sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Depressão
Por que não escrevo textos há tanto tempo é uma questão interessante. Remete, primordialmente, ao fato de que as poesias me vieram naturalmente. Poeta não bate carteira, e eu sigo à risca tal afirmação. Entretanto, vou seguir o que propõe o título, sem mais delongas.
Depressão. No minidicionário Caldas Aulete (2004), o verbete vem assim definido: 1. Ação ou resultado de deprimir(-se). 2. Psiq. Estado patológico, de natureza orgânica e psicológica, que envolve abatimento, desânimo, inércia, às vezes ansiedade. 3. Redução, diminuição. 4. Concavidade pouco profunda. 5. Econ. Período de baixa atividade econômica com desemprego generalizado. 6. Geog. Terreno ou região emersa situados abaixo do nível do mar.
A acepção de depressão que este artigo concerne é a enumerada em 1 e 2. Posso discorrer sobre o assunto porque desde que entrei no CEFET-SP passei por umas boas fases depressivas. A primeira sensação que se tem é um forte desamparo. É um sentir-se nu perante o mundo todo, que te vê com maus olhos. Tudo isto, claro, pode ter um fundo de verdade, mas consiste em uma ilusão difícil de se quebrar. E há o problema de, quebrando-a muito rapidamente, partir-se junto. Sim, dividir-se em várias polaridades que, retesando cada uma a corda do seu ser para o seus respectivos lados, podem acabar por fragmentar-lhe indefinidamente.
Por sorte ou outra intervenção divina, não fui subjugado a tal ponto. No entanto, apesar de, na parcela majoritária das vezes, não haver seqüelas, as diversas fases depressivas que assolam a pessoa tendem a habitar os recônditos da mente, aquela porção inconsciente deslumbrada por Sigmund Freud, Josef Breuer, Carl Gustav Jung e tantos outros precursores da Psicologia Moderna. Aquilo que você não trata, um dia bater-lhe-á à porta. E tu acabarás por abri-la ao "desconhecido". Não te julgues forte quando isto ocorrer.
Se, por um lado, a depressão degenera e desconstrói o castelo construído por ti a árduos esforços, a superação desse estado proporciona um aprendizado indescritível. O estados pós-depressivos que se deram em mim foram marcados por sucesso na vida social - discurso em japonês em outubro de 2006, certificado de proficiência na língua inglesa em dezembro de 2007, e por aí vão. E, porque não, um refortalecimento interno, digno de um guerreiro que se reergue em pleno campo de batalha, em meio a flechas e ataques iminentes.
Assim, a pessoa que se recompõe internamente após períodos depressivos sente-se capaz de fazer frente aos mais diversos desafios que a vida certamente lhe proporcionará. Por isso, não encaro a depressão como uma doença, no sentido estrito da palavra. Nós, os depressivos, não somos doentes, físicos ou mentais. Não somos homogêneos, não partilhamos dos mesmos sintomas, das mesmas características. De forma alguma há um tratamento externo. A verdadeira cura depende do próprio depressivo - e isso não é auto-ajuda, meu bem.
Naquele dia em que parece instrasponível o obstáculo de levantar-se do leito em que jaz, o depressivo não terá a mão amiga para lhe ajudar. Pois, mesmo que haja, de fato, alguém próximo a si que o sustente naquele momento, nada exterior a si o impedirá de recair sobre a cama e pôr-se a chorar suas internas mágoas. A mesma mão amiga prova-se inimiga, porque pode infligir dependência. Não falo de dependência de drogas, anfetaminas e toda sorte que se produz atualmente. Digo da dependência daquele alguém que estendeu o braço para levantá-lo e, posteriormente, o ombro para os prantos que eventualmente se seguem.
Eu, como depressivo, não recorri, nem, reitero, recorrerei a drogas, farmacêuticas ou não, de qualquer tipo. Até porque estas produzirão o mesmo fenômeno de dependência. E isso é evitável. Direi como se restabelece em um período depressivo: por mais doloroso e sem sentido que seja a princípio, o depressivo deve, enfatizo, tomar muito sol. Por quê? Simples: porque nossos estados emocionais condizem com a bioquímica que se desenrola nos nossos corpos. Mente e corpo são inseparáveis. O sol dissolve pouco a pouco a desolação profunda que toma conta do depressivo.
Outro fator importante: jamais interromper leituras, caminhadas, exercícios físicos - de preferência intensos e conjugados, de forma a não "sentir-se feliz" unicamente por um deles. A meditação entra em cena: por dia, reservar 20 minutos de seu precioso tempo a observar a respiração. O exercício é o seguinte: de preferência, sente-se naquela famosa postura de asceta, com as pernas cruzadas. Não consegue manter-se por muito tempo na posição de lótus? Nem eu. Cruze, simplesmente as pernas, faça um círculo com o polegar e o indicador e estique os dedos restantes, apoiando as costas das mãos sobre os joelhos. Fique com a coluna ereta. No começo, bastam 10, 15 minutos. Depois, há veteranos que conseguem ficar longos períodos de tempo sentados desta maneira, sem cansaço físico. Tendo se sentado apropriadamente, o passo seguinte será dividir, mentalmente, sem qualquer interferência no processo físico de respirar (porque alterar deliberadamente a respiração pode ser danoso à saúde), o processo respiratório em três fases: a inspiração, a expiração e, o fundamental nesse tipo de meditação - o que funcionou comigo, condiz dizer -, o intervalo entre inspiração e expiração.
Em 2005 chegava periodicamente ao Objetivo Cantareira, meu colégio pré-Federal, um jornal gratuito de circulação mensal, chamado Magus. O primeiro exemplar explicou a importância da meditação de uma forma que comprovei logo após, nas dezenas de vezes que a empreendi: se você conseguir observar o intervalo compreendido entre inspirar e expirar, de forma total, um após o outro, conseguirá transcender corporealmente não só durante a meditação, mas após terminado o exercício. O efeito de relaxamento pode estender-se por minutos ou horas nas primeiras vezes. Consolidada a prática, entretanto, a meditação começa a fazer parte de sua vida, e o efeito persiste até no dormir. Meus sonhos de repente tornaram-se lúcidos e, ao acordar, passei a relembrá-los na íntegra, como se tivessem sido reais. E mais: cada sonho revelava o que se passava no meu interior, no porão do Inconsciente. Minha memória foi tornando-se impecável. Conseguia recapitular todos os eventos do dia, com sua particularidades e minúcias, com o significado que haviam tido para mim. Cada evento externo tornava-se decifrável com a prática diária da meditação. Passei a dormir plenas e restauradadoras 7 horas de sono. Sem tirar nem pôr. Há praticantes que dizem dormir meras 5h de sono, completamente restauradoras, sem um único bocejo ao longo do dia.
Passei a ler mais e assimilar mais do que lia. Minha disposição, física e mental, aumentou expressivamente. Muitas vezes acordei, após meditar antes de deitar, na mesmíssima posição em que me deitara na cama, sem qualquer alteração nos lençóis. E isto foi um baita sinal de que este salutar hábito diário estava desencadeando positivas mudanças em mim, uma vez que eu sempre havia me mexido em excesso durante o sono.
Bem, a meditação está sendo estudada cientificamente e já se comprovou que: as pessoas que meditam freqüentemente conseguem suportar dores insuportáveis para os não-praticantes; conseguem se concentrar em situações de barulho e ruídos que tirariam a concentração do mais compenetrado vestibulando pretendente à Medicina; dormem integralmente, alcançando todas as fases do sono mesmo repousando menos horas que o comumente recomendado pela medicina atual. Têm a liberação de hormônios causadores de estresse consideravelmente reduzida durante provas que envolvam números, perdendo o "medo à Matemática" e às ditas exatas. E, após longo período sem dormir as horas que lhes cabem, a simples prática da meditação consegue tirar grande parte dos sintomas - nervosismo, ansiedade, tiques nas pálpebras dos olhos, etc - das pessoas que a realizam - meros 10 minutos podem ser, de fato, milagrosos.
Tudo o que a ciência viria a comprovar após eu ter descoberto a prática meditativa em 2005, por meio do já citado jornal Magus, eu já havia sentido por mim mesmo através das minhas experiências.
Dediquei extenso espaço a descrever como se realiza a meditação e seus benefícios porque trato, especialmente neste artigo, da depressão. E quem medita, não entra em depressão. E quem entra em um estado depressivo, deve meditar. Sem esperar resultados, seguindo os passos de observação da respiração. A expectativa pode vir a estragar tudo. Não faça esta besteira. Não só com a meditação, mas nos demais aspectos de sua vida. Não há porque ficar antecipando isto e aquilo, sem ter bases concretas. Sem ter o feeling, o insight.
Outra questão biofisiológica da depressão: passe a comer saudavelmente. Sim, tire de seu cardápio tudo o que for industrializado. Peça à sua mãe ou faça você mesmo: compre frutas, verduras, mel, e capriche no bom arroz e feijão, refeições mais leves ao longo do dia e, se possível, descubra duas ou três posições básicas de Ioga. Pratico a Ioga, atualmente, de forma bem mais freqüente do que a meditação. A Ioga não deixa de ser uma forma de meditação, e a meditação não deixa de ser uma forma de Ioga. É uma pseudo-divisão criada por alguém que queria embolsar bastante grana com a abertura de "centros" - pagos, claro - separadamente destinados a essas práticas.
Você pode meditar em casa, fazer Ioga em casa e recuperar de sua depressão em casa. Tome sol, tire o açúcar de sua alimentação, não deixe de ler, de sair, de visitar lugares novos, de expandir sua mente.
Ao açúcar agora. Foi muito simples tirá-lo de minha alimentação. Eu tomava leite com Nescau/Toddy/Nesquik, enfim. Passei a tomar leite puro. Depois, descobri a coalhada. Compre leite do tipo C, ferva o litro, despeje-o numa vasilha de vidro (o plástico, quando em contato com líqüidos ou alimentos quentes, libera toxinas nocivas). Depois jogue um ou dois potinhos - daqueles de 200g - de iogurte natural (Batavo, Vigor, escolha qualquer um, porque todos dão certo) e dissolva. Deixe o recipiente parado de 16 a 24h fora da geladeira, e estará formada sua coalhada. Ponha mel e seja feliz. (Não esqueça de guardar o recipiente com o restante na geladeira).
Eu comia bastante bombons e doces de todo tipo. Substituí por banana, mamão papaia (bem mais doce que o formosa), e frutas afins. Sobremesa? Pra quê, seriamente? Coma frutas de sobremesa. Sucos: se você gosta de sucos, como eu, elimine, se já não o tiver feito, os artificiais de seu cardápio. Não têm valor nutritivo e podem ser facilmente substituídos por um suco naturalmente batido no liqüidificador com água e alguma fruta - goiaba, maçã, usufrua de sua imaginação. Quanto às vitaminas, leite com frutas mais pesadas, como banana, abacate, etc, são deliciosas sem açúcar, ou mesmo com adição de mel (colocando-o quando o liqüidificador estiver batendo, para não ficar no fundo). Eu me acostumei sem me lamentar.
Você não depende de nada industrializado. Nada. Barras de cereais? Leve duas maçãs e uma banana na mala e não se arrependerá.
Se você estiver depressivo e passar a seguir o pouco que consegui expressar aqui, verá que cuidar do corpo é cuidar da psique. E o contrário não deixa de ser verdadeiro.
P.S.: se você, caro leitor, estiver com a insanável dúvida em mente do porquê eu ter recomendado extrair o açúcar completamente da dieta, eu posso exlicá-lo bem sinteticamente: logo após comer um doce ou qualquer alimento adocicado com açúcar, você se sente feliz. Mas é um momento de felicidade que alcança o pico e decai rapidamente. Para um depressivo, o ápice da felicidade pode se dar durante o consumo de uma gigantesca barra de chocolate ou de uma lata de leite condensado (como eu já fiz incontáveis vezes). E depois, o que segue? Letargia. E o estado letárgico em um depressivo deve, e pode, ser evitado, com a adocicação por meio do mel. Adoçantes - com excessão do Stévia - são artificiais e não recomendados por um dos mais conhecidos médicos dos EUA, o dr. Mercola. Você deve estar incomodado com a questão: e quanto ao café? Bem, vou te dizer que nunca tentei com mel. E nem tentarei, pois o verdadeiro café revela seu forte e inigualável sabor, aroma e fragor quando puro. Encaro o café como o vinho: leia o rótulo do seu vinho e descobrirá que, ao contrário de muitas outras bebidas alcóolicas, ele não contém açúcar. E quem já bebericou a variedade Porto, deve estar ciente de como ele é doce. O café puro não é doce, mas só conhece o verdadeiro sabor do café quem o aprecia puro...
Boa sorte.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Auto-Ajuda
Não é vida.
Resolva e viva!
(a vida é tua)
[É Tua A Vida].
(...)
Esperei ansiosamente o momento
Mas ele nunca veio...
(por que não fui atrás?)
[Por Que Não Vou À Frente].
A Verdade Monacal
E me esnobes, por fim, com aspereza,
Ainda assim, não levarei a mal.
Perguntas-me por que tanta calma;
Não sabes tu, então,
Que o bom aprende a perdoar,
E perdoa no aprender?
Que sua calma vem d'alma
De sua vida de ermitão
Virtuoso, a meditar,
Observando o entardecer?
Eis a vida, meu irmão,
De um monge sacristão.
Não bebe, não fuma,
Não ostenta, é frugal.
A mente guia, a alma ruma,
Vida iôgue, lar natural.
Os olhos a atravessar
O mundo, tal navalha;
Por ele a enxergar,
Fosse este fina, crivada malha.
Eis a vida salutar,
Consagrada a meditar:
Seu ser a transcender
Do homem, chão parecer.
Tamanha é sua meta:
A mente segue arquitetando,
No imo santo do asceta,
Novos horizontes divisando.
Quiçá encontre estrada reta,
Ou prosseguirá meditando...
Parece pacata essa vida,
Mas, de lado, deixou família,
Dinheiro, o resto do mundo;
Mulheres, o podre e imundo.
Para assumir, então, nova lida:
Espadelar o íntimo, fazer partilha,
A imergir no âmago, a fundo,
Encontrará o Inconsciente Raimundo.
Orando, próximo a Deus,
A dorida genuflexão diária.
Não é vida extraordinária,
Mas são passos dignos seus...
Alcança a paz, monge.
(diz ele:)
"Ainda estou longe..."

terça-feira, 9 de setembro de 2008
Recôndito da Vida
Discreta, recatada
Belamente empedernida
Por fora os outros,
Por dentro a vida.
A vivência esculpida
Na temática florida
O vivente florilégio:
Cá não há sacrilégio!
Pois no meu lar
O paredão ganha vida
E o monótono ressoar
Adquire uma tonalidade vivida
A fusão das cores
De todas as flores
Que compõem esta vida
É suficiente para deslumbrar
O homem mais egrégio,
A vida mais sofrida!
Meu recôndito habitado
É o sonho estruturado
Sem medo, desbravado
Este horizonte deslindado
Está apenas começado...
O inconsciente mostra seu negro lado
O consciente, então, admite ter dormitado
Hã!
Enquanto isso, o ser seguiu indomado
Pendendo ora pra lá
Ora preste lado...
Não há problemas
O áporo será em breve sanado
Quão breve?
Eu não sei...
Nostradamus não sou!
O futuro se abre aos meus olhos
O passado será finalmente desvendado...
O sonho está somente iniciado!
Abram alas!
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Autobiografando
Benonina.
Mente branda,
Perna fina.
Eu puxei meu vô,
Armando.
Ímpeto vivo,
Coração pulsando.
A vó levou vida dura,
Campesina.
Ambos pelejaram longamente,
Laborando.
Não sou um nem outro,
Mas um pouco dos dois...
Meu nome é Fernando.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Zaratustra Renasce Poeta
Quiçá por linhas tortas,
Não sou eu Seu neto,
Para julgar palavras mortas...
Diz-se, de passagem,
Que o homem é filho
Mas - Olhai a paisagem!
Que ser vivo não é Seu filho?
Por que incluir a espécie humana
Qu'enquanto viva tudo profana?
Por quê? Por quê?
Vá, Narciso, plantar banana!
Se mudares, um dia, de idéia,
Serás, então, sem trégua perseguido,
Por vil turba multa, tal feroz alcatéia
Que te chamará de Anticristo renascido!
Ô, Zaratustra! Donde estás?
Dizei ao homem
Que não existe Satanás!
As nuvens que lhe fogem,
Sombras que o cobrem,
Ó, vil homem!
Que o tomem por vilão!
Mais vale a íntegra alma
Que dois pássaros a escapar da mão...
Labora, humanidade!
Assim jamais será em vão
Que pios membros da sociedade
Em breve te sepultarão...
Irás com a multidão desenfreada,
Perder-se, a esmo, no caminho?
Valerás mais, deixando lá a manada,
Percorrendo-o, quieto, a segui-lo sozinho...
Separai, pois, em vida, o trigo do joio:
Procurai entre os homens e mulheres
Aquele que será mútuo apoio
Em meio à guerras vis, porque reles
Vazias de significância ou razão
Carnificinas onde a alma
Do homem, mesmo estando calma,
Esvai-se-lhe pouco a pouco, em vão!
Ó, sacristão, dizei à multidão:
Não é a quantidade que define
Se tu és verdadeiro cristão!
Largar a boiada não é crime,
Mas a chave à tua salvação!
Ao menos salvarás tua consciência,
Largando a impensante aglomeração
De pessoas, sem a mínima sapiência
Do que o é se ter religião...
A apaziguada moradia desta
Jaz cá, no interior do coração
Não venha com a ignorante, dita jesta
De que a fé nada tem c'oa razão...
Vá bradar desatinos em tua sesta
Onde ouvir-te-ão sem acreditar
Pois dormindo, a murmurar,
Julgar-te-ão bêbedo da festa:
Dionísica, digna de Baco!
Regada a vinho e pêlos de sovaco...
De homens crentes -
Em um Deus bebericão!
Que caem embebidos e inconscientes,
Após mal conseguir(em) pronunciar
As palavras do que um dia constituiu
De fato uma oração...
Inspiradas pelas palavras de um Homem
Que mostrou à Humanidade o que é Amar
Somente para esta logo corromper a verdade
Transformando-a em utilidade, praticidade
Inverdade,
Futilidades...
De homens hereges
Que dão suas próprias matizes
Ao que falsamente designam: Religião.
Cospem asquerosas sobras à pedinte multidão
Que em vão procurará: vestígios de razão...
Verdade, coesão...
Foi-se tudo com a infeliz libada,
De uma corja canalha, safada!
Que engana os sedentos por religião,
Desconhecedores de que esta habita cada coração...
Mas, neste mundo, felizmente nada é em vão
Poucos, muitos, sabe-se lá?
Hão de acordar ante às bofetadas, sim, despertarão!
Talvez, assim, descobrirão
Não ter sido de toda má...
A ida desilusão...
Redação do ENEM 2008
A fiscalização deficitária da colossal floresta amazônica é, senão a principal, uma dentre as principais razões porque o desmate segue virtualmente indetectado.
Aponta-se, portanto, a premente necessidade de, lado a lado a uma fiscalização extensiva* e coordenada sob os auspícios do que há de mais moderno em padrões de tecnologia, implantar uma rigorosa aplicação de multas aos que insistam em desmatar a floresta outrora erroneamente concebida como o pulmão do planeta Terra.
Necessitar-se-ia, por conseguinte, de massiva veiculação, pelos meios midiáticos e, sobretudo, pelo âmbito televisivo, da firme e irrevogável medida para a salvaguarda deste patrimônio nacional e, em maior escala, global, até então aparentemente ignorado.
Cabe finalizar ressaltando as inumeráveis dificuldades e todos os obstáculos prestes a serem transpostos, seja no campo jurídico, ou no de policiamento. É chegado o momento em que o embate travado beirará o patriótico ou, sob outro ponto de vista nada antagônico, o verdadeiramente revolucionário.
*o termo correto, que me esqueceu na hora H era não extensiva, mas OSTENSIVA...
Elos & Anelos
Porque me contemplas com esgar?
Não sou mais que (as) ondas deste imenso mar...
Perturbas-te, então, o fenecer,
Inevitável, sucedendo o crescer?
Saiba, pois, que o que viça, há d'um dia perecer...
Quiçá desconheça o porvir,
Por mais garboso seu porte, ó vizir,
A inescapável morte... em teu ouvido irá zunir...
Majestoso seja ver o sol se pôr:
Da vida as labaredas hercúleas libertam seu fragor.
Estão - as emoções - contidas no inexprimível amor...
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Sanctum Sanctorum: A Guerra Santa é Cá Dentro

Deixa meu sacrário em paz!
Tu não quererás saber,
O que aqui jaz.
Tua curiosidade assaz,
Fá-lo em vão padecer,
Ó ser contumaz!
Não sabes, mesmo, o que faz,
Vá procurar viver,
Criatura pertinaz!
Teu rosto sangüíneo
E olhar perscrutador
Conhecem prazeres,
Ignorando a dor.
Aflige-se, no entanto.
Com matérias triviais,
Coisas vis sem encanto,
Que entoas em fúteis lais!
Que poeta queres ser,
Se morre em ti a vontade
De buscar o conhecer,
A calmaria na tempestade!
Não me diga:
"-É verdade."
Antes prossiga
No culto à inverdade.
Pois as argúcias que empregaste
Irão cobrir-te inteiro com taticumã
Tu não passas, hoje, de reles traste
E não te salvarás ímpio talismã!
Se aind'um dia disseres
"-Minha vida é vã!"
Deixarás de ser um alferes
Impostor, comedor de marrã!
Siga, pois, tua vida
O rubor já te largaste
A vergonha, já esquecida,
Dos inocentes que mataste!
Ó guerra rubra!
Evento Infame!
Qu'a História te cubra.
Não mais sangue derrame!
Rifles e fuzis
Assassinando civis!
Cadáveres chasqueados,
Adunados aos milhares na sarjeta,
As ordens seguidas, atroz matança
Por cruéis soldados fardados
Surde então a Esperança,
Da incólume e alheia greta
De corações humanos
Condenadores de Massacres!
Malferidos sentimentos
Vão tardar a recuperar
Devido aos crimes pardacentos,
Que seus donos foram impelidos a causar!
Novos olhos divisarão novos horizontes
Mas antes volverão aos crimes cometidos
Agônicas faúlhas saltar-lhe-ão aos montes
Para que os torturadores sejam jamais esquecidos!
O zinir das cigarras substituirá, então,
O zunir das violentas, cruentas balas
Os medos humanos enlear-se-ão
E a humanidade terá aprontado suas malas...
Os epígonos de regimes ditatoriais
Serão finalmente condenados
Às penas que lhes cabem
E os desalmados terão voz não mais...
Tendo uma vez sido despertados
Os altos brados dos que sabem!
O martírio cederá seu lúgubre lugar
A ações de homens, desta vez dotados de emoções
Profundas e menos evanescentes:
Entre elas o verdadeiro amar!
E cantar-se-ão belas e inolvidáveis canções!
Feitas por poetas, músicos e ascetas
Todos vestidos de azeviche, em forte luto
Por todos os heróis vitimados pelas setas
Que destruíram o mundo,
Mas não deixaram o ser humano mudo...
Quem viveu nesse período contristador
Sabe mais que nós sobre a perda e a dor
Infligidas em belicosidades sem qualquer valor...
Fulgurantes íris virão iluminar
Os pórticos outrora escancarados
Aos demônios do guerrear,
Tenazes, vilões e mascarados
Os demos que intentaram dominar
Todos os homens, analfabetos ou letrados!
Nesse comenos, o vozear humano gritará:
"-Liberdade dos conflitos, a nós duramente impingidos!"
E o tatalar nas árvores, o ruflar da ave que enfim gorjeará:
"-Luto aos homens e mulheres, e todos os civis falecidos,
Nesta Guerra Mundial!
O homem jura ad aeternum hoje: não mais matará!
As cruezas e os combates desferidos,
Não serão com o tempo esmaecidos,
Porque já não vive mais o homem bestial!
Declaro, por fim, neste momento final:
Terminam hoje as façanhas dos demos do Mal!"
E assim morreram os homens bestiais.
Com o renascimento de conscientes mortais.
Que souberam, finalmente, clamar, em voz alta,
Um sonoro, e inesquecível: Jamais!
Não Sei Que É Deus
Não posso dizer Adeus
Amigo, não é possível...
Os passos percalçados são meus...
Se tu me houvesse avisado
Eu de certo estaria preparado
Impassível, eu enfrentaria
Que quer que seja
Uma montanha eu escalaria
Embates, bravo, travaria!
É... por fim, o descanso...
Deixa-me, cá, a estar
Espadelo o linho da minha vida...
Uso estes últimos momentos,
Só para mim... enfim... por fim... ah, sim!
Mom
Mom,
We talked about everything,
But we never talked about Death...
Now it's too late,
You have met your fate,
And I will soon meet mine
It doesn't matter, at all,
For the sun will continue to shine...
Above our heads,
Physichally or not,
It will keep on burning
Lively, monstruosly hot...
And I will keep on living
On the sunny, hopeful spot...
And belting out, will exclaim: I have got!
What, exactly,
I simply don't know
Anything beyond:
I will reap what I presently sow
I will weep many times
Before I truly and innerly grow
Purer and simpler and truer
As the crystalline, pristine snow
Which by the red, smouldering fire
Beside the churning flames of desire...
Keeps my soul's unquenchable strength and glow
I can't worry at all, if it'll be fast,
If it'll be slow...
I will reap
What
I sow.
domingo, 24 de agosto de 2008
Não Gorjeiam, Não.
Quem dera,
Em minha terra, houvesse,
Tudo o que dizem
Lá existir!
Pois inexiste,
E andam tristes,
Os que falam
Sobr'o falso existir.
Pungente sobre o peito,
A mentira.
O despeito;
A ira do devir.
Pode(m)* rosnar, cachorrada,
Pois não é cá que há,
Nem lá quer irá haver!
Chega de inverdades.
Pois já aconteceu:
O que não era,
O que não foi.
E o que não será.
Sim, na minha terra,
Bem-te-vi nu'é sabiá.
Matraca é morta à estilingada,
E ronca-se bem após feijoada...
Caçoa-se à beça,
Nesta terra de bacharéis!
Ri-se às desbandeiradas;
Bebe-se garapa após mis pastéis...
E a saúde anda,
Lado a lado,
À saúva safadona.
Ela pica, a gente grita!
E logo tudo vira zona...
Estuda-se mal para virar o quê?
Talvez mais um estúpido em seriado de tevê...
Chora-se e magoa-se pelo passado,
Que, ilustre, segue desconhecido.
Rouba-se, faz-se lavagem monetária,
Embaixo do nariz, da plebe ordinária...
E cá estamos, eu e você,
Assistindo às olimpíadas na telinha,
Enquanto o gerúndio, analfabeto,
Mata a língua e espezinha.
O que outrora foi bonito,
Hoje não mais é:
Camões, estrangeiro, está morto!
Coelho ganhou renome!
É tão famoso! igual Pelé...
Literatura na escola:
Salvam-se poucos professores,
Letrados e sabidos,
Que sabem ensinar.
Tenho a sorte de ter aulas
Interessantes, neste Brasil,
Onde o vestibulando
Desvia-se, no Rio, de tiros de fuzil...
E em São Paulo, não me diga,
É assaltado saindo do metrô,
Isto quando não é espancada a aluna,
Por nazis que a confundiram, coitados, com prostituta,
Numa Laranja Mecânica viva e retrô!
Viva! às medalhas,
Que eu não conquistei!
Todas as alegrias
Por que, mesquinhas,
Minh'alma derramei...
São de ouro as medalhinhas,
De manteiga o coração,
Felicitamos os atletas:
Cujas verdadeiras metas,
Jamais se saberão...
Porque ignorância, cá nesta pátria,
Já virou sinônimo de erudição...
“Nós”, já não falamos.
É "A gente" a primeira pessoa do plural!
O “Vós”, esquartejamos, em praça pública...
"Tu" se conjuga errado lá pro Corcovado.
A Revolução dos Bichos chega, já, povoado!
O português será, logo, logo, ensinado no curral:
E a feijoada, que alegria! virá salina, salgada,
Bem feitinha pra suarmos,
Pelos poros,
O excedente sal...
Eis minha terra,
Como podes constatar!
Vive-se e morre,
Cedo ou tarde,
E a maioria das crianças desconhece:
O que é, de fato, estudar...
Tal é meu país,
Não veja o tronco, sem ver a raiz,
O Pau-Brasil dá que cor, mesmo?
Me disseram ser anis...
Um viva - a todos os Brasis!
Terras, onde o infeliz
Auto-afirma-se feliz;
Onde Pinóquios
Abundam!
Viva o nariz!
Mentirada danada,
Êe... Saúva safada!
Ah, que terra estudada,
Venha cá me visitar!
Cuidado! na esquina,
Que a exclusão social vai te pegar!
Gripe, aqui, é fichinha,
Febre amarela é para os fracos...
Contagiosa mesmo é a malandragem inata!
Pega ele, Macunaíma!
Que esse daí é gringo!
[gargalhadas histriônicas no fim da declamação]
* plural optativo
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Uma Pessoa de Lisboa
Lisboeta foi poeta.
Vida cumprida.
Vida sofrida...
(foto: Jefferson Pimenta - clique sobre ela para vê-la no tamanho real)
Poeta da Desilusão
Eu sou,
Tu és,
Ele é.
Não sou!
Não és.
Não é!
É tudo mentira...
Como afirmar que sou,
Se mudo dia-a-dia?
Se o "eu" que odeia já amou...
Se o qu'eu outrora disse
Agora, já esqueci.
E aquele que tu viste,
Não mais se encontra aqui...
A promessa se foi.
E o sonho também
...
Já não mais importa, Cloe,
Quem é quem.
Não há ninguém, cá, pra ouvi-la.
Pois tudo ressoa.
Em vão.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
"O Que Traduz em Verso o Sentimento do Belo"
Um poeta deve, sobretudo,
Conhecer a própria vida.
Seja esta a minha meta:
A poesia cumprida.
A vida poética
Não é vida bonita,
É vida vivida.
Não é ser um sonhador
Mas um ser observador...
A vida observada,
Transformada em poesia:
Do belo ou do feio
Sem revelar o anseio
Poético,
Singelo...
Austero.
Sem esmero.
Viver sem procurar ser feliz
Nem perguntar se é triste...
A vida, desta forma,
Não perderá sua beleza:
Encantadora
Desmistificadora
Sem ilusões.
Idealizações.
Viva!
Humanidade Revisitada
Silêncio,
Tétrico,
Num dia de Sol.
O arrebol,
Fenecendo;
E eu,
Quieto,
Irrequieto,
Cogitando,
No atol.
De esperanças,
Relembranças,
(In)Decisões
Que não tomei,
Pessoas
Que não amei,
Porque nunca as compreendi.
Bem sei
Que anedotas,
Como esta,
Não lhes interessarão.
Pois apenas são
Estórias,
Mal-contadas,
Vã recordação...
Os fatos que elas contam
Não merecem atenção.
São sucessões,
Transcorridas,
Alheias à realidade,
Estranhas à ficção.
Pessoas mal-amadas,
Em vão me julgarão.
Não sou mais
Que passagens rabiscadas
Daquele roto,
Ignoto manuscrito,
Atirado ao chão.
Linhas tortuosas
Daquele livro lá no canto:
Puído, carcomido, ignorado
À sombra, estremecente,
Tremeluzente,
De árvores nodosas
Que cobrem, tal o manto,
A fugaz memória
De um sonho inconquistado!
Que livro é este,
Senão a vida?
Que linhas são estas,
Senão os próprios fatos,
Viventes, mortuários,
Que, gradualmente,
A nós encobrirão?
As trincheiras
Do desconhecido,
Registradas
No manuscrito:
Inscritas, gravadas,
Sulcadas:
Esculpidas
No âmago humano,
Nos recônditos
De sua alma,
No pulsar
De seu coração!
...
As passagens recordadas
São evidências retomadas
De uma vida que,
Memorada,
Não foi vivida em vão!
Justaposição <--> Transição
...Transição
O sufoco,
Rouco,
Emudecido.
O louco,
Mouco,
Ensandecido.
Murmúrio,
Soco...
Coração partido.
Aspectos
Soltos,
D'um mundo cindido:
Facetas
Mil,
Deste ilustre desconhecido.
Seu nome é Terra,
Prazer.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Grande↑
Cambaio, em frente xiquexiques, mandacarus, quipás, catingueiras, baraúnas, sucupiras, imburanas, todo o universo de Fabiano abria-se e fechava-se ali.
Tomara que hoje não precise de pabulagem, rosnava. A reiúna que lhe pezunhara o pé machucava-o. Por dentro. O dunga da cidade ia se ver com ele da próxima vez. Não é porque sou cabra que tenho de ser preso como um banzeiro! espaçozinho onde mal cabe marrã, hã!
E o magote de plantas secas, espremidas, transforma-se de repente em uma porção de suçuaranas, gostosas de comer. Tão logo surge, desfaz-se. Fabiano capiongo, Fabiano cabisbaixo.
Voltar para casa de mãos abanando ia ser uma briga de chateação com Sinhá Vitória. A panela de losna, velha, fervendo à espera da caça. Sinhá Vitória ia ficar desapontada, o corrião de couro ia fazer as crianças chorar. E o céu sem cirros; mais desgraças por vir, o solo escanchado, sedento, o chape chape da percata¹, tudo isso deixando o cabra forte macambúzio.
¹percata= forma verbal de alpercata ou alpargata, (minidicionário Caldas Aulete:) 'sandália baixa, presa ao pé por tiras de pano ou de couro'. Percata é termo comumente falado no N.E. de MG, na zona rural. Assim como corrião, denominação em uso tanto em MG como BA, para cinto (dicionário Houaiss: 'cinto largo de couro com fivela').
Ser Tão
Do ser, tão seco, tão...desalmado.
Veredas
Só.
Solidão.
Sertão...
¹com borra= em grande quantidade
²lubrina= garoa
(expressões em uso no N.E. de MG)
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Buscai! (Ciclo II)
A dor que assola,
Amola,
E não consola.
O homem que vive,
Sobrevive,
E chora.
A mão que toca,
Sente,
Mas não vê.
O ouvido que,
Mudo, surdo
E inerte,
Ainda escuta: "Sê!"
A verdade que fere,
A mentira que corrompe,
A dualidade que rompe (com)
Puerilidades absolutistas...
A tristeza que não se faz presente,
Nem, pelo contrário, ausente;
Que os olhos não presentem,
Mas a alma - sobretudo - sente!
E ruge o leão,
As feras ignominiosas,
Verdades escandalosas,
Que, por magia própria,
Erguem-nos, ferozes, do vil e reles chão...
O braço erguido,
O brado ouvido,
O constante olvido,
Do sonho esmaecido...
Esquecido, olvidado,
O sonho nunca outrora conquistado.
Premente, no teu ser,
A vontade de crescer,
Extrapolar...
O ímpeto de viver!
Esquece-se, no entanto,
Que viver é sofrer...
E sofrer é viver.
E tu não compreendes
Como isto pode ser:
Que o homem só fica em pé
Após bravamente se reerguer...
Antes disso,
Nada pode o homem ser.
Não! ao menos não antes de sofrer!
Para, novamente, aprender
Como, enfim, se reerguer...
...
Quem dera teorias
Pudessem expressar
Todas as cruezas
Que temos, por nós mesmos,
De experienciar!
De ver,
Ouvir,
Auscultar,
Degustar,
Inspirar...
Esses mórbidos odores,
Que a alma humana
terá de suportar...
São todos eles meios
Pelos quais
Nossas saídas
Iremos encontrar...
Tateia-se pelo túnel escuro,
Ao som de risos cavos,
Aterradores, inumanos...
Entrevendo-se uma fresta
Atiramo-nos nela em vão...
Era somente uma miragem,
O vestígio de passada ilusão!
Ouve-se murmúrio humano,
Quase inaudível, indistingüível...
E já nos cria esperança
De um futuro auspicioso,
Porque melhor,
Embora austero...
É um futuro inperscrutável...
Renascem as dúvidas,
Nossas questões existenciais...
E o filho vai, pouco a pouco, se libertando
Para, logo ou não,
Descobrir que passou a vida,
Nada diferente de seus próprios pais...
Crendo que se libertou,
Em promessas levianas,
Que o enganaram,
E o deixaram louco, um mero doidivanas...
Crendo no absoluto irreal:
Que ele é homem,
E, ainda assim, imortal...
Grita o homem lunático: "Sou!"
Mas não és.
Se tu fosses,
Não gritarias,
Nem pensarias.
No teu imo,
certamente saberias...
Sem precisar te convenceres,
Por tantas hipocrisias
Que, desmascaradas,
Revelar-te-ão:
Todas as mil porcarias
Que acreditou!
Debalde,
Em vão!
Muçulmano, judeu, ateu, ou cristão,
Sejas tu de qualquer religião...
Tu abriste a porta,
Mas não enxergaste o portão:
Escancaraste a janela,
Para prender a própria mão.
E gritando,
Afirmar que ama,
E buscar, na montanha,
O Sermão.
Que nada te diz:
Porque não conheces,
E sempre te esqueces
Que acreditar
É trancafiar-se,
Indefinidamente,
Na hiante escuridão...
De sonhos,
Devaneios,
Desejos
E anseios.
Que nada condizem com
A Vontade,
Que nunca criaste
Em Si.
A mentira em que creste
Te levaste à pior morte existente:
À auto-depreciação:
O procurar alguém
Para dissipar a solidão;
O admirar as nuvens
Afundando-se na terra...
Errai, errai e aprendei!
Cuspai no pateticamente imodesto
"só sei que nada sei"
Pergunta-te, Honesto,
"Quem sou eu?"
E descubra!
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Cúpula da Vida
(Gárdonyi Géza[1863-1922], escritor húngaro)
...
..
.
Se algum momento de minha vida não foi em vão,
Eu não sei afirmá-lo;
Pois vivo estou e não penso em respirar.
E se algum momento valeu mais do que qualquer outro,
Isto quer dizer que só vivi alguns momentos.
O resto?
...
(O resto) Foi desperdiçado em vãos pensamentos.
.
..
...
Ai, s'eu pudesse resumir todas minha lágrimas em uma palavra, esta seria uma só, pois toda minha vida só valeu por ela: aprender. Mas para aprender eu sofro, eu choro e grito de raiva. Porque aprender dói, machuca e penetra meu âmago como uma navalha. E, ainda assim, não desisto de aprender. Não aprendendo, mais vale perecer.
.
..
...
Se eu amasse
Com a mesma intensidade
De minhas palavras,
Eu saberia o que é amar...
Isto somente mostra
Que acreditar em minhas palavras,
É perder-me: não mais voltar.
Isto revela
Que não sou o que digo,
Nem um poeta por escrever poesias.
Sou o que faço,
Mas o que faço?
Além de divagar e enrolar,
Pouco faço, mesmo nada;
Nada digno de se mencionar.
.
..
...
Volta e meia me arrependo
Do que fiz e deixei de fazer.
Mas à medida que vou aprendendo,
Vou deixando de lado o arrepender.
Se o amor fosse tão alcançável como o pintam,
Dele não se precisaria falar,
Nem mesmo enaltecê-lo...
Se fosse realmente fácil amar,
Haveria, pois, milhões de poesias a descrevê-lo?
...
Ah! Se amar de fato fosse
Tão simples como o acariciar dos cabelos...
Ninguém precisaria, nunca, sequer sonhar
Com o que se suspeita ser o amar...
.
..
...
Quero um amor
Quero uma amora
Quero um amor
Uma amora
Um amor
Namora,
Amora
Amor
Dor
...
..
.
Poesia Iugoslava Contemporânea
"dorme
duas tardias borboletas apressam-se rumo ao sol traiçoeiro
e com a vinda da noite desaparecerão
e duas belezas com elas também"
(autor: Duchán Mátitch[1898-1979])
POEMA DA GRAMA
"Estou deitado no alto gramado e penso indeterminadamente.
Uma formiga sobre meu joelho, como o homem sobre o monte.
Inquieta, a formiga está parada. Eu me calo. E esse é meu poema.
Completamente pensativo, estou deitado no gramado. Os fios de grama silvam pesadamente como pedra."
(autor: Stevan Raftchkovitch)
Submergindo em Nietzsche
(P.S.: manuscrito meu encontrado em meio a pilhas de papéis, datado de janeiro, provavelmente deste ano [2008])
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Life, Death and the Mystery of It All
What makes us feel so guilty, what is it that really affect our way of perceiving what we do unto others? If we analysed all our so-called mistakes and glitches, would we do any better the next time we were faced with the dilemmas of life? If we had all the knowledge necessary to remain upright in most situations of life, would that encourage others to search for all this knowldedge as well?
So far, with this plentiful of questions raised, I can't provide you with all the answers I should like to. However, I can tell you that living simple, that is, trying to remember you are a mere mortal in this conflictuous world, may really give you an insight into the hidden facets of your life.
What is it that keeps some men on good paths while many idulge helplessly an are lead astray? Mulling over life, death and the permeating and unavoidable reality of it all can be utterly mind-boggling.
Having asked som many questions and not having aswered any of them, I feel inclined to tell a little about 'me'self. As far as it may interest your insatiable curiosity, I am now 17 years old. Being a pubescent myself and not living in a state of hermitage, I have some grasp of what the world is about (or have I?).
Firstly, I have seen so many beautiful women, a sufficient number to please the eyes of all varieties of hot-blooded men. I've also been enamoured, but, incredibly for many, dismissed it all as a jolly silly child's thinking pattern. I don not have a job, but wot endlessly with the aim of filling the disturbing gaps of knowledge I see in myself.
If I have ever thought about death? Thinking about it now, not much, really, 'cause I am alive and hale and hearty for the moment. On second thoughts, I have already felt it passing by an inch when I was almost run over by cars, buses, motorcicles and vehicles alike. Those were really eye-openers, but, as with everything else in life, they tend to fall gradually in oblivion.
Practising the 'I am a mortal and will be dead the next moment' motto rendered me some breathtaking, attentful episodes, which made me do things I wouldn't have done otherwise.
Recognising the little that I know about the encompassing subject of study named life, I really feel I ought to take a breather to ponder on it properly...
Well, let's face it. We will all be dead one day, somehow, in a manner and date the huge majority of us simply can't predict, for the better or the worse. The benefit of taking this statement seriously is that it brings a most desirable question (instead of a misdirecting riposte): What would be my last action? What would I wish to be doing in the moment before Death clasped its hands and I parted from this beloved, though flawed, world?
I would light up!
(on the original manuscript: "written on the night before the CPE examination. May God bless me :-)" [this emoticon written by pencil, right below the text])
P.S.: What's God, anyway? Am I a blasphemer to raise this question, which lurks unnoticed deeply inside sanctimonious believers themselves?
Motes e reflexões (atualizado em 18/08)
"The puny pony
Rising its head
Was so beautiful!
oh! my lad..."
"The trough
On the farm
Was so rough...
Had no charm."
"Just an ordinary man. This, I surely am."
"Não existe certo ou errado. Existem, sim, infinitas, ou antes, incontáveis nuâncias entre o preto e o branco, entre o branco e o preto. Como seria possível pensar em (termos) absolutos sem (previamente) levar em conta as matizes e tonalidades que os separam, que os distingüem, e que, portanto, os definem?"
"A terra que piso já foi mil vezes antes palmilhada por outros homens. Entretanto, os passos agora são meus. E isso faz toda a diferença."
"A meditação torna a dor suportável."
"Pouco sei do verdadeiro... se o que sinto é real, se meus olhos não me traem, como saberia? Não tomarei como certo o que de fato não sei.."
"Aprendi que - para aprender - é preciso, inevitavelmente, sofrer. E o que é sofrer? Fazer tudo aquilo que não nos dá na telha: eis o que é sofrer."
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Mudança de paradigma(s)
Faço, entretanto, coisitas poucas que me apetecem, ao longo das horas em que me encontro acordado. Leio, por exemplo, Nicolai Gógol em qualquer transporte público. No momento, isto é. Estou, correntemente, a ler Cidade do Sossego, para depois ler O Capote (o livro da biblioteca cá perto de casa tem essa maravilhosa tradução lusitana, cheio de 'c's mudos e "sumptuosidades", hehe...).
Pois, então, também estou trabalhando seis dias por semana. Lá na Oca, caso tu não tenhas lido um dos artigos anteriores deste blog, nomeado Bossa na Oca. É isso, basicamente, o que faço. Fui para Pirituba hoje, ao quartel. Saí de casa às 5h42 e cheguei lá às 6h05. Mesmo assim só fui liberado às 12h15, e de volta soma-se mais uma hora. A ida foi rápida, considerando que minha mãe me levou de carro.
Em casa, agora, escrevo nos escassos momentos livres, porque às 16h, aproximadamente, estarei seguindo para o trampo, e chegarei em casa somente oito horas depois. Se tiver sorte, claro. Já amanhã acordo às 6h e rumo à escola. À escola que me acolheu em 2006, e da qual é-me impossível agora sair sem soltar alguns altos brados de alegria, haha. Tu não achaste que eu iria dizer "sem derramar algumas lágrimas", certo?
Caso tu não tenhas percebido, a nossa mais forte ingratidão vem em resposta a circunstâncias e pessoas nesta vida que nos apontaram uma forma diferente de enxergar tudo aquilo que nos circunda. Ou seja, pessoas e ocasiões que fizeram de nós não ladrões, mas melhores e mais argutos observadores. Situações e indivíduos que nos deixaram mais alertas, mais sagazes, menos ingênuos. Que, não raro, até mesmo tenham aberto nossos horizontes. Resumindo: pessoas e circunstâncias que nos ajudaram...
E a Federal foi (ham, ham: e [ainda] é) uma dessas grandes coisas que nos ocorrem e nos balouçam e nos chocam, e nos enraivecem e nos chacoalham. Mas, no fim, notamos que a vida não seria a mesma se este e aquele obstáculos não tivessem se entreposto entre nós e nossas metas . Porque, afinal, é superando-os que criamos, ou mesmo entrevemos, novas possibilidades em nossas breves vidas.
Como, por exemplo, o meu técnico. Nunca poderia ter imaginado que fosse abrir tantas portas e janelas nesta casinha que eu julgava ser particularmente tão exígua. Consegui um trabalho graças a ele, e conheci a maravilhosa amiga do meu amigo (do técnico), que se tornou, digamos, mais do que uma amiga. E fui escolhido, junto com uma pessoa que se tornou uma valiosa amiga, para apresentar o TCC da sala. E adquiri, finalmente, a sonhada auto-confiança em apresentações orais! O curioso é como tudo aquilo que nos provoca um grande bem acaba sempre vindo embalado em embrulhos tão árduos e penosos de se desvencilharem daquilo que eles contêm (ou assim o foi para mim), que chego a desacreditar-me ao ver tudo que obtive em poucos anos... nada que me compre o antídoto contra as toneladas de terra que me cobrirão em qualquer dia que eu venha a morrer, admitamos.
Mas em poucos anos eu descobri a alegria, sim, a alegria de viver. De colocar a cara ao mundo, e receber os devidos tapas. Nada que me infle de orgulho, porque tapas dóem e, freqüentemente, machucam, demorando para cicatrizar. Mas essas cicatrizes são sinais de lições aprendidas. Tudo tem seu tempo... que frase sábia. E não é assim com a vida? Eu tive o tempo de minha infância, agora nascem primos meus e eles estão vivenciando essa indispensável fase da vida... e cada coisa em seu lugar, e cada macaco em seu galho.
E, em todo esse tempo, eu aprendi uma lição especialmente dolorosa. Aprendi a não-amabilidade, quer dizer, o não sorrir ao receber um tapa na cara, um pisão no dedão, um soco no estômago - metaforicamente falando, óbvio. Aprendi a me abrir - com quem merece. Esta última foi uma das mais doridas lições, com certeza. Aprendi que para amar alguém não é preciso dizer "eu te amo". Ao contrário, as pessoas quem eu mais amei nesta vida, muitas das quais remanescem nesse patamar, nunca ouviram nem provavelmente escutarão tais palavras de mim. São palavras que me pesam demais, e simplesmente recusam-se a sair. Mas, por ações, o amor fica mais belo. Por meio de gestos, ele perde a efemeridade verbal... basta escolher entre os pólos antagônicos: "verborragiar" ou agir, em nome do amor? Eu escolhi agir.
Aprendi, portanto, que um gesto de amor vale mais do que mil palavras.
E tu, o que aprendeste? Comenta, anda.
sábado, 2 de agosto de 2008
Texto Curatorial
TEXTO CURATORIAL
Prisão. Penitenciária. Presídio. Cadeia. Xadrez. Casa de Detenção. Tantos nomes para denominar uma realidade freqüentemente ignorada. Só conhece quem lá dentro está.
O Museu Virtual Carandiru lança esse empreendimento, resgatando o significado dos valiosos resqüícios que sobraram daquele que, em seus tempos "áureos", foi considerado o maior centro penitenciário da América Latina.
Há, por exemplo, o muro de 10 metros de altura sobre o qual pode-se caminhar, no Parque da Juventude. É lá também que se encontram as ruínas do Carandiru II, extensão do presídio nunca concretizada. Na Escola Técnica Parque da Juventude é possível visitar três celas recriadas a partir das originais, com portas autênticas, nas quais identificam-se inscrições e pinturas. São Jorge e o Dragão, Salmo de Davi, um grande olho aberto: imagens e palavras que fomentam reflexões, debates, reconceitualização. Sobre o forro de três salas, foram descobertas três pinturas: uma bandeira da Inglaterra, a outra dos Estados Unidos da América, e, por fim, um adesivo de cunho artístico retratando um joão-de-barro.
Tais são os achados. Poucos, numericamente, mas grandes por sua própria natureza. Preservar o passado histórico-social para o presente é resguardá-lo para as próximas gerações.
Depoimento
DEPOIMENTO
Ao caminhar sobre o muro que sobrou do Centro de Detenção Carandiru, em um dia frio, não senti nada em particular. Após pensar em escrever este depoimento, no entanto, tentei me colocar na posição dos guardas do presídio, realizando a escolta diária, vendo tudo que ocorria no pátio de cima, como que distanciado da realidade dos presos.
Sobre encontrar-me dentro de uma cela, uma só palavra poderia descrever prolixamente a experiência: medo. Medo de estar trancafiado em um cubículo, com meus movimentos restritos e ao lado de estranhos. O que seria olhar pela janela vendo as pessoas indo e vindo livremente no “mundo externo” estando eu fechado dentro de quatro paredes e um teto, opressivos, cerceantes, vigilantes, onipresentes...
O olho. Um grande olho eternamente aberto, fixo em mim. Temerário, amedrontador. São Jorge e o Dragão: o bravo cavaleiro lutando contra um inimigo formidável, soltando labaredas pavorosas. Com apenas uma lança e muita coragem, ele o enfrenta valente. Se não está tão destemido como parece, ao menos o aparenta – e ao enfrentar um inimigo, nomeadamente a prisão, é realmente isso que importa. O Salmo de Davi: esperançoso, religioso. Quem o escreveu sabia que, ali dentro, quando tudo parecesse perdido e o inimigo, imbatível, somente o salmo poderia trazer-lhe o reconforto exigido para peitar bravamente o embate.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
(Re)encontros
O fato é que este ancião olhou-me nos olhos com uma profundidade que eu julgava ser possível somente entre os membros da minha própria família. Eu sei que ele me conhecia, e eu também. E dentro de mim ressoou esta nota, este insight, de forma tão avassaladora, ipactando-me tal qual o ribombar do trovão que Rip Van Winkle ouvira em sua bad trip mascarada de bebedeira entre anões.
Descendo em minha destinação, sentei-me e desenhei, estranhamente com a mão esquerda. Sim, sou destro, ou até então sempre o fora. Minha inabilidade sestrosa prejudicou os traços de forma tão insignificante que me assustou: eu acabara de esboçar o cabelo, o chapéu e, claro, o rosto do velho sino-brasileiro, denotando sua peculiaridade fascinante. Era um rosto que pedia observação, exigindo, por outro lado, pertinaz argúcia para ser decifrado. Era um rosto que se destacava entre multidões.
Eu perdi o cróqui e perdi de vista também o senhor. Mas cabe notar que foi depois desse evento que eu percebi ter habilidades que me haviam passado desapercebidas até então, com o braço e a perna esquerdos. Mais um encontro inesperado e particular. E, lógico, único.
Ciclo I (modificado em 02/08 e 10/08)
O que se passa no coração,
Não poderia me esquecer
De abordar a solidão.
Sim, a solidão:
O sentir-se sozinho,
Olvidado pelo mundo
O sentir-se efêmero
Descartável, temporário
O germinal de trigais não meus...
O não saber o próprio caminho
Aquele que se descobre somente perscrutando a fundo
Os âmagos da memória,
A própria história;
A minha vida,
A tua vida.
A experiência contida
Em uma memória fragmentada, partida...
Ao me encontrar sozinho,
Esqueço-me de quem eu sou para os outros,
O que represento, aquele detestável papel,
A conexão com a Terra, em antagonismo ao Céu,
Até mesmo onde nasci, o meu narcísico ninho.
Após deixar de lado tais preocupações, vago horas em pensamentos soltos...
Ao encontrar-me sozinho,
Deixo, por um momento, de ser o "animal social"...
E é quando me vejo tal como sou...
É legal sorrir, é bonito chorar
Mas se a vida fosse apenas rir
Seria um detalhe prescindível a nossa infância
De brincadeiras, descobertas, amizades e carinho.
Seriam desnecessárias todas as etapas de auto-descoberta,
Igualmente ridículo definirmos futuras metas...
Seria tudo muito simples
E ao mesmo tempo obscuro
Seria um viver constante sobre o muro
Na indecisão, sob as presas do instinto
Animal, anti-social...
A aspereza seria a marca humana
Ou melhor, desumana...
A frieza seria a saída sã
Para uma vida interminavelmente insana...
A crueldade seria facilmente aceita,
E todas as religiões se mesclariam,
Para formar uma satânica e diabólica seita...
Enquanto isso, algo ou alguém, que não nós,
Sagazmente nossa fúria aproveita...
Nossos medos constantemente espreita...
Porque é tudo muito civilizado, tecnocrata,
Qualquer um sendo taxado a esmo de psicopata,
Quando nem sequer sabemos...
Nos virar nesta escura e perversa mata...
Esta selva fomenta mesmo a ignorância
Fazendo-nos viver numa eterna ânsia
De sermos mais, de se ter sempre mais e mais e mais...
Sem sequer questionarmos que anseio é este
Que nos faz morrer sem quase nada conhecer...
Se a vida fosse, enfim, tão plana,
Já se poderia crescer adulto;
Já se poderia nascer inteligente.
Mas não é assim...
O fruto amadurece, mesmo,
Para cair de maduro.
Se a pancada for mais forte que o fruto,
Nascerão outros:
Nenhum igual a ti;
Nenhum igual a mim;
Mas a vida, em si,
Sempre foi assim.
O homem nasce,
Cresce, tem sua prole.
Depois adoece,
Finalmente morre.
O homem se orgulha
De sua insignificante hombridade
Do teor humano que há em si
Mas que, uma vez determinado
Fecha portas e janelas
Tendo seu espírito sobrecarregado
Por uma perene infelicidade...
Resta ao ser humano
A angústia de não saber;
De querer ser, crescer;
De desejar melhor se conhecer...
Mas a lembrança,
Tal qual a estrela,
Rutila e brilha e cintila,
No perene relembrar
De memórias nossas,
E alheias...
Aprende-se,
Passa-se o aprendizado adiante.
Como quem sente,
A vida, dia-a-dia,
Ofuscando seu vigor,
Perdendo a vivacidade,
Na tristeza ou no amor...
Até que, num belo dia,
Sendo ida a mocidade
O primor, que outrora ardia
Vai-se,
Fechando o ciclo
Mais uma vez...
Meus amigos, minhas glórias
Poemas lidos, contos, histórias(/estórias)...
Cada segundo, uma eternidade
Esta vida, este mundo...
Por dentro a força de viver
Por fora a opacidade...
Não importa o que te digam:
O homem não sabe o que é amar
Mesmo que as más línguas profiram
Que o homem nasceu pra procriar...
Se tu tivesses nascido pra procriar
Teus pais o teriam tido,
figurantes de um terrível ciclo,
Ferida aberta que nunca irá fechar...
Ciclo II
sábado, 26 de julho de 2008
Vida poética implica vida boêmia? (modificado em 13/08)
E beber também,
Como manter o bom tom,
Se a produtividade não se mantém?
Se o ler é insubstituível
E o bebericar agradável,
O conciliar incompatível
É uma ironia formidável...
Se tu sais para beber
E passas tempo fora,
Deixas obviamente de (nessas horas) ler,
Postergando o efêmero agora...
Mas enclausurar-se
Não é lá saudável,
Enquanto o sangue novo viceja;
Embora embebedar-se,
Sendo uma experiência encantável,
Igualmente salutar não o seja...
Saia, beba e volte!
Leia embebido em teu lar!
Caia, ceda e solte!
| | Pare | |
Se no fim, te empanzinar...
Eu, por minha vez, continurei lendo sóbrio...=/
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Legítima defesa (com direito a aspas e ponto de interrogação)
Sua advertência foi feliz, porém breve. Mais adiante, os menores descem, estranhamente silenciosos e discretos. Cinco segundos depois uma mulher que passara até então desapercebida grita, em um timbre chocante, desesperado: "Cadê minha bolsa? Gente! Eles levaram minha bolsa!!". Pois é. Covardia é a marca desses garotos marginalizados pela sociedade. Mas há uma coisa que urge para ser expressa: se eles agem dessa maneira, continuarão marginalizados e serão os futuros abandonados pela desigual sociedade brasileira. E eu, pessoalmente, não tenho compaixão por eles. Eu labuto até nos finais de semana para receber meu tostão, em contraposição premente a eles. Eu trampo seis dias por semana e vou me deixar ser furtado por quatro concidadãos que nem 12 anos têm? Nem a pau.
Se o cara estiver armado eu entrego tudo. Mas essa pirralhada não vai me levar a merreca que suei tanto para ganhar em um mês inteiro numa jogatina de sorte ou azar. Desejei com todas as minhas forças não ter passado na catraca e ter visto a cena da bolsa desaparecendo fugazmente nas mãos daqueles malandros. E ai deles se eu presenciasse essa ação torpe. Que me chamem de justiceiro. Eu tenho a força e o tae kwon do na veia. Não vou ficar calado diante de uma covardia gritante como essa. Por que eles não roubaram um homem forte? Porque são covardes, porque não tomam riscos. Mas em legítima defesa eu faço questão de tomar os meus riscos. Porque somente quem trabalha sabe como é difícil ganhar o pão de cada dia.
Meu pai nasceu pobre, na roça, na seca, à luz do lampião. Ao sereno das estrelas, ao cantar da maritaca. Sob sol escaldante, estudando de manhã e catando algodão em campos alheios à tarde. Ou moendo cana quando a colheita de algodão terminava. Ou batendo a enchada quando a colheita de cana-de-açúcar findava. E sou filho de meu pai.¹ E estudo e trabalho, e trabalho e estudo, tal como ele. Meu suor não será em vão: sou um bom trabalhador, assim como todos meus companheiros e companheiras de trabalho. Onde está a lógica de roubar um trabalhador? Pergunto-lhe: onde está tal lógica? Suamos tanto para amealhar ninharias, para, no final das contas, virarmos alvos de crianças a quem policiais pouco podem fazer (e não sou a favor de baixarem a maioridade penal, vale dizer)? Que se forem pegas no ato serão mandadas para uma Fundação Casa (ex-"Febém") ou Funabem da vida? Onde não há qualquer possibilidade de conscientização, de vida melhor, de ampliação de perspectivas, de preparo à vida profissional, de aprimoramento escolar ou o que seja??
Há algo de muito errado nisso tudo. Tem um elefante branco morto em meio ao nosso País e não notamos o odor putrefato que a carcaça do mamute exala. Estamos a esmo buscando fragrâncias de rosas e girassóis, sem darmos conta que nos aprisionamos, inelutavelmente, em um lodaçal hiante, em uma areia movediça ameaçadora, porque se torna cada vez mais próxima a nossa vez. Uma máquina burocrática que marginaliza. Eis nosso governo. Escolas sem professores, alunos sem preparo para respeitarem um professor. Eis nossa sociedade. Não é uma sociedade da cultura, mas uma sociedade da aculturação. Têm cultura uma minoria, conquanto outros vêem-se sem qualquer futuro.
É uma puta injustiça social. E quem se fode somos nós. Viva la mierda. Você pisa nela, mesmo sem sair de casa. Não adianta tapar o nariz. Seu calçado tem furos e brechas, e seu pé já entrou fundo. Prepare-se: eis o nosso horizonte brilhante, como país subdesenvolvido, ops, desculpa, "em desenvolvimento". Sim, desenvolvemo-nos, rumo ao buraco onde deveria estar a boca-de-lobo... mas esta também foi roubada, meus caros... chega de hipocrisia. Na Alemanha nazista foi assim: começaram pelos judeus. Tudo bem se você fosse homossexual, eram só aqueles gananciosos e sovinas que estavam sendo enjaulados em guetos, mesmo, não é? Pois, em seguida foram os ciganos. Tudo bem, eles também são um "povo sem pátria", "sem eira nem beira", sem local fixo, "sem nacionalidade", sem "citizenship"(cidadania), não? Mas quando chegarem a você, também não há do que reclamar. Quando baterem à sua porta, não adianta esse álibi mentiroso de que foi repentino, porque não foi. Foi tudo muito gradual, para dizer verdade. Mas a merda sempre cheira quando menos se espera, nas horas mais desagradáveis. E assim é com a injustiça. Mascarada, mas sempre nas entrelinhas, para quem as lê, isto é. Sempre subjacente, subentendida, para quem liga os pontos aparentemente desconexos, obviamente. Implícita, insciente? Pode até ser. Dizer que ela não estava lá quando tu olhaste não lhe servirá de guarda... irá, pelo contrário, deixar-te ainda mais furibundo por não tê-la entrevisto antes. Ela sempre esteve lá, não importa o que diga em tua "legítima defesa". Ponho entre aspas, nesta altura, porque no calor do momento as feras dentro de nós podem ser soltas, mas agora não estou ameaçado, quase encontrando-me conformado, provavelmente como você está agora, confortavelmente posicionado em frente à sua telinha.
O que se esconde de nós? Somente aquilo que não queremos ver. Procure ver aquilo que te perturba. Antes que tape teu campo de visão e te deixe sem alternativas. É tão fácil ignorar... "ignorance is bliss", como já disse algum sábio. O mensageiro morre, a mensagem teima, e fica, e sobrevive. Mas as chamas do fogo mantêm-se vivas com o auxílio do fole. Está ele em suas mãos, agora? Ou tu estás deixando as cinzas obscurecerem o que ainda resta de humano dentro de ti?
Ah, uma observação cabível: antes de me julgar como "justiceiro", ponha-se em meu lugar. Todos os fatos foram descritos, tal como aconteceram. É muito fácil julgar a torto e a direito, não sendo estando você na cama de pregos (não adianta dizer que a massa corporal se distribui, lorota). A afirmação: "defender-se é legítimo" é praticamente indubitável. Mas e se isso colocasse, digamos, sua própria vida em risco? Fá-lo-ia mesmo assim? Última nota: não, a imagem de um herói não é carapuça que me sirva. Talvez sirva-lhe bem. Contudo, como o filme Batman: Cavaleiro das Trevas(2008) já evidentemente demonstra, um herói tende mais à opacidade que aos holofotes sensacionalistas. O verdadeiro herói nunca foi flagrado em ação, porque esquecido, porque visto como lunático anarquista. De qualquer forma, o "verdadeiro", em uma mídia que, sedenta por sexualidade facilmente explorável, põe em destaque a bunda da Gisele Bündchen ao invés de retratar o que acontece nos morros do Rio de Janeiro, é o tesouro dos piratas a ser desenterrado por bravas almas nesses - absurdamente - irônicos "Tempos Modernos"....
É, Charles Chaplin, você mostrou a piada. E muitos sentam-se sisudamente sobre seus supositórios diários sem dar-se conta que nasceram, e morrerão, como tolos. Como pólvora de canhão...
¹Não vou dizer que me orgulho de ser seu filho: chega de clichês bonitos de serem declamados em viva voz, mas inassumíveis quando ninguém encontra-se perto para escutar os falsos brados. Basta-me dizer sua história, porque isto mostra, sobretudo, que - por meio de meus inestimáveis diálogos com meu pai - de sua vida sofrida depreendi lições que não precisarei aprender na marra, tal como foi no seu caso.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
"Sonhar!"
"Para mim, sim, é preciso sonhar. Os sonhos são molas propulsoras para nos aperfeiçoarmos. Simbolizam as perspectivas, as metas de cada um.
Com o intuito de deixarmos de ser pequenos homens e tornarmo-nos grandes homens (como já dizia Chaplin), realizaremos o que a alma tanto anseia, e isto é metanóia (como Jesus disse).
Com os sonhos a serem idealizados, viveremos no presente e tornar-nos-emos os homens de amanhã.
Os sonhos nos impedem de abdicar a jornada e de virarmos as costas ao futuro, regressando ao passado.
Os sonhos vão além do tempo, do espaço, das barreiras e dos bloqueios físicos ou mentais.
Os sonhos são a pura energia. Aquilo que nos manterá no presente, tornar-nos-á humildes e singelos por dentro, e com mais disposição a aprender, avançar, não estagnar.
Fará de nossos corpos veículos, ou seja, o mensageiro, e de nossas almas a mola, o impulso consciente e confiável, isto é, a mensagem sacra, divina.
Aqueles que buscarem a Deus serão como São Francisco, vê-lo-ão em todas as coisas e alcançarão a verdade. Enxergarão a unidade na diversidade, aprenderão a amar a tudo e a todos, pois tudo o que há são faces de Deus.
Mas o que conecta os sonhos a Deus?
A resposta é serem os sonhos os que farão com que continuemos no caminho puro e contínuo, o qual nos leva a Deus, a compreender a vida, a tudo, a todos."
Comentário: quando digo Deus, não me refiro à entidade reverenciada por religiões afins, que abundam por aí. Não sou, por outro lado, materialista. Algo que chega bem perto da minha concepção de uma força maior pode ser trazido à tona com alguns versos (in: Poemas Inconjuntos) de um dos heterônimos de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro:
(...)
"Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade."
(...)
"Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm."
"Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te qurereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!"
Ou, como diz outro heterônimo de Fernando Pessoa, Ricardo Reis (in: Odes):
"Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias."
Ou Alberto Caeiro, na parte V d'O Guardador de Rebanhos:
"Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos."
Um passante certa vez quis dogmatizar Caeiro. Quis depreender algo inexistente do vento. A resposta direta do bosquímano deve tê-lo enraivecido (in: O Guardador de Rebanhos, parte X):
"Olá, Guardador de Rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"
"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que diz?"
"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram."
"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."
Se vez ou outra encontro-me infeliz, basta-me recordar do que disse Alberto Caeiro (in: O Guardador de Rebanhos, parte XXI):
(...)
"[...]eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade como felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva (...)"
Amigos (reestruturado em 13/08)
Amizade...
Sinceridade?
Amigos...
Na mentira?
Na verdade!
Sem saudade ou ira,
Estamos sempre aí, compadres!
Queremos crescer e brincar!
À nossa eterna saúde brindar!
Rever amigos,
Outrora inimigos...
Infantes graúdos,
Estamos crescidos!
A amizade, honestidade...
Segue junto à vontade,
Desejo de entender,
Ímpeto de amar!
Emocionante reencontrá-los!
Prazeroso abraçá-los!
É tudo revê-los!
No coração sempre tê-los!
Ter amigos assim,
É poder enfim dizer: sei que é amizade!
Tão honrável tê-los ao lado.
Se entre vós e mim
A imensidão d'um feroz pego nos distasse
Atrevessá-lo-ia a nado!
Não importa quão longe,
Pouco sei da distância.
Citadino ou monge,
Foi feliz minh'infância!
Tendo-os pert'ou não,
Do afago, da mão
Será sempre certo
Tê-los no coração...
A vida, serena,
Corredia, pacata.
Em Samp'ou Lorena,
Amizade sensata.
A alm'anda grata
As pernas se vão leves
Em terr'ou regata,
Venham chuvas! Ou neves...
Porque tenho algo,
Uma coisa para dizer
O peixe que salgo,
Cacei-o pra sobreviver.
Ao pescá-lo lembrei-me
De todos vocês
Qu'há não muit'encontrei
Há anos ou mês...
terça-feira, 22 de julho de 2008
Amor
Um dos dois está namorando com ela e o outro não sabia que havia outro que gostava daquela mesma menina. Ele entra em desespero porque ela supostamente deveria ser SUA namorada. Aliás, ele amava tanto ela, não é mesmo?
Ou pelo menos acreditava amar. No tempo livre que ele tinha entre a escola e o técnico ele fazia a lição. E depois? Dedicava-se a escrever e pensar em poesias para sua "amada". Bom, mesmo assim, ela ficou com outro, né.... Mas por quê? Por que eles não ficaram juntos, mesmo ele gostando tanto dela? Então quer dizer que para cada casal que 'realiza' seu amor, há pessoas que ficam para trás, pois, aliás, o amor é monogâmico, certo? Quer dizer que, se um ama o outro, acabou para os demais, uma vez que o amor é restringido a no máximo duas pessoas, não é mesmo? Ué, o que era aquele amor que ele sentia, então? Uma ilusão, apenas? E todos os sentimentos tenros e bonitos e todas as poesias que ele gastara tanto tempo e tanta energia escrevendo, acreditando profundamente em tudo que fazia, porque ele achava que era tudo para ela....O que acontece com tudo isso? Lixo, apenas uma memória? Meu Deus, e a garota nem era tão bonita assim, no meio tempo outras quiseram ficar com ele e ele as recusou, porque ele acreditava que aquela era a menina da vida dele, que valia a pena deixar de ficar com as outras, mesmo sendo elas mais bonitas, porque aquela era A Menina, não era uma qualquer......
Mas ele se enganou, não é mesmo? E no final, ele concluiu que o amor é egoísta, porque ao mesmo tempo que você ama uma pessoa, você é obrigado a excluir diversas outras que crêem te amar também. Após ter refletido sobre o quanto ele errara em amar a garota errada, o quanto ele errara em olhá-la, em observá-la, em dedicar seu tempo a escrever poesias em inglês e em português para aquele anjo, aquela beldade que ele imaginava ser de outro mundo, ela o recusou.....
Mas será que ela chegou sequer a pensar no que ele fez após aquilo? Ele se matou....ele se matou. Como o amor é egoísta. Ela nem sequer ligou para a morte dele....mas se fosse a morte do namorado...ou talvez nem a do namorado. Quem sabe, é possível que ela tinha um coração de ferro, e nunca deu a mínima para nenhum garoto, mesmo....
Mas, então, o que é esse amor do qual todos gostam de falar e ninguém entende?
Hoje sei que esse amor não é amor. É uma ilusão wertheriana do que é amor e está mais próximo de uma obsessão do que qualquer outra coisa. E toda ilusão implica uma desilusão, cedo ou tarde. Sem desilusões qualquer aprendizado tornar-se-ia impossível, inconcebível, inconcretizável. Viva as desilusões! pelo aprender, pelo renovar. Pelo verdadeiro amar. Aprender a amar. Amar o aprender. Aprender = amar.
Momentos Esclarecedores
A verdade quando dói, é porque é verdade. Se não dói, não se aprende.
Não é preciso ser prolixo para escrever algo profundo.
[...]
quinta-feira, 17 de julho de 2008
O Romantismo presente em "Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980)"
A vida de Richard passa a seguir uma ordem, isto é, adquire significado e sentido a partir do momento em que ele busca o amor de Elise.
Mesmo com o sucesso que o circundava, Richard só encontra sua raison d'être (razão de ser) ao voltar ao passado em busca de sua amada, Elise Mckenna. Traçando um paralelo entre o livro Amor de Perdição - do escritor lusitano Camilo Castelo Branco - e o filme, Richard Collier, ao ver-se impossibilitado da realização amorosa, após seu regresso acidental ao futuro, é levado à morte, em seu caso, por inanição voluntária.
As aparências físicas das personagens são de igual importância no filme. Assim como nas histórias românticas, Richard e Elise, além de serem belos, são igualmente corajosos, intrépidos e "limpos". Como exemplo da coragem e intrepidez de Richard, personagem atuado por Christopher Reeve, vemos que ele enfrenta a severidade e o ciúme do empresário de Elise, o personagem William Fawcett Robinson, para alcançar a realização amorosa junto de seu amor. Já Elise, almejando voltar para o seu amado, decide fugir e reencontrá-lo no Grand Hotel, onde passam bons - e breves - tempos, já perto do fim do filme. Como exemplo da pureza das personagens, constatamos que Richard renuncia a sua namorada, no futuro, para unir-se a sua amada no passado. Elise, por sua vez, infere ao espectador que nunca tivera namorados e era virgem, "casta", preparada para integrar-se a seu amado no momento "certo".
Perseguindo com a análise, é possível perceber que W.F. Robinson, o empresário que criara Elise para que ela se tornasse uma atriz renomada, usa-se dos meios mais cruéis possíveis para separá-los. Ele é mesquinho, baixo e vil, antagonizando as características positivas apresentadas pelos protagonistas e constituindo, assim, um verdadeiro maniqueísmo na história. Essa é uma característica inerente ao romance romântico, o embate entre esses dois elementos, encarnados como o amor versus ódio/intolerância; a beleza X feiúra; a verdade em oposição à mentira. Portanto, toda a "arte" dos romances românticos estrutura-se em um universo maniqueísta. Neste cenário, o bem, para existir, deve, naturalmente, opor-se às forças do mal, isto é, todas as forças que visam impedir a realização do amor.
Do mesmo modo que os protagonistas dos romances burgueses, Richard ama - e seu amor é uma vontade impossível. Ele volta ao passado por meio da auto-hipnose, a única forma de realizar esse desideratum (desejo) que o consome por dentro. Além de ter de regressar no tempo, Richard é castigado por todo tipo de sofrimentos. Na primeira noite, vê-se obrigado a dormir no sofá do saguão de entrada do hotel, em virtude de não ter um quarto reservado. Ele também é forçado a enfrentar as exigências do meio, estando sujeito a toda sorte de reveses. Isso fica bem caracterizado quando, mesmo após cair numa emboscada - planejada por W.F. Robinson - tendo sido firmemente amarrado e jogado na estrebaria - ele desperta e se solta, com o único desejo em mente de rever Elise, que partira.
Outro aspecto abordado no filme é a defesa do casamento. Richard Collier encontra-se com W.F. Robinson, o empresário, e diz que deseja casar-se com Elise. No romance romântico, a prática sexual não é comumente admitida antes de sacramentado, oficialmente, o amor - isto é, antes do casamento. Nesse ponto, o filme rompe com a tradição desse estilo literário, tendo em vista que Richard e Elise consumam seu amor antes do matrimônio ser consagrado. Todavia, a tradição ainda está presente no filme, tendo em vista que a primeira pergunta que Elise faz no café da manhã é se ele aceita casar-se com ela. Dessa forma, a família remanesce no mais alto pedestal.
Abordarei, por tópicos, alguns fundamentos do Romantismo e sua relação com a película:
Idealização de tudo à sua volta: Movido pelo ímpeto de retornar à sua amada, Richard passa a idealizar tudo: o mundo não é visto como ele realmente é, já que ele não aceita o regresso no tempo como sendo impossível, fazendo tudo em seu alcance para realizar seu desejo de reencontrá-la. Elise Mckenna é vista como virgem (e de fato é), frágil, bela, como um ser superior e difícil de ser atingido. Durante o baile, Elise não se deixa conquistar facilmente pelo (suposto) desconhecido. Richard precisa conquistá-la com palavras, com sua inteligência e, claro, persuassão amorosa. [comentário do meu irmão enquanto eu digitava esta última linha: "Êê, Ricardããão...!!", lol...]
Sentimentalismo: Certos sentimentos são exaltados: a saudade (saudosismo) está presente logo no início do filme, quando Elise Mckenna, já idosa, entrega a Richard o relógio que ele lhe dera no passado, dizendo: "Volte para mim". A tristeza, quando Elise, após entregar-lhe o relógio, volta taciturna para sua casa e não responde aos chamados de sua criada, que lhe indaga se está tudo bem com ela. Ela segue desolada para o quarto em falece naquela mesma noite. A nostalgia, que leva Richard a renunciar sua carreira promissora como escritor de peças de teatro para voltar ao passado e revivenciar o amor perdido. A desilusão, quando ele volta - por acidente - ao presente e, incapaz de retornar ao momento que vivera com sua amada, dispõe-se dias sem ingerir quaisquer alimentos, profundamente amargurado, vestido de preto - ou seja, de luto -, e sentando-se a esmo a observar, inerte, a janela de seu quarto no hotel.
Egocentrismo: Não se apresenta tão fortemente no filme. Entretanto, a atitude de Richard de voltar ao passado é claramente egocêntrica, apesar de romanticamente admirável, uma vez que para regressar é necessário terminar com sua namorada - no presente - além de abandonar todos seus conhecidos, e tudo isso para atingir seu ideal amoroso.
Pessimismo: O fim do filme é sobrecarregado por esse aspecto, onipresente nas obras Amor de Perdição, de Castelo Branco, A Carne, do escritor brasileiro Júlio Ribeiro, e Thérèse Raquin, do escritor francês Emile Zola. Outras obras literárias - dignas de menção - marcadas pelo pessimismo são: O Germinal e Naná, ambas de Zola, sendo ótimas referências para entender esse sentimento. Richard vê-se impossibilitado de realizar o sonho do "eu", caindo, por conseguinte, em amara tristeza, angústia, solidão, inquietação, desespero e frustração, todos esses sentimentos interligados e finalmente consolidados por uma depressão crônica (que o leva à morte). Em conjunto, esses sentimentos culminam em seu suicídio, por meio da inanição. Por esse meio ele vai aos poucos se degenerando e encontra, na morte, a solução definitiva para o mal-du-siécle ("mal-do-século", como ficou conhecido o pessimismo, apontado por alguns como sinônimo de sentimentalismo, mas com evidentes nuâncias que o diferem daquele).
Evasão da realidade (ou escapismo psicológico): Espécie de fuga; como Richard não consegue aceitar a realidade da não-realização amorosa no presente, ele volta ao passado. Quando, por acidente, retorna ao presente e, novamente, é-lhe impossível aceitar a dura realidade que o persegue, ele evade para a morte, onde reencontra Elise, desta vez com um - romântico - ponto final.
Culto ao imaginário (a presença do mistério): O primeiro exemplo dá-se logo na abertura do filme, quando o espectador vê o semblante de uma senhora, sentada em um canto escuro do recinto onde Richard e sua namorada estão comemorando com amigos. Não sabemos a identidade dela, neste primeiro momento, o que cria uma atmosfera de suspense ("o que irá acontecer em seguida?"). Em segundo lugar, pode-se perceber o mistério se assentando na atmosfera do filme quando a (suposta) desconhecida se revela subitamente, levantando-se e dirigindo-se ao protagonista, Richard Collier, e pondo em sua mão - para o espanto geral - o antigo relógio de bolso que ele lhe dera dezenas de anos antes, como "prova de amor", para logo depois sumir de cena. Todos os convidados olham, assombrados, para Richard, que responde aos olhares indagadores nunca ter visto aquela longeva senhora antes. Por fim, a última instância em que pude identificar o mistério foi no momento em que Elise e Richard encontram-se conversando, descontraídos, na verde e fresca relva, e ela diz que seu empresário, W.F. Robinson, prognosticara que algum homem iria transformar sua vida, indicando, de certa forma, o poder (sobrenatural) de clarividência do empresário "vilão".
Culto à natureza: Se bem que de maneira bem mais tênue que todos os demais aspectos até agora mencionados, essa característica pode ser observada quando ambos estão a passear pelas paisagens salientadas por bosques e pradarias, ou quando estão a conduzir cavalos. Ao experienciarem esses cenários/motivos naturais, ambos se encontram mais próximos espiritualmente e, ao mesmo tempo, emanam uma liberdade de espírito inefável, porque transcendente. Relembrando agora o maniqueísmo presente no Romantismo e, por extensão, no filme, tais momentos são antagonizados pelos momentos vividos no interior do Grand Hotel, onde são interminavelmente vigiados pelo empresário ciumento, W.F. Robinson. Dessa forma, a natureza confere, de forma indireta/inintencional, a liberdade almejada a ambos, permitindo a vazão de seus sentimentos mútuos, recíprocos, correspondidos.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Bossa na Oca
O que é um dia importante? Não deixemos passar batido tal afirmação "deixara de ir à escola em dias importantes". Se eu fosse definir o que é importante, certamente responderia que importante é tudo aquilo que envolve o aprendizado. Bom, tendo isso como verdade, desde o momento em que nasci até o momento em que morrer, dou-lhe minha certeza de que estarei aprendendo. Como tal, todo e qualquer dia em que falto à escola ou a qualquer outra responsabilidade, não deixa de ser importante, porque se aprendo diariamente, não há como aquele dia não ser importante. Bom, isso quer dizer que menti no primeiro parágrafo. Vou procurar não fazê-no novamente.
Então, comecei a trabalhar na exposição Bossa na Oca, e percebi que para ser bem sucedido em qualquer empreendimento, 50%, no mínimo, depende de como você trata as pessoas. Bem, tratá-las bem não é exatamente a resposta. Como diz o provérbio: "Dê a João o que é de João", não adianta sair de casa com um sorriso estampado no rosto que isso pode te trazer até mais problemas - não que você esteja automaticamente impedido(a) de fazê-lo caso sinta-se a tal ponto premido pela alegria, claro. Mas a qualquer lugar que tu vás, certamente encontrarás pessoas desagradáveis - e digo, enfatizo, sublinho: certamente.
Isso não o impede de conhecer o oposto de pessoas desagradáveis, aquelas pessoas que te entenderão quando você disser que pegou um engarrafamento diabólico e demorou 1h30min para chegar ao local de trabalho, quando, de fato, gastar-se-ia no máximo 55min em um dia normal. Há as pessoas que nem mesmo querem saber disso - vão logo te julgando, porque "atrasos não são justificáveis", e isso nunca irá acontecer com elas, mesmo - então pra que ter consideração com quem afirma ter sido prejudicado excepcionalmente naquele dia pelo "eficiente" transporte público que roda sobre o asfalto? Esqueçamos o metrô, que só atrasa quando alguém tem a original idéia de se suicidar nos trilhos. Estou falando do busão. Quem nunca se atrasou que atire a primeira pedra em mim. Toma cuidado, porque se tua casa for de vidro, é perigoso a pedra rebater um dia e aí tu já sabes...
Não vou fazer propaganda da exposição Bossa na Oca. Não porque ela seja ruim, ao contrário. Mas eu trampo lá e, assim como não fico pagando pau pra ninguém, também não vou virar puxa-saco do local onde estou muito satisfatoriamente empregado.
Quero, ao invés de tratar tudo de forma superficial, submergir um pouco: o que significa trabalhar? Bom, primeiramente, trabalhar significa passar parte de seu dia empreendendo algo que envolva um resultado não somente para você, mas para o(s) outro(s). O quanto seu trabalho irá influir na vida dos outros varia, bem como seu salário e o esforço que tu empreendes para realizá-lo.
Mas não é sobre o trabalho que quero especificamente falar. É sobre o que significa, para mim, trabalhar. É assim: quando estou lá, procuro dar meu melhor. Mas assim diria qualquer charlatão. Como não posso diretamente te convencer de que dou meu máximo, posso ao menos te passar uma idéia um pouco mais objetiva sobre o que é dar "de tudo". Após ter passado três horas em pé, dar o máximo é se esticar sem desejar estar em outra localidade naquele santo momento nem reclamar de dor em algum lugar. E quando vier um visitante perguntar-lhe informações, fornecê-las como se ele(a) fosse você mesmo. Isso é literalmente pôr-se no lugar do outro.
Mas mesmo assim, desempenhando seu trabalho tão gentilmente como poderia ser, você pode, de repente, ter que ouvir poucas e boas. Por exemplo, digamos que a exposição termina às 21h. Isso implica que a bilheteria feche às 20h e informe qualquer um que entrar às 19h59min de que só irá poder desfrutar da exposição durante uma hora, no máximo. Mas digamos que a bilheteria não tenha informado o seu concidadão, visitante da exposição - e você, orientador da mesma - desse relevante fato. Até porque a exposição Bossa na Oca, para ser aproveitada integralmente, requer, na melhor das expectativas, 3h de sua vida. E essa pessoa entrou com aquela vontade de fruir inabalada, achando que - e com todo o direito de fazê-lo, tendo em vista não ter sido informada - poderia fazer um corujão ali no local museográfico. E você é aquele mané que irá acabar com o prazer do cara, porque já são 20h57min e você ainda não sabe nada do que se passa na cabaça (cabeça é para os que retêm a faculdade de pensar) do indivíduo. Então você se aproxima dele de uma forma bem pouco polida, + ou - assim: "Com licença, senhor, venho lhe informar que a exposição fecha às 21h".... mas o cara é sangue quente e não tem metade dessa falta de educação que tu teves ao dirigir-se a ele... é prescindível dizer o que aconteceu depois - quero somente salientar o fato de que dormi rezando não sei pra qual deus e sentindo as têmporas latejarem como se fossem explodir. 'Magina, é tão fácil não levar as coisas pessoalmente, quase mesmo uma característica natural entre todos nós, não é mesmo? Aposto que você também não levaria pessoalmente. Só não aposto dinheiro, porque, bem, é uma aposta um tanto arriscada...