nos entender tão bem? E o tom de voz extremamente alto, de estourar os tímpanos, perder a razão? E as gírias escalantes, o baixismo gritante, os olhos distantes, o coração palpitante? E as portas fechadas, o som ecoando pra rua, chamando a mulher que concebeu teu filho de perua. O que é isso? Como iremos nos entender desse modo, se nenhum ouve, só fala fala, nunca cala, palavra-bala palavra-vento.

Isso não faz bem. Já é tempo de perdermos o receio de ver o que fizemos de errado, cara, consertar o quebrado. Já é hora de deixar o pudor de lado, tirar o mau olhado - isso não é vida, é fado. Não me manda calar a boca. Por força não se cala a cavidade falante mas nem com estopa. Já não é hora de lavar a roupa suja? Pois então, o que esperamos, o fim do mundo? Já estamos cá no fundo do poço do fosso essa vida é osso.

Meu irmão, vou me calar pra te ouvir. Não grita, não, não manda, não, me dá tua mão. Chega de briga, bagulho, vida inimiga. Esse monte de entulho é uma urtiga. Me queima, me corta, eu to te ouvindo. Tá me mandando tomar no cu, isso eu não gosto. Me mandando me fuder? Também não curto. Caralho? Esse termo não vem ao caso. Tá berrando pra quê? Viado? Eu não sou. E se fosse? A vida é minha. Homem? A gente nasce homem ou mulher. Orgulho disso? Não tenho. Pra quê me serviria? Não serve. Essa carapuça apodreceu há tempos.

Você tá gritando ainda. Bom, aqui não tem dono do pedaço. A rua é NOSSO espaço. Não teu, não meu. Amizade? Que amizade é essa, irmão, sem um escutar o outro? Pô, tá rolando alguma confusão. Amizade é dialogada, é conversa troca partilha paciência. Esse caminho tá torto, tá morto. Nesse momento eu esqueço o bem que você fez pra mim, joe, e você esquece o qu'eu te fiz de bem. Não é estranho? Pois é, não funciona desse jeito, esse ar é rarefeito e nós vamos sufocar. Palavra-tiro, bala perdida rouba a vida, mata quem tava de boa.

Você tá de boa? Eu tô de boa. Vamo falá? Que bom que o tom baixou. Meu irmão, o diálogo começou. Percebe a diferença? Foi difícil? Bom, e quem disse que escutar era fácil? A palavra é de quem fala, e quem ouve a terá. Nhenhenhém, blá-blá-blá? É assim desse jeito. O etéreo eterno só vem depois do beabá. Ninguém qu'eu conheço nasceu santo. É limpando o chorume que aprendemos a apreciar o belo. E quanto não trilhamos pra chegar até aqui. Hein? É ali. É ali. Quem disse isso não sabia o quão longe haveríamos de andar sobre as brasas do averno a vim de alcançar o Éden.

E quem diria... o mendigo apontou o caminho: siga humilde. A vida é um aprendizado. Adaptar-se é sobreviver, já viver... viver, meu amigo, é aprender. Qual você escolhe? Siga reto o caminho. O mendigo é Jesus, é Atena, é Buda, é a Luz. Meus olhos ardem, minh'alma chora. Meu nome é Abel, aquele que pôde ver o belo sem véu. Esta terra é o céu eu vejo os astros ao léu. Eu não trago comigo um puto no bolso, eu não tenho um manto no corpo, e eu sorrio como jamais sorri.

E você só ri. Era hora.

domingo, 30 de agosto de 2009

Noites Sombrias

Em que eu sento sorumbático na cadeira suada pelo rocio. Ensimesmado sento e olho o céu sem vê-lo, vejo estrelas cintilando, do meu ser insopitável se abeirando, sozinho, marasmado, nas trevas densas me afogando. Só, no pensar no pesar no sentir-me sem sabor sem cor sem amor, e o fulgor... já deixado lá no sótão do passado. Só tão só tão só como a mó do moinho abandonado o nó da corda lacerado. Quem sou eu em tais sombras que me assomam nesta noite sem perdão, nesta fria e úmida e túmida escuridão. Quem são os fantasmas, os miasmas que assolam este corpo sem alma sem calma não sepultado, mas soterrado. E a seta varando a noite e ferindo o poeta, ó querubim moribundo largue essa seta, não me deixe no breu da floresta, sem fresta, clarão. Ó floresta, me guia, piguara, senhor do caminho não me deixa sozinho, essa ave sem ninho. Fala comigo, sussurra baixinho, vem meu carinho, não me deixa pequeno, inerte, isolado, não tenho mais força. Fui socado co'a terra, o cal me sufoca, o sangue na boca me escorre, a comissura dos lábios se move sem voz. Ó algoz, ó fera feroz, diabo atroz, me deixa me solta quero minha vida de volta. Que vida. Não sei não pergunte é minha é tudo o qu'eu tinha, minha vida mesquinha - solitária andorinha que assobiava o verão. Que santo me enxerga nesta noite inglória. Nossa Senhora que espanto eu passo eu sinto eu tremo eu remo em vão n'água escura, impura, tortura saber qu'eu singro sem vida sem mar. Aonde irei parar sem o sol sem luar sem minha esposa a esperar sem a terra o meu lugar sem o fim o despertar. Sem senha, sem sinal como eu temo o final sem fim sem mim. Deixo de ser sem ver sem sentir.

Eu só posso estar vivo.

Desistir

Poderia falar da falta que ela me faz. Mas prefiro discorrer sobre a falta que um contato maior com a minha interioridade me faz. Acho que já está mais que na hora d'eu me afastar das pessoas desagradáveis.

Pessoas que não acrescentam nada a mim, e às quais não posso adicionar nada. Pessoas cujos olhos opacos parecem ser ignorados pela grande maioria das pessoas, cuja crença na "bondade inata de todos os seres humanos" um dia irá desabar. Não falo de serial killers, dos psicopatas que aparecem nas novelas, e filmes, e thrillers.

São psicopatas muito mais sutis, denominados no campo da psicologia e da psiquiatria de sociopatas, porque eles se adaptam muitíssimo bem à sociedade. Bem, do jeito que a sociedade funciona, eles não só se adaptam, mas chegam ao topo. Nem quero falar de presidentes do mundo todo, de políticos, não, não. Não por enquanto.

Se você trabalha, no teu local de trabalho haverá um, dois, três, mais. Carismáticos, sensuais, espontâneos, extrovertidos, mas é interessante... é difícil para eles não ser o centro das atenções, não se destacar da multidão, não serem os líderes incontestáveis, não terem os melhores conselhos e sugestões. Se um dia você cair e se machucar na frente deles, vai ser complicado, porque ele não vai saber como reagir - justamente porque não há nele o que chamamos de empatia. Empatia, comumente falando, é a capacidade de calçar o sapato do outro e sentir a pedra que tanto dói o pé do sujeito. Mas, isso é uma coisa que eles não têm.

Puxa, e é um assunto que só se torna amplamente acessível aos que leem inglês. Porque estão em inglês todos os livros e artigos que conheço do assunto. Eu sugiro que você, que talvez se encontre interessado, inicie pelo link: . Você irá descer a página até avistar no canto esquerdo a headline: "Studies in Psycopathy". Não há nada de brochante, enfadonho, "acadêmico" neles. Se você se concentrou na primeira linha, o resto não te causará maiores problemas. Não, não, não! Vai causar sim. Porque você estará lendo algo que jamais houvera imaginado - que há pessoas neste mundo com um panorama interno vazio. Seres inanes. E que passam indetectados pela assombrável maioria, porque se camuflam perfeitamente bem num mundo em que tudo é absurdamente aceito. Inquestionavelmente, camus-ianamente, inacreditavelmente aceito.

Vou pôr a panela no fogo e te contar uma história. Meu vizinho estava espancando a esposa, justamente do outro lado da rua, com a casa fechada. Ouviam-se os berros, barulhos de encontrões, e, lógico, o choro dela. Eu me desesperei. Péra aí. Tem um ser humano hermano apanhando do meu lado, chorando, e eu não faço nada? Mas nada? Como assim? Não nasci pra ser herói, mas isso já é demais. Não vou pôr minha capinha de superhomem e bater na porta do sujeito agressor com uma voz grossa e um punho de ferro. Não. Há um órgão coibidor, composto de indivíduos especialmente treinados, criado e financiado pelo Estado, chamado PO-LÍ-CIA. Mas, o que aconteceu foi que eu consultei meu pai. E meu pai disse que em briga de marido e mulher não se mete a colher. E, na prisão, meu pai certamente diria que em estupro de ladrão não entra perdão. Ok, mas não estamos na prisão (sim eu sei que estamos, mas finjamos que não pelo momento). E algo pode ser feito sem você colocar sua vida em risco. E sua sanidade mental - que, hoje, foge do âmbito de revistas de beleza e dieta, cuja preocupação maior é o corpo e seu perfeito delineamento, para tornar sua carne mais saborosamente digerível pelo sexo oposto num ato denominado cópula, acasalamento, coito. Um ato privativo, intimista, a dois, a três, a mais, incomparavelmente prazeroso. Que, digamos, parece ser o foco da vida de muitas pessoas cujo futuro não trará belos frutos à humanidade. A humanidade parece opaca e obtusa nestes tempos em que se faz sexo sem amor - o que é um lixo, luxo, mecânico, individualista, sem sentido, autodestrutivo, narcísico. Uma merda.

Bem, o site-mãe do link acima é este. É uma equipe que trabalha 18 horas por dia em assuntos que abarcam a nossa realidade. E psicopatia é um tema central. Porque a nossa política é deturpada por tais agentes, a nossa economia, a nossa empresa. Um dia seremos demitidos por um diretor que está pouco se lixando, não te reconhece, te despreza, e você saberá o nome do que o caracteriza psicologicamente. Um dia você conhecerá um cara que trai a esposa virtualmente, enquanto ela está dormindo, e conta o caso morrendo de rir, no deboche, no ambiente de trabalho, na hora do almoço, a pessoas desconhecidas, e você saberá o nome do que o afeta. Um dia você vai perceber que todos os grandes causadores de guerras e ações insanas - Bush, Blair, Condoleeza Rice, Donald Rumsfeld, Collin Powell, Ariel Sharon, Stálin, Hitler, e muitos mais, todos esses vulgarmente alcunhados filhos da puta, são psicopatas que chegaram ao topo. Ao topo da economia autodestrutiva, do neoconservadorismo, do neocolonialismo, do genocídio, do morticínio de civis, da ocupação ilegal de um território alheio, que não para e segue matando, desalojando, torturando o povo sem terra.

E então você vai sacar que eu não sou doido, que eu trabalho oito horas por dia e de lá vou pra facul, e que se algo me deixa doido é ficar 17h fora de casa todo santo dia útil da semana, pra poder viver como se diz por aí - com algum puto no bolso, "dignamente...", e por aí vai. E então você vai notar que a minha condenação de Israel em posts passados não é casual, não vai "na onda", não é coisa do momento. Quem não condena a barbárie, consente com ela. E dorme na cama com ela. E como condenar a barbárie? Bem, ninguém nasceu sabendo, então o primeiro passo é se informar - visite os links, não deixe de visitar o sott.net, que é atualizado diariamente com manchetes, e, caso desejar, leia meus posts acerca de Israel, e chegue à sua própria resposta à seguinte pergunta: Os indivíduos que friamente calculam, orquestram e perpetuam tamanha carnificina podem ser de fato considerados humanos, como bem entendemos o termo? Abaixo vão os links:

A arma ainda quente e esfumaçando

Crimes de Guerra

Aprender a Discernir

Quando tudo pede

E, se você curte poesia em inglês, eu bolei esta, também nos anais do blog:

Wayward Road To Gaza

E uma poesia em português, engajada por Gaza, possivelmente uma das que me deram mais trabalho, mais lenha na fogueira poética. Um trabalho que valeu a pena:

Gaza, em brasas, gritou

Bom, para ser sincero contigo, eu acho que você vai adquirir um outro ponto de vista quando ler os artigos acima. Eu não posso fazer nada por ti, meu amigo. O máximo que me chega é indicar a porta pela qual adentrei. Cabe a ti, e somente a ti, dar teus passos e pôr a mão temerosa na maçaneta, e abri-la, rangente, rumorosa, amedrontadora. E o passo adiante ou recuante também é teu. Nada é meu. Meu aprendizado eu compartilho. Sua opinião é muito importante. Jamais deixe de comentar no meu blog, após ter lido qualquer material aqui postado. Porque, sem comentários, eu não tenho como saber se alguém chegou a ler o que escrevi. E, para um escritor, essa é a maior tristeza que há. De tantos amigos que tenho, você verá que nos posts acima nenhum possui comentário no momento desta postagem.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Vivos primores

Vim ver a vida, esta bela cunhã
Vim ver o sol no primor da manhã

Vim viver,
Nadar mais
E mais e mais
Do porto ao cais,
Do cais ao porto

Inteiro nela absorto
Nela
Nas águas da vida
Desta apenas
Nadar mais

Já mais já mais
E de novo, e de novo
O romper do ovo
O nascer da gema

A vida: um poema.

A manivela é meu braço, meu bem benfazejo. Eu giro o mundo no meu realejo. A canção é a vida, o eterno desejo. Eu sou o periquito, e essa mágoa que olho em teus olhos é minha também. É minha, meu bem. Meu bem, que ao bem aspira, sem sequer pensar no mal. Mas o mundo branco e preto nunca foi - preto e branco era o boi que criou tal ideia, sem sentido. A melopeia que vibra de dentro da caixa é o meu coração, batendo, rompendo amarras - em riso, em choro. Está vivo, sim senhor. E vós, que escutais, sois uma parte de mim, integral de meu ser. E a música ressoa da caixa pro mundo, de pessoa a pessoa, de segundo a segundo. O primeiro segundo, eterno instante, qual nunca se fez, pois nunca se foi.

sábado, 1 de agosto de 2009

Passe pra frente

Estava jogando bola com meu priminho de Minas Gerais. 6 anos, sotaque mineirim. E, agora, ouvindo pela Cultura FM trechos da insubstituível música tradicional japonesa, confluí certos pensamentos, e me sinto no momento de extravasá-los.

Cada toque que eu dava e ele retribuindo o passe. Porque "não pode chutar, faz barulho". "Já passou das dez, os vizinhos querem dormir". E eu também. Mas a gente faz um esforço, ou nem sequer é esforço. Bater uma bolinha é mais gostoso que fazer trabalho da faculdade. Ainda mais quando nós deixamos de última hora o que devíamos ter feito há tempo. Cada fim de semana passando e nós a termos aquela sensação de que estamos a procrastinar indefinidamente, gota a gota o tempo escorrendo batido pelo crivo, e o ploc ploc ploc* a me infernizar, louco, sem ver ida nem saída.

Mas vi a luz. Meu primo aqui ao lado do PC a rebolar, fazer-se de "caveira", brincando, brincando. Há tanto tempo não jogo bola. E ele rebola. Faz a pegada no saco do Michael. Escutando este som maravilhoso do gamelão, que Lou Harrison compôs, um tanto nipônico, espiritual... sábios olhos puxados da austeridade.

E eu a reclamar das dores, dos parcos amores. Agora (e somente agora, pois depois me esquecerei e voltarei às velhas manias) eu me liberto. Meu passo aberto, a descobrir o mundo - vivo! Não bastasse a sensação subjetiva, tenho pessoas em torno que também estão vivas (ou fazem o papel de modo satisfatório). Posso beliscar à vontade, que as pessoas gritarão e me retribuirão a maldade, e eu também sentirei, pois não é um sonho. Se bem que em sonho já consegui uma vez me beliscar, e, ao invés de acordar, senti algo bem parecido com a dor, etéreo, e cri ser a tênue realidade. Não era. O que seria o mundo sem as exceções? Sem cor, sem graça, o toque divino. Se fossem todos brancos, ou pretos, ou amarelos (escolha a cor) não daríamos pela falta do outro. Mas não somos.

"Eu" queria terminar o trabalho. "Eu", no primeiro momento que pegou o trabalho e os textos somando cerca de 400 páginas (eram mais), sentiu a falta de um elemento feminino naquele instante. "Eu" sobrepôs-se ao desejo lúbrico, mas não fez muito mais que isso. Percebeu o quanto está sem estudar de verdade, sentado numa mesa (que não de boteco), ereto, buscando respostas (neste caso, sobre as origens e a evolução do galego-português, mas bem que poderiam ter sido respostas sobre a própria vida). O programa "Mapa-Múndi (Uma Geografia do Som)", da Rádio Cultura, acaba de terminar.

Mas eu quero escrever. Em dois anos, eu envelheci à beça. Já não tenho a cara ingênua e sem marcas dos 12 anos. Nem a saúde. Nem as tarefas correspondentes à essa idade. Trabalho catalogando um acervo de fotos surpreendentemente diverso, que até agora já englobou desde uma estrela holywoodiana como Cate Blanchett, até fotos de um Canavial brasileiro e seus trabalhadores com feridas grotescas na palma da mão, as veias do braço intumescidas como artérias. Fotos do século retrasado (sim! 1890, 1895), e do desabrochar do século passado, e contemporâneas; Cartão Cabinet, stills de filmes de diretores independentes, takes do cinema alternativo. Fotos do cinema mexicano, um tanto clichês, chavões, lugar-comuns... com seus atores sempre adornados com sombreros, o onipresente bigodão de xerife texano. As belas mulheres ornamentadas com apetrechos ciganos, um toque sensual. A terra sem lei.

Fotos da Chapada Diamantina, de castelos e pubs na Irlanda, dos veículos clássicos (velharias?) de Cuba, duma mulher mostrando apenas os seios pela janela aberta (o rosto às esconsas detrás do vidro levantado, impossível de se ver), uma outra mulher, de seios fartos, olhos cerrados, jazendo na cama vestida apenas numa camisola solta. Isso quando uma amiga não me mostrou o Renato Consorte peladão, numa posição mágica de balé, exibindo a arma da nudez aos olhos curiosos. Retratos de família, congressos, Winston Churchill, de uma loirona de sobrenome Gallagher (lembrei-me de Noel Gallagher, vocalista do Oasis) à la Marylin Monroe, que posava em capas de uma revista estadounidense ou inglesa da 2ª Guerra Mundial. Fotos pertencentes à coleção "São Paulo Antiga", verdadeiras preciosidades sobr'a cidade. Fotos aéreas e terrestres da edificação do Memorial da América Latina, na estação Barrafunda. Fotos de mulheres e homens muito bonitos. A beleza... é definitivamente pra ser apreciada.

Eu não sou belo (nem fisicamente nem por dentro), mas me aprecia ver o belo, pegá-lo em minhas mãos (enluvadas), por mais q'aquele segundo fotografado esteja defunto e recoberto de pucumã há décadas, ou mesmo uma centena de anos. Fotos... um flash que congela o momento, um fantasma criológico, teratologia que assusta os viventes. Quão irreal. Às vezes me sinto guiado às origens, às crenças dos nossos indígenas, os quais acreditavam que as câmeras fotográficas captariam sua alma ad aeternum. Quando da advinda tecnológica e do anseio irreprimível de retratá-los e expô-los ao mundo, como Debret o fizera 120/130/140 anos antes (divirta-se com o link, se você é chegado a incursões antropológicas amadoras, tal qual eu).

Tomei a última golada do chazinho de cidreira feito pela mamá justamente antes de digitar esta linha. Antes do chá, a cachimbada. Fecho a porta, para não despertar minha tia, insone, que repousa no quarto do pavimento superior. Minha tia querida, que reza por ela e por todos, com sua fé inquebrantável. E a tia dela, minha tia-avó, é freira. E meu bisavô e outros ancestrais, que foram benzedores nos tempos da roça agreste do nordeste mineiro. Todos da família paterna. E também na família materna essa ancestralidade ligada a algo extraterreno vingou. Que seja uma ilusão. Ao menos as drogas daquela época eram um café açucarado e a ida semanal à igreja, fazer filhos, embriagar-se na lida árdua da roça (como bem o disse Raduan Nassar, em Lavoura Arcaica). Libertamo-nos de peias somente para nos aprisionarmos em grilhetas. What difference does it make? O fato é que ainda hoje as pessoas creem ser mais livres que a geração anterior. E quando, neste mundo, não foi exatamente assim, tintim por tintim? Dentro da família ao menos, tem sido uma ilusão bastante sólida, que não gerou maus frutos. Começa o Jazz da Cultura. Esse Jazz que meu pai não gosta, minha família estranha, e eu amo desd'a primeira vez que o escutei.

E o meu trabalho da faculdade, perto de tanta história, de súbito torna-se pequeno, do tamanho do cata-piolhos, do mindinho... ou menor, intangível. Linhas quebradas da vida a compor um mosaico de arrancar suspiros d'algum'alma vivente. Talvez a minha, ou a tua, ou a de ninguém.

Faça o bem não importa a quem. Importa sim. Nem todos vêm prum afago. Alguns cães vêm pra morder (Cães de aluguel?). Um chute lhes caberia bem. Afastado o mal, durmo no céu. Trabalho findo ou não. C'est la vie, mon ami. É a vida, irmão.

*Ploc ploc ploc... Leia O Deserto dos Tártaros ("Il Deserto dei Tartari"), de Dino Buzzati. E/ou assista ao filme homônimo e lastrado na obra, de Valerio Zurlini. A ordem dos fatores não importa. Se tu leres o livro, verás os ploc ploc plocs de tua vida e em ti ou em outro buscará o encanador, que nalgum lugar se encontra. De preferência antes que dos ploc ploc plocs nasçam as flores do mal.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Ascensão

Submetido a inconstâncias da vida, eu quase desisti. Digo quase porque o "quase" encontra-se ainda ao meu lado, sussurrando ao meu ouvido, fazendo-me volver a cabeça e perder as nuâncias belas da vida que se apresentam sem parar. Surrupiando meu desejo de viver a plenos pulmões, mergulhar de corpo ereto na infinitude dos meus sonhos cor de mel, anil, a mil.

Sentado horas a fio na frialdade do chão do hangar, escutando piadas e comentários homofóbicos, inumanos, por pouco eu me perdi. Não nos meus pensamentos, mas nos desvarios de pessoas cujas mentes seguem incultivadas, alienadas. Pessoas cuja inserção na realidade cotidiana se faz difícil, visto que seu panorama familiar é pobre, e mui pouco vasto.

Não digo de posses materiais, mas com certeza uma falta, uma ausência de laços e abraços revelando ternura e não mais. Ternura paterna, materna, filial. Senti-me obtuso, obstúpido, no gélido chão, plano e venenoso como uma lacraia, prestes a inocular sua maldade na presa. E pensei comigo: que estranha realidade é essa que me chama de novo e de novo, e testa minhas esperanças, meus planos, meus objetivos...?

Se é verdade que a vida não nos põe desafios maiores ao nosso potencial de crescimento e desenvolvimento, então eu tenho muito ainda a aprender. Sabe, esse é um prospecto positivo, alentador. Não há porque me estagnar na ignorância predominante, na homofobia crucificadora, na caixa aberta de Pandora. É hora de uma incursão em meu imo, a escalada ao cimo da montanha que me permitirá ver duma perspectiva abrangente, quiçá um pouco assustadora.

Se creio ser minha vida atual um tanto chã, é hora de me virar ao passado e buscar as chaves para o presente. Sou como um chaveiro que testa repetidas vezes uma amostra de chaves, sem saber sua verdadeira valia, seu verdadeiro valor. Quem sabe uma dessas ferramentas, uma vez na mão certa e com o intuito correto, me permita ver o invisível, suspirar no sopro divino tão vilmente olvidado.

Não que a sensação dolorosa nas ancas por ficar sentado contra minha vontade no chão glacial me dê instintivamente esperanças. Pelo contrário, é nesses momentos que me indago a significância atribuída por mim aos pequenos grandiosos momentos viventes. A sensação me queima e me insta a levantar-me e soltar um brado categórico, reviver meus sentimentos de pertença ao conjunto humano de experiências e vivências variegadas. Mas lá eu fico, mudo, tartamudo, num baque surdo ecoando ad infinitum no vácuo de meus pensamentos negativos. Pensamentos tais que teimam e se recusam a me fazer agir de pronto, alicerçado sobre meus ímpetos de vida, essas caras agulhadas que me elevam, por instantes, da insensibilidade instaurada num recanto militar.

Sei no fundo que meus esforços não terão sido em vão, pouco importa o resultado. A aflição que me consome e me come, a angústia que vibra na fome, a desolação que me infla e me estoura, nada disso será debaldado. Longe de mim tal pensamento. Talvez alguns tempos pra frente eu vou ter percebido todo o valor que agora dou por sentar-me numa cadeira, nas circunstâncias aconchegantes do meu lar, a escrever pra você, que, talvez, também esteja a tentar transubstanciar superficialidades mundanas em atitudes vivificadoras e potenciais à sua vida cotidiana.

Cansei de me afogar em mágoas. É tempo de intuir o que se acha por detrás do pano do palco, ali esquecido, esgaravetar as sobras do jantar de ontem e procurar pela gema de ouro que nele se encontra, e dentro de mim. Todos os cheiros do mundo, e as sensações táteis, auditivas, oculares e degustativas substanciam uma vida que eternamente transcende em emanações vibratórias, de diferentes amplitudes e intensidades, mas todas relevantes ao aprendizado que não finda, mas renova, e nos tira da senssaboria dos hábitos firmemente instalados.

Que a vida é um poema, uma pintura, um pôr-do-sol, eu não ousaria negar. Pois é isso mesmo que nos faz abrir aquele sorriso nas manhãs que sucedem, como se cada bocejar fosse o primeiro e a manifestação física d'algo etéreo, e presente. Tumefactos pensamentos acerca do futuro caem à terra, e eu me enxergo me reerguendo após cada baque, por vezes alquebrado como se após uma surra. Mas não importa. A mão que abre ou fecha a porta é minha, as pálpebras que arregalam ou cerram meus olhos são também minhas, e a vida é minha, e é do meu próprio cavalo que eu viso cuidar.

Bem-atrelada, cerzida e munida de provisões, é esta minha montaria, minha besta que erra e por erro me leva a novas planícies, novas existências, num constante deificar da vida. Minha azêmola azeviche leva-me a distâncias inperscrutáveis, e cabe a mim dar cabo desses sonhos mágicos, a essência da vida que busco sem cessar.

"Cessa o papo!" Brada imponente. Eu semicerro a boca, mas não calo o coração. Meu coração, minha faúlha divina, o optar por minha sina, ele retine e retumba e se faz perceber, se faz sentir, se faz viver. O meu coração, quem o tem e o traz sou eu, eu o toco ao tocar meu peito, e ele pulsa, e ele muda, e ele vibra, ele toca a carruagem pra frente.

Estando bem tratada, essa carruagem terá o bastante a percorrer pelo resto da vida. E o resto eu já vivo agora. Já era hora.

sábado, 11 de julho de 2009

Morgana

O amor engana.

Sharpened pencils abound

Drawing
Is all you need
Sketching
Getting speed

Sawing...
Being rid
Settting (to work)
Running the steed

terça-feira, 7 de julho de 2009

Jean Charles

Lágrimas copiosas escorreram por minha face. Gota após gota, numa cascata purificadora. Eu havia visto minha amiga chorar comigo, por causa de minha indecisão procrastinadora, aquele eterno estar sobre o muro entre o fazer e o não-fazer. Pois que eu não sabia o que dizer, o que falar. Só sabia o que sentia. E isso já me é o bastante, ou me foi. Porque se não penso, me dou ao ar de sentir, de me mover da costumeira posição sáxea da impenetrabilidade.

Eu chorei e percebi que também sou humano. Que não desejo mal a ninguém, nem a mim mesmo. Se puder agir nessa base para desmistificar a mim mesmo, que maravilhoso! Que maravilhoso poder um dia abrir os olhos ao som de Louis Armstrong ressoando em meu imo, aquela voz do nascer do sol, impactante, para não dizer mais. Que onírico poder por um segundo deixar de pensar em minha corporealidade e me focar no imo, no cimo, e daí atuar em prol de meus interesses.

Porque senão quem eu seria, se não fosse um sonhador. Eu vivo na caverna, mas opto por um dia poder sair desta realidade escabrosa que me anoitece, e vergar-me sob a força totipotente do sol. O sol que me alumia as entranhas nas piores circunstâncias. O sol que me energiza a ponto de tocar, e sentir meu mal feito, meu desgosto com a velha atitude de adiar e prolongar meu sofrimento.

Você vê, desde que me descobri, só quero uma coisa: deixar essa casca insensibilizada de lado, e me frutificar no meu potencial. Qualquer que seja! Desde que eu deixe de lado os perniciosos hábitos, a leviandade, a superficialidade. Estou cansado de ser isto ou aquilo. Pois que tal se eu fosse nem isso nem nada, mas que fosse uma bola luminosa deambulante, a brilhar meu próprio caminho!

Que fantasia mais engraçada. Então eu me tornaria quem almejo ser: verdadeiro comigo mesmo, nada mais, nada mais. Por mais que doa, porque antes doer a mim, que doer aos meus próximos, meus amigos, meus queridos, meus alicerces na vida. Aquela amiga que escuta a permuta de palavras e retribui com candidez e profundidade. Aquele amigo que nos iça a corda ao acharmo-nos no fosso da depreciação. Não é isto o que incendeia minha vida, numa flâmula insignificante a olhos alheios, embora tão representativa à minha busca incessável?

E aqueles olhos que me viram por trás do olhar! Menina, que olhos perscrutadores! Quem dera eu fosse o receptáculo ideal dessa rutilância das portas da alma! Lembrou-me o mar, a liberdade, a dificuldade dos meus dias em meio à selva e à chuva, há poucos meses - que mais parecem outra vida.

Não que eu seja infeliz. Pelo contrário. São esses pequenos milagres que me fazem enveredar adentro. É lá que se encontra meu santuário e minha salvação.
É lá minha paz na guerra travada diariamente.

Obrigado. Isto eu devo à vida. Se meus olhos faíscam, é justamente pelos gigantes que amuraram minha subida.

É por todos os irmãos incógnitos, que eu vejo e almejo ser estranho à normalidade.

Obrigado mais uma vez, meus confrades humanos.

Que dádiva.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Bold

Yeah
That's right
...
That's wrong
...
...
That's nothing
Be strong!

domingo, 5 de julho de 2009

Blasé

Essa mão calejada
Essa mão mal-amada
Que te apalpa e te vê
Pelos poros, meu bem

Esses ombros suados
Esses dedos gelados
Esse eterno arfar
São sombras da vida

Igual a você,
Como os anos já idos
(Traídos)
Vou ficando blasé

terça-feira, 30 de junho de 2009

Lose lose and you Win

In a lose-lose scenario, I won. How does it feel? It feels as life should always be felt: magical, surreal, a workable patchwork of dreams and fantasies come (or not) true. As always, it is up to you.

Messe

Recaiu em culpa, o desgraçado. Fitou o céu, aflito. Falou a língua dos homens, um grito. A Mãe o chamava de volta ao útero. Era hora de se separar da vida, reintegrar-se ao feto, afeto, morto, amado e quieto. Ali. Seu nome o chamava.

Toda prece tem um preço, com ou sem apreço. Esta prece eu ofereço. Co'esta prece eu agradeço, enriqueço meu lugar. Minha chama, minha lama, meu molde, meu lar. Já não há o que dizer, nem o que exclamar. A mão que apalpa a terra, vibra e treme, estremece. É essa a mão que roga a prece.

A Deus.

Ausência Permanente (ou permanência ausente?)

Fico pensando em todas essas coisas que ninguém quer pensar.

Marasmado. E se um dia eu virasse o bicho-come-pau, e as mazelas sobre mim? E se um dia, eu ficasse diferente, inaceitável, e se fosse assim?

O que diriam de mim?

"Esse aí já não mais é jasmim".

"Antes só ria, sorria, e agora... eh, agora... já não reconheço mais."

E então, de bonzinho, tornar-me-ia o bicho papão. A viva negação. Marylin Manson, um lunático, a pessoa em solidão.

Nenhum Fernando Pessoa, não. O poeta que é poeta, não vive de tristeza. Vive de ardor - seja na forma de ódio, seja na de amor.

Se é que alguém transpõe tal palavra em algum gesto além do sacro e santo amor filial, paternal, maternal, as formas mais puras subsistentes.

Quando há.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

My inner struggle

I feel unsure
I fell ashamed
And so my blood will go unnamed

***

Day by day I fight hell
I try but I can't yell
Day by day is what I smell
The fire that won't cease
The thirst that I can't quell

This soul I will not sell
Even though I die in hell
Here comes again the knell
The water flushing up the well

Here I hear again the knell
It's my time, my chance
My wriggled tree
That I must fell

***
This I write to the maimed man I saw in the subway. My fate could have (or can still) be his. Thank you for showing me the way in. More grateful I couldn't have been.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Procedimento Padrão

Tem alguém embaixo da farda?
Debaixo da cara mostarda?
Sob a luz dos olhos parda?
Alguém?
Ninguém?
Quem?
Tem:
Um sujeito indefinido
Sem sangue
Sem pinta
Sem sarda
É esse o alguém por debaixo da farda.

sábado, 13 de junho de 2009

Tutuzim

Vai todo mundo junto
Sem pressa, senhora
O nosso assunto
É ir-nos embora
Ir em conjunto
Amanhã ou agora
Quero é muito
Tratar-te por tu
E na tua maloca
Comer um tutu.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Fora PM do Campus

Este é um dos melhores vídeos independentes/amadores acerca do ocorrido no campus da USP, na terça-feira, 09/06/2009. Posto aqui para que as pessoas fora do âmbito uspiano tenham uma ideia mais clara sobre o tão-falado "conflito", "embate", e tantos outros nomes que mitigam a verdadeira palavra "ataque".



Quem vir, não deixe de contribuir com seu comentário.

Texto do professor Pablo Ortellado

Quero publicar aqui no blog o texto de professores da USP, onde faço Letras, que concatenam mui bem com a minha própria visão sobre a atual greve, e a violência recentemente transcorrida no interior da universidade.

***
PABLO ORTELLADO

Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.

Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão (falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas).

Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.

Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que haviam sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado). Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação.

Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário.

Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais.

Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente.

Cordialmente,

PABLO ORTELLADO é professor doutor da Universidade de São Paulo.

Texto do professor Vladimir Safatle

Quero publicar aqui no blog o texto de professores da USP, onde faço Letras, que concatenam mui bem com a minha própria visão sobre a atual greve, e a violência recentemente transcorrida no interior da universidade.
***
VLADIMIR SAFATLE

Em vez de estigmatizar os alunos e tratá-los como delinquentes, talvez seja o caso de se perguntar contra o que eles se manifestam AS CENAS de batalha campal que vimos nesta semana na USP ficarão na memória daqueles que dedicam sua vida a essa instituição. Vários professores, como eu, que nunca participaram de movimento sindical, que nem sequer foram alguma vez a uma assembleia, veem com estarrecimento a disseminação da crença de que conflitos trabalhistas devem ser resolvidos apelando sistematicamente à polícia.

Diz-se que a polícia era necessária para evitar piquetes e degradações. No entanto, tudo o que ela conseguiu foi acirrar os ânimos e aumentar exponencialmente os dois. Vale a pena lembrar que, por mais que sejam práticas problemáticas que precisam certamente ser revistas, os piquetes estão longe de se configurarem como ações criminosas. A história das sociedades democráticas demonstra como eles foram, em muitos casos, peças necessárias de um processo de ampliação de direitos. Cabe a nós provar que esse tempo passou e que, devido à capacidade de diálogo, tais práticas não têm mais lugar.

No entanto, quando se tenta reduzir manifestantes que procuram melhorias em suas condições de trabalho a tresloucados patológicos que nada têm a dizer, que não têm nenhuma racionalidade em suas demandas, dificilmente alguma forma de diálogo conseguirá se impor. Melhor seria começar explicando qual racionalidade justifica que a universidade mais importante do país, responsável por parte significativa da pesquisa nacional, tenha salários menores que os de uma universidade federal em qualquer Estado brasileiro.

Por outro lado, há algo incompreensível na crença de que a polícia possa ser chamada para mediar conflitos com alunos e funcionários públicos. Muitos acreditam que ligarão para o 190 e receberão uma espécie de "polícia inglesa" capaz de agir de maneira minimamente adequada diante de cidadãos que se manifestam. Contudo, o que vimos até agora foi uma polícia que entrou pela primeira vez no campus armada com metralhadoras, quando a ação padrão deveria ser, nessas situações, agir desarmada. Quem tem uma metralhadora nas mãos imagina que porventura poderá usá-la. Mas contra quem? Contra nossos alunos? E quem decidirá o momento de usá-la?

Como se isso não bastasse, uma polícia bem preparada não responde a provocações de gritos e latas com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha usadas na frente da Escola de Aplicação e de uma faculdade em que, normalmente, há crianças e adolescentes. O que aconteceria se uma bala de borracha atingisse uma criança, ampliando um pouco mais o enorme contingente de balas perdidas disparadas pela polícia?

Antes de ligar para a Polícia Militar, valeria a pena levar em conta seu despreparo manifesto em intervenções em conflitos sociais, histórico catastrófico mundialmente criticado por órgãos internacionais. Nenhum leitor terá dificuldade de se lembrar de situações de conflito social nas quais policiais que se sentiram acuados reagiram de maneira descontrolada, provocando tragédias. Por fim, contrariamente a certa ideia que um anti-intelectualismo militante gosta de veicular nestes momentos, vários alunos alvos de balas de borracha são extremamente dedicados em seus cursos, participam sistematicamente de colóquios e programas de pesquisa, apresentam "papers" em congressos e podem ser constantemente encontrados em nossas bibliotecas.

Sendo certo que vêm de todas as faculdades de nossa universidade (e não apenas da área de humanas, como alguns querem fazer acreditar), é inaceitável tratá-los como delinquentes potenciais. Dentre os 2.000 estudantes que se manifestaram nesta semana estão alguns de nossos melhores alunos. Em vez de estigmatizá-los, talvez seja o caso de se perguntar contra o que eles se manifestam, já que, é sempre bom lembrar, antes da entrada da polícia, nem professores nem alunos estavam em greve. A greve restringia-se a funcionários.

Há um mês, em uma pequena cidade francesa, a polícia recebeu um chamado de possível furto. Em uma atuação "exemplar", ela estava em alguns minutos no local do crime. No entanto, o local era uma escola, o objeto furtado, uma bicicleta, e o possível ladrão, uma criança de dez anos. Sem pestanejar, a polícia retirou a criança da escola na frente de seus colegas, levou-a à delegacia, colheu seu depoimento e a fichou. Possivelmente, foi contra esse modelo social baseado na incapacidade de resolver conflitos sem apelar à mais crassa brutalidade securitária que hoje nossos alunos se manifestam. Cabe a nós mostrar a eles que a história da USP é outra.

VLADIMIR SAFATLE, 36, é professor do Departamento de Filosofia da
Universidade de São Paulo.

Prece Gnóstica

Se eu estivesse só no mundo, só veria tua imagem. Desnudo, mudo, em luto, tu serias a miragem. E das selvas resplendentes, e das rochas transluzentes, queimaria a sarça ardente, a rocha bruta, a água fria. Nem sempre se pode dormir, e ruir o mundo que o dia soeu erigir. Assim sou eu, ilhado, náufrago e anátema. As fraldas das montanhas indicam a ascenção aos céus, mas o topo jaz acima, e eu cá abaixo, vejo e venero o véu. Este é o meu céu, este é meu chão. Este é o inferno de minha devoção. Muçulmano ou judeu, ou budista ou cristão. Nada disso vale. Eu sou o homem, e afasto prescrição. Este é meu mal, meu bem, meu pão - sem perdão. Eu sou o homem, a nuvem, o trem. Eu passo e fico. Eu fico e vou. Algures me encontro, alhures estou. Por isto eu primo, por isto apenas: a vida. Benquista ou malquista, esta, e não outra, esta é minha vida. O jardim verdejante em que sento e piso, do qual olho o mundo, é resquício do edênico, e resquício de mim. Eu aspiro e suspiro estar onde estou. Eu mudo, eu fico, eu vou.

Hidden Meaning

What is it that keeps you from biting
And with you mighty sword smiting
All the dread and woes of our world?

Tell me, my dear
Answer if you can
I have this fear
I am a man.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Dor

Se é que tu sabes,
Por que não me dizes?
Somos duas aves
Perdizes
Perdidas
Na vida
Qual vida?

Dor
Que indaga
E consome
Pervaga
E carcome
O homem
Qual homem?

Se a criança brinca tanto
Pra poder amar
Quando adulta perde o encanto
Vê o navio a naufragar
Qual nau?
Qual mar...?

terça-feira, 2 de junho de 2009

Zahrada (O Jardim, 1995)

Este incrível filme eslovaco, de Martin Sulík, tem um sabor todo próprio. Afasta-se tanto dos parâmetros holywoodianos, que merece ser reassistido. E eu me empreitei a vê-lo uma segunda vez, e não perdi absolutamente nada. Ele é dotado de uma poesia e uma linguagem raramente encontradas nos cinemas (não é à toa que o apelo de marketing deve ser baixo, e, portanto, não passa nas grandes salas).

E é claro que eu devo fazer menção a um filme que passou no Cinemark (representativo dos filmes de grande cachê), o Rede de Mentiras (Ridley Scott, 2008). Com todo respeito, Leonardo di Caprio, mas você se meteu desta vez num monturo mal-cheiroso! Uma produção estadounidense que propaga vilmente as mentirinhas do Uncle Sam para melhor dominar o mundo e as mentes fracas. Dá-me nojo e ânsia de vômito perceber que a rede de mentiras é o título mais acurado para esse esterco fílmico.

O interessante dessas produções pouco conhecidas é o fator surpresa, a genialidade. Este filme não é a usual barra vitamínica, provida dos valores diários de ação, suspense e sexo, super-energética, ou sei-lá-o-quê. Não é um Red Bull, apesar de dar asas à interpretação, à imaginação, à poetificação. Esses enlatados que tanto sucesso fazem, com sua boa dose de dentes branquíssimos, corpos delgados e malhados, plots porcos e ininspirados, merecem, todos, a velha lata de lixo. Ou a porta, que é serventia da casa aos imbuídos de um mínimo de razão e autocrítica com o que fazem da vida.

Olha, antes um filme que levante perguntas e desarme o espectador, que um arcabouço de certezas absurdas.
Vem cá, o que há com este mundo? Este mundo globalizado em matéria de ignorância e pedantismo? Quantas ferramentas não inventarão os títeres globo-governamentais para massificar os gostos, homogeneizar os hábitos, dar a mesma cara à humanidade? Anti-tabagismo, terrorismo (criado por aqueles que mais se beneficiam do caos perpetrado), novos dogmas, todas essas imposições draconianas vêm sob o mesmo rótulo: 1984, George Orwell. Novilíngua. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley. Se já leu, está na hora de reler. Se não, meu caro, você não faz idéia do cabresto que te põem na cabeça todos os dias que sai de casa para o trabalho, para a escola, para onde quer que seja.

Pfah. Sabe o que estou lendo? Isto. Dói? Dói. Saber o quanto ignoro do que se passa neste exato momento a pessoas mais infelizes do que eu, submetidas à ditadura norte-americana. Mas eu não vou enterrar minha cabeça num buraco de ilusões apetitosas, deixando minhas ancas pra fora à vontade alheia. Recuso veementemente.

I say: No. Thank you.