quarta-feira, 25 de março de 2009

Não quero choro nem vela

Quero a saída
Quero a voz dela
Quero a mia vida
Quero-a sem ela

Quero

Não quero




Espero.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Reef

A barge floating on and on
An endless stream
Perchance a dream

Some sychamores passing by
The azure, cloudless sky
Sights of passing days of yore
The glory of a life that's full

In a majestic past
No head downcast
Men and women on the shore
Bathing in the body of knowledge
Maidens' hearts forbidden to be sore

Humankind felt it needed more
Plus to know
For them to grow...
The focus on the soul

A civilization we don't possess
As we seem to continuously digress
Under nutheads in power - psycopaths
And individuals licking their feet

Kowtowing to Armageddon
And the End of it All
Purchasing their American Dream
In a neaty cosy Mall
All the while feeling
Desperately
Shrunken small

To hell with powwows!

Can't you feel it inside?
Can't help but wonder,
Why am I such a good sheep?
Every waking hour spent asleep.

Nay, not a nice game to play
Anyway, I've got my fair share -
Trying to fix up the world
While forgetting 'bout me self
Thrown up, useless words
Dusty book on the shelf...

Gilead? Where is it, tell me.
Lenore? My maiden braids?
Raven, raven...
What am I supposed to think?

That I'm flying up to heaven?
Meeting Santa Claus along the way...
Paying all my sins for the brief, wondrous display?

I'd rather drop my soul at the sea -
Where no one would have to see
It sinking further and further
A sailor to find it some way:
"Hey, comrades, call it a day!"
I've found it! Gilead's Bay!

Just a place, 'n an instance, to remember
The last living Human ember:
Hope.

That's why we grope in the dark:
For so-called answers.
We'll not give it up,
No matter what they say
We'll not sink, we won't faint
We will never sway.

A crystalline moment it'll be
The one human eyes are meant to see
And take part, if they take heed
After changing themselves
After casting the seed

With its room to grow
Oh! Chase the soul...

domingo, 22 de março de 2009

Intuindo Maus


História gráfica de Art Spiegelman, Maus figura entre meus favoritos, ao lado de Persépolis (Marjane Satrapi), V de Vingança (Alan Moore) e Berserk (Kentaro Miura).

A leitura de Maus é enriquecida e ampliada com A Lista de Schindler (Thomas Keneally) e A Escolha de Sophie (William Styron) - ambos livros aclamados, que posteriormente se tornaram filmes, estes talvez mais divulgados que os próprios livros. Isto me entristece. Parece-me que as pessoas leem menos, e creem que uma obra cinematográfica possa substituir o original. Não inferiorizo a qualidade do que é produzido para as telas, mas a questão não é essa. A questão é o caráter único de se conhecer uma obra, tal qual ela foi concebida por ser autor.

Pelo maior grau de autenticidade que um filme possa reter, volta-se sempre ao original. O original dá ensejo a mais reflexões, a mais críticas, a uma maior assimilação de conteúdo. A uma bagagem cultural maior, portanto. Tendo-se lido o original, pode-se fundamentar uma discussão frutuosa e abrangente, com um potencial ainda maior que sua adaptação possibilitaria. Entre as sagas injustiçadas pelas telas, faço questão de citar Senhor dos Anéis, cuja temática é sobretudo humana e retentor de um vocabulário impressionante da língua inglesa.

Volvendo a Maus. Maus alcança em partes o que um livro escrito jamais alcançaria: a nuância, a sutileza, o perfilar da cena e suas paricularidades. E Art Spiegelman dá-nos a oportunidade de co-participar do plano de fundo de sua criação - a dificultosa relação com o pai, traumatizado pelas experiências de que foi vítima, a dúbia cobertura midiática de uma obra tão provocante e instigante.

Maus dá-nos a sensação de que estamos ali, vendo (literalmente, neste caso) os pormenores das fugas, das incríveis escapatórias de seu pai e de poucos afortunados membros de sua - antes - extensa família. Como ele burlou certas leis com as próprias posses, como se abrigou, como amou em tempos de guerra. Os frutos da amarga separação entre ele e sua esposa nos tempos áureos de seu relacionamento - sem contar a perda do filho primogênito, que crescera sob tantos cuidados e carinho, nutrido de uma cultura ortodoxo que o próprio Art Spiegelman não gozou.

Art Spiegelman produz essa mágica que nos faz acreditar que um detalhe sequer não nos foge à vista e à compreensão imediata. É tudo lançado às claras e vem direto ao lume - da publicação, da divulgação de uma hecatombe planejada. Agora, todas essas sementes germinam no solo do testemunho vivo e excitante do pai. Puxa, ele viveu aquilo, não deve ter sido fácil! De modo algum! É isto que somos levados a pensar e remorder. Maus alcança o patamar da epopéia do povo judeu sob os muros da opressão, remetidos aos guetos do esquecimento, ao apartheid criminoso e racista.

Era hora, aliás, de algum talentoso sul-africano trazer à tona a saga de sobrevivência, luta e morte dos negros submetidos à segregação por um período de quase cinquenta anos (1948-1994). Nem preciso aludir aos nossos compatriotas sem terra (pura ironia), os palestinos (1948- ). Algumas obras têm essa missão, se é que se pode chamar assim o produto de sua divulgação: escancaram os férreos portões da realidade omitida, tergiversada, titubeada, quase apagada. Mas a memória persiste, parece nos dizer. A memória persiste, e o ser humano resiste. Mas quanto tempo durará tão tênue resistência?

A que resiste, pergunta-me.

Respondo-lhe de foma diferente: o ser humano é vítima de si mesmo. Suas próprias decisões o podem levar ora ao precipício, ora à sabedoria. O conhecimento que obtém pode salvá-lo, mas a ignorância é prazerosa. Enquanto persistir o prazer, é dominado pela consumidora e auto-destrutiva ignorância. E enquanto for ignorante, cego, volta-se ao prazer infecundo. Gira, gira, tal o mundo, rumo o abate final.

Desesperançado?

Não. Reconfortante é a busca - a estagnação nos mata. Pouco a pouco deixa rouco. Pouco a pouco deixa mouco. pouco a pouco. deixa louco.

Rota, rota, ser humano
Tua alma há de guiar
Rota rota,
Inspira fundo. Vá!

P.S.: Aliás, para você que não quer comprar o Maus - e pode lê-lo em inglês - use a liberdade e a dica (foi o que fiz):

Maus - 1ª parte

Maus - 2ª parte


Bon chance!

Caged Fasting

You are a brute!
That's my way, darling...
You despise me!
Just as you love me...

Can't you see?
Oh, I can...
Tell me you love me
You tell me first...

You are a blind man!
Just about to burst...
A nutcase, downright fool!
Irremediably in love with you...

Will you please let me go?
I'm not holding you, dear...
Can't you accept a single "no"?!
You're the one coming near...

(falls on his arms, murmuring:)
Oh, you're crazy, but I love you all the same
(he retorts, uncanny eyes 'n voice:)
Beware, sweetheart, falling prey for love's game
(she responds, upstarted:)
Which, do you say, is Love's true Name?
(his terse, curt answer:)
The Mask
The Task
No one attains
The Unerring Arrow
The Uncertain Aim
...
(But I love you, just the same.)

Pender Peneder

Pedro sentou no seixo
Pedro comeu a jaca
Sáxea vazão de dormir
E cair no vazio
Não sentir frio
Jamais sofrer dor

Fluir pelas curvas do rio
Aprender direito o qu'é amor...
Cavaleiros em jesta
Ou nobres em festa

Nunca, nesta floresta
Poderei ter mi'a sesta
Tudo cheira a dor
À morte drástica
Ao ímpio amor
E sua lástima

Queimem incensos
Mas não queimem a mim
Quis eu: não fosse assim
Qual flor, qual jasmim
Tais mares imensos
Ond'eu pudesse mergulhar

Olvidando tuas carícias
Tua boca, teus ouvidos
Todos gestos entretidos
E o rochedo do meu ser
Deixa-me morrer!

Triste, rijo, empedernido
Tal penedo combalido
Porq'eu vivo

(E perduro.)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Serpico (Sidney Lumet, 1973)


Belíssima atuação de Al Pacino, no papel de Serpico. Serpico, o policial que quer seguir o juramento, e manter-se honesto, sem auxílio de propinas... decisão difícil, pois todos seus companheiros aceitam-nas de bom grado, e ainda não haviam conhecido qualquer tira novo no pedação que não as aceitasse. Nem haviam topado com um tira barbudo, com brinco, estilo juventude contestadora, sempre usando roupas à paisana que o colocariam facilmente lado a lado a dançadores de Hip Hop.

Será que as roupas que Serpico veste revelam um pouco de quem ele é? Bem capaz, viu. Antes de ele ficar quase insano com as humilhações sofridas por ser um cara direito numa corporação corrupta até as entranhas, Serpico é a imagem do "bom homem". Suas namoradas (uma por vez, óbvio) o adoram, e torna-se amigo de todos os amigos delas também. É a encarnação do "sangue bom", "gente boa", "cara firmeza". Onde quer que esteja, dá seu máximo pra cumprir suas obrigações, sem jamais abusar do poder. Em uma cena, deixa a platéia inclusive estarrecida com o modo pelo qual consegue que um preso confesse: nada de sangue, algemas e gritos. Que tal um cafezinho quente, desalgemado e sendo tratado como um ser humano digno do nome? É. Percebi que o procedimento padrão não faz ninguém feliz na história.

E que é preciso chegar uns bons malucos no pedaço, com um pouco de princípio regrando sua conduta. Por isso, Serpico tem esse dom de mostrar como os "companheiros" de trabalho afastam-se gradualmente do estranho, tentando ajuntar provas e incriminações contra ele no processo. Porque um cara que faça tudo direito e "limpo" acaba arremessando os demais macacos sabujos literalmente na sombra. Filme que mostra que você é quem deseja ser, aspira ser e sonha ser. Nada de seguir com os outros, maria-vai-com-as-outras. Faça como bem entender, porque você é o único cuja confiança é merecida. Os outros? Quem são os outros? Os corruptos, os corruptíveis, os que amam um lucro fácil e por debaixo dos panos?

Nah. Ser diferente requer agir diferente. Agir diferente requer valentia. E quão caro pode lhe custar seguir o próprio coração? Bem, certas escolhas são incomensuráveis... e é preciso ter um objetivo muito bem firmado para seguir com elas adiante.

domingo, 15 de março de 2009

The Kautokeino Rebellion (A Rebelião de Kautokeino, 2008)


Senti-me tentado a escrever um pouco sobre este maravilhoso filme. Isso porque ao escrever a resenha de Far North (2007), rememorei ter assistido a outro também brilhante filme norueguês. Por retratar um evento histórico de expressiva repercussão na Noruega, increve-se, pois, no círculo de filmes baseados em histórias reais. Porém põe-se um pouco acima da maioria, visto que não é meramente um relato de dimensões individuais, mas uma insubordinação de todo um povo, habitante do município de Kautokeino, no território norueguês.

Kautokeino é a pronúncia norueguesa do termo sâmi Guovdageaidnu. Sâmi é a língua oficial de dois condados (divisões administrativas) e seis municípios da Noruega. O filme, portanto, é todo falado em Sâmi, o que oferece uma oportunidade de adentrar uma realidade fonética bastante singular. Apenas pela particularidade do idioma falado, não poderia dizer que é um grande filme, pois o é. Tenhamos, daí, uma melhor idéia do que consistiu a Rebelião de Kautokeino.

A comunidade sâmi do município de Kautokeino era praticamente coagida a adquirir todos seus produtos alimentícios de uma única mercearia; monopolizadores e sacanas, seus donos forneciam também bebidas alcoólicas, fazendo com que vários homens e suas respectivas famílias se endividassem e tivessem parte de seus rebanhos de renas (seu meio de subsistência) ceifados, em um quitamento de dívidas extremamente desigual.

Um morador, que tinha contato com o mercado distribuidor mais próximo, inteligentemente buscou a solução: contatar o padre da cidade para que solucionasse o problema do alcoolismo entre os homens da comunidade, que viraram presas fáceis e perdiam dezenas de renas periodicamente; e comprar diretamente do mercado, redistribuindo a preço de custo os produtos para a pequena comunidade, num projeto pragmaticamente socialista, por mais que seu feitor o ignorasse. E deu certo. Funcionou como ele imaginava.

Entretanto, os donos da mercearia levaram aquilo como um ataque pessoal, e fizeram de tudo, incluindo de prisões de moradores da comunidade a sérias ameaças a seu modo de vida, para obrigá-los a largarem sua religião (para que os homens voltassem a beber e se endividar e conseqüentemente perder seus valiosos rebanhos de renas), e para voltar ao velho e lucrativo monopólio. Foi um embargo criminoso, um embargo de ordem econômica, religiosa e social (aos seus modos tradicionais de vida).

Os moradores bravamente ergueram os braços, uniram-se e mataram os responsáveis por tamanho sofrimento. Com as próprias mãos, eles se livraram do mal, e disseram amém.

Mas as consequências haveriam de vir...

Um lindo filme, um justo tema, e uma belíssima atriz protagonizando a luta de um povo, e d'uma geração. Amaldiçoada pela inação e subsequente conivência do Estado.

Um Estado que obviamente não é para todos, mas, sim, para uma minoria rica, exploradora e pouco se importando com a desigualdade que promove por meio de sua ânsia injustificável por riquezas e mais riquezas.

Logo, um filme que incita a reflexão sobre o que é justiça, e o que nós podemos fazer.

Curse us, If we don't
Curse us, If we won't
We'll destroy iniquity
Affirming our community

We'll see what we can do
And will act upon what we daily see
The seeds of injustice and inequality

We'll pay in advance
And nothing will stop us
Not your supercillious glance
They can kill us
But they'll go first.

Informações a mais sobre a Rebelião de Kautokeino (em inglês): clique aqui.

Far North (2007)


Anja e Saiva, duas esquimós vivendo à margem da civilização, na Tundra Ártica russa. Pouco a pouco nós é contada a história de Saiva e de Anja, e o que justifica o fato de ambas viverem isoladas do mundo, em um local inóspito, e sem alma humana alguma - além delas mesmas. A atuação não decepciona, muito menos a fotografia, embasbacante. Aurora boreal, filmada. O branco níveo, estendo-se ao horizonte, em meio ao... nada. Gelo, branco, gelo, branco... e o horizonte, branco, gelo.

Loki entra na história. Deus nórdico, que mudava de forma. Mas, desta vez, plenamente humano, e arricando insinuar-se num universo até então ordeiro, partilhado por mãe e filha, numa relação harmoniosa.

Bem, há criticismos rolando por aqui e ali sobre o filme, então serei sincero: não sei se foi meu estado de espírito que permitiu ver na tela não só uma obra cinegráfica, mas como, também, um tecer intrincado de relações entre mãe, filha e o estrangeiro, com flashbacks oportunos e impactantes. E, quiçá, meu elevado estado de espírito, (rio com isso), tenha me permitido apreciar o filme em sua fotografia belíssima, em seu entrelaçamento humano, na apresentação dos conflitos que irrompem, e de uma possível personagem neurótica.

Nada é morto, apesar do frio, da distância, e da eternidade representada em tantas nuâncias de um mesmo branco. A vida, vívida, em oposição à morte, ao Tânatos, e à supressão do impulso vivificante. A resistência humana frente ao infinito paisagístico. Os embates psicológicos que decorrem e como eles podem ser solucionados onde o sol não se faz sentir.

E, sobretudo, meu respeito aos prenúncios e vaticínios dos xamãs. O filme, hermético, fecha-se no agouro inicial.

Por isso só é belo.

Curiosity killed the cat... Satisfaction brought him back...

Sleepless night
Frightening dreams
Waking Up to find
Nothing is as it seems

Life is a battle
Continuous rattle
Dust and heat.

Neat... only our heart.
Wanna go back to the start?

Ha, not even being smart
Myself
Would I take that ole book
Off the shelf.

A Marca da Maldade (Orson Welles, 1958)


Um filme delineado pela ação e pelos planos de sequência. Necessita de muita atenção do espectador aos diálogos, que se dão de maneira rápida e sempre envolvendo um raciocínio lógico. Para quem gosta de Sherlock Holmes, é um filme que não decepciona em ponto algum. Ora intrigante nas questões levantadas, ora envolto em uma trama de puro suspense, dá o que ver, e muito mais o que pensar.

Se fosse mais um filme de detetives cliché, blasé, não haveria porque falar dele. E é exatamente por transcender as pistas fáceis e a atitude policial supostamente limpa, que ele tem algo a nos contar. Mais que um causo, ou uma simples anedota do gênero, ele escancara um vilão arguto e do lado da lei. E ao revelar a verdadeira identidade desse criminoso sob trajes de ovelha e com um background psicológico devastado após a morte da esposa, apresenta-nos uma realidade tênue, e deveras escorregadia.

Para que serve a vingança, se seu fundamento é o ódio e o ressentimento extravasado? Ressentir-se é uma forma de (re-)aprender. Porém, uma vez que toda a angústia se externaliza para o outro, já não é de forma alguma um processo catártico, mas algo cíclico. Violência leva à violência, e o que mata à espada, à ela sucumbirá. Karma é o nome.

Vargas, o tira ideal. O que não se corrompe é logo de cara ameaçado pelos corruptos, por meio de subterfúgios ou nem. O fato de se destoar dos demais, faz com que sua postura ganhe maior visibilidade pelas outras partes. Tal visibilidade não é bem-aceita por aqueles que terão sua má conduta em breve identificada, uma vez que surgiu naquele antro alguém cujo trabalho limpo e correto serve de parâmetro universal.

Fabricar evidências é como contar mentiras: mede-se o passo em perna curta. Se ninguém for calado a tempo, não dura muito até que o mentiroso seja devidamente descoberto. Mas há sempre percalços, como seria de se esperar. Há sempre uma armação por debaixo dos panos, com tenção de sujar o nome e renome do tira escorreito. O bem que ele perpetua não conta, quando a corrupção vira regra, e a conduta direita, a exceção.

Quem se importa, não é mesmo?

Desviar as regras, para servir nossos propósitos.

Eis o mundo do caos. Dos cacos.

Humanos quebrantáveis... e o mundo girando.

sábado, 14 de março de 2009

O Sol Enganador (1994)


(quer uma dica? Só vou dá-la se você segui-la - estou de olho. Clique no vídeo desta postagem, para escutar a bela trilha sonora enquanto lês este breve escrevinhar cá feito. Sem preocupar-se - a imagem é estática, e não vai rolar trâiler algum. Somente uma sonoridade encantadora, que talvez tu nunca tenhas escutado, e que faz ainda mais sentido no decorrer das cenas. Entenderás melhor o que estou a dizer. Teus ouvidos e teus olhos, trabalhando em uníssono, fornecerão mais detalhes do que eu poderia, porque nunca estrago os prazeres que aguardam quem ainda não assistiu aos filmes dos quais escrevo... leia e ouça - nada de spoiler, garanto-lhe, caro(a) leitor(a).)

***

Talvez a mais bela película a que tenha assistido nestes últimos tempos. Que atuação, que esplêndido cenário, puro assombro!

Do diretor russo Nikita Mikhalkov, este filme veio para mostrar o terror das perseguições políticas de Josef Stálin - o grande açougueiro, comparável a Mao Tse Tung, ambos filhos de Genghis Khan. E talvez fortemente aparentados com o tão querido 3º Reich. Assassinos.

E é por essa temática que o filme espanta: como relatar o horror que grassou pela União Soviética nos tempos de seu grande ditador e usurpador, sem apelar à violência gratuita? Qualquer que seja a dimensão da resposta, o filme a atingiu - em cheio. "Nem tudo é como parece", faz-nos refletir. E que nem sempre o lado para o qual pendemos é o lado harmonioso da balança.

Criminosos de gala, no portar, no assobiar... quem diria! Kotov! Ai quando tomamos parte de sua verdadeira história! Dói-me.

A trilha sonora acompanha-o em sua magnanimidade. Tão grande palavra, pois tão grandioso filme. Eduard Artemyev é a mão mágica que conduz as cordas e nossas emoções, que faltam jorrar no decurso dessa obra sem parâmetros.

Como não é divulgada? Por quê? Isto sim é cinema. O discurso acompanhado do ritmo e da harmonia. A eloquência, a voz que não quer calar - e que não cala. Bem, digo que gargalhei de alegria em algumas partes, e que em outras fiz-me mudo.

Ficar em silêncio é o primeiro passo para descobrir certas facetas de nossas vidas que pairam por detrás das mágoas. Descortinando-as, avistamos aquela paisagem dependurada na parede há tempos, já empoeirada, à qual não dávamos atenção. Anos se passaram. Certos objetivos, certas metas... simplesmente transcorreram, tal a ilusão do tempo.

E que cada momento vivido foi vivido. Mas o vivido sujeita-se ao olvido, tão rápido como a terra verte-se em lama pós a chuva. Se as memórias nos fazem relembrar, e relembrar é reviver, mui bem. Porque só se sabe o que se tem, quando estamos sem.

Quando estamos zen.



[Se o vídeo não carregar, eis o link pro youtube: Artemyev. Desculpe a inconveniência.]

Após o sol ter nos enganado, é que vemos qual a mão jogou o dado.

Ó, e que lástima!

Quem mais amávamos...

terça-feira, 10 de março de 2009

A Excomunhão da Vítima

Foto: Clemílson Campos/ JC Imagem

Miguezim de Princesa*

I
Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria, Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.

II
Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.

III
Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.

IV
Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.

V
O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.

VI
Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.

VII
É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.

VIII
Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.

IX
Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.

X
E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.

(*) Poeta popular, Miguezim de Princesa é paraibano e está radicado em Brasília.


***

Psicopatas Fazendo a Festa
(minha versão)

A fera enraivecida tomou o chicote da Inquisição
Brandindo e gemendo, ressuscitou em si o Cão
Observar os estupros cometidos, e vir dar o seu perdão
Ao estuprador, coitado, também um filho de Deus...

Que talvez tenha um cérebro de macaco,
Regulado pelos mecanismos penianos...
Um chimpanzé que idolatra o saco
E aterroriza seus confrades humanos

Mas ainda assim criatura de Deus...

Um ser humano que não se arrepende
Que solto irá estuprar novamente
E não há transa que o contente
Ele curte dominação
Até na cela da prisão

Corre, pega, ele gosta de comer
Se correr o bicho pega
Se ficar o bicho come
E ainda assim humano...

Controlado pelos instintos mais básicos
Remorso: inexistente
Culpa: não sente
Mas ainda assim humano...

Pronto para se ajoelhar e rezar
Antes de sair pra estuprar
O que a sociedade quiser
Ele vai nos encenar

Porque o que deseja de verdade
É estuprar
E se nem a Lei o segura
É o santo padre
Quem o vem ajudar...

Um mundo ignorante e nas trevas
É tudo o que o psicopata mais sonha...
Nos aguarda o futuro, e uma realidade medonha.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Down by Law (1986)


Uma impressionante produção do cinema independente americano. Jim Jarmusch dirige esse espetácuo, no qual você passa a conhecer: Jim. Zack. Bob. Três homens que não se entendem, habitando uma mesma prisão, e, ironicamente, uma mesma cela.

Um filme que se delineia, sobretudo, pelo elemento surpresa. A trilha sonora faz jus à bela fotografia e atuação, ao iniciar e desfechar a película envolvendo-a numa balada jazzística e instigadora. O Jazz, constata-se na literatura de Cortazár, é compassado pelo inusitado. Julio Cortazár era um bom entendedor de Duke Ellington e desse gênero musical provocante, repleto de nuances vocais e intrumentais, e as linhas escritas por esse talento literário não mentem a vivacidade de sua musa inspiradora.

Levados pela rítmica trilha e pelo bonito preto-e-branco, notamos, em determinada cena da película, a repetição de uma circunstância, isto é, um assombroso mise-en-abîme! É fantástico, exatamente como Cortazár. Quando um local desconhecido e alheio rememora, minuciosamente, um outro lugar que já conhecemos como a palma de nossas mãos, é literalmente a definição de uma forma de déjà-vu, o déjà visité. Aliás, uma das manifestações menos comuns de déjà-vu. E é claro: um déjà-vu é, por essência e substância, uma experiência transcendente.

Para quem já teve a experiência d'um déjà-vu forte e marcante, sabe-se muito bem a particularidade e o caráter único desse fenômeno. Justamente como esse brilhante filme. Jazz me recorda Cortazár... Cortazár é a literatura dos mise-en-abîmes e déjà-vus. Down by Law teve o êxito de reavivar todos esses aspectos na convolução de meu ser.

A História de Adèle H. (François Truffaut, 1975)


Mais do que uma historieta de amor, François Truffaut põe na tela os desencantos e desilusões que vivencia uma jovem apaixonada, Adèle H. Sua verdadeira identidade só nos é revelada posteriormente, com ótimos resultados, cabe dizer. A tênue, e não raro escorregadia, margem que delimita amor e obsessão é escancarada frente aos olhos impressionados do espectador.

Poderia tão facilmente discorrer sobre mais uma jovem burguesa, branca, casta e ingênua que vive maritalmente todos os prazeres e amores, sempiternos como somente a ficção pode assegurar... mas não! esta linda e inteligente jovem, com um germe literário e musical imbuído em si, vê-se face a face um álgido muro: um homem que a despoja e a despreza, inventando toda sorte de percalços para ver-se livre e longe dela.

Não sendo particularmente vistoso de corpo, e absolutamente desprezível de alma, indagamo-nos: Por quê? Por que obstinar-se correr atrás daquele que a afasta e a vilifica, e que deliberadamente a subordina e ignora? Não seria mero fruto da imaginação viver anos ao lado de quem menos a faria feliz, visto sua arrogância e vileza de caráter? Algo está errado, sim; todavia, esse algo só o vemos como espectadores, gratificados com o dom da imparcialidade, justamente porque não é conosco...

É bem capaz - e, para mim, unicamente plausível - que Adèle de fato ame a imagem que tem daquele homem. Mas é uma imagem desgastada, imperfeita, e que não corrobora um aspecto sequer da realidade daquele bruto. É o espectro fantasma de um homem por quem Adèle se amasiara em sua mocidade, o qual, passados anos, já não é mais o mesmo. Não é mais o mesmo porque mudou, mutou, transfigurou? Não. Porque a máscara caiu, e co'a máscara, toda a encenação circense.

Panis et circensis: é o mundo em que vivemos. Encurralados na caverna, tomamos sombras e cavas impressões por realidade. Mas que realidade esta, se até mesmo o Poeta é, primordialmente, um intérprete?

Não queremos ver o que nos abala, pois o que nos abala nos chama à luta. E a luta é o único meio que conduz à vitória. Algo em nós nos deseja dormentes e complacentes, para que conformemos à derrota.

Porque, uma vez desacorrentados, só Deus sabe o que iremos descobrir... Os pontos fracos da Matriz. O olho do dragão.

Vitória Régia

Pra que serviu treinar, então, filho?!

***
Seis horas da manhã, sábado. Saio de casa, preparando-me ao desafio que me esperava. Aguardo o ônibus, perco a paciência, atravesso a pista e pergunto ao homem do posto, que estava ocupado. Chama seu companheiro, para o qual repito a pergunta - não passa por aqui tal ônibus de sábado. Não sabe. Eu volto a olhar os ônibus que chegam. Olha o meu, pqp! No caminho, nada de especial.

Chego. Vinicius e Augusto César, sentados, esperando quem faltava. Cumprimento-os, decidido, ótima auto-estima. Aquecemo-nos e depois partimos para o ginásio, onde se dariam as partidas de tênis de mesa. Piadinhas sobre japoneses que fazíamos antes de nos dirigir para lá arrefecem ante a habilidade demonstrada pelos mesmos.

Justamente antes do jogo, eu e Vinicius dialogando, preparando-nos psicologicamente para o embate esportivo que estava prestes a começar. Adversários fortes, mas nossa resolução em dar o melhor mais ainda. De chofre, instala-se o que julgávamos uma brincadeira entre nosso técnico e o técnico nipônico até então desconhecido, de uma equipe contra a qual só jogaríamos depois do primeiro jogo, se ganhássemos. Era brincadeira, até que um derrubou o outro no chão, e passou a esgoelá-lo. Algo como filme de artes marciais. De um segundo para o outro, da terra para o chão. Vamos lá! Disse-me meu comparsa.

Apartamos a briga, e daí nada mais foi o mesmo. Moral abalada. Como que se dá uma briga num ginásio esportivo, logo antes dos nossos importantes jogos? Como isso? Bem o nosso técnico, nosso representante, quem nos deveria dar força e garra e espírito olímpico?! Absurdo camusiano. Se apenas fosse um árabe. Se apenas a terra estivesse quente, e a visão embaçada, e a arma na mão fosse provida de um gatilho de vida própria. Mas não era nada disso. Frente à provocação, perdemos antes mesmo de jogar. E não foi jogo, porém combate.

Psicopatas - e seus congêneres - arruinam o mundo.

***

Para aprender mais um sólido fato sobre a nossa existência, mãe: que nem todos somos iguais. Que nem todos nutrem empatia, que nem todos pensamos em pelo menos parte dos nossos atos, sopesando causas e conseqüências. E que por isso toda e qualquer moral, toda e qualquer ética esportiva e existencial vão água abaixo, como nossas ilusões sobre igualdade. Que seis por cento da população consegue influenciar-nos por meio da religião, da política, da malandragem. Nomeie qualquer esfera de influência de sua vida e lá os terá: psicopatas, sim. Eles existem, e nós conhecemos um bocado deles. Um bocado, eu digo!

É a resposta que eu poderia ter dado à minha querida mãe.

Feliz dia internacional da mulher!

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ángel

Tem pessoas que nos fazem ver a vida como ela é.

Mesmo sem saber que elas têm esse dom, elas de repente nos fazem crescer.

É curioso viver ao lado de tais pessoas: cada átimo, cada momento, cada segundo... viram unidades imesuráveis de tempo, o mais próximo do que eu poderia designar eternidade.

Ou essas pessoas são raras no mundo, ou só as encontramos quando estamos preparados.

Como é possível aprender tantas coisas em um tão curto espaço de tempo? Acho que já respondi essa questão: é a eternidade.

É uma aventura - que por ventura - nos marca.

É se sentir vivo, em chamas, até o fogo se apagar - abrindo espaço à reflexão. É ser apresentado ao gosto de viver, ao gosto de rir e de se divertir, sem precisar de muito.

Apenas aquela boa companhia.

Não. Não acontece todo dia.

É para se tornar único.

E belo.

;D you made me live.

And it's kept me alive.

I've learnt how to grieve.

In a tentative, unimaginable dive.

segunda-feira, 2 de março de 2009

O Canhoneiro do Yang-Tsé (The Sand Pebbles, 1966)



Este filme é um marco. Pôe-se ao lado de Os Sete Samurais (Shichinin no Samurai, 1954), de Akira Kurosawa e de Doutor Jivago (1965), de David Lean, no patamar da alta cinegrafia: aquela que nos tem algo a contar. Mais que um filme, é um ensaio sobre as chagas da guerra, e o alcance do heroísmo. E mais, vai além desses mesmos conceitos, pois os questiona no início, no meio e no fim, deixando a nós, espectadores, entre a cruz e a espada.

Jake Holman é um engenheiro designado para servir na costa chinesa, operando o maquinário da canhoneira estadounidense Sand Pebbles ("Grãos de Areia"). Mal tendo chegado lá, é recebido com as seguintes palavras, nada calorosas ou animadoras, do - entretanto - amistoso Frenchy: "Ela [a canhoneira, nossa embarcação] chama-se Grãos de Areia (Sand Pebbles). Nós somos os grãos de areia." Frenchy de fato está certo. Os incontáveis grãos de areia de uma praia são únicos pelo fato de nela estarem. Porém, uma vez retirados de seu solo natal, descaracterizam-se por completo, e podem integrar a figura homogênea de qualquer outra praia arenosa. Tal pronunciamento, é óbvio, terá sua repercussão no desenrolar do filme.

A análise fílmica, ao deparar-se com o que eu denominaria produção clássica do cinema, chega a ao menos uma importante conclusão: Obras como Spartacus (Stanley Kubrick, 1960), Os Sete Samurais, Doutor Jivago e O Canhoneiro do Yang-Tsé - entre outras merecedoras do renome - contêm nos diálogos a chave do desfecho. E, por serem filmes particularmente longos, almejam sobretudo a reflexão do espectador. Almejam que este pense por si mesmo, em tomadas nas quais não predominam cenas de ação, ou de suspense, terror ou caos. O que há são diálogos que abrem horizontes do pensar, e modos alternativos de interpretar e assim vivenciar aquela realidade descrita e mostrada.

Filmes que deixam o sexo em segundo plano, não por este ser vilipendiado pelos diretores de então, ou por ser repudiado das telas por parte da sociedade. Pode ser, sim, que ambos os fatores tenham existido, para não mostrá-lo em uma cena sequer. Todavia, o espectador atento nota que o sexo, ali, ou aqui, ou em qualquer momento que fosse do filme, nada acrescentaria. Parece mesmo que tais diretores lograram o êxito de compor um todo hermético. Não há o que acrescentar, nem o que extrair. Não há retoques ou tomadas passíveis de substituição. Como no caso de um bom livro, a substância formadora dessas obras seria prejudicada caso houvesse a menor intervenção que fosse.





Steve McQueen, que atua no papel de Jake Holman, o protagonista da película, mostra uma performance de arrepiar os pêlos - de nos faltar o ar. Com destaque à cena final, que não vou contar, pois nada justifica um comentário spoiler, que estrague o bel-prazer do cinéfilo. Mas eu ressalto - sou useiro e rezeiro, oras! -: o último monólogo, as últimas linhas, conseguem fechar o filme de forma fascinante e assombrosa. As linhas e as sendas que se abriram no prenúncio do filme encontram um destino convergente no término conclusivo de um filme épico. É épico porque grava uma determinada mensagem da guerra que não iremos esquecer.

Não, longe de um pacifismo barato e supostamente covarde, há no imo do filme um papiro, que, uma vez aberto, revela as seguintes palavras: olhai a guerra! olhai atento à miserabilidade dos homens convocados a lutar por uma causa imperialista, ornada com falsas pretensões de se estar protegendo o próprio país, com enganosas nuâncias de se estar lutando contra um Mal absoluto e contraposto à bandeira de nossa nação - "nosso inimigo". O que é o inimigo? Quem é o verdadeiro criminoso?

O peão de guerra? Aquele que é despojado com o mesmo sorriso de escárnio reservado a grãos de areia apanhados - e descartados -, a esmo, à beira do mar? Quem somos nós que lutamos por causas alheias à nossa vida diária, que temos de obedecer ordens ufanas e distópicas que nos levam ao ataúde, ao mármore do cenotáfio, ao esquife, ao ulterior estertor da morte? Quanto vale a vida de homens portadores de armas, que seguem do catafalco ao cadafalso, numa vida construída à beira da destruição iminente, e de um aterrador mise-en-abïme, no qual os soldados acordam de um pesadelo para descobrirem que estão inseridos num ainda mais cavernoso e inescapável.

...

O soldado vai à guerra, o soldado volta à terra
Que o germinou, que o nutriu, que o fez emergir
Para então rastejar, e então andar, e de lá correr
E assim crescer, tornar-se adulto e ser haurido...

Enfrentado seus piores medos, pelejando, vitalício degredo
Não tropeçará em pedra, mas topará com o maior Penedo:
A morte, que depende da sorte, intrínseca à vida, que já não é sua...

...




Em meus artigos Crianças de Huang Shi e Spartacus, aludi ao heroísmo existente no peito de certos homens. É necessário mais do que a tão chauvinista hombridade para arcar com tamanha responsabilidade perante à humanidade. Homem ou mulher, órfão ou pai, pouco importa. Há pessoas que fazem a diferença, não por serem grandes estrategistas bélicos, como Hitler cria ser, assim causando mortes de milhares e milhões de inocentes civis de seus gabinetes pomposos; mas porque tais indivíduos vieram ao mundo com um tato e uma carisma todos seus. Porque objetivaram, desde cedo em seus corações, devolver, ao Mundo, Sua dignidade perdida.

Sacrificar a própria vida em prol dos outros é um ato veementemente ignorado por esta geração fornicadora e leitora de jornais, tal qual a sociedade prevista por Albert Camus - em seu romance A Queda (1956): a mulher grita por sobre a ponte, mas não é ouvida... Oras! Ouvimos, nós, algum som que não nossa própria voz? Vemos, nós, imagem que não nossa própria, nos outros, nas coisas? O narcisismo obscurece o heroísmo. O arquétipo da atitude heróica jaz na capacidade de abstrair a própria existência, para, então, enxergar a existência do outro, e vê-la com olhos límpidos o suficiente para poder se abdicar da auto-piedade consigo mesmo. Com a efêmera existência de um corpo, que pode ser usado, num ulterior esforço, para resguardar a vida de outrem. De mais de um, de vários. Escolher a própria morte, num átimo de consciência desobstruída, e encarar o fato de forma natural, porque somente com sua vida poderia salvar a vida de todos que dependeram de você para escaparem. Escolheu o destino que os abraçaria, caso recorrese a um modus operandi narcísico.

Num modus operandi narcísico, o inferno são os outros, fazendo uma citação sartriana. Olvida-se muito rapidamente que os outros somos nós, e nós somos os outros, porque a Natureza só existe na Unidade da Diversidade - e sem o Diverso não se formaria o Uno. O heroísmo é mais que um mecânico e inconsciente e geneticamente programado esforço destinado à continuação das espécies. O heroísmo requer caráter, reflexão existencial e empatia.

Um psicopata é simplesmente incapaz de um ato heróico. Este filme atinge um status digno, ao distingüir a coragem da covardia. A atitude psicopática e narcísica, da atitute verdadeiramente altruísta. Para salvar seus próximos, quão longe você iria?

Possivelmente, não tão longe.

domingo, 1 de março de 2009

Transigi

Viajei, transcendi
Paisagens diversas - eu vi.

Em cada localidade,
Uma parte de mim...
Desta saudade...
Um não, um sim.

Adeus, promessas!
Deixei-as de lado
Me puxavam ao vão
E foi de bom grado
Que delas larguei mão...

Is there anybody out there?

A solidão vem e vai
Sou quiçá o corpo que cai
Numa praia deserta
Co'a mente aberta

Posso não ser o maior dos descobridores
Posso não conhecer minhas dores
Minha alma
Posso não ter descoberto a calma

Mas uma coisa eu digo:
Fiz em vida um amigo:
O momento só -
De refletir, sozinho,
Por que caminho rumar...?

Que destino escolher...?
Em que vaso crescer...?
Optei por um bosque amplo,
Com visão pro horizonte

Belo e límpido, como o rosto dela.
Sei bem, querida, vossos pensamentos não mais estão em mim...
E que os meus já não condizem aos teus.

Já passou a ilusão de que ficaríamos juntos
Porém pensar a noite nela, é o apagar d'uma vela
Sei que já não monto o cavalo, e que este vai sem a sela

Ele está livre, oras!
Liberto para conquistar novos ares
E eu, novos mares!

Singrarei por todos eles com o pensamento cá,
E ela,
Com os dela acolá...

Não há como negar...
O fim daquilo foi o começo disto...
E a ela tenho tudo a agradecer

Por ter fechado a pequena e sombreada janela
E aberto uma porta dupla e espaçosa o suficiente
Par'eu olhar através, de viés, e ver no mundo
Outra formas...

E pensar que não nos falamos novamente...
Mas o que teríamos para dizer um ao outro?

Ambos vivem hoje vidas distintas
Passado meio ano
E nada do que cri, então, foi verdade
Não fiquei insano,
Já é ida a saudade!

Aprendi contigo, sarça ardente!
Fiquei momentaneamente cego com a luminosidade da visão
Mas ouvi atento à voz que me chamava:

"Sê ti mesmo, hombre!
Vislumbra o íris que incandesce o céu:
Lembrar-te-ás do que viveste comigo,
Sem padecer de nostalgia"

"Como às águas, nossos tempos vividos
Parecer-te-ão ficção, talvez magia.
Assim verás melhor:
Cada novo raiar,
Um novo dia..."

"Pois ao teu lado tens um amigo,
Tens teu irmão.
Escolheste viver momentos ao meu lado
Para se aperceber que não há separação..."

Aye, aye...
I was blind...
Now I see why.

I felt you in the flesh
We're no more enmesh'd
For all our best...
Bygone triangle mesh!

Once upon a time... our reality.

Was it an illusion?
Well... I learn'd from it!
Without having to wait for the worms...

I live: I g-i-v-e.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Dupla Existência

João

A noite sobreveio em João
Consigo trouxe o germe da reflexão
João não mais vivia
Procrastinava todo santo dia

Deixar de lado a prosa
O olvido à poesia...
Não, João não mais vivia.

O diálogo ficou quebrado,
Seu raciocínio, fragmentado...
João, João, por que tão atormentado?

Palavras lhe fugiam
O ar lhe escapava...
Ai, que nova vida era essa,
Que em si desabrochava?

Penava, pensava, nada saía
Era tudo, menos monotonia
Poder sentir a lareira crepitando...
Eram somente sonhos o transtornando?

Será que a trilha errada,
Ou mesmo o fim da estrada?

João, João...
Quem somos nós?

João, João...
Não estás a sós

[Se o desafio é teu,
O desafio é nosso.]

***
sans-titre

Away, away, away... how far away can we stay?

It's the price we pay for making money like hay

Life is a wonderful thing. There's time to lose and time to win.
What's losing and what's winning only we can aver
As we are just lone outcasts in a bygone tender
Up and down the river we go
Time is ripe to cure our soul
Achille's heel...
Prejudices only we can feel
Wounds only we can heal

Anytime we choose
It's always up to us
Life is to amuse
Beware the wayward bus...

[Campos do Jordão, a neblina e o frio não foram em vão]

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Tenho um sonho, sim

Tenho esperança, sim. Talvez a esperança de um náufrago, ou a esperança de um negro condenado às galés. Mas ainda assim a tenho em mãos. Ou na mente. Não sei ao certo.

Podem ser meus últimos suspiros, os ulteriores ululos da coruja que estou a ouvir. Mas já serão olvidados. Há muito o que gravar, há muito o que lembrar, há. Só não há espaço para tanta alegria em um peito recoberto de mágoas e assuntos mal-resolvidos. Esta fuligem funesta que se assenta em meu corpo, em minha testa, em tudo que a vida atesta.

Não. Sim. Talvez. Palavras que definem a realidade ou a ficção. Mas o que são todas essas palavras, sem um toque de ação?

Seriam nada? Seriam tudo? Seriam pólos antagônicos?

Não se pode viver sem pagar.

Talvez não em moeda, mas pagamos.

Sorte nossa. Não daríamos valor a coisas alguma se viesse tudo de graça e de bom grado.

O ser humano talvez tenha nascido para aprender que nem sempre será amado como gostaria.

E que quase nunca acordará com o anseio de amar seu próximo como aquele esperaria.

Homo... homini... lupus...!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Aprender a discernir

Recebi um email, com o seguinte comentário sobre a situação palestino-isralense:

Desagradável paralelismo... ...há dois detalhes para 'pior' e 'melhor'... (1) Israel é uma democracia... não uma ditadura que escolheu um povo como inimigo universal... assim o que fazem é por decisão da maioria... sem as desculpas das mistificações da propaganda nazista... (2) por ser uma democracia, por ter sua base original no "Livro", pelo seu próprio passado e pela sua força presente... ainda pode haver esperança que a coragem para superar o 'viver pela espada' possa prevalecer... e a coragem para 'oferecer a outra face' e 'dar o manto' e 'caminhar' com quem lhe pede... também se manifeste... afinal, ainda que pareça apenas um ideário cristão... esses preceitos também fazem parte da raiz mais genuína da fé de Israel, Jesus apenas sublinhou essa parte e exigiu que se vivesse pelo espírito da Lei e não pelos detalhes jurídicos que acabaram criando centenas de páginas de comentários para talmudistas. Apenas essa 'conversão' pode superar o que se vê em casa... não se trata de ingenuidade romântica mas de sabedoria prática: o exemplo está na própria Alemanha pós-guerra onde o tratamento humano, tão diferente dos termos aplicados após a Primeira Guerra Mundial, preservaram o melhor da cultura germânica... É tempo dos israelenses aprenderem a se?gunda parte da lição... ou se esquecem que os palestinos serão capazes de algo muito maior que o levante do gueto de Varsóvia?

Minha resposta segue:

Bem, por tudo que Israel faz, dificilmente diria que é uma democracia. Está mais para um governo totalitário e expansionista disfarçado de democracia, que é o que o mundo aceita. Como o lobo vestido de ovelha, a clamar que "nações árabes o cercam", e que "se vê constantemente ameaçado". Israel tem o exército mais potente do mundo, armado e financiado pelos Estados Unidos da América. Israel é governado por sionistas, que muitas vezes desprezam os próprios judeus e as passeatas que ocorrem dentro do próprio país para uma solução de dois estados e a libertação dos presos inocentes palestinos (aos milhares, em prisões não documentadas, sofrendo abusos inenarráveis diariamente).

Se fosse somente isso. Israel vem massacrando os palestinos desde o início de sua existência. Uma existência falsa, porque os palestinos habitavam aquelas terras muito antes. Instalaram-se no território que lhes foi dispensado pelas potências econômico-mundiais daquela época, Inglaterra as encabeçando, e não pararam até hoje de tomar para si terras alheias. Usurpar a liberdade, dominar, estuprar, trucidar. Sem piedade. Mais de 400 vilarejos e aldeias palestinas foram varridos do mapa nos primeiros anos. Mais de 400!

Você tem idéia do que é isso? Genocídio. O extermínio deliberado de um povo. Não é à toa que vários grupos israelenses tenham se formado, defendendo um processo pacífico de se solucionar esse assassínio de um povo sem terra. Mas um povo desterrado, isto sim, porque possuía belas plantações de olivas antes do implante de um povo estrangeiro e cujos ascendentes familiares nada têm a ver com os habitantes precedentes daquela região. Ou seja: uma terra que não deveria estar sob as suas posses.

Não, um genocídio só tem solução quando as vozes se erguem e são feitas sentir. A tendência dos fatos atuais é uma eclosão vulcânica, e não temos muito o que esperar. Mais e mais palestinos, crianças, velhos, mulheres grávidas, são mortos sem o menor resqüício de remorso, ou sombra de dúvida.

É tudo muito fácil, e tudo muito desumano. É como jogar um jogo, e os soldados israelenses são amestrados como cães, para farejarem suas vítimas. Devem inclusive competir quantos matam. Devem achar que estão jogando Doom. Que são as forças supremas do Bem, contra as onipresentes do Mal. Devem achar muitas coisas. Todas mentirosas e caluniosas.

Tudo em que creem uma grande pilha de esterco. Fedorenta, asquerosa, terrível. Terrível para as pessoas que têm alma e que não estão no poder, e que veem o que os psicopatas que estão no poder estão fazendo: jogando povo contra povo, numa colisão de forças que anulará a civilização.

O caos é imposto de cima para baixo - e vê-lo é somente o primeiro passo. O segundo é escrever sobre isso, divulgar.

Sem meias-verdades, como uma "promessa de esperança". Não há esperança alguma enquanto houver psicopatas nos governando, e revirando as concepções que nos tornam essencialmente humanos. O mais notório dos quais, para os brasileiros, Maluf: "Estupra mas não mata. Rouba mas faz."

Para ele, está muito bem. Mas e para nós que vemos os psicopatas no poder?

Sobre psicopatia, o site mais sério, didático e instrutivo sobre o tema: http://www.cassiopaea.org/cass/site_map_qfg.htm [ver o tópico "Studies in Psychopathy", descendo, no canto esquerdo da página]




E falando em esperança, republico a gravação musical abaixo, que me emocionou pela profundidade de suas palavras - e de todo o processo de composição que permitiu a este artista palestino, Doc Jazz, expor tão bem o que está acontecendo:


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A Verdade por Trás dos Bastidores

Estes vídeos, em conjunto com a postagem anterior, formam um díptico - duas partes gerando o uno.

Na curva do rio

As águas passavam correndo
Mas cada fio d'água cristalino
Turvou-se no meio do caminho:
Reflexo de inocentes morrendo.

Torpes assassinos desembainhavam
As armas do poder inquestionável
Nossas perdidas crianças miravam
O princípio d'um genocídio infindável

Sobre a pedra embaciada, à luz solar
Sentamos, pois, chorando até o luar
Percebemos que o retorno não seria breve
E nenhuma de nossas almas voltaria leve

De todas as paisagens naquele dia avistadas
Discernimos nossas ermas e futuras jornadas
Haveríamos de bater o pé naquela penedia
E nada neste mundo nossa vida mudaria

Protestos em vão fizeram, e foram ignorados
Nossos assassinos seguirão impunemente calados
E nossas vidas ninguém, por elas ninguém clamará
Uma morte à estilingada... ignóbil Sabiá.

Cantamos e louvamos nossas tradições
No coração carregamos tais canções
Que afastam este mal diário: o medo
O povo árabe guiado ao degredo.

Do degredo ao olvido
[E d'olvido ao degredo]
Este tem sido o nosso carma
Nosso filhos mal têm dormido
Já não portamos qualquer arma
[Que vos faça frente, polícia do Karma]

Ninguém sai de casa aterrado co'a iminente bala
Que escola ensinará a renúncia ao trauma?
Eletricidade, escolas, hospitais, alunos na sala...
Perde-se tudo e só nos resta a alma...

Que fardo é este que arrastamos?
Serão nossos infantes ensacados
No tácito envoltório negro...
Negro com'a noite...
[Sacrificados sob o açoite]

Pernoitou o soldado tartamudo, a dizer:
"Nós usamos teus netos como escudo, prazer!"
Suas gargalhadas ribombando as reentrâncias da Terra
Seu hálito asqueroso fedendo a trucidamento, não guerra...

O rifle apontado ao peito do manifestante
Uma absurda indiferença à vida, gritante
Pensar, meu amigo, que viver ou morrer decide-se no instante
Quando vis e débeis mentes calculam se é civil ou militante

Nada mais faz sentido, o mundo está virado
[caralho a quatro]
"Eu mato, espanco, piso nas leis e as conspurco"
"Ao invadir a Palestina, eu ponho o mundo a torto"
"Já 'quele árabe tenta defender suas terras, assim é morto..."

Faltava somente ser esquartejado... se não foi!
Não, algo neste mundo está errado... quando mata-se um humano como mata-se um boi.
Se houve esplendor em anos dourados de outrora, todo o brilho já há muito se foi.
O Rei está pelado, grotesco, à tua frente
E mesmo ao vê-lo, tu segues descrente.

É tu virares o rosto
Que o rei toma gosto
Hora do caos imposto

O Rei ri com extrema vontade
É assim que violará a Liberdade
Agora ele rolará, gargalhando aos montes
Violentando e anuviando nossos horizontes
O futuro da humanidade.

Sem conhecimento, liberdade é palavra vã.
Não aplicar o que se sabe, ilusão...
Não passa de uma vida coberta de picumã.
Dois pássaros escapando, por entre os dedos da mão.

Magritte - Le mal du pays (1940)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Spartacus!


Das cinzas ele veio,
De fendas insondáveis irrompeu,
Cindindo a Terra ao meio,
Retornou aonde morreu.

Espártaco em mãos brandia
O gládio com que lutou
Tanta pompa jamais faria
Quem o crucificou

Maculado de sangue e traição,
Não foi por vendeta sua volta
Clamou da plebe toda atenção
Dispensando qualquer escolta

"Venho cá, amigos, vos dizer
Que a coragem ainda existe!
Assim que o Sol renascer
Não quero ver um de vós triste!"

"Vejam que belo é este mundo!
Corrupto por vis indivíduos, sim,
Mas há de ser limpo, este chão imundo,
Basta lembrar-vos de mim"

"Sacrifiquei minha vida por idear
A liberdade de uma raça agrilhoada
Somos nós, gladiadores, que morremos
Para divertir, debalde, ditadores e demos!"

"E que direitos temos nós?
E o que disseram vós?
Ante nossa morte ignota, no palco da guerra
Artifício do Pão e Circo
Engendrado para distrair-vos
Com vidas e almas alheias..."

"Por que ficam calados, homens?
Será que não veem nosso fado?
O guerreiro luta ferido, cansado,
Para morrer escravo e dilacerado
Pela crueza inumana que paira no coliseu
Monumento erigido pelo mais torpe Ateu!"

"O Anticristo o pôs em pé
Para que nos lacerássemos vivos
Enquanto ri toda a claque, ignorante,
Sedenta pela dor lancinante
Que nos devora:
Edaz boca leonina!"

"Dia-a-dia nos pisoteia e domina
Faz da vida de cada uma sina
Mas não somos diferentes, não!
Somos também fruto da Criação!"

"Se é bela a Natureza e o Desenho bíblico
Somos belos, ora, pois somos humanos!
Somos teus irmãos, homens insanos!
O Karma que rege o mundo é cíclico!"

"E vós haveis de reencarnar sob nossa pele
Aturando o suor, o maltrato, a lâmina que fere
A fome, a extenuação, o medo da morte
Tua própria vida ... lançada ... à sorte...!"

(foto: Kirk Douglas no papel de Espártaco, em filme homônimo ["Spartacus", 1960], dirigido por Stanley Kubrick. Excelente obra cinematográfica. O anseio de um homem íntegro, por justiça e igualdade, pode sublevar uma sociedade. Basta ele se lembrar de que nasceu da mesma forma que seus opressores.)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A Voz Solitária do Homem (1987)


Comovente, esta poética obra cinematográfica de Alexander Sokúrov, baseada no livro do escritor soviético Andrei Platonov. Assistindo, não pude deixar de pensar que o filme parecia muito mais antigo. Combinando uma trilha sonora de arrepiar os pêlos, com uma fotografia que eu só poderia caracterizar como poética, é uma película que merece ser vista com a mesma atenção que se lê Rilke, ou Carlos Drummond de Andrade, ou qualquer outro grande pensador que fez das palavras mais do que um mero canal de comunicação.

Como julgar se um filme é bom? Certamente quando ele te transporta a outros tempos. A partir desse mágico instante, deixa de ser meramente um apanhado contínuo de imagens, para então compor algo muito mais grandioso e holístico: um retrato integral da vida. Pois não importa que aspecto se aborde, este é um campo infinito. Se bem que A Voz Solitária do Homem pega a vida por seu viés decadente, e nos escancara uma degeneração dos tempos e dos valores.

De seu casamento conflituoso com a mulher que mais o amava, a encantadora Lyuba, podemos perceber que algo não vai bem. O pano de fundo, que a história apresentada na tela não nos conta, é a participação de Nikita na guerra civil soviética, que levou à vitória do Exército Vermelho, criado por Leo Trotsky, posteriormente assassinado em exílio no México. As cicatrizes da alma demoram a fechar, ou mesmo remanescem abertas, como no caso desse protagonista arrasado por suas experiências, que, obviamente, devem ter sido das mais traumáticas.

Sob esse ponto de vista abarcador, o filme se prova um libelo contra a inumanidade da guerra. Pois, não importa que lado vença, os derrotados sempre somos nós. Deste lado ou d'outro, somos os traumatizados, somos os que fracassaram - em solucionar de qualquer outra maneira o que viria a ser um assassínio em massa de seres humanos despojados como peões num vil e reles tabuleiro de xadrez. Portanto, o filme vem a mostrar que somos mais do que isso: somos mais do que braços portadores de armas, braços abundantes que se repõem no calor da batalha.

E é exatamente por não mostrar uma cena sequer da guerra, que o filme pode mostrar sua face mais dolorosa: sem um ferimento no corpo, Nikita há de arcar com todo o sofrimento e a angústia moral por que passou, que entreviu, e que vivenciou. Um homem atormentado pela crua e irrevogável memória torna-se uma alma destroçada. Todos os cacos, de seu ser, espalhados pelo sórdido chão, são virtualmente impossíveis de serem recompostos no espelho íntegro que uma vez o foram. Fragmentos do Real... e de onde virão os homens visionários, se lhes impõem semelhante destruição em tão tenra idade?

Homens envelhecidos, e de fato embrutecidos, por uma guerra que não lhes diz respeito. Não lhes diz respeito, porque tal embate constituí um desvirtuamento das razões de ser do Homem. E quais são elas, estamos nós por descobrir. Mas tal possibilidade nos é extirpada assim que se engendra uma guerra. Não viemos ao mundo, pois, para dele tirar outros que a ele vieram da mesma maneira que nós. De forma alguma fomos gerados por nossos pais com o macabro intuito de banhá-la a sangue e guerra.

Andrei Platonov (nascido em 1899 e falecido em 1951), foi um dos precursores do existencialismo. Jean-Paul Sartre e Camus, apesar das dissensões teóricas que mantiveram em vida, figuram dentre os principais expoentes dessa "corrente literária", ou desse "movimento". O Estrangeiro, um escrito primordial de Albert Camus, invoca uma profunda reflexão sobre o que é, fundalmentalmente, essa corrente de pensamento.

O homem existe, antes sequer de possuir a consciência de ser? Ou possui a consciência de que é, antes mesmo de existir?

Não sei por qual motivo, essa indagação resultou em mim após a leitura de O Estado de Sítio, A Peste e O Estrangeiro, de Camus.

Talvez não haja resposta. Ou, só venha a descobri-la quando já não estiver mais por estas bandas.


Someday, somewhere, we'll all seek... greener pastures.

Will we ever find them?
Will we ever find the answers to our undying inner questions?
Or we'll enmesh ourselves - again - in just another endless pursuit?

Who holds the answers?
Is there such an entity, overlooking our growth, development, later decease and death?


Hoy, Beholder!

Where do we depart to?
Why is our final destination enshrouded in such a mystical mystery?

Which way is the way out...
To freedom?


domingo, 15 de fevereiro de 2009

A (suposta) Verossimilhança

A imprensa suíça deu grande destaque à reviravolta no caso Paula. Alguns jornais publicaram duros ataques. Um colunista do diário conservador "Neue Zürcher Zeitung", um dos maiores do país, acusa a imprensa brasileira de inventar fatos "regularmente" e afirma que o Brasil é um dos países mais racistas do mundo.
[Folha de S. Paulo, Mundo, Domingo, 15 de fevereiro de 2009. Sobre o caso da brasileira que foi alegadamente ferida por neo-nazis na Suíça, na estação de trem Dübendorf.]

Pode mesmo ser que o Brasil seja um dos países mais racistas do mundo. Só não o vejo nos metrôs e ônibus. Talvez eu esteja cego, mas o que vejo, sim, é um preconceito inerente nas pessoas contra os pobres - todos os depauperados pela sociedade iníqua em que vivemos. Esse preconceito existe. No mundo dos negócios, já foi mostrado que o homem branco ganha mais que a mulher branca, que ganha mais que o homem negro, que ganha mais que a mulher negra. Asiáticos e outros não foram contabilizados no estudo, mas a velha piada corre solta sobre a dificuldade de se encontrar um mendigo asiático por aí. Existem, mas sua exclusão é meramente econômica, e não tem qualquer origem social ou discriminatória quanto à sua etnia.

Sim, a imprensa também inventa fatos "regularmente", para manter o Pão e Circo (Panis et Circensis, né Buarque?) funcionando. Mas assim o fazem todas as imprensas do mundo, pelo o que eu saiba. Só imagino se na Suíça há a mesma convivência diária e oni-vigente entre negros, brancos, pardos, amarelos e (poucos, mais ainda assim presentes) vermelhos nas ruas, nos transportes públicos, enfim, na vida cotidiana. Pergunto-me se lá essa convivência um pouco menos forte e manifesta não poderia colocá-los na lista dos países racistas (e xenófobos). Porque xenofobia, no Brasil, é coisa para inglês ver. Deve haver focos por aí, com políticas xenófobas sendo disseminadas entre neo-nazis e afins, mas a população em geral não tem muito o que dizer sobre estrangeiros.

Criticar o outro, de forma tão acerba, é uma forma de se esconder. Ah, poderiam ter se lembrado da corrupção tupiniquim! Quão conveniente não seria... hein?

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A Regra do Jogo (Le Règle du Jeu - 1939)


É um filme que trata sobre o ciúmes, a traição, a amizade, os erros. O que mais entretém nisso tudo talvez seja a perspectiva sob a qual ele aborda as relações sociais: parece que estamos lendo algum livro de Honoré de Balzac - algo sobre a aristocracia decadente e a promiscuidade por baixo dos panos, aspecto que recebe tantas alusões na série A Comédia Humana. Sendo o francês a língua mãe, parece que tudo fica mais natural. É possível observar toda essa circunspecção falsa do "viver na sociedade" - a imagem de si mesmo, as aparências, o modo enfatuado de ser e portar-se.

É um bom filme, especialmente no que tange ao vocabulário e à boa atuação. Há 70 anos, o cinema era diferente... talvez não para o melhor, numa repentina afetação nostálgica. Mas vale a pena conferir as mudanças técnico-científicas que se evidenciam com os tempos.

De qualquer forma, sinto falta de um Raskolnikov, para pôr fim à velha usurária.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Incógnitos da Metrópole


São Paulo. 01-02-2009. 2h da madrugada.

Encontro-me em frente ao MASP, Museu de Arte de São Paulo. Senti essa vontade inexplicável de visitar São Paulo à noite. Desci na Sé e caminhei até chegar à Brigadeiro Luís Antônio e então à Paulista. E foi assim que, andando a esmo, deparei comigo mesmo em frente ao MASP. Poderia ter sido qualquer outro lugar, mas eis aqui o que eu chamo de coincidências da vida.

Esse sentimento que nutro, algo como um respeito pela Arte e sua capacidade de expressar o estranho e o sobrenatural. Aliás, não sou diferente de muitos - apenas mais um brasileiro, nascido nesta terra auriverde. Ao deambular por estas ruas apócrifas, lanço um desafio a mim mesmo - peitar a frialdade noturna que se antepõe ao medo morno que me assalta durante o dia.

Pergunta-me o que é medo morno. Só o posso descrever como uma agulha recém-cauterizada perfurando a pele do meu braço esquerdo, e eu sem saber o que virá depois dessa violação de minha liberdade. A noite vazia e gélida incute-me um temor. Que temor é este não sei. Talvez porque tenha andado por estas bandas durante o dia, e tenha cruzado com turbas e ruas apinhadas. A multidão de certa forma afasta o medo. Uma vez sozinho, já não tenho a ilusão de ter alguém por perto em caso de perigo. Estou só no mundo.

Essa sensação me picando por dentro. Sou livre (sou mesmo?), mas o pavor me atormenta vivo. Uma liberdade... assustada. Tenho-a em mim, mas não sei o quê, exatamente, fazer com ela. A autopiedade desfere um golpe repentino e logo clamo: "Sofredores! Sou um deles!" Quero algum sentimento de pertença, de amparo, de companhia. Já se foi a luz do dia. Agora é noite, e cada ladrilho pisado, uma penedia.

Estou premido, quiçá infeliz. Tenho medo e me angustio por tantas coisas simultâneas. Agora mesmo, este receio gritando desloucado em meu imo: estou amedrontado com a maldade alheia e de ser mais uma vítima ignota dela. Vejo, com os olhos da alma, que poucos têm o coração aberto ao perdão. Tenho medo de ser um deles, também. De não poder me autoperdoar, e não conseguir perdoar meu próximo.

Minha cabeça gira confusa. Clichês percorrem-na em disparada, sem me dar tempo de analisá-los com maior criticidade. "O Povo é um só". Este fica teimando em se gravar em minha memória. Não o quero, não o quero. Não é verdade. É somente mais uma frase de efeito, mais uma âncora do nacionalismo. E não, não quero fazer de minha mente e minha vida um ancoradouro para tamanhos disparates. Ser igual a todos é o mesmo que ser ninguém entre ninguéns. E se não há, absolutamente, ninguéns, essa oração de cunho ditatorial já não faz sentido algum. "Uma imensa diferença e variedade de culturas aglutinou-se para formar uma só massa: o povo brasileiro."

Isso também é inverídico! Que absurdo proclamar dessa maneira a formação multivariegada do povo brasileiro. "Uma só massa". Mais um chavão determinista. Massa de quê? Manobra, certamente. Para onde vira o timão do autocrata, vira também o leme do povo. Povo que passa fome, que mal a mal come, que vive assim-assim. Em choupanas ribeirinhas toscamente erigidas, em paliçadas sobre-rio, em aglomerações superpovoadas denominadas favelas ou sei-lá-mais-quê... Diz-que-diz-ques... tenho que parar com esse zumbido crescente em minha cabeça. "Uma só gente" remete à aculturação, à homogeneidade, à ruína da alteridade, da diversidade, multiuniversalidade e multidimensionalidade. Do caráter multitudinário do Real. "Um só povo", "Uma só massa" - lavagem cerebral! Ao infernos com Colombo, aos infernos, Cabral! Vocês destruíram o bem, para germinar o mal! Trouxeram civilização e uma religião monoteísta a quem nada havia pedido. A incorporação do poder centralizador em culturas silvícolas que viviam muito bem sem seus dogmas e suas imagens de certo e errado. E todas as mentiras que vieram lhes contar, para trapacear, estuprar e roubar!

Esta cidade metropolitana, este monumento à Arte que ora observo - armado em concreto e ferro. Erigido sobre o sangue dos nativos. Enterraram meu coração... na curva do rio.

Inspirado no original de: Edson Porfírio de Araújo, natural de Surubi, Pernambuco. Um transeunte noturno que fez questão de me fiar uma folha um-quarto amarrotada, com muitas idéias em poucas linhas. Remeta ao título se te interessar saber quem é Edson. Você pode ter cruzado com ele algum dia - e tal passagem não ter tido qualquer valor em tua vida. Agora, diga-me, em que mundo vivemos, que já não conhecemos o próximo? Quiçá temamos o que o estrangeiro tem a nos dizer sobre a nossa própria terra. São Paulo, selva de pedra, pólo econômico e da depressão, das baladas loucas e vã fruição. Eis... o que chamamos... "civilização".

P.S. (11/08/2010): Destruí os originais de Edson, na última limpeza do meu armário de "papeladas". Mas já está transcrito neste meio virtual, de qualquer forma. E é "Edson" sem acento, mesmo, conforme sua assinatura. Apesar da gramática normativa da língua portuguesa.

O Curioso Caso de Benjamin Button (2008)


Bem, suponho eu que muito já tenha sido dito sobre essa última produção de David Fincher, com direito a Brad Pitt no papel de Benjamin Button e Cate Blanchett como Daisy. Entretanto, o que pretendo abordar, nesta postagem, são as questões da morte e do envelhecimento - levantadas em todo o decurso do filme.

Daisy revela em várias ocasiões seu particular temor quanto a estar envelhecendo, e, assim, aproximando-se da morte. Processo esse realçado por estar vivendo justamente ao lado de Button, que segue um curso de vida contrário - nascendo velho e doente, para morrer com poucos meses de vida, na figura de um bebê de colo. Seria incorrer em um erro, talvez, denominar o curso normal da vida de Daisy de 'processo', ao passo que a de Button fosse chamada de 'retrocesso', porque ambos têm, no final das contas, uma vida linear - no que tange ao aprendizado, isto é. Da curiosidade infantil à senilidade longeva, ambos perpassam as mesmas fases da vida - se é que se pode nomeá-las destarte -, sendo invertida apenas a seqüência em que elas ocorrem.

Voltando à personagem Daisy: ela tem um certo pavor em encarar o envelhecimento como processo natural da vida do ser humano* . E por que deveríamos, nós, passar anos, ou até mesmo boa parte da vida, amedrontados com algo perfeitamente natural e cabível a uma existência finita? Por que deveríamos, mesmo na maturidade, persistir nutrindo um receio pueril concernente à futura velhice? É provável que tal medo advenha do fato que, na juventude, raramente sentimos a morte - incognoscível eterealidade! - roçando-nos os pêlos eriçados do braço. E, claro, devido à nossa vivente ignorância do além-mundo, tememos a morte. Porquanto, por temermos a morte, tememos - daí - o envelhecimento.

Mas a pergunta essencial, derivada desse questionamento, é: por que ter medo da morte? Se a morte fecha o ciclo onde o nascimento o engendrou, estamos a falar da mesma coisa, pois não? Vejamos bem: se desenharmos um simples círculo:

Podemos ver que é uma figura hermética. Não há começo, bem como não há fim. Escolhamos qualquer ponto dessa linha que o delimita, para alocar a palavra "morte".

Agora escolhamos qualquer outro possível ponto para alocarmos a palavra "nascimento".

Pronto. Este é o ciclo da vida, na forma mais simples de caracterizá-lo. A parte curiosa de figurar a vida como um ciclo é que, ao fazermos isto, deduz-se automaticamente que: sem a morte, não há nascimento, e sem o nascimento, não há morte - e, para chegar de um ponto ao outro, perfaz-se todo o ciclo. Se um não existe sem o outro, depreende-se que um leva ao outro - e se eles são sine qua nons mútuos, eles são, essencialmente, a mesma coisa. É o velho sofisma de perguntar quem veio antes: a galinha, ou o ovo? Nem um, nem outro. Pois o ovo vem da galinha, e a galinha provém do ovo. Logo, um não existiria sem o outro o preceder. Um dá vida ao outro.

Assim, da mesma forma com não temos medo de nascer, a mesma atitude deveria se aplicar logicamente à morte. Quão ilusório denominar a morte o fim, e o nascimento o começo! Benjamin Button vem mostrar a inveridicidade dessa asserção: o nascimento pode - por que não? - ser o fim, e a morte, o princípio.

O elemento abstrato "morte" pode, sim, ser utilizado como um incentivo para buscarmos alcançar todos os nossos mais caros objetivos enquanto nos vemos vivos. Para muitos, essa é a suprema razão de viver, indagando-se: se este fosse meu último momento, o que eu daria por ele? Quão caro eu pagaria neste momento para realizar minhas metas?

Quão encorajador!

Se apenas soubéssemos dar tudo de nós...

P.S.: Outro filme recente que trata do regresso à juventude, porém em circunstâncias diferentes, é o Uma Segunda Juventude ("Youth Without Youth"), produção de 2007 do diretor Francis Ford Coppola. É uma obra cinematográfica magistral. Por seu aspecto duplamente místico e fantástico, não atingiu as bilheterias nem o esplendor da crítica da mesma forma que O Curioso Caso de Benjamin Button. Sua densidade psicológica e seu caráter multicultural deixaram-me de fato boquiaberto. Recomendo-o amplamente, inclusive para quem não apreciou Benjamin Button. Para quem gostou, então, será um prato cheio - certeza de um cinéfilo (cartaz e trailer abaixo).





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E, virtualmente, de toda a vida sobre a Terra, com uma leve exceção...