quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Mil Anos de Orações (A Thousand Years of Good Prayers, 2008)


Mil Anos de Orações (2008), do diretor chinês Wayne Wang, é um filme composto essencialmente de diálogos. Esqueça o gênero ação, magnificamente explorado em Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008). Esqueça, também, a comédia barata e sem-graça de filmes massificados, grande parte deles norte-americanos. Há, sim, humor nesse filme. Mas é um humor de qualidade superior: é necessário estar atento para notá-lo. Caso contrário, algumas cenas (mui!) cômicas passam literalmente despercebidas.

Afora as tiradas bem-humoradas de Wayne Wang, o que marca mais são as tomadas fotográficas, com as quais o espectador certamente irá se maravilhar. Se as história (plot) conduz a atenção de quem assiste, o fato é que são as fotos o que mais prende esse mesmo olhar. Se não já bastasse o filme ser, aliás, muito bem norteado pelo enredo, a cinematografia é de se espantar.

Um filme que prima, sobretudo, pela qualidade e pelo conteúdo. Cada diálogo é uma abertura do que se passa no interior das personagens, e, dessa maneira, revelam todo uma dimensão de conflitos entre culturas e modos de se ver o mundo radicalmente diferentes. Um pai comunista que visita a filha nos EUA, seio - porém não o berço, esse papel é da Inglaterra - desse capitalismo tantas vezes alcunhado de selvagem... já dá por si uma ótima história, não?

Pois é, mas a verdade é que o filme não se detém nesse embate bipolarizador que recende à Guerra Fria. Ele vai muito além. Falamos todos a mesma língua? Habitamos todos o mesmo planeta, ou será que vivemos em mundos completamente distintos? Que liame ligaria um pai e uma filha há tantos anos separados geograficamente, sentimentalmente, munidos de mútua incompreensibilidade no reencontro?

Quanto a esta última questão, não é nenhum segredo a resposta: o único fio capaz de reunir duas pessoas após tantos rompimentos e desencontros de opiniões, é o mesmo elemento que sustenta qualquer possibilidade de existir algo exterior à nossa tão comprometedora subjetividade: a verdade.

Qual será a verdade?

Somente assistindo se descobrirá.

Para ver algumas fotos do filme, clique aqui.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Re ver be ra ção

O cor po vai vem re me xe
To do ele é mo vi men to
Pas mo en con tro
Ser e cor po

Conexão
Des co ne xão
Li a mes que ligam
E des li gam
E o cor po vi ra
Vi ra vi ra
Com vi da própria

Con vi da o im pul so
A fu são entre a al ma
E o cor pó reo
Ca da se gun do
Uma a ná li se dos ges tos
A fe tos, o lha res
Di re tos Di re tos
O cor po co mo

ExPrEsSiViDaDe
rEaLiDaDe
CoNecTiViDaDe

Li Ber Da De.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Dança com Lobos (Dances With Wolves, 1990)


Se tem um filme que eu recomendo de coração é Dança com Lobos*, com Kevin Costner figurando como ator principal, no papel do oficial Dunbar - que posteriormente se redescobrirá sob o nome nativo de Dança com Lobos, sendo esta a razão do título da película.

O filme talvez tenha essa característica marcante em virtude de desmistificar utopias dicotomizantes: bem e mal, o moço bonzinho e o vilão horrendo - aspectos tipicamente maniqueístas e que reverberam à solta na forma tradicional do Romantismo, movimento iniciado na Alemanha e com expoentes tão dignos de nota como o próprio Goethe.

A utopia indígena também é dessacralizada no decorrer da narrativa e na trajetória traçada por Dunbar. Insatisfeito como sua solidão no forte militar desertado que ocupa, na fronteira com as terras habitadas por uma multitude de povos autóctones, tais quais os Pawnee e os Sioux, o oficial norte-americano encontrará a paz e a companhia que buscava no seio silvícola. Ali, entre os nativos, abre-se um mundo completamente novo e diversificado.

As dimensões do real e do imaginário, do tangível e do pictórico, fundem-se em uníssono com um modo de vida à beira da catastrófica extinção que seguiria, pouco menos após duas décadas da invasão maciça branca.

Século XIX: a expansão para o Oeste no território estadounidense, supostamente inóspito, no man's land, terra habitada por ninguém. Parte desse dito unilateralista e intra-imperialista encontra ressalva somente no fato de que ali naquelas bandas não havia proprietários, ou papéis que timbrassem uma posse irreal.

Aliás, que homem pode atribuir a si o status de dono daquela que o germinou e nutriu? Sim, digo a terra. A terra - que é ao mesmo tempo de todos e de ninguém. O fundamento de uma afirmação tão insólita e aparentemente despropositada aos valores inculcados na cabeça de pequenos homens¹ - por decênios e milênios afora de História do Homem sobre o planeta Terra - é univalente e sonoro: A terra/Terra é pré-existente à humanidade, e a sucederá.

Tal verdade ribomba e ressoa e arranca do homem uma de suas maiores obsessões: ser dono de algo externo a si próprio.

Nesse aspecto, tão moderno e tão antigo - não reverenciemos o presente como a apoteose da existência humana neste minúsculo planeta - Dança com Lobos é um filme ampliador de horizontes. Desilude o espectador - se este estiver aberto à quebra de paradigmas - dos poderes civilizatórios de se mudar algo imutável: a alteridade - o outro. A Sociologia dispensa especial atenção a esse fator, que sobretudo define a existência de um outro que não é como nós mesmos. Que não apreende o mundo como o apreendemos, nem depreende deste as mesmas relações que podemos - com toda a nossa suposta magnitude técnico-científica - depreender nestes nossos tempos modernos.

Cabe ressaltar que o filme baseia-se no livro homônimo de autoria do pouco conhecido - e muito menos aclamado - Michael Blake. Alguns escritores têm essa mágica admirável - e peculiar, decerto - de deixar uma obra apenas - e todo o seu dom panorâmico e entreabridor de olhos se demonstrar com força e vivacidade nela. São obras que evocam com distinção uma só palavra: plenitude. Portanto, é uma obra que merece ser lida e digerida no original. Se Iracema é a brilhante recriação do Ceará, mítica e lírica como só Alencar o pôde suster na Literatura Brasileira, bem... então Dança Com Lobos é um Ubirajara com um toque inesquecivelmente Real.

¹A respeito da pequenez do Homem, recomendo particularmente a leitura de As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, prestando especial atenção aos liliputianos. E, em segundo lugar, Micrômegas, de Voltaire.

*Para poder escrever sobre esse filme, foi requerida de mim uma segunda experiência como espectador. Na primeira, pouco pude compreender de sua amplitude. Na segunda vez, mais maduro e enriquecido com leituras de amplo escopo, as inferências possíveis foram muitas. Utilizei-me de algumas.

(link recomendado: o discurso feito pelo Chefe indígena de Seattle - em português)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sattelite Dish

Change...
A frightening word
Changing...
And the world is set up
In Revolution.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Lest the light depart

When even breathing is hard
And life hangs threateningly
As if it was really nothing
The time has come to awaken

Have a cold cold water
Mellowing down the
Facial frigidity
High time to face reality.

Better die facing it front
Than haphazardly avoiding
Its gaze
Better have a try at solving
Life's jigsaw puzzle
Than bein'
Mercilessly enwrapped in
Its maze...

Time to pay the bills
Time to pray open-heartedly
Like you never did before
New things which did only come by chance
Will now occur with a single glance
Of yours...

No 'befores', no 'therefores'
Your life will change
Into
Amble bays 'n ample shores
In it
You'll swim
You'll sway
But never never never
Give up a single day,
Nay.

Many things not "OK"
Will be
No more
You
Must only say:
'No more of it to-day'.
'This is the last day of my life.'

'At least in this final moment,
Yes, I'll be the master of my very destiny'
'Be it one day, or one's entire life,
One's destiny is more than
Simple
Struggling
Strife:
It's all 'bout learning,
Firstly
And Foremost.

'Tis all about lessons taught
By teachers unknown
And only learnt if it is indeed
One's true aim:
'No pain, no gain.'

'For some, life may be like a game
A game whose rules they can't grok,
Once they get enmeshed in the whirpool
Of the roulette'.

'Let them get what their desires
Set them up to.
All your choices will amount to
Your chosen path, only.

'It is direfully impossible
To take the lead of your life and that of others'
Simultaneously
'And, on that account,
Such a bestial influence would deflect
The greatest cornerstone of all:
Free-will.'

Not unlike the stars
Life will shine on the
Darkest and most exiled parts
Life will glow, time will flow,
And sowing will take place,
In Earth, Water or Space,

Metaphorically,
You give the walk your pace,
'Tis you who brings forth upon yourself
Either happiness or disgrace
Mistrust or solace
It is time to wake up,
Lest the light depart.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Anedotas de Gambitos, o Saci de duas pernas só.

Cada poema traz consigo uma história. Um poeta é essencialmente um prosador. Ele prosa sobre a própria vida de uma forma universal... quem lê já passou por aquilo, ou sente a presença do descrito em sua própria vida, podendo estar num passado longínquo, ou no futuro, ou estar ocorrendo simultaneamente, no presente. É uma sensação única compreender uma poesia. Explicar o quê você depreende de um poema não é como corrigir uma prova e mostrar o certo e o errado. Na compreensão há lugar para o certo e o errado concomitantemente: isto se chama experiência.

Experiência poética.

E Viva o Salmaso*!

*professor do CEFET-SP. Na sala de aula, um verdadeiro mestre - culto, erudito, um ator; fora da sala de aula, um ser recluso, em seu digno direito. Uma postura que inspirava ainda mais admiração nos alunos que de fato prestaram atenção em suas aulas.

Twingles

I'm falling
I feel I'm falling
In seven minutes
I won't be the same
In seven minutes
Begins a new game
And it'll never again
Be the same (old game)

Shame
On me? On you?
On whom?
Perhaps none will answer
It until noon. Or at least
Not very soon.

Darkness has gone out
The window frame
Back came the light
Reflected, brightly insane
My thoughts ran after you
Day and night the desolation
Pulls me apart
Back to the start
Nobody has been
Given a heart
I nod, I think, I sink
Into my very being
I feel alone

And, God, how grateful am I.

domingo, 30 de novembro de 2008

Sobre Palestinos - Sobre a Realidade

http://www.redress.cc/palestine/pjballes20081130 --> um dos melhores artigos escritos sobre o genocídio dos palestinos. Ao mesmo tempo sucinto e complexo em suas implicações.

Sobre a Palestina.

Li em 2005 um apanhado de contos pelo escritor palestino Ghassan Kanafani.

"No dia 8 de julho de 1972, Ghassan Kanafani entra em seu carro com a sobrinha numa rua de Beirute, faz o contato com a chave e o veículo explode. Morre o grande combatente palestino (ele combatia com palavras, fique claro) e um dos maiores nomes da literatura árabe. Quarenta mil pessoas compareceram ao enterro. Consciente de que era necessário preservar a identidade e a cultura do povo palestino, Kanafani combateu com armas e palavras. Nos Contos da Palestina narra o sofrimento de seu povo quando da ocupação israelense. Raramente ele se deixou levar pela violência que subjugava os palestinos, preferindo envolver os leitores com o cotidiano das mais simples relações humanas e com a constante necessidade de sobrevivência de uma gente que, segundo ele, vive "do vento e da esperança".

É o que diz a contracapa da edição de 1986 da editora Brasiliense dos Contos da Palestina. Sem esse escritor, é possível que eu não enxergasse o genocídio diário desse povo sem terra, e me encontrasse em uma situação semelhante à da maioria das pessoas do mundo que tem acesso diário à mídia televisiva e escrita.

Ninguém quer ver o sofrimento alheio. Mas um dia ele pode chegar a nós.

É por isso que ler Ghassan Kanafani é um compromisso com a realidade.

sábado, 29 de novembro de 2008

Federal: Minha alma mater

Já era tempo que eu escrevesse, ah, já era tempo. E por que não escrever sobre meus três anos como aluno nessa instituição outrora tão conhecida, e que hoje se chama CEFET-SP. E amanhã, quem sabe, exibirá outro nome, mas que, não importante que mudanças, permanecerá eternamente Federal no coração de seus ex-estudantes.

Comecemos pelo meu tumultuoso primeiro ano. Primeiro o background: 8ª série, bolsista no Colégio Objetivo (unidade) Cantareira, ótimo aluno, competindo por médias em torno de 8.85, com meus melhores amigos - que foram também grandes professores nas matérias que eu não dominava, e ainda não domino: matemática, química, física. 2005. Ano em que participo do Concurso Literário Interno do Colégio Objetivo (CLICO), e consigo, para a minha grande surpresa, o 9º lugar. Minha professora de português de então descreveria minha expressão, ao ouvir de sua boca as boas novas, como "um sorriso de orelha a orelha". De fato, como o gato de Alice, um sorriso permanente. Ganho também, para a minha estupefação, uma medalha honrosa na Olimpíada Paulista de Matemática. Ora, eu que não sei nem seno, nem cosseno, não poderia ter ficado mais boquiaberto. Enfim, tendo chegado lá e sentado no meu lugarzinho, entre meus pais, a aguardar o início da cerimônia, abri meu livro do curso de japonês e estudei como se estivesse em casa.

Claro, isso porque 2005 foi o ano em que iniciei meus estudos de japonês, bastante primitivos e modestos, e que durariam somente exatos dois anos. Mas isso é outro assunto. Prestei a Federal, seguindo a rigor a mesma rotina cerimoniosa antes da prova começar: abri o mesmo livro de japonês, fiz alguns exercícios de caligrafia do alfabeto hiragana, e fechei-o, quando nos disseram para guardar o material que não fosse utilizado na prova. Fiz a prova calmamente, e notei que, no meio dela, um garoto dormia sonoramente à minha direita. "Bem", pensei, "este provavelmente não passará". Realmente, nunca o vi dentro da Federal.

Por ser um bom aluno, em uma boa escola, o cursinho fez-se desnecessário. Meu único amigo que prestou, o Danilo, que, no segundo ano, partiria de volta para o Objetivo, era o meu grande contestador nas médias bimestrais. Quando eu tirava 8.85, ele fazia questão de exibir seus orgulhosos 8.89. Ora, pensava eu, é capaz que um dia eu o passe. Recebi muito alegremente a notícia de que havia passado em uma das melhores instituições de ensino de São Paulo.

Minha primeira grande ilusão talvez tenha sido a de que continuaria minha velha rotina pouco estudiosa uma vez lá dentro. Não, me enganei - e foi um engano crasso. Não aprendi logo a lição, no entanto. Os primeiros dias foram maravilhosos. Aliás, o que contribuiu para esse maravilhamento inicial foi o fato de que nossas aulas começaram - sim! - no dia 20 de março! A greve nos atingia já no primeiro ano, faltavam professores na primeira semana, e eu jogava bola com os caras do 3º ano. "Puxa", pensava em minha inocência, "não poderia ser melhor!" Indo à escola, jogando futebol ao invés de assistir as aulas, e me enturmando com o pessoal mais velho e mais malandro que iria sair naquele ano.

Quanto à minha sala, entretanto, lembro de poucas conversas, pelo meu descontentamento com o sistema de ensino da escola. Vi que o currículo não era seguido tão rigorosamente quanto no Objetivo, comparei minhas novas amizades com as antigas - estas fortes até hoje, aliás - e isso só me provocava um desgosto interno terrível. Como pode, me indagava, esses professores não darem aula didaticamente, e ainda pedirem questões dificílimas na prova? É claro que eu só sentia essa crescente indignação quanto às matérias em que tinha dificuldade. Nesse aspecto, não difiro de nenhum outro ser humano neste planeta. Reclamamos do que não entendemos. As outras, sempre levei na brincadeira. E a gente não costuma reclamar do que vem fácil. Vem fácil, vai fácil... diz o inteligente ditado de língua inglesa.

No Objetivo, logrei passar de ano com uma dentre as maiores médias, pouco sabendo das relações dos triângulos, de seno, cosseno e tangente, portanto, tudo o que via era completamente novo. Ficava entusiasmado em aprender enquanto estava dentro da sala de aula. Bastava chegar em casa para esquecer de tudo. Estudar? Não. Ler Macunaíma e os tantos outros livros que li no ano de 2006, ou mesmo estudar japonês, era MUITO mais divertido e proveitoso que me dedicar de peito aberto à escola. Ah! Havia, sim, quatro matérias, em especial, pelas quais tomei um gosto profundo logo de princípio e me dediquei de verdade: Filosofia e Redação. As outras duas, que pouco contam como matéria, seriam Educação Física e as aulas de Música. Essas se fixaram na minha mente. Depois do professor de EFI (Ed. Física) praticamente nos matar durante as aulas, podíamos finalmente jogar futebol. Depois, já quase à noite, viriam as aulas de música, que tanto recompensavam todos os meus esforços físicos. Extenuado, e mais errando do que acertando, eu procurava aprender um pouco de como tocar bateria. Ainda tenho meus três pares de baquetas, agora em pleno desuso.

O ano foi passando, e eu fui cavando minha própria cova. Devendo pontos em física, química e matemática, e nada de estudar diligentemente - para pôr os preocupantes pontos que me faltavam em dia. E se aproximava, fora do contexto escolar, o concurso de oratória em japonês, realizado em outubro daquele ano (2006), e do qual participei bem treinado pela querida Kobayashi sensei, que tanto me ensinou, apesar da dificuldade de lecionar a um gaijin que nada conhecia - previamente ao curso - da cultura nipônica, nem do alfabeto, nem sequer tinha o mais distante familiar com quem pudesse dialogar nessa língua particularmente tão difícil de se aprender. O que mais atrapalhava o processo de aprendizado era o meu cabelo comprido, que fazia ela zombar de mim, jocosamente me chamando pelo correspondente feminino do meu nome, e acentuando a sílaba feminina final, com um sorriso de ponta a ponta no rosto. Era engraçado, todos riam - e eu também . "Bem", pensava eu, "estou aprendendo, e é isso sobretudo o que importa". E aprendia, de fato.

No japonês, convenhamos, eu ia muito bem nas avaliações. Interessava-me, extracurricularmente, na cinegrafia de Akira Kurosawa, o que me fez, em três anos, literalmente devorar, ao lado do meu irmão, virtualmente toda a sua produção cinematográfica. Restam poucos filmes dele para assisir, e não me arrependo de nenhum já visto. No fim daquele ano, li Xógum, do autor James Clevell, um dos 11 livros recomendados pela nossa estimada professora Belmira, de História. É um livro que versa belamente sobre essa cultura pouco familiar aos brasileiros até hoje, apesar dos cem anos de imigração japonesa, tão celebrados nos festivais deste ano, e na publicação de uma série de livros pela editora Liberdade, entre outras.

Enquanto isso, na Cultura Inglesa, eu havia me preparado com ferrenha dedicação no ano anterior (2005) para obter meu First Certificate in English (FCE), e que de fato obtive, muito merecidamente. Alguns professores chegaram a me dar o epíteto de "melhor aluno". Cá entre nós, o que havia de errado comigo? Um aluno que é considerado o mais dedicado nas escolas de japonês e inglês, para o seu nível, não deveria ir mal em Física, Matemática e Química na escola, ou deveria? Pois é. O que eu aprendi desse período foi o seguinte: um gênio é 99% de suor, e 1% de determinação. Para tudo o que não envolvia números, não me faltavam nenhum desses atributos. Mas para esse trio, hmm..., eu só fui suar no último bimestre letivo de 2006. Aliás, eu precisava tirar 9,0 em Química; 9,5 em Matemática, e 10,0 em Física!!

Mas minha mãe me ligou, após terminadas as aulas, num ensolarado dia de céu limpo e azul, trazendo-me a notícia de que eu havia passado de ano! O Conselho me passara! "Mãe, preciso desligar!" ("guarde seus discursos moralizantes para depois", pensei mal educadamente, "agora vou comemorar!"). Ah, mas agora eu não farei os mesmos erros de outrora! Foi o pensamento que tinha em mente, e que mantive em mente, durante o correr do 2º ano inteiro. Ótimo, se eu fui um péssimo aluno em três matérias do ano passado, serei, se não o melhor, ao menos um ótimo aluno nessas mesmas matérias, e melhorarei minhas médias nas demais (nas quais já ia muito bem, com médias sempre maiores que 8,0).

De fato, meu planejamento inicial foi levado a cabo. Minhas médias do primeiro e segundo bimestre foram iguaizinhas: 8.81. As maiores da sala, me orgulhei. Aliás, eu era o único ali que fazia técnico à noite, de Museologia, curso no qual fechei minhas médias do primeiro módulo com MB (Muito Bom, nota máxima) em TODAS as matérias. Porra! As pessoas podem mudar! Eu mudei, com meus esforços! Mudei, carajo, mudei!

Sentia-me um novo homem, fazia exercícios físicos quase beirando a vigorexia, e estudava, com intervalos muito bem pensados. Aliás, revisaria este ano, muito METODICAMENTE pensados, para o meu próprio bem. Mas as coisas iam bem, faltava muito pouco à escola, estudava demais, lia bastante, tornara-me um excelente aluno em todas as matérias e em todos os aspectos. Respeitava os professores, fazia perguntas, passava a dialogar com as pessoas. Bem, não era mais um excluído! Caracas, eu havia mudado minha maneira de ver o mundo - e com isso - a minha personalidade. Compartilhava meus conhecimentos com os outros, recebia de volta o que eu dava, e tudo corria às mil maravilhas. Conheci um grande amigo, Lucas Pascholatti, e não tinha mais crise alguma na consciência. Percebi meu erro no primeiro ano: não tinha organização, e não sabia extrair prazer e satisfação das minhas notas escolares. Pois, foi no 2º ano que soube aliar o estudo escolar às minhas atividades extra-escolares, e obter disso uma grande responsabilidade. Vi que, se a vida fora da escola parecia ser muito mais gratificante, dentro dela não era tão terrível assim. Pelo menos, não dentro da Federal.

Foi no final de 2007 que obtive o Certificate of Proficiency in English (CPE), tão árduo e cansativo, mas para o qual batalhara o ano inteiro, em estudos ininterruptos nas horas solitárias da noite. Treinei sobretudo com a leitura de notícias em inglês na web, diariamente, e com a leitura de títulos nessa língua, tão literária como todas as outras, mas, também como as demais, com suas riquezas de vocabulário de fazer assombrar. Deixei de comentar que havia parado o japonês, no primeiro semestre de 2007, por excesso de... cansaço. De segunda à sexta, era escola, das 7h às 11h45. De segunda a sexta, igualmente, era o técnico, das 19h às 22h30. De sábado, o inglês, das 8h às 11h40. O japonês seria na 3ª e na 5ª... à tarde. Eu tentei, mas fiquei extenuado. Exauri minha capacidade de aprender com o trajeto nada amigável até o nihongakku (escola de japonês), compartimentalizado em uma van superlotada de pessoas, e, na volta, as mesmas condições, acrescentando o fato de que partia diretamente para o técnico. Para mim, o importante foi o fato de que tentei, nas primeiras semanas, seguir essa rotina que acabaria com qualquer um. Acabou comigo. Tendo tentado e não conseguido, não tive peso na consciência em desistir. Talvez se eu mantivesse tal rotina, jamais conseguiria direcionar tão bem minhas leituras e meus estudos da língua inglesa. E jamais teria atingido minha meta de terminar meus 10 anos de Cultura Inglesa e, simultaneamente, no último nível do curso tradicional, obter o mais renomado certificado de língua inglesa emitido pela Universidade de Cambridge.

Passei com grande mérito para o 3º ano, tendo realizado minha meta de língua inglesa, terminado com chave de ouro o 2º módulo do técnico, e tendo escolhido, como projeto na Federal (uma espécie de matéria optativa, para a qual o aluno é qualificado a partir de sua média anual - a minha foi 8.41): "Leitura e análise das obras centrais da literatura universal dos últimos 300 anos". Um projeto fantástico, quê mais poderia dizer? Graças a ele reli criticamente Crime e Castigo, do renomado escritor russo Fiodor M. Dostoievski, assim como As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Li pela primeira vez Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, incrível livro que me fez escrever um texto inspirado, que me concederia o 1º lugar em prosa do Concurso de Literatura do Cefet-SP, há quase três meses. Outros que li pela primeiríssima vez foram O Pai Goriot, do francês Honoré de Balzac, O Estrangeiro, de Albert Camus, e, por fim, Metamorfose, de Franz Kafka.

Foi graças a esse projeto, e à erudição de nossos professores, Raul e Suely, que eu viria a ler O Processo, Carta a Meu Pai, O Veredicto e Um Artista da Fome, prosseguindo em minhas leituras kafkianas. E graças a eles, também, que viria a conhecer Camus através de O Estado de Sítio, Diário de Viagem e A Peste. Mas não foquemos no projeto, que daria um post inteiro por si só.

O meu primeiro semestre deste ano foi marcado pela apresentação do TCC de minha turma (a primeira) do técnico de Museologia. Foi brilhante, aclamada pela platéia e pelos professores. Fui escolhido, junto com uma grande amiga, para apresentá-lo. Como sempre - é um eterno sempre... - fiquei muito surpreso com que me nomeassem, ao lado de tão boa aluna, para apresentar um trabalho tão importante, a respeito do presídio do Carandiru, demolido e soterrado pela História. Da Federal, compareceram a Marian e o Eraldo, que tanto me honraram ao assistirem à apresentação. Falo isso sem formalidades, além da lingüística: é de se fazer sentir bem ver dois grandes amigos ouvindo com atenção o que você tanto estudou.

Enquanto o técnico corria como um mar de rosas, quer dizer, quase isso, já que por cansaço eu por pouco desisti, na escola as coisas iam, no máximo, mediocremente. Conseguia mal a mal me manter na média no trio de matérias envolvendo números, mas, depois de minha volta de Bertioga, minha perspectiva afundou seis pés sobre a terra. O que me parecia um grande lugar para se aprender, de repente transformou-se num centro de estudos dirigidos ao vestibular, que tanto me chateia por roubar os prazeres de um 3º ano, ao introduzir um elemento chamado "cursinho" em nossas vidas. Na minha não, fique claro. Uma boa instituição como a Federal dispensa abertamente cursinho, como mostrou minha grande amiga Janyelle, que estudou comigo este ano e mostrou que se passa - por enquanto da 1ª fase - em Medicina. E como eu mesmo provei no meu íntimo, com minha ótima nota na 1ª fase da Fuvest (mais três pontos e eu passava em Medicina), e minha dedicação - neste ano nem um pouco assídua - à escola. Se não me dediquei igualmente a todas as matérias, não vou embelezar minha história escolar para sacrificar a sinceridade, pelo menos pude aprender um pouco de cada, e mais um pouco de algumas. Conhecimentos amplos e diversos que ampliarei o restante da vida, sem discriminação por gênero nem por cor. Exatas e Humanas, eu aprendi, é uma dicotomia que serve apenas para apavorar pessoas interessadas em aprender sobre a vida, e com a vida.

O segundo semestre passou com mais dificuldades. Trabalhando as férias de julho inteiras, de repente tornei-me adulto, e em agosto eu seria muito prejudicado pelo serviço. Se pudesse voltar no tempo, eu trabalharia, da mesma forma, porque apesar de eu ter faltado absurdamente no 3º bimestre, eu aprendi demasiado com minha experiência profissional de 2 meses, trabalhando na exposição Bossa na Oca. Conheci, no trabalho, um homem liberiano, vestido nas roupas de sua terra, muito bonitas, e conversei com ele longamente sobre religião, futebol, e tudo que pode comportar um diálogo entre pessoas de dois continentes distintos, em uma língua que não é a materna de nenhum dos dois. Falamos com sotaque, mas nos entendemos amplamente como seres humanos, porque dominávamos o código. O meu supervisor, não. Razão de advertência, por concentrar-me demais em um só visitante. Desculpe-me, mas você há de concordar comigo que conversar com um cara da Libéria, vestido exoticamente, é mais eletrizante que entregar folhetos de exposição. Haha. Saber uma língua abre portas inimagináveis.

Conversei com um estadounidense (cá entre nós, vou ser pedante e não dizer 'americano', porque, como você bem sabe, nós todos nascemos na América do Sul, e somos, por nascença, americanos. Direito nosso, e não somente da 'América'). Falamos sobre beisebol, sobre política, e sobre, é claro! Obama e McCain. Ele predisse: o Obama vai ganhar, e os Estados Unidos irão mudar. Bem, quanto ao primeiro, eu concordei com ele. Quanto ao segundo, há esperança. Mas não esperança cega - para isso lê-se as notícias, não é mesmo, caro leitor?

Dois meses trabalhando seis horas diárias, seis dias por semana, por escolha própria. Jamais arrependeria, como disse já, porque aprendi coisas que só a vida ensina - digo, a vida extraescolar. Conheci um amante de Kafka, que tanto me incentivou a ler esse autor, e a compreendê-lo, e a escrever ensaios para a matéria de projeto que angariariam elogios escritos do queridíssimo Raul.

Partamos à verdade dura e fria: só não desisti da escola este ano, porque aprendi com a desistência por dois anos do meu irmão, na mesma instituição, e que não precisaria passar pelo mesmo, tendo aprendido com ele. E, a segunda e mais forte razão: porque eu amava o projeto. E ainda o amo, e hei de o amar muito ainda, por todos os horizontes literários que abriu em minha mente. Por todas as leituras críticas e comparativas que fiz, por todas as horas que passei sentado, boquiaberto, ante a lousa repleta de bibliografias e anotações das aulas de projeto. Era o ápice da semana, passar quatro aulas aprendendo como se fosse uma criança - tão fácil, porque tão bem ensinado. Reavi todas as minhas faltas ao terminar o contrato de dois meses de exposição. Mantenho grandes amigos daquele lugar indígena inesquecível. E o contato está aí. E nossas saídas também.

Graças ao status pouco conhecido de técnico em museologia, pude também trabalhar na montagem da exposição de ciências e artes - e de um pouco de tudo - da Escola Móbile. Ficou bela. Faltei dois dias à escola, que me recompensaram grandemente. Meu pai nunca me ensinara a pegar numa furadeira, nem em um grampeador de madeira, nem subir em altas escadas uhu... alturas fascinam (passado o medo!). Este último bimestre foi uma luta. Matemática, conseguir 8,0 de média para não passar de ano no Conselho Escolar. À minha professora de Matemática, Eliane, fica registrada minha eterna gratidão por compreender os motivos de trabalho. E ao professor Traldi, também de Matemática (nunca sei se escrevo certo), devo os mesmos votos de agradecimento. Por seu lado, ele adiou duas provas por razões não-escritas minhas, e, portanto, sob um ponto de vista jurídico, pouco plausíveis. E ela, por sua vez, entendeu muito a meu respeito, inclusive o fato de eu ter chegado atrasado mais de trinta minutos em uma de suas aulas, e ter apagado as faltas, quando eu lhe disse a razão: meus amigos acabavam de me parabenizar pelos meu aniversário de 18 anos! Puxa, até hoje sou grato por esse gesto de compreensão humana. Empatia é certamente a faculdade mais humana que existe.

É. A Federal foi foda... (como meu irmão diz: "você sempre avacalha no final... VÊ SE APRENDE A ESCREVER CONCLUSÕES, P****!)

hahaha... vou aprender a fazer isto um dia ainda...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Resenha Crítica: Dr. Jivago, Boris Pasternak

Do filme, não me é dado recordar quase nada, exceção feita à belíssima trilha sonora, e a lírica paisagem, de fazer os olhos lacrimejarem.

Porém, o livro e sua mensagem marcam profundamente, gravam-se, sulcam-se no âmago do leitor. Sua imagem permanece íntegra, intacta dentro de nós, por muito tempo fornecendo referências estéticas infindáveis; matizes embelezadores para a vida.

Por onde passa o trem que leva Dr. Jivago, passam também os olhos do leitor, absorto em sua imaginação das estepes e pradarias eslavas. Evidentemente, o amor de Dr. Jivago por Lara, a linda Lara, envolve juntamente o leitor, é aconchegante, afagador; ansiamos por viver, em nosso interior, o mesmo que este médico memorável: Jivago.

Mas não se deve deixar de lado, entretanto, o relevante aspecto histórico desse romance de Boris Pasternak, a obra que reviveu das cinzas o nome desce escritor por muitos anos desconhecido em sua própria pátria; esta particular nação sempre figura como uma mãe, em suas terras ubérrimas, em seus mujiques e cenários urbanos tão encantadores e envolventes – em outra palavra, tão russos.

Um amor assim tenaz, que perdura mesmo em meio a convoluções e reviravoltas de uma sociedade permeada, ambiguamente, pelo velho e o novo, o tradicional e o moderno, é um amor de fato, um amor verdadeiro. Se reverenciássemos os clássicos, dir-se-ia ser um helênico ágape o fundamento da relação entre os dois.

No princípio, passamos a saber, pela pena do autor, que “Lara era bonita a ponto de fazer um homem ir para o inferno”. Sim, o leitor a imaginará uma beldade, um anjo sobre a Terra. Mas sua imagem só se tornará completa ao compreendermos a densidade e a profundidade do amor dessa mulher. Torna-se Lara ainda mais bela em seu resplendor, porque não é idealizada sob o peso de vãs palavras. É uma mulher caracterizada, sobretudo, por ações.

Lara é a Rússia. A Rússia, descobre o leitor, somos nós.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Concatenar-se

Muitas coisas não são aparentes à primeira vista. Entre elas, nossa própria ignorância. Quantas vezes não pensamos que sabíamos algo, e na hora H, não houve ação, porque realmente não podíamos fazer nada. Nossa ignorância passara ignorada até então, e na hora de agir, ela finalmente se demonstrou, ficou à mostra, nos surpreendeu - porque pensávamos saber.

E pensar que esta é a primordial das ilusões. Há, no entanto, um corolário delas, sempre a surpreender-nos, a nos pegar desprevenidos - ficamos boquiabertos, desconcertados por não saber. Por não saber da existência incipiente dessas ilusões. Grandes, pequenas, médias, qualitativamente é escabroso fazer distinções. O fato é que, grande ou pequena, devastadora ou não, uma idéia ilusória sempre nos deixa um amargor na boca - insatisfação derivada da momentânea consciência de nossa própria incompletude.

Exemplos abundam, meus, teus, nossos, talvez compartilhemos das mesmas, quiçá não saibamos apontá-las, ou não queiramos - esta última hipótese, convenhamos, é a mais provável. Não há nada que nos faça vê-las, nada imperioso o suficiente para que sejamos forçados, compelidos a enxegá-las. O esforço, parece - aliás, como sempre - provir de nosso próprio ser, de nosso interior. Não querendo vê-las, não serão as circunstâncias, mesmo as mais duras, que nos entreabrirão os olhos, cegando-nos por átimos eternos.

Ensaio Sobre a Cegueira. Quando assisti a esse filme, encontrava-me plenamente cego. Admito-o, talvez por fraqueza, para não ser forçado a me entregar, dizendo que ainda me encontro neste estado. Sim, não farei uma assunção descabida afirmando que não possa estar cego, metaforicamente cego, neste mesmo instante em que tu lês.

E, mesmo assim, a tendência é que a luz soerga nossas pálpebras, contra esforços nossos contrários, contra toda a resistência, contra nossa rejeição dorida dessa invasão de nossa própria escuridão cavernosa, das trevas que há dentro de nós.

Recantos jogados, esmaecidos, derretendo como o relógio e os ponteiros da Persistência da Memória, quadro de Dalí. As formigas a decompor as sobras, os rebotalhos de uma civilização. Por que a nossa seria a mais avançada? Por que temos celulares e sistemas GPS, por que dissimulamos tão cabalmente nossa própria ignorância? É bem capaz que sim, quanto a esta última. Aprendemos, desde pequenos, o estranho artificio de esconder o que não sabemos, de nos calarmos e nos enclausurarmos em nosso próprio não-saber - tão tenebroso, tão silente. Carência - é o resultado direto dessa lição inculcada em nós.

Penso de uma forma radicalmente diferente: se ignoramos, devemos perguntar. Antes começar com muitas perguntas, do que com muitas certezas. As certezas se rompem e balouçam num mar de incertezas, conquanto as perguntas atraem naturalmente respostas. Erradas, errôneas, mal-calculadas? Sim, em sua grande maioria. Mas é para isso que talvez tenhamos o aparato encefálico mais desenvolvido e aprimorado dentre os seres viventes desta Terra multiforme, multicores.

Quiçá o que nos mais atrapalhe seja nossa auto-comiseração, nossa auto-piedade, esse obstáculo que se interpõe tão tenazmente entre nós e nossas metas, entre o que queremos de coração que aconteça e o que os outros querem por conveniência que queiramos que aconteça. São essencialmente diferentes, tais desejos, se podemos alcunhá-los dessarte. Não viver é viver primordialmente pelos outros. Viver é saber viver para si mesmo, e somente depois desse egoísmo fetal, é possível tornar-se melhor. Melhor, aqui, é obviamente inquantificável, impossível de receber um apelo qualitativo. Melhor é melhor, é o bom e o bem, aperfeiçoados. E isso faz parte da Ética interpessoal.

Como ouvi recentemente no rádio, duas metades, ao serem juntadas, continuam existindo em sua condição a priori. Isto é, a tua cara-metade é a tua cara-metade, nada mais, nada menos. E pensar que grande parte da infelicidade humana jaz nisso. Neste credo de que há alguém perfeito para nós - não que não haja. Mas, talvez, tenhamos que trilhar uma longa e sinuosa estrada de auto-aprimoramento e auto-conhecimento antes de desenvolvermos a capacidade de sermos útil a quem nos ama. É um egocentrismo de imensa magnitude pensarmos que nascemos já sabendo amar. Ã, ã. Amar se aprende, não é um atributo nato. E olha que digo amar o próximo. Outro amor além desse é fortemente implausível.

Querer estar ao lado de alguém é não querer estar sozinho. E não querer estar sozinho é ter medo de si próprio. E só tem medo de si próprio quem não se conhece por dentro. A escuridão tira o sono de muitas pessoas. Mas, possivelmente, se estas mesmas pessoas lançassem um breve olhar para dentro de si mesmas, veriam, se aperceberiam, de que as trevas e a noite que realmente temem são as que habitam seu âmago. Sim, é tudo o que se esconde de nós ao vivermos apeados em nosso Admirável Mundo Novo. Fábrica do saber inútil, junk science, e toda a propaganda tão bem ensinada pelo mais querido mestre dentre os propagandistas: Goebbels. O cão fiel de Hitler. Ah, esse estudou muito bem publicidade e propaganda. Com paixão.

Para quê? Por quê? Como? Sem ter aprendido a questionar, indagar, perscrutar e investigar, o homem não é sequer um símile de Sherlock Holmes. E Sherlock Holmes era um homem improvável de ser enganado. Talvez porque soubesse separar o joio do trigo em todas as situações e circunstâncias. Talvez porque houvesse concluído, a duras penas, que ninguém, absolutamente ninguém, pensaria por ele, ninguém passaria cola pra ele na hora que demandasse uma atitude contumaz; talvez porque ele tenha percebido que um ser humano devoto é um ser concafinado dentro de si próprio.

Haja distinção. Este sim, é um requerimento fundamental para se viver - e mais do que viver: vivenciar. Sim, senhor.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Estudando História

Hitler, após a avassaladora invasão da Polônia, pronuncia de seu temporário pedestal "...toda pessoa instruída é um futuro inimigo." Condena, assim, a população eslava ao trabalho pesado, análogo ao escravo. Esta frase dá o que pensar quanto ao que temem os totalitaristas, os repressores, os anti-intelectuais, e todos aqueles que tanto amam homens oprimidos em sua busca pela liberdade.

Na página 434 do livro ao qual me debrucei ontem e hoje, nomeadamente História Moderna e Contemporânea, de Antonio Pedro (editora Moderna, 1985), e que de idioticamente didático não tem nada (sim, a história "didatizada" é um erro), depara-se com a seguinte constatação do autor, até então isento de moralismos dissimulados: "Muitos pensadores e analistas disseram que tal arma [bomba atômica] não precisaria ser utilizada, mas a verdade é que mesmo assim o Japão continuou resistindo." (como se vê, o autor refere-se ao fim da 2ª Guerra Mundial; a ênfase em negrito e o colchete explicativo são meus)

Pus, portanto, a seguinte reflexão manuscrita na lateral do livro: o elemento 'mas'(vide acima) aqui empregado, não introduz uma contradição veemente, de importância histórica. "Quanto tempo mais poderia ter o Japão resistido, sem a derrubada das bombas atômicas?" Essa pergunta tem uma resposta que comprova a nulidade argumentativa a favor de uma arma desumanizante e devastadora."

Bem, meu comentário parece auto-evidente, auto-explicativo. Mas colocarei alguns pensamentos a mais. Por que razão o 'mas', ao introduzir a resistência nipônica que se seguiu 'mesmo após' a bomba atômica? Não tem relevância tal asserção, tal afirmação. Ok, eles persistiram em sua honra nacionalista, ou qualquer que seja o nome dado ao desespero humano frente à própria impotência bélica quanto a um inimigo aparentemente onipotente, onisciente e teratológico (monstruoso) em suas dimensões (EUA, fique claro). Porém a resistência não justifica bombas atômicas arremessadas sobre as cabeças de um povo. É incoerente, numa macro-escala e definitivamente incoeso, numa micro-escala. Ou seja, não há porquês, não há como se dissertar a favor, por exemplo, da exterminação a sangue frio dos armênios,(sobre isso, ver os últimos parágrafos do link à esquerda, em artigo escrito anteriormente neste blog) ou a hecatombe sem precedentes de judeus, ciganos, homossexuais e de outra forma opositores, pelas forças nazistas; ou, mesmo, todas as mortes causadas pelos prolíficos sistemas totalitários outrora existentes ou ainda em ação. Não há justificativas tangenciais. Simplesmente não há.

Ou você precisaria de uma recordação fotográfica para chegar à mesma conclusão? Imagens, já foi dito ad nauseam em todos os recantos deste mundo, expressam mil palavras - ou mais. Eu particularmente quase vomitei ao ver o que se sucedeu ao povo japonês que se encontrava fatidicamente no epicentro de onde caíram as bombas atômicas. Todavia, se as imagens te chocam em demasia, como a mim, talvez a literatura nipônica possa te interessar. Recomendo Chuva Negra (Kuroi Ame), do escritor Masuji Ibuse (link para as bibliotecas públicas municipais de São Paulo onde se pode pegá-lo emprestado). Com esta obra-prima, calcada num relato humanístico comovedor, Ibuse pôde elevar-se ao status dos grandes escritores pós-guerra, obtendo inclusive o prêmio mais célebre do Japão, o Noma. Falo sobre ele e o quanto a leitura deste livro absorveu minhas reflexões aqui, aliás, um adendo muito importante para tudo o que tratei neste breve digitar do teclado.

Vivamos.

Yet

Minha religião é esta universidade
É minha cidade, meu universo,
Toda minha vida, frente e verso.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Entardecer

Diga-me, o que é o entardecer,
Senão o repousar das estrelas
E dos astros que nos espairam
Do alto, no planalto celeste?

Diga-me, o que é a vida,
Senão o crepúsculo, o lusco-fusco,
A noitinha de algo grandioso,
De uma obra magnânima
Acessível nos sonhos
Onirogênesis celestial...

Pois, sabe-se lá o que é dor,
Sabe-se lá o que é fome,
O que é desamor,
Frente a tanta grandiosidade,
Frente à essa fonte inextingüível
De luz...

Que sina, que nada...
Tijolo por tijolo
E é esta a construção
De uma vida, de um projeto
De ser humano
De conquistas,
Nada para se mostrar...
(pois não há nada para se mostrar...)

Caminho pois adiante
Vejo, olho, enxergo
É o bastante
Deambulo pois distante
Das vilezas, das pequenas cousas
Faço mil desenhos em minhas paredes e lousas
Eu e milhares neste mundo, Joães e Souzas...

Edificamos o diminuto
Para poder ter em perspectiva
Tudo o que é maior
Tudo o que nos iluminará
Daqui diante.
Não há próximo, nem distante
Daqui diante,
Não é cronológico, linear, pontual.
É o astro, e o universal.

É a via sacral.

Do homem ao animal
Do animal ao mastodonte
Todos lutamos, para enxergar
Para poder ter à vista o horizonte

Todos buscamos
Pelejamos, pela perene fonte
Todos, homens, animais,
Tentamos.
Tentamos.
Oh,
E como tentamos.

Mais mais mais
Uma relação direta:
O que não podem os olhos
A alma vê em sua plenitude.
Não há solidão, nem solitude.
A vida sempre será vida
Em sua mais completa magnitude.

Isso é, para os homens de atitude.
Para os Kennedies, para os Martin Luther Kings,
Para os Gandhis, para as Marias Teresas,
Para os Malcom Xs, para todos, todos, todos
Os Tibérios e Caios Gracchus, para todos
Os bravos, intrépidos, valentes Matteottis
Os que empunham firmemente
A única arma totipotente.

A alma do saber
A arma que nunca irá fenecer.
Não. Somente assim pode tudo ser.
Essência.

O imo de tudo.
Perante tanta grandeza,
Agora calo-me.
Mudo.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Big Pharma Ties Want to Shut Down Vaccine 'Conspiracy Theories'

Será que a internet permanecerá "livre" por muito tempo...

...

"Posso fazer muitas coisas, mas dentre as quais mentir certamente não faz parte."

E assim falou o maior mentiroso...

sábado, 8 de novembro de 2008

Esquina da Canário com a Sabiá

(porque nada tão paradoxal como carros atravessando a fronteira de uma Rua chamada Sabiá, com outra e sua graça de Canário. Lá não há aves, pelo menos não as que com seus nomes batizaram um recanto tão urbanizado quanto nossas personalidades efêmeras e gastas)

O coração:
A flama,
Chama.
Clama

Por afeto
Por...
Por...
Pelo inominável.

Fica banalizado
Em demasia banalizado
Quando aquilo recebe nome

Talvez um nome falso
Talvez um nome de guerra, e o pior,
Um nome já trucidado, vergastado,
Esfolado.

Não, aquela alcunha envelheceu, encaneceu
Perdeu os já parcos cabelos, as cãs brancas
E como em retalho sobre a calvície longeva.

Sim, é preciso uma muda. Uma muda que cresça
E exacerbe a condição de planta, projeto. Uma muda
que destitua as folhas amareladas e também as carcomidas.
Uma muda que mude. Mude o mudo e infalável e indizível.
Mudança de planta muda para árvore arborescente e florada.
Uma face pálida e descorada abrindo espaço para um rubor humanizante.

Tal é o que tanto pede a alma.
Mais, muito mais que sossego e calma.
Menos, muito menos que um clamor e uma palma.
A alma pede o que pede a alma.
...
(and there - and here, it goes 'n flows...)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Urbe-orbe, a metrópole que tudo absorve

Urbe-orbe, a metrópole que tudo consome em sua selvageria inigualável:

-Tá vendu aquele macambúziu, cabisbaixo, ali? Todu silenti, queixu impelidu pra frenti, nem pareci genti?
-Veju, veju. Quem seria, essa nossa celebridade magricela?
-É mais um dentri a incontável multidão de ovelhas a pastar nos campus inférteis di uma cidadi dita civilizada.
-Eh, eh. I eu seria um outru comu tantus outrus, loucus soltus pelas ruas, intão?
-Por que loucu? Qui nada. Loucus i lunáticus não são tabeladus a esmu, à tortu i à direita, não é tão simplis comu pareci. Tudu qui é vivu evanesci cum u passar; classificar a esmu é discriminar comu cegu. I cegu num inxerga, inxerga?
-Tá, tá. Mas ondi cê qué chegá?
-Queru, não. Já cheguei. Ficu pur aqui mesmo. Desçu aqui na estação Paraísu. Se issu for o ditu cuju, vamu ver o quê é u infernu ainda. Uma turba dessas, apinhada comu gadu, tá mais pr'uma Comédia, qui di divina num tem é nada. Macacada.
-Ai, ai. Ô visionáriu, eu vou descê na Liberdadi, quais são us augúrius pra hoji?
-Paga adiantadu na próxima. Aí sim nóis prosa direitu, colhendu e semeandu, como nu Evangélhu. (fecham as portas). Malditu apitu! Mal abriu já fecha, a danada?! Vai, segue cambada. Cadê o vaqueiro com a vindima pra tangê us boi brabu i musculosu? Vai, saradão, empurra mesmu, você qui treina tantu pra adquiri braçu de orangutangu, não podi deixá passá a feliz oportunidadi de empurrá, né.

Carros, ônibus, metrô, trens, helicópteros, jatinhos, aviões, motos, skates, patinetes, bicicletas, patins, lambretas barulhentas, caminhões, vans, camionetes, faltam só o cavalo, o burro e o jegue. Falta só a concretude em meio a tanta abstração numérica visual. Incontabilidade reinante - terra incognita, terra da abstração alienadora. Mas esses dois últimos - o burro e o jegue - somos senão nós mesmos, que labutamos que nem uns acorrentados, no fundo, pra conseguir fundos. Mas nada é definitivo. Ah, falta amor também. Falta contato humano, que não seja abraços que nada dizem, e beijos por demais convenientes.

Arranha-céus, edifícios, prédios, presídios, asfalto, pneus, janelas em série, fordianas, condomínios, casas geminadas, casas com tijolos à mostra, na América Latina barrios, aqui favelas mesmo. No tio Sam, slums. Chuva ácida, céu vermelho à noite, Tal é a cidade lotada, inchaço urbano, mega inchaço, ultra inchaço. Ultra violência. Estupro, cídio, cídio, cínio, cínio. Começo é o que não falta.

O visionário segue seu afã diário, no ônibus:

-Entra, multidão, vamu qui cabi mais, ondi cabi um, cabi trezentus - rumbora!
(multidão, várias vozes:) - Ê, quem é esse engraçadinhu aí? Êe, já começa às seis a aporrinhação na vida? Pô, fora essi apertu, tem genti querendu encher logu pela manhã?
-Vamu fazê uma oração pra mudá essi trânsitu, pessoal. Por que mi xingá? não façu mal im dizê a realidadi. Pior qui lata di sardinha essa condiçau. Muitu pior. Porque sardinha vem azeitada e consumível. Cheirosa até. Agora, tem genti aqui qui não passa desodoranti, não aprendeu a lavá suvacu, a usá camisa anti-transpiranti. Cês vê: acorda cedo, anda e pega o transporti. Lotadu, suadu, ninguém qué siqué olhá na cara du outru. Se Guimarães Rosa tivessi pur aqui, ninguém ia reconhecê. É a correria de todu dia, dizem pur aí. Mas qui correria u quê, issu daqui é só pra divergi a todus de uma vida essencial e dedicada à verdadi i ao estudu di nós mesmus.

Ao descer no ponto, o visionário enxerga na margem oposta do rio de carros pessoas degradadas e degredadas, em farrapos, passado mais de século da verídica Farroupilha. Pobres de espírito bem-vestidos. Pobres de fato com olhares perspicazes. Ruas suspicazes, suplicantes, sinuosas, serpentinas, sinaladas em ésse, sestrosas, sulcadas, seixosas, suspensas sobre sombras, sibilantes, sabendo a suor e sáxeas, assexuadas, sem suntuosidade, sem-sabor.

Milhares de partículas de fuligem entram em suas narinas, numa tosse surda. A paisagem se abre e se fecha, veredas suspirantes, ressabiadas. As alamedas negras de sujeira onde passam executivos e funcionários, professores, estudantes, ledores, o centro de uma cidade que arfa de impudores e novas formas de apropriação.

-Qui você faz, senhor?
-Estudu Direitu.
-Pois qui num estudasse...
-Está brincandu comigo?
-Não, somenti ti gozando um bucadu.
-Olha, mulequi.

Diálogos profundos, repletos de conteúdo, como aquele entre João e Maria, após trabalharem por dez horas na montagem de uma exposição:

-É, Ma, não mi agüentu nas pernas, quiria sentá...
-Ah, mas foi bom, num foi não?
-Bom em qui sentidu? U resultadu ficô satisfatóriu, eu achu. Pelo menus, né?
-Não, concordu cum você, mas tô falandu di tudu qui a genti aprendeu, di martelá a pendurá i tal...
-Ah, na hora é bom, né Ma, mas depois a genti cansa i só qué sabê di sentá, deitá e puxá um roncu até u raiá du outru dia. Ah... essi cansaçu todu e depois o repousu é o verdadeiru elixir da alegria. Não há nada melhor, nu'é verdade?
-Pô, cê só pensa em discansá. Ia perguntá si você num quiria i pro cinema comigo, i essi papu di isticá as pernas. Pareci velhu, meu!

Diálogos edificantes, maestria no logicismo empregado, na resolução de problemas. Contextos desprovidos de injúrias e opiniões que nada acrescentam. Desprovidos mesmo de exclamações inverdadeiras e comentários pejorativos sobre outrem. Urbe-orbe, quê mais poderá engolir em sua ânsia de alimento? Resta-nos somente a metafísica de Guimarães para podermos desarmá-la de seus intuitos nefastos.

Os bois ainda ouvirão o garoto que roga pela morte de seu contra-mestre no sono - e trucidarão o algoz num ímpeto brusco que não deixará remorsos.

Há de se ver, Guimarães, há de se ver.

Montagem

Dizem (aliás, sempre dizem) que tudo tem seu tempo certo. Ah, e alguém também disse que a vida por si só já é um milagre. Discordar de máximas é um tanto complicado, sem argumentações bem boladas.

Por exemplo, jamais havia subido numa escada para pendurar quadros de madeira, ou para qualquer outro fim que não fosse por lazer e curiosidade. Mas aprendi num piscar de olhos a tolerar vertigens e inclusive a saborear a "altura". Fazer tiras de pipas ligando-as com fio de náilon é outra coisa que nunca havia feito anteriormente. Bom, mas como tudo que relato é novidade, então é passível colocar essa observação para tudo que aprendi.

Correr contra o tempo sem prejudicar a qualidade, dentro do possível. E o campo do possível tem a peculiaridade de sempre poder ser alargado, uma vez que se cogita sobre o que pode ser feito. Ora! Tanto pode ser feito, tanto quanto se imagina, e muito mais. Pude apreender essa objetividade com as mãos na massa.

Dobrar, recortar, dar nós, ajeitar, pregar, rearrumar, refazer... serviço da criança que ainda não firmou o hábito de reclamar do mal-feito. Serviço para quem consegue lançar um novo olhar nos mesmos lugares, naquilo que já foi uma, duas, três vezes manuseado, mas ainda não está bom.

Humildade. Bela palavra, enquanto não se prova seu significado na própria vida de quem tantas vezes a repete, dia a dia, mês a mês, numa religiosidade insensata, porque apenas teórica. Saber a auto-crítica para poder superar a si mesmo. Competidores não há, pois todos se empenham para um mesmo fim - o objetivo é o aprimoramento do visual, do tátil, e, portanto, do real.

Aperfeiçoamento do que nunca será perfeito. Processo inacabável, mas com metas em mente, o resultado torna-se no mínimo satisfatório. Para todos os gostos? Não. Para todas as idiossincrasias e pusilanimidades? Certamente que não. Mas, no bem-feito, quem põe defeito é juiz imperfeito.

É verdade comprovada que o autor terá sempre uma vírgula a pôr ou tirar, e será o crítico eterno de suas obras, excetuando-se casos narcísicos, e, por conseqüência, meras reflexões de personalidades supérfluas e esgotadas num egocentrismo sugador de criatividade.

Não farei uma ode aos escritores mais vendidos do mundo, que se utilizam de diferentes fórmulas para agradar um público duvidável. Do qual já fiz parte, cabe ressaltar. Não realizarei um panegírico acerca de minhas pessoalidades, irrelevantes para os demais habitantes deste planeta.

Há de se dizer, no entanto, que meus avós estavam certos: Diga-me com quem andas, e direi quem tu és. Meus queridos avós, se vós conhecêsseis meus próximos, julgariam por si próprios quem eu sou. Gabar-se de êxitos é a maior facilidade existente. Reerguer-se de um tombo talvez exija algo que muitos morrem sem obter: introspecção.

Falta-se, pois, com determinadas responsabilidades impostas pela conjuntura social, para poder se realizar no âmbito pessoal. Vergonha, pudor, vexame são palavras desconhecidas até certa idade. São diferentes conceitos e diferentes circunstâncias que os causam para os diversos povos, nações e culturas. Cada contexto cultural traz imbuído seu sistema oral de valores e morais. De parábolas ensinantes e lições paternais. Mas nenhum deles é o epicentro de nenhum outro. Cada contexto é real por si próprio e é correto e incorreto simultaneamente. Nada é irrevogável, 'tudo' é deveras amplo e abstrato. Generalidades não definem, somente traçam contornos aproximados e inexatos.

Pois, acabemos com a dissertação. Falta muito para eu me tornar alguém útil a mim mesmo, e, por conseguinte, co-autor de uma obra universal em seus parâmetros. Mas tendo sido o primeiro passo dado - o do sofrimento escolhido por livre-arbítrio -, que me impede de dirigir-me aos restantes?

Quiçá o mundo seria outro se não fôssemos condicionados a pensá-lo como um local habitável e agradável para uma população de mais de 6,5 bilhões de pessoas, afora os animais e plantas e todos os outros seres devidamente taxionomizados pelo tão poetado saber científico do Homem com agá maiúsculo.

Quiçá eu não fosse o que sou e não seria o que fui se o mundo estivesse em ruínas como a literatura soçobrada de Franz Kafka*. Suposições ontológicas - como esta - parecem tomar a forma coleante e serpentina da traição. Não há porque chorar, então é quando as lágrimas abundam em sua pureza auto-limpadora. Não há porque rir, e é aí que irrompem as mais histriônicas gargalhadas de bel-prazer interior, sem necessidade de conveniências - ah, as odiáveis conveniências!.

E por aqui entrou e saiu um tal de Fernando - que vive acordado e dorme esperando. Pelo quê? Pelo insondável - o único conforto imaterial possível em um mundo de fúria e boca espumante.

Ah, brejeiro.

*'literatura soçobrada de Franz Kafka' não é de forma alguma algo bradado com tom de perjúria ou de forma mordaz e lasciva. Leio Franz Kafka, e este fato já é auto-demonstrativo em sua significação.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Vida

(A vida é um milagre, quem discordará?)

A vida nos mostra o que a ela damos
A estrela cujo nome sempre chamamos
É a vida, é bonita e é bonita.

Viver, sem o medo de se machucar
Na memória o aprender, no passo
Todo o gesto, todo o pulso
Impulso manifesto de viver.

E cada noite e todo dia
Uma alegria, um júbilo
Porque se vive, porque se é
É-se o desdobrar do maquinário,

Cada, todo, novo e velho
O olhar, o andar, tudo é movimento
Mesmo nos momentos mais silentes
A vida tremula e tirita

Não de frio, nem de calor
Não por capricho do Criador
Mas porque imexível
Não é um adjetivo que descreve a vida.

Se até mesmo a pedra vive,
Se até o ininxergável ali está
Bem, a vida então será
Tudo o que eu tive
E tudo o que você terá.

É como na manhã
O canto do sabiá
Rouxinol não digo
Pois não distinguo
Seu cantar.

É como o ciclo diário
E universal.
Toda a vida é um invólucro
Sacral.

É como o João e o Mário
A Maria e a Joaquina
A vida é tíbia e fria,
É morna e severina,
Onde começa, também termina.

('Carpe diem et noctiem... You shall reap what you sow')

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O que os olhos não vêem, sente o coração

Lavou as mãos com diligência, e ao fim exclamou, em meio tom, emocionada: "Como é bela a vida!".

Deixou o rosto para lavar depois. Estava repleto de lágrimas...

(Mundos)Paralelos

A 1ª estrofe composta no vagão do metrô. Os últimos dois parágrafos acrescentados em meu lar. Lar, doce ..r.
***
(Mundos)Paralelos

Um mar de luz inunda a superfície do planeta,
E meus olhos antevêem a quebra de um paradigma.
Que paradigma será?
O fim do dia dirá,
A mim e a todos.
Saravá.

O refulgir deste Sol
Será como o de outros sóis?
Completarão seus ciclos com semelhantes arrebóis?
O homem, só, pergunta-se, a elucubrar...
É capaz de assim ser, sim ou não.
Mas o que vale é o brilhar,
Muito mais que a data ou o lugar.

E tomar nota de que o início é o fim,
E o Yang é o Yin;
De que você é o mim:
O mundo é ambivalente,
Sim.

Inside Out

I'm within the dark chamber
Red and glowing secret amber
Kills the conscience
Keeps the danger

I'm inside myself now
Ciao. Goodbye my pal
To all of you I must kowtow.

I bow my head low
Painfully and slow
My story I'll show.

My mom said in childhood
"You will reap what you sow
When you're ready you'll go"
But in boyhood I didn't know

Sorrow, angst and paine
Will I always be the same?
Father, can Thou hear'st my name?
I'm a man no one can tame,
But a human, too, feels guilt
And shame...

Mother, do you know where I am?
You did ever whisper, You can, You can
But m'am, how could you say so?
Why yes, instead of no or never?
Why did you all think I was clever?

No, never.

Through labor and work
I found something in me.
Oh, I did.
No saviour, no salvation
Many things I had to see,
Oh, El Cid!

Where are you knight?
In where today willst thou fight?
You who bravely fought
You who furiously sought
I who only watched
I didn't lift a finger.
I who deathly laid and linger'd.

Oh, starry sky
Brilliant, opalescent night
I'll pray one day
I might
Become that glorious
Knight.

domingo, 2 de novembro de 2008

Pala vras

Vou fazer de minha vida
Uma abstração;
Alegoria.

Transformá-la em
Toda uma canção
E alegria.

Todo um trabalho
Da mente.

O abecedário
Não mente.

Pegue um 'a', ou um 'b', ou 'c'.
Que significam pra você?

E é só a partir deles
Que designamos,
Cantamos,
E choramos.

O que é erudição
Sem linguagem?
É imaginação -
Sem imagem.

Amemos, pois,
As palavras.

O 'um' e o 'dois'
Toda a Matemática -
Que tu lavras -
Seria enigmática,
Sem palavras.

Amemos, pois
...

sábado, 1 de novembro de 2008

E Então

(o começo é o fim; o meio é o mim)

O vento envolve mais que o ar em passagem
O vento é bem mais que o olhar em miragem
O vento é ele mesmo
O vento... é o vento.

O sorriso é mais que o gesto
O sorriso é o amor manifesto
Abrange mais que a boca,
Ou o rosto,
Tange toda a alma
Em seu gosto

A felicidade é um estado da alma.
A felicidade é a existência calma.

***
*
***

They said:
The body doesn't matter
What matters is the soul
The body is the world
In shatters
The soul will always be
The soul.
Away,
It'll never go.:
No, not the soul.

**end fine**

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Herói

Herói: 1 MIT filho da união de um deus ou uma deusa com us ser humano; semideus 2 MIT mortal divinizado após sua morte; semideus 3 p.ext. indivíduo notabilizado por seus feitos guerreiros, sua coragem, tenacidade, abnegação, magnamidade etc 4 p.ext. indivíduo capaz de suportar exemplarmente uma sorte incomum (p.ex., infortúnios, sofrimentos) ou que arrisca a vida pelo dever ou em benefício de outrem 5 p.ext. indivíduo notabilizado por sua realizações <os h. das ciências> 6 p. ext. figura central de um acontecimento ou de um período <os h. da Revolução Francesa> 7 p.ext. pessoa que, por ser homenageada ou por qualquer motivo (nobre ou pouco digno), se distingue ou é centro de atenções <os h. da festa> <o h. da baderna foi justamente o mais tímido entre todos> 8 p.ext. principal personagem de uma obra de literatura, dramaturgia, cinema etc. 9 infm. indivíduo que desperta enorme admiração; ídolo. (dicionário Houaiss, 2004)

* * herói * *

Cada esforço vale a vida
E toda vida é um esforço
O esboço de um herói
É sua vida e seu afã;
Sua libertação.

Cada manhã e seu orvalho,
Derramado sobre ele,
Estando à sombra d'um carvalho,
Como as melenas de um chorão
Serão seu mecenas
E sua salvação.

Pois a vida é esta pena,
Pois a vida vale a pena,
Pois só há de vir a alegria
Após diária distopia
Após a lágrima que escorre
Fria.

E então vem o júbilo,
E então vem a vitória,
E então vira história.

Não há fórmula
Ou predestino
Há fortuna e desatino
Há a luta, sim, contra
O próprio destino

E ao canto ficam relegadas
As desesperanças
Pois no centro vêm
Somente
Todos os meios necessários
Para a luta
Pois a concentração do monge
É a obstinação
E toda a batalha do heróis.
Não há bareriras,
Nem obstáculos
Não há óbices
Nem percalços

Há, sim, muita fúria
Tem, sim, muita raiva
E fogo vivo a arder
As chamas internas
Alma do viver

E cuida, pois, que não virem cinzas
E que arda para sempre
Há fim e início
Mas o momento é o presente
E o presente eternamente

A eternidade está contida
Em cada instante
É, pois, nesta realização,
Que se apercebe
Que a peleja é vital
E constante.

É então que se põe distante
É aí que vira um ser pensante
Atuante
E vivente.

Descrente quanto às ortodoxias
E normas
Descrente quanto aos dogmas
E às religiões cá fundadas
E crente em si e no poder
De superar
De gritar
E exarcebar!

Feliz em poder lutar
Alegre em poder perder
Pois a vitória está no embate
Não no resultado
Pois cada ato disputado
É o clamor nele
Derramado.

E o suor escorrido
E o sangue pulsado
Todos eles trazem
Em si
O resultado.

Vive o herói!
Indiferente à perda
Pois cada perda é ganho
E superação do antanho
E cada ferrenho golpe
É dum tom castanho,
Perene,
Solene
E d'outros tempos

Vive a vida em sua eternidade de momentos
Cristaliza sua própria imortalidade
Em versos que nunca se apagarão
Porque se inscrevem em sua alma.
E esta não morre.

Reencarna a luta somente o herói.
É ele que destrói, para construir,
É ele que rui, para edificar

É ele que enxerga
Sem sequer os olhos abrir
É ele que desfecha cada golpe
Num eterno interno sorrir

E vive nele a vida
E vive nele a alma!
É somente isto que importa.

É cada fechar e abrir da porta
É cada momento que comporta
Felicidades e tristezas que perdurarão
Pois já habitam seu rijo coração

Este que pulsa e bate feito um cão
Um dia pára, mas não morre em vão
Pulsará tão vivo quant'antes
Na próxima e inacabável
Reencarnação.

Jamais morre, desconhece a solidão,
É-lhe estranho pensar que estar sozinho,
Compenetrado no universo,
É encontrar-se solitário.

As estrelas não são seu guia
Através das noites?
As entidades celestes não são
A travessia imparável
Ante mesmo os açoites?

Pois onde há tal solidão?
Não existe.
É ilusão.

Vive o herói, e o desconhece
A civilização.
Não se revela, porque é mestre
Em desmentir
Sua condenação.

Não se pode ser si mesmo
Sem ter que avir com os demais
É por isso que sua face sempre espelha
A mais pura e viva paz
Ele vive
E isto só
Já o apraz.

Alma tenaz.
Morre jamais.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

To-day

To day
A new way
Nothing else
To say

Eleven hours of sleep
Thoughts run deep
But action is still asleep

***

Violet flowers
Blossomed
In my heart
And each one of them
Signaled
A neo start

***

Dark corners vanished
And no one was to blame
My reputation tarnished
But, no, it was no game

You would feel the same
Regret, remorse, remording
Within
You would lose your name
Beset, in course your damning
As Sin.

***

Existence, they say
Is a long hard way
My words, though, gainsay
Happiness does exist
Even in dismay

To relish in darkness
Is not my mark
But I did build in starkness
An old old Ark.

***

Along the road they go
Stubbornly and dreamily I watch
Hoow beautiful... but no!
Darn 'em! they've stolen my watch!

***

Gaily on his way
To the end of his life
'Cause it's a merry one
Nothing's left undone.

And here he comes....

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O Retorno

O fim leva ao começo
O começo leva ao fim
Do fim ao começo
Do começo ao fim

Do mim a você
Do você ao mim

O fim é o início
O início, o fim

Do sim ao não
Do não ao sim
De cima ao chão
Do chão a mim

É um ciclo sim
O começo, o fim
É um ciclo assim...
O início, o mim
É um ciclo ah sim!
O não e o sim.

***

Ruídos surdos batem à janela
Dos meus olhos pende a remela
Meu dia começa, a rugir a fera
Um desafio novo, uma quimera

Um cavalo de brinquedo, sem a sela
E eu montado, pensando nela
É mentira, eu sei, é balela
Mil mosquitos a picar
E eu sem tela
É balela.

Mas, pensando bem,
Há coisas que não se passa sem
E ocasiões quando não dizemos amém
A vida sendo um mal que sempre causa um bem

***

A senhora chorou, outra vez
O decorrer d'um dia, um mês
Sem o filho, que morreu
"Mas que mundo ateu!"

***

Quatro dias passou ele escrevendo
Quatro noites passou ele em claro
Em cada vírgula errada o remendo
Pagou adiantado, ele, pagou caro

A vida só decorre q'uesta minha labuta
Mo disse num brilhoso ensolarado dia
Desd'o nascer começa a infindável luta
Até o obscurecer prolonga-se a arredia
A vida quica, nasce, peleja, bate, chuta
Mas ela é vida, ela é viva, ah! vita mia!

Não basta a esmo escrever
Não basta eu vir e to dizer
É preciso c'os próprios olhos ver
É preciso co'as mãos premer
É preciso co'as mãos premir
Deixar o descanso pro dormir...

***

Pulsa
Bate
Corre
Cor
Ação
Pulsa
Late
Morre
Cor
Ação

Pára
Péra
Puts
Parô
Cor
Ação
...
(Sonata ao Luar ao fundo)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Galeria Emma Thomas: Impulso

Fui lá e vi - e toquei em - muita coisa boa. Cheque a apresentação abaixo e aproveite esta exposição interativa, se te convir (porque não há nada como poder tocar em Arte...)

sábado, 18 de outubro de 2008

Porque o mundo não é um mar de rosas

O firmamento já escureceu
Os cirros plúmbeos o cobriram,
Travestiram.
E veio a noite
Açoite.

Todo o positivismo do dia
E junto a alegria
Largaram-me só

O que fiz
E o não-feito
O que diz?
Ah! Dor no peito

Sentir-se desfeito
Contrafeito
Malfeito
Cada ato e seu defeito
Envergonhado...

Por quê?
Por nada, não há explicar
Essa tristeza baixa à noite
Vem de súbito atormentar

Por mais que outros
Sintam-se assim neste momento
Por mais que haja consolação
Não ponho fé em palavras alheias
E o imo é partido em desfiguração

***

Magia, fantasia
Expressão do ser
Seria hiprocrisia
Não dizer...

Sentir-se só em companhia
Apesar de todos
Por que seguir vivendo?
O que impede de morrer
Neste instante?
Será que há mesmo
Algo importante,
Um caminho que seja por trilhar?

Quiçá o desatino ajude
Auxilie o despertar
O nascer d'uma força sáxea
Pétrea e inquebrantável...

Talvez seja somente
Uma desforra ilusória
Temporária.
Talvez não.

Se se procura viver cada átimo vivente
A ignorar a dor que sempre assola
O interior quebradiço, movediço
Passageiro, des-inteiriço
Mestiço...
Fica tudo nisso.

Um segundo a menos
A escrever uma verdade
Um clamor por liberdade
Por que chorar a seco,
Sem lágrimas?
Não há consolo.

***

Jà não vivo mais
Cadê meus pais?

Em vida não os agradeci
Mas hoje, pois, vos digo
Graças a vós eu nasci
Conheci um lar amigo

Passam-se anos, eu cresci
Que caminho hoje eu sigo?
Infância, puberdade, já revi
Trago cá dentro um inimigo...

Quando desejo o bem
Ele pratica o Mal.
Quando busco o além,
Nos meus olhos atira sal.

E dói, contorço-me todo
Me rejeito, me indigno
E tudo que eu respeitava
Com denodo
Fenece ao badalar do sino.

Treme, trepida, tirita
De frio
Fico duro, rijo, brita
Já não rio.

Sou nada.
Sei nada.
Que sou?

Que integridade, nada!
Sou cisma, cisão e divisão
Não enxergo mais a estrada
Caminho no breu da escuridão.

Alcanço o fundo do poço
Ermo, longínquo
Uma profundeza desalmada
Meu coração vira caroço
Minha esperança me é tirada

Dou voltas, reviro, escorrego
Procuro, incansável, suado
Afirmo a vida, não a nego
Mesmo exaurido, não creio em fado

Quero construir, reconstruir
Um castelo fortificante
Que o vento não possa ruir
Que me resguarde
Por um instante...

Quero firmeza, sobriedade
Um recanto seguro pra mim
Pode ser nesta cidade
Mas com jardim, flor
E capim
Um cantinho só
Pra mim.

Estenda-me a mão
Os braços; sim, abraço!
Venha, irmão!
Qual foi meu erro crasso?

Desejo aprender, assimilar
Apreender e estudar
Os aspectos da vida
Por que vivo?
Vou ainda desvendar.

Não se vá
Preciso de ti
Volte cá.

Há tantas lágrimas não derramadas...

***

Isto não é poesia.
Não é elegia
Não é romaria.
Não é.

É vida
É transtorno
É amálgama.
É.

É
Não é
É

Não desejo possuir
Não desejo ter nada só para mim
Não quero mais viver assim.

Que seja qualquer outro jeito que não esse
Que seja cada ato gravado em desinteresse.
Que seja meu único bem minha alma.

Sim, meu testamento virá vazio de materialidade
Veleidade
E repleto, recheado e rodeado de espiritualidade.
Eterealidade, intangibilidade.
Verdade.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Rosa Moderno, Guimarães brasileiro, João de todos

Para quem curte João Guimarães Rosa, seja por suas Primeiras Estórias, seu Grande Sertão Veredas ou por Sagarana, ou qualquer outra obra, porque, sendo dele, será sempre grande.

Claudio Willer, que escreveu o posfácio de Sagarana na edição de 1987, comenta brilhantemente sobre a obra e sobre o autor, em seus elementos literários, sua multiplicidade e diversidade. A amplitude de um João Guimarães, essa grande rosa que floresceu no Brasil.

Se Graciliano é seco, Rosa é multicolor, exuberante. Se um é marxista e alinhado ferrenho do esquerdismo, perseguido, chupado, macilento; o outro é místico, mítico, cabalístico, cosmogônico, fantástico-real. Portanto, moderno.

Para quem leu O Duelo e acha que o entendeu, recomendo que se leia o estudo de cinco ou seis páginas realizado por Marisa Martins Gama-Khalil, professora doutora da UFU. Nâo se assustem: ela uniu a abrangência à fácil compreensibilidade do texto. Realmente, ao lê-lo meus horizontes se alargaram. As inferências e interconexões que se podem fazer a partir desse conto são extensas. De uma amplidão admirável.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Bilinguagem

Life of Strife

How considerate of you
To not know how I feel
How considerate of me
Blind ... unable to see

Forever asking, mouth agape
Why am I a man
And not an ape

Why call me Sam
For heaven's sake!

***

Meanwhile
I see the stars
Put off sleep
Search the heavens
Down, down, deep

Oh, I'm asleep

***

How...
Sighs she
Thinks he

But the real question
Instead
Should be
Is it?

Merde.

***

Hot inside
Burning like hell
I am Lucifer
He who fell...

***

I've come
And I've gone
I've some
And I've none

...(meanwhile) the Sun shone...

***

Angels whe are
I did dare
I did stare
I was just
A star

***

Breathing is hard
Thinking too
I am back to the start
And so are you...

***

Listening
To the sound
Of waves
Dreaming
So astound
In caves

Telling
You
Hearing
Everything
But nothing
Coughing...

***

Apart
From the world
Is my condition...
This last word
Is my rendition...
I am a slave
I can be free
I am not
Then I can be
'Tis all blindsight
Then I can see...

Vida Aturdida
(tradução poética de 'Life of Strife')

Eu sei o quanto tu pensas em mim
Em não saber que me sinto assim
Quão ignorante sei que eu sou
Não enxergo... algo me cegou

Sempre a indagar - a boca abro,
Porque faço parte da humanidade
Por que não um macaco

Porque chama-me Mateus
Pela graça de Deus!

***

Entrementes
Eu vejo os astros
Empurro longe o sono
Perscruto a fundo o além
Aquém, aquém, a fundo

Oh, que sono profundo

***

De que maneira...
Em um murmúrio ela suspirou
E, por acaso, o mesmo ele pensou

Mas a pergunta deveria ser
Não é verdade
É isto a realidade?

Merde.

***

Por dentro me é tudo brasas
Queimando como o inferno
Sou o caído Lúcifer
O anjo que perdeu as asas

***

Pois eu vim
Pois parti
Tenho, sim
...Já perdi

...Enquanto isso, o Sol sorri...

***

Nós somos anjos
Eu, sim, ousei
Eu, sim, mirei
Fui justo
Somente uma estrela

***

O ar me vem espesso
Estou de volta ao começo
Pensar não me vem bem
É o recomeço
E a ti também...

***

Escutando atento,
No desalento,
Das ondas, o marulhar
Sonho lento...
Surpreendentes cavernas


Digo
A ti
Ouço
O Tudo
O Nada
E tuço... mudo.

***

Aparte
Do mundo estou
É esta minha condição...
Esta palavra que restou
É, pois, minha rendição...
Sou um escravo
Posso ainda me libertar
Nada sou
Posso então me tornar
É cego o meu olhar
Pois posso, agora, enxergar...

***
A minha intenção em escrever a poesia começou inexplicavelmente pelo título. Digo isto porque durante todos os anos de escola e curso de inglês e japonês, sempre foi de praxe escutar que se começa pelo corpo, pela idéia, e o título é um posterior acréscimo. Mas não foi assim desta vez. Em minha cabeça irrompeu "Life of Strife", e logo em seguida a tradução poética que eu conceberia: "Vida aturdida". Pois eu estava, horas depois, estando já praticamente esquecido aquele singular pensamento, assistindo a mais um bocado do belo - e incansavelmente lírico - filme Asas do Desejo (Der Himmel Über Berlin, 1987).

A inspiração que me trouxe o filme foi instantanemente a de escrever. Mas me vieram, apenas, feliz ou infelizmente, palavras e linhas em inglês. Pensava, transcrevia, e me admirava com o resultado. Não que esteja uma maestria, não que esteja perfeito. Bem longe disto; o que me assombra, no sentido positivo da palavra, é esse arroubo poético que, cada vez mais às claras, se manifesta. Que siga assim.

A tradução não foi menos trabalhada. Aliás, poucos são os autores que traduzem a própria obra. Tradutores , bem ou mal pagos, sempre haverá para isso, naturalmente pensamos. Somente que, em matéria de poesia e obras transbordantes de lirismo, não se dá o mesmo, não apenas por razões estéticas e estruturais. A questão da tradução poética eu pude finalmente entender por meio da seguinte analogia: o escultor esculpe com esmero sua Pietá marmórea. Será você capaz de reproduzi-la em todos os seus originais detalhes? Já sabes a resposta, e é exatamente por isso minha colocação. Superada essa frustração inicial, sobe à cabeça a pergunta: Que aspectos escolherá, sendo-lhe impossível reproduzir com fidelidade o todo, para poder, então, transcrever em outra língua a essência do que foi escrito? Há de separar, pois, o trigo do joio.

Traduzir uma poesia, penso eu, é recriá-la; uma segunda vez desenhá-la; pôr-se como um segundo autor. E, para isto, dá-lhe responsabilidade! Posso humildemente dizer que estava ciente do trabalho mental que teria pela frente. Ao invés de rebaixar os versos originais às minhas limitações, galguei todos os degraus necessários para me deixar à altura da originalidade de meus pensamentos. Não fui, pois, infiel em ponto algum ao sumo do que havia escrito em inglês, na tradução acima. Mudaram-se palavras, mudaram-se, em duas ocasiões, o número de linhas de uma estrofe? Sim, isto mudou. Quanto à essência, o mesmo não pode ser dito. Traduzir um poema, é retrabalhá-lo mentalmente. Às vezes escrevemos por inspiração, mas isso não basta. Sem compreender, é impossível traduzir dignamente. Se somos incapazes de reproduzir o original, atendo-se, não às suas infinitas peculiaridades, mas à alma daquele, então não o entendemos. Leia e compare. Confronte.

Descu..a.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Premiação

Quero dizer que a premiação do Concurso de Literatura do CEFET-SP, gravou-se em minha memória. Primeiro, porque a professora de Português e Redação Floripes organizou-a com a ajuda indispensável do grêmio - responsável pela distribuição das nossas gratificações "materiais". Se nós, os alunos, dependêssemos da direção da escola para a realização deste evento literário, o Concurso estaria certamente legado ao abandono. E palmas para o professor Vergueiro, que se imbuiu dos presentes dos quarto e quinto lugares.

Foi uma ótima celebração, encantável homenagem. Nós lemos nossos textos e escutamos os demais. Surpreendente a qualidade, admirável.

O texto com o qual fui premiado com o 1º lugar em prosa encontra-se aqui mesmo no blog (caso não tenhas lido): "Werther: A Epopéia do Amar"

Em poesia, obtive o 5º e o 9º lugares. O 5º foi devido a esta: "A Seta Poética" . E o 9º: "Ala, Ó Humanidade!"

É só.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Hoje e eternamente

Está um dia maravilhosamente quente. A campânula celeste exsuda e o mundo sorri. É mais um dia desta canícula primaveril, que recende a leituras e atividades ininterruptas. E sobre atividades ininterruptas: hoje fui à biblioteca, descobri que chegaram livros novos, novinhos em folha. Fausto, de Goethe, em uma tradução bilíngüe a partir do original alemão, em dois volumes, belos catataus que eu cogito ler em breve. Édipo em Colono, seqüência de Édipo Rei, em uma tradução direta do grego, também bilíngüe. O texto em grego, ao final, surpreendentemente vem impresso em páginas verdes, algo que eu nunca vira antes. Resume-se ao belo, visto que não tenho o mínimo conhecimento sequer das letras gregas utilizadas na física.

Enfim, encontrei uma novíssima tradução, por Rubens Figueiredo, de Anna Karenina (a grafia do nome sempre muda), algo como uma Madame Bovary russa. Ou assim ouvi dizer. Tendo já lido sobre os adultérios desta feminista de vanguarda criada com esmero por Gustave Flaubert, falta-me, então, ler sua correspondente eslava, levemente mais espessa, digamos, considerando que tem oitocentas páginas e é um livro bem grandinho, nem de bolso, nem de sobrecasaca. Peguei mesmo foi Memórias de um Sargento de Milícias, do Manuel Antônio de Almeida, o 'Um Brasileiro' que escreveu este seu único romance de renome, por seus joviais 22 anos. Oito anos depois morreria nos soçobros de uma embarcação, Hermes, que foi engolida pelo mar. Ironicamente, Hermes é o deus grego das travessias e das fronteiras, que dá uma mãozinha aos viajantes, viandantes. Parece que, no entanto, a mãozinha que o deus estendeu ao Manuel não foi lá de toda solícita. Malgrado nosso.

Peguei juntamente A Morte de Ivan Ilitch, obra do portentoso escritor russo Lev Tolstói, vertida para o português. Quem o traduziu foi Boris Schnaiderman, que ao lado dos consagrados Rubem Braga e Paulo Bezerra (este sendo o cogitado tradutor de Dostoiévski), forma a tríplice escol da tradução literária russa para o português de nossos tempos. Encontrei na biblioteca - quem diria - uma versão monumental e multicentipaginária de Ulysses, James Joyce. Este daí vou ler em ingês, me perdoem os excelsos e intrépidos tradutores.

Não contei, todavia, que ao me vislumbrar com tanto material para leitura e regozijo domiciliar, acabei metendo a carteirinha não sei donde, e foram-se 30 minutos de busca sem sabor nem cor. Até que... tcham tcham tcham! Achega-se do almoço o bem-disposto e bem-humorado "chefe" - ali da repartição bibliotecária - me oferecendo uma ajuda inprescindível. Verdade. Quando, após elogiáveis esforços, ele me entregou em mãos a "amarelinha", só comentou "Se fosse cobra...". Se fosse cobra não picava, não, esgoelava mesmo! Estava embaixo do meu nariz (literalmente, porque eu encontrava-me agachado a dedilhar aquela mesma prateleira onde a sacana se escondeu). E pimba! Ele a acha. Ufa. Quer esconder algo de alguém, ponha-o bem à vista. Ali é mais seguro que o cafofo de São Judas.

E o dia se resume a eu chegar em casa, comer mui pouco - já que não haveria sesta depois do almoço -, e ler como um maníaco primeiro O Veredicto, depois Um Artista da Fome e depois (!) Uma Carta a Meu Pai, todos deste Kafka cada vez mais atual e must-read. Acordei, ops, levantei com as pernas meio mambembes, claudicantes e bambas, mas sarapantado que eu estava com a velocidade vertiginosa, vale tudo, vale tudo!

E o dia bem que ainda não terminou, não é mesmo, Tolstói?

Responderás nas entrelinhas?

Bem o sei...

O Cravo escapuliu...
Veio, pois, a Rosa.
Abriu-se com um abraço
Apresentou-me um outro mundo
Nele ainda estou...
(Eh! me conquistou)

Ressurgiu o rubro Sol
E verdinha Esperança renasceu também
Resta agora ir adiante adiante.
Viandante, estudante
Mutante, pensante
Avante, xavante!

domingo, 12 de outubro de 2008

Sagarana

Escrevo, transcrevo...êe ensejo! Sagarana inspira:

Rabicundo, iracundo
Rubicundo, fecundo
êe Mundo!

"Não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma"

"Suspiro de vaca não arranca estaca"

"Para bezerro mal desmamado, cauda de vaca é maminha"

"Terra com sede, criação com fome."

"Garruchas há que sozinhas disparam"

"Pediu que o levassem para a cama; mas já era outro homem, porque chorar sério faz bem."

"-Melhor um pássaro voando do que dois na mão!... Eis a versão do provérbio, para uso dos fortes, capazes de ideal..."

"Quem fala muito, dá bom dia a cavalo."

***

Ô, arco-da-velha!
Arco-íris!
...Íris!

Quero ver o baú que escondes
Buscar em ti o tesouro
Bom ou mau agouro...

Buscar

As moedas e pedras
Brilhosas e opacas
O trigo e o joio
O branco e o preto
E todos os tons entremeados
...
As páginas e poesias
Cantigas e patifarias
Buscar-te-ei, ó tesouro!
...
Pois sobre mim há
A certeza de um céu
Campânula dos deuses;
E sob mim também jaz
A certidão de uma Terra
Úbere, vasta e vermelha
Eis o quinhão da vida!
...
Mas, compressada bem no meio
Entre essas duas, inexauríveis certezas,
Sobrecarrega-se de incertezas
Uma já incerta vida.
...
Vida vida
Vide vida.

***

Ai-jesus, ai-jesus!
Vem cá, xodó!
Que estavas a fazer
No cafundó de Judas?

***

Purrutaco, papagaio
Elefante, paquiderme
E nós, o que somos?

***

Pelas frinchas, pelas fisgas, pelas frestas
Pela vida, são incontáveis as arestas
Jovens, anciãos, pais, pessoas modestas
Mãos, pés, braços e pernas, todos os membros e testas
Compõem, nesta vida, dos ódios e amores, as arestas...

Na solidão, nos costumes, nas pândegas festas
No acordado e dormitado, todas as diárias sestas
Vê-se, da vida, suas multicolores arestas
Se as divisas ou não, é tu somente quem atestas...
Se não, tenhas tu a bondade de deixá-las imolestas

Pois a vil saudade bem as deixaria funestas
Vai! Deixa-me, tu, eu com minhas arestas!

***

Até breve que São Marcos me chama
Eu que não sou bobo vou é à cama
Sonhar com - êe...- Sagarana!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Do Nosocômio ao Manicômio, Nada há de Cômico

Cada porta aberta encerra,
Em si,
Um cômodo intrasponível.

Cada nova crua neo-guerra,
Em si,
É mais que incômodo,
É, antes, um indizível.

As bocarras hiantes de Zola,
Cavas e fundas,
E as liras de Khadji-Murat,
Tão profundas...
...Engoliram o mundo.

A transformar o belo platônico
Sua virtude clássica,
Em trapo imundo.

Numa realidade trágica,
Roupas de vagabundo,
Que Albert Einstein
Descobriu tarde demais...

Eclode, hoje, a Rosa do Povo,
Neste Crepúsculo dos Deuses,
Qual nem mesmo Nietzsche sonhara...

Surde da fenda, da greta invisível,
Esta verdade, pequena e potente,
Esta verdade amara:

A Guerra é inumana tara.

Taras Bulba já o sabia,
Gógol bem o mostrou.
A morte que infligia,
Certo dia o alcançou:

Seu Karma o decapitou.

A extensão deste brado,
Brasileiro, paulista, desafinado,
Não o deixa desmeritado.

Afortunado o que ouve a razão,
Em um mundo desarrazoado.
Abandona - duras custas - ilusão,
Dos grilhões, puxa,
Vê-se finalmente libertado!

Se Kafka intentou ruir
Um globo em fundamento falso;
Futuras gerações vieram destruir,
Desnudando o próprio pescoço
No cadafalso.

A morte no catafalco.

"Chega!", gritou,
E a velha ordem:
Desabou.

Para sempre?
Não.
Pois o que é eternamente?
Algo em si, porém, mudou.
Trans-figurou, trans-formou
...
Metamorfose