quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Sonhos
E ocorria que, se já não pegasse nos estudos naquele mesmo dia de noturnas profecias, eu era ainda atormentado por sonhos, de mesmo teor - na noite seguinte e na seguinte... O fato é que tanto me espantavam aqueles sonhos que não deixava estes se repetirem uma segunda noite. Debruçava-me, então, de vez sobre a matéria, para assegurar um bom e modesto 6,0 de média. Passados os exames, não poderia deixar de agradecer essa onda incosciente que houvera feito subir a maré no tempo certo. Pois não dava outra: bastava iniciar meus estudos que paravam os suspiros noturnos amedrontados, e o cessar de minhas aflições sinalava que iria manter-me ao menos na média. E de fato acontecia.
Pois não é que hoje fui tirar um cochilo à tarde e fui assolado por um sonho tão temerário quanto àqueles? Sonhei, pois, de tal maneira que falhava na prova de Recuperação de Química de amanhã, que só fui tomar conta de que era um sonho horas depois. Sim, fiquei horas pensando ter me dado mal em uma prova que ainda me aguarda! E olha que eu tinha ido dormitar um pouco justamente depois de terminar a revisão da prova. E, pensando bem, preciso agora mesmo resolver, na prática, esta profecia. Vou estudar o quanto conseguir, e sempre confiar nesta Mão que se direciona a mim exatamente quando mais preciso de um ombro amigo. Agradeço que seja um ombro amigo, que se estende não para eu nele derrramar meus prantos e possíveis infortúnios, mas um ombro que se consolida, sempre, como um firme e inabalável suporte nas mais desditosas ocasiões.
Robert Louis Stevenson, famoso pela autoria de Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), inspirou-se nessa estória da luta entre o Bem e o Mal, curiosamente também, a partir de um sonho. No meio da noite foi ele acordado pelo o que havia visto em seus sonhos, relatou-o à mulher e teve a brilhante idéia de escrever um rascunho. Sua mulher desaprovou do primeiro, que ele então atirou no fogo da lareira. Já a segunda versão que preparou recebeu, por sua vez, imediata aprovação, e ao longo dos tempos transformou-se numa estória de que nós, ao menos uma vez na vida, escutamos falar.
E, claro, a literatura não é a única a ter recebido influências de estados de consciência diferentes dos que se pensam serem os responsáveis por grandes obras. Friedriech August Kekulé, o cientista que descobriu a importantíssima estrutura do anel de benzeno, já vinha quebrando a cabeça com o enigma dessa cadeia aromática, de cuja existência ele já estava certo havia tempos. Apesar de todos os seus esforços, não conseguia determinar como se estruturavam os átomos em suas ligações. Dormindo, certo dia, ele sonhou com a cobra Ouroboros, da mitologia nórdica, perseguindo sem cessar a própria cauda, em círculos. Daí seu inigualável achado. Como Arquimedes, Kekulé deve ter se sentido digno de exclamar "Eureka!" muitas e muitas vezes...
Aliás, aproveitarei a sabedoria que me trouxe o Inconsciente e desmentir sua profecia. Isto é, enquanto há tempo...
E Vive
É a alegria de viver!
Nasce o dia, frio e sem sol
Mas dentro de mim já fulgura
A roda viva do arrebol
E dentro de ti também.
Há em mim um radiante arco-íris
Composto por todas as cores
Todo o mundo e suas flores
Há em mim
O aquém e o além
Você é o que é
Mas não o que tem
Eu sou o que sou,
O que o destino me aproximou.
E vivo.
E vive.
E sigo.
Em aclive ou declive
Ele vive.
Percorre prados e montanhas
A ver teias sem aranhas
E perscrutar suas entranhas
Cada problema resolvido
Cada dia vivido
Cada passo dolorido
É tudo provido
De um incandescente colorido
O constante fulgir
Da vida.
Brilha, pois, enquanto há luz!
O esplendor da manhã
Não morrerá.
Não morrerás.
Cantar-te-ão resplandescentes sabiás.
E então saberás do que eu falo.
E num irromper entenderás.
Como nunca havias antes,
Que a prometida eternidade
É mesmo feita de instantes...
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Mahomet
Nada será; nunca será
A Montanha não vindo
Maomé bravo pra lá irá
Maomé deve ir até ela
Desbrava, homem,
Vá logo, caminha!
Que te importa se é lépido ou moroso
Espezinhar rápido, bem vagaroso
Eta, caminhar ditoso!
Desde o início tu caminhaste
Não foi propício mas tu andaste
Que sacrifício, homem guindaste!
Esse resqüício que pezunhaste!
Quem disse que era fácil?
Quem disse que era grácil?
O suor te cegou o olho
Caíram-te os pêlos do sobrolho
Tu até mesmo colocaste as barbas de molho...
E chegaste lá zarolho
É,... eu bem sei
Chamaram-te Nei
Apelidaram-te de Nem
Ninguém sabia quem tu eras
Mas tu sempre foste alguém...
Ah! Não crês?
Não vês?
Tu és.
Exatamente porque nunca creste.
Seus passos apolíneos
Em veredas e caminhos
Teu porte retilíneo
No trilhar sozinho
Tinha rosas, tinha espinhos
Mas nunca degredaste
A obra principiada
Foste duro e rijo
Um'árvore delgada
Paradoxo: bem-arraigada.
As passagens tortuosas
Que espetaram-te os dedos
As chacotas preguiçosas
Nem te sequer botaram medos
Pois, não foste tu?
Que enfrentaste o degredo?
Sem ela, a Capitu,
Tu levantaste dia-a-dia cedo...
E para quê?
Tu, somente, sabes
E eu ficarei na minha
Foste tu quem aprendeste
E eu fiquei pra ver...
Tu por dentro cresceste
Num homem novo renasceste
Mas disso nada sei...
Mágoas te infligiram
Misericórdia não te deram
E mesmo assim tu perseguiste
E perseveraste...
Ô, homem,
Que te fizeram?
Cegaram-te os olhos?
"Pois eu tudo vejo,
E tudo escutei.
Pois o que almejo,
Isso tudo alcancei."
"Então perdoas-me pela demora?
Tu por mim esperaste sem ir embora.
O que fizeste o tempo todo pra passar a hora?"
Uá, eu fui olhando lá pra riba!
Vi estrelas, conheci Curitiba!
Li um montão de livros,
Sabe aquele do Içami Tiba?
"Me desculpa o infortúnio
De não conhecê-lo?
No andar eu vi Netúnio.
Tu já chegaste a vê-lo?"
Creio que... não, nunca o vi
E tu, já ouviste o bem-te-vi?
Em criança me arrependi
Mas adulto jamais esqueci
Como canta bem o danado!
"Que maravilhoso o que dizes!
Quem não o ouviu são infelizes,
É um cantar bem prolongado
Tom, voz e timbre, tudo sincronizado!"
Cuida que não é só isso não!
Aquela ave tem é belo diapasão!
E estranhamente canta quieto
O que me deixa circunspecto...
Por que será que canta assim?
E o sabiá, não será outrossim?
Canta finim, finim, ô passarim
Ê, candura que nu acha fim!
"Não sei se vigiaste pernoitadas
Mas meus pés deixaram pegadas
Talvez o sigam, talvez jamais
Ele é reto, desgostoso ao Barrabás...
Talvez seja isso um bom sinal
Caminharão nele os do bem
E será abandonado também
Por aqueles que pensarem mal...
Repousam lá cansados viandantes
Jazem nele semi-mortos os viajantes
Mas, mais vivos que todos eles,
Não o estão nenhum dos seres...
Porque eles buscam, né, a tal verdade
E pouco a pouco largam vil saudade
A casa ampla se abrirá ao voltarem
À distância mui custa se acostumarem...
Penso que, no entanto, fazem bem ao viajarem
Seu lar, seu bar, sua pátria, até a estalagem
Torna-se leito, cama, repouso pra viagem
Desnecessitam de mãe, pai ou pajem
Compenetrados eles vão
Seguindo a viagem
Vem do sol a mornidão
Fazem e perfazem
Na calma, tênue solidão,
Memorável viagem...
Fênix humanas..."
domingo, 5 de outubro de 2008
Re-vi...ver.
De repente, tudo alagou. O dilúvio enxarcou minha alma, a chuva não cessava. Eram lágrimas, milhões delas a escorrer em frente aos meus pés, e a garganta ressequida, rouquenha, inaudível, porque sem voz. E os olhos premiam-se contra a fúria das tormentas. Minha goela ardia, como se se incandescesse por palavras, fonemas que fossem. Mas as gotas a escorrer, sem cessar, eram minhas palavras, inefáveis, insondáveis. O coração queria tornar-se fértil novamente, então debulhava em mim seus medos e receios. Todas as puerilidades que o consciente tenta mover para longe, bem longe do meu eu social.
Em mãos eu tinha o pano, e à vista uma bela provisão desses farrapos secos, ansiantes por lágrimas, desejosos de água que os completassem como o líqüido a uma esponja. Nos braços eu tinha a força, toda a força de que me muniram os anos. Dezoito anos, e tanta angústia. Nas pernas toda a energia, tão vital. E o pano, maltrapilho pano, exíguo exemplar, jazendo imóvel nas calejadas mãos. "É chegada a hora", disse-me o Oráculo, aquele que reside em cada um de nós.
Não poderia ter sido diferente. Secava tudo o que a chuva trouxera, agachado, visionário. Cada curso d'água era uma história que deixara para trás, mas o fluxo era imparável. Impossível captar tanta fonte d'água, a correr desesperadamente, buscando uma saída que fosse. E tudo eram saídas. E tudo era vazão. E simplesmente não parava. Os braços latejavam, as mãos se avermelhando e tudo aqui pulsando. Dilatavam-se as veias, e a cara de esforço representava tudo. Modelava meu ser, expressão do real.
Cada passo, cada gesto braçal, o esforço de passar a seco toda a umidade que me trouxera a realidade. Nuvens declamavam suas poesias, em choro. E que choro copioso. Foi dada a mim a tarefa de ombro amigo para todas as almas que choravam no mundo. E o pano enchia-se facilmente. As mãos, machucadas e feridas pelo esforço, não só secavam diligentemente, mas também limpavam. E como limpavam. Doridas mãos clamavam por clemência, mas o degelo era pungente.
Quantas pessoas lacrimejavam em mim suas mágoas. Cada retorcida daquele material de algodão gasto trazia-me memórias. Cada repuxada e cada músculo estirado gritando de dor e impotência frente àquela batalha recendia a lembranças. Estava tudo armazenado, mas os esforços não me bastavam para trazer tudo à tona. Estava chovendo no molhado, e minha cabeça, submersa, pendia semi-inconsciente, lutando para viver. Meu corpo rijo batalhava e pelejava, e eram tudo convolutas. Voltas, reviravoltas, o distorcer molhado, o torcer enxuto. Misturavam-se todos os sofrimentos para compor um univalente. Totipotente.
Se fosse só isso. O que, todavia, não era. Doíam-me as mãos, mas o trabalho hercúleo, de alma e corpo, matéria e imatéria, não podia parar. A máquina funcionava a todo vapor. Redescobria em mim esta máquina humana, complexa e ferida. Não podia parar de acalentá-la, de raê-la, de roê-la, de esfregar minhas mãos no chão. Meus quatro membros naquela luta de mim contra mim mesmo. Retomava um aspecto mitológico: o herói a lutar contra o próprio destino, fixado, imutável. Mas mesmo assim lutando, aquela luta inelutável. Tinha tudo para ser o protagonista, então porque não sê-lo, então porque não premí-lo naquele momento de tanta energia focada num único ato. Valente ou covarde, era um ato de auto-limpeza. Era minha ação individual neste mundo, era o perdão que pedia, era a dor ressentida pela última vez, para finalmente despachá-la adiante. Não a queria mais. Não me fazia bem.
A chuva adiava seu fim, assim como eu a minha luta interior. Havia tristeza, havia solidão, havia, sim, muita dor. Mas nada me impedia. O ímpeto do fogo que ardia cá dentro era mesmo de limpar e secar todo aquele mar sem horizontes de lágrimas. Bradava por luta, por continuar esta jihad interior. A maior batalha de todas sendo travada enquanto fraquejava o corpo e fortalecia cada parte imaterial de meu ser. E se remunia de vitalidade meu intangível. Toda a água que eu secara na verdade evaporara para minha garganta. Agora ela conseguia exprimir a vida. Os olhos se haviam tornado enxutos, todas as lágrimas haviam se dispersado. Não fora em vão. E nada é em vão. Eu cuspira o pão que Barrabás amassou. Mas essa entidade estava aqui dentro a causar-me aflições, e eu a reneguei. Expatriada, anátema. Não te quero mais, não vês que por pouco não me destruíste?
No lugar da solidão abismal, venho a solidão da paz. Pacificadora reanimação da anima. Da alma que tanto pedira por água e só encontrara desertos cheios de miragens, a estontear-lhe as vontades, a amedrontar-lhe a esperança de viver. Mas o corpo que tanto lutara para esfregar o chão enxarcado acabara de nutrir sua força motivadora com água suficiente para tirar-lhe daquela angústia sedenta. Revivia algo dentro de mim. Renascia a fertilidade, volvia o cheiro do cravo, daquela flor branca e pristina, simbolismo, simbolismo.
Era o começo de uma nova vida. Desta vez, repleta de significado.
sábado, 4 de outubro de 2008
Viva!
Não reclame, amigo, se você não passou pelo que passei. Felicite-se por jamais ter tido de agüentar 40 minutos de urina de outrem pregando as tuas ancas à cueca e à calça, porque, a não ser que tu te despisses em público, mostrando tuas vergonhas, não haveria como não passar pelo mesmo. E felicite-se por não ter recebido notificação de fim de um relacionamento - que se diz mútuo, convenhamos - por orkut, sendo que a pessoa em questão teria como ter te ligado, pois tem seu número de telefone. Enfim, felicite-se, porque "fundo do poço", disse a sabedoria fraterna, é conceito para os que acham que sofrimento tem fim. Ter, tem. Mas só sabem algumas poucas pessoas, que muito, e digo: muito muito muito sofreram nesta vida.
Chega de pregar-lhe sermões. Cada qual, cada um, aliás, estamos no capitalismo selvagem. Aqui não tem choro nem vela. Tua tristeza e mazela, disso não me importo. Com licença, preciso dar uma fungada - no papel higiênico, esteja claro. Boa vida!
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Corra, Lola, Corra --> "Tupiniquim version"
Lola acabara de acordar quando o telefone tocou. Era Manni, seu namorado, com a voz embargada. Urgia-se que ela conseguisse vinte mil reais em vinte minutos, no máximo. Ela perguntou-lhe o porquê de tanta urgência, mas da resposta só pôde discernir que ele se encontraria em sérios apuros caso ela não lhe levasse a quantia dentro do tempo.
Ela se levantou da cama com um ímpeto furioso, determinada a correr aloucadamente para arrecadar aquela quantia estrondosa e, assim, livrar a pele do namorado ("o que ele aprontou desta vez?!"). Saindo da cama, Lola penteou-se em frente ao espelho, trocou o pijama por roupas leves, de correr, e saiu em disparada do quarto. Na escada que levava ao térreo estava um vizinho pivete, de 10 anos, assobiando candidamente, para passar um ar enganador, suposta infância. No pique que ela deu para alcançar mais rapidamente os degraus, passou despercebido o pé maliciosamente estendido, e ela só tomou conhecimento do fato ao levantar-se, alquebrada, na base da escadaria.
Na rua, às seis horas matinais, os transeuntes, esparsos, ainda estavam envoltos pelo ar sonolento do despertar do dia. Passou casualmente por seu calvo pai, que, de carro, nem sequer a notou. Atravessando uma rua erma sem olhar para os lados, Lola trombou em cheio com um velho maltrapilha, que conduzia sua bicicleta como se em sonho. Não prestou socorros nem, tão-pouco, observou os esgares de dor que o homem fazia, a jazer estendido no asfalto, com uma evidente fratura no ombro.
Cruzando com várias pessoas que tinha a certeza de já ter outrora cumprimentado uma vez na vida, não logrou lembrar seus nomes. Daquele mesmo jeito desmemoriado adentrou o banco, onde seu pai trabalhava ("deveria ter pego uma carona com ele, burra!"). Suava em bicas. Correra por dez minutos sem parar. Pisou com resolução no capacho da porta de entrada, debatendo-se, por dentro, contra a necessidade odiosa de ter de pedir grana àquele coroa ranzinza.
Tudo era contratempo. Antes de passar pela porta blindada que dava acesso aos escritórios dos mais altos funcionários, precisava falar com um guarda gordo e rechonchudo nas faces, sempre a fazer brincadeiras macunaímicas - sem graça, o patife. Ele a cumprimentou com um ar grave, que a surpreendeu. Mesmo assim, ela pensou, preciso tirar esse palerma da minha frente logo, puxa. Ele franziu a testa e pediu um momento. Lola, impaciente, só calculava os possíveis desfechos se o cacife lhe escapasse das mãos, ou se ultrapassasse o já exíguo tempo. O portentoso segurança de súbito assumiu um tom de confissão lamuriosa, contando-lhe - que hora imprópria, pensou Lola - que era seu verdadeiro pai. Explicou-lhe, debulhando-se em lágrimas, que a deixara sob os cuidados do patrão, pois era em quem mais confiava. Aliás, acrescentou o guarda ("é meu pai e nem me diz o próprio nome, é brincadeira isto?!"), a mulher do patrão era sua mãe, mas este nem desconfiava, então era melhor ela ficar quieta. Ela havia feito uma viagem alegando doença terminal ao marido, e tivera Lola em segredo. Quando chegou, confabulou toda a história em que Lola encaixava-se como filha do guarda. O marido gostara da boa ação e, sempre dizia, por algum milagre do destino ainda tomara semelhança à sua própria mulher, que graças ao bom Deus se curara de todo. Só podia ser coisa de Deus, pensava ele.
O que mais espantou Lola foi a rapidez com que se passavam os segundos. De resto, não percebeu que o guarda mal se agüentava. Ai, dramalhão, abra alas antes que te dê um "fica esperto", vamos!
Dardejou pelas portas enumeradas, em série infindável. Estacou à frente da porta semiaberta de seu pai placebo. Auscultou a voz de uma mulher. "Deve ser piriguete". Resolveu dar uma olhadinha ("mal não vai fazer"). Viu a silhueta de uma mulher loira, feia pra baubau, mas bem vestida, aproximando-se de seu padastro com uma fa-mi-li-a-ri-da-dee, hum! Os dois se abraçaram languidamente. Aquele gesto de adultério safado em hora de trabalho foi o estopim para Lola, que escancarou a porta com um chute tão forte que partiu a dobradiça. Entrou, gritando, perdendo de vez o brio ao ver o zíper de alguém aberto:
-Pai, preciso de dinheiro! O pai, exasperado, redargüiu:
-O que é que você quer de mim?
-Dinheiro, já falei!
-Quanto? Fala.
-R$20 000, vai logo!
-O QUÊ? kkkk... Você tá gagá?! - e irrompeu numa gargalhada digna de um orangotango.
-Eu...preciso...do dinheiro... AGORA! - e sacou da bolsa o revólver, elemento-surpresa sempre tão necessário nos empréstimos relâmpagos. Apontou-o para aquele homem, vulgo 'pai'.
Sob a mira da arma o pai seguiu à frente, mas no caminho para o cofre olhares espantados os fitavam pelos corredores daquele labirinto. Faltavam cinco minutos! Lula apressou-o tanto quanto pôde, ameaçando dar-lhe uma coronhada. Cada minuto transcorrido era precioso, uma vez que Manni tinha como última alternativa roubar o supermercado logo ao lado do orelhão de onde telefonara. Finalmente todas as notas estavam dentro do saco preto, que ela amarrou e levou na mão esquerda.
Abrindo a porta de saída do banco, constatou que o instrumento de coação encontrava-se ainda na sua outra mão, então o guardou na bolsa. Chocou-se com a vista defronte aos seus olhos: a polícia fizera um cerco ao prédio. Congelou de medo. De repente um coxinha berrou que saísse da frente, e vários gambés a puxaram com habitual gentileza para fora da formação em arco dos carros e homens posicionados. Disseram para ela: se manda pra delegacia pra dá depoimento. Ela aquiesceu e nada falou. Rachava o bico por dentro. Putz, o Tico e o Teco devem estar tirando cochilo nesses capatazes! Fora salva pelo gongo!
Tremendo dos pés à cabeça, como que bêbeda, virou na esquina e, com as forças restantes, esperneou até Manni escutar. Este veio em encontro a ela, ambos trombaram, de emoção, ressaca e um pouco de adrenalina, e o dinheiro se esparziu pelo chão. A verdade é que ele estava empurrando a porta da loja naquele momento, o que deixou tudo mais cinematográfico. É aquela pegada de timing de diretores de cinema e teatro. Quando certinho, deixa tudo mais alucinante.
Os pedestres, que haviam sabido do assalto ao banco situado a apenas algumas quadras dali, desconfiaram imediatamente. Os namorados, em sobressalto pelo incidente azarento, recolheram parte do conteúdo para dentro da sacola (Lola era prevenida), e distribuíram o resto para o populacho que aglomerara no entorno. Boa-vontade geral! Oxalá! Viva Deus! A Paz esteja convosco, contigo, com ocê! De tudo escutou. De resto, refugiaram-se muito bem.
Até porque, no dia seguinte... já estavam fora do País. Manni pagara sua dívida. De grão em grão a galinha enche o bico, o namorado tinha escutado certa vez. Nunca imaginei que de fiado em fiado...
Uma Pipa* no Jardim
O ato de descê-la, até aquele notável dia, tornara-se rotineiro a ponto de eu nada notar, senão meus próprios pensamentos. No entanto, malgrado o tom monocórdico das constantes da vida, deparei-me com uma casa. Era insossa, localizada na intersecção de duas ruas, na calçada à direita de quem sobe. Ah, ela me presenteou com uma memória - e das mais singulares!
Imagine uma simples casa, com poucos cômodos, sem nada que a destaque das demais, como as outras em tamanho, ou quiçá menor. Tinha um aspecto decadente, marcado por fissuras que sulcavam delgadamente suas paredes externas, visíveis ao olho da rua. A incidência dos raios solares naquela ocasião faziam-na brilhar, luzidia e ígnea, deleite visual. Sua muretinha circundante nada escondia de um olhar suficientemente curioso e astuto - como o meu...
Afinal, o ápice de minha andada chegara - sem eu, entretanto, ter-me dado conta disso! Pois sim, a surpresa do dia estava bem reservada àquele momento. Ah, aquele momento em que voltei, como um autômato, meu pescoço em direção ao forte e autoritário odor, que de repente assaltou meu olfato de forma única. Hmm, um cheiro que fez minhas narinas inflarem como um balão. Lembrava-me de algo, não?
Uá, e como não! Rememorava-me do meu tio, decerto. Residente da roça, ele tivera, por um longo tempo de sua - ainda contínua - vida, provavelmente a maior parte dela, o hábito de plantar e colher o "perfume". O destino dessa planta que ele soube caracterizar de forma tão singular era a palhinha. A palhinha que, enrolada e recheada das folhas daquele pé, ardia e reduzia-se rapidamente com cada inalada.
No jardim da exígua casa, pois, abeirava-se das plantas um longevo senhor, cascavilhando a terra com os dedos grossos e já duros pela idade. Estava alheio a mim, que passava de sobrecenho rijo, intrigado. Seria ele um Jung, Freud, ou mesmo um Bertrand Russel, fadado ao anonimato nesta terra brasileira? Todos eles, ilustres em sua ciência, posavam para fotos que posteriormente ilustrariam livros e páginas da web com suas respectivas corvetas* na boca... Infelizmente, ele não estava tão majestoso quanto eles. Era somente um senhor, a segurar sua pipa. Eh! Essa história de que "pipa do vovô não sobe mais"...
*corveta e pipa são sinônimos de cachimbo.
Werther: A Epopéia do Amar
Werther! Ah, mas que amigo, que doce criatura, sempre almejando o nenúfar dos deuses em sua mente que tudo procurava abarcar!
A primeira vez que me foi dada a feliz oportunidade de conhecer essa linda criatura enviada pelos deuses foi em um dia particularmente ensolarado, no qual me encontrava com diversas crianças, entre elas meus lindos irmãos e irmãs, infantes encantadores. Seu olhar sempre foi o de um apaixonado, de um ser superior, inalcançável e majestoso.
Estava eu, então, já compromissada com um homem sóbrio e de pés no chão, meu querido Alberto. Pensava, eu, que a presença de Werther era insubstituível, uma vez que com ele pude usufruir de belíssimos e memoráveis momentos, que estarão sempre gravados em minhas mais tenras memórias.
Ah! A noite em que dancei com ele mais se assemelha a um fabuloso sonho! Um sonho que sei não mais retornará, por sua pesarosa decisão de extirpar a própria vida... Embriagamo-nos ao som da música, e desfrutamos de um átimo que mais poderia ter sido minha vida toda. Nossos corpos pareceram se unir naqueles mágicos instantes quando a alma ameaça despregar-se do corpo, e nossos pés mal relam o chão, tamanha é a alegria, em sua mais pura totalidade e extensão.
Daquele evento para a frente, no entanto, tive a merencórica impressão de que Werther me amava de tal forma qual não poderia corresponder, e isto pesou-me deveras o coração. Sua paixão era avassaladora, transbordante, porém não superficial. Pelo contrário, ele amou-me profundamente, mas eu, tola, não quis sacrificar meu engajamento com Alberto.
Que amor tórrido, que paixão violenta! Quando tomei conhecimento de que ele se mudaria, por ser inagüentável estar ao meu lado sem poder preencher seus desejos e, sobretudo, devido ao vazio que ele vivenciava dentro de si, tive vontade de revelar as turbulências de meus sentimentos para Alberto. Todavia, meu intuito deparou-se com a gelidez glacial do pragmatismo do meu então noivo, e percebi que sua natureza era incompatível com a emoção que eu estava vivendo, por encontrar-me defronte a mais meiga e adorável criatura que, em toda minha vida, pudera encontrar: Werther.
Seu afastamento produziu toda sorte de nostalgia e melancolias dentro de mim, efeitos estes que me deixaram desolada, ansiosamente aguardando seu retorno. E ele, enfim, regressou. Todavia, voltara mais balouçado pela paixão do que dantes, pois não conseguira expurgar de suas lembranças a minha pessoa, que ele considerava divina. Pudera eu mostrar-lhe que se enganava, que eu nunca passei de uma criatura humana, e que nada de especial eu tinha. Mas seu coração apaixonado e sua mente inebriada pelo amor seriam simplesmente incapazes de encarar essa simples, porém crua e fria verdade: a realidade.
Eu nunca imaginara que alguém pudesse urdir tamanho afeto por mim, e cria ser aquela jovial paixão um fenômeno passageiro, efêmero por sua natureza impetuosa. Ledo engano meu, visto que ele já nem sequer podia viver sem minha presença envolvendo-lhe o olhar hiante, a alma suplicante.
O inesquecível dia em que ele apareceu cá em meu lar, contrariando ordens expressas para não me procurar enquanto estivesse só, considerando minha posição de casada, foi provavelmente o momento em que ele se apercebeu de sua miserável situação, e julgou humanamente insuportável continuar vivendo de tal modo. Poesias soberbas ele declamou, e choramos juntos, pelo impedimento de gozar um amor socialmente malvisto, impossível de se concretizar. A tonalidade que sua voz assumiu tornou-se um deleite para os meus ouvidos, e as emoções que irromperam confidenciaram a profundidade de sua paixão. Ah, Werther! Tu eras humano, demasiado humano, meu único e verdadeiro amor!
Beijamo-nos como nunca o fora com meu próprio marido... Seus quentes lábios aqueceram minh'alma, o que me faz arrepender amargamente ter seguido meu terrível papel de fiel esposa... Os tempos não voltam, agora sei, e largar-te foi uma besteira que expatriou qualquer amor que eu poderia ainda nutrir dentro de mim! Ai, se eu pudesse perscrutar o que tu sentias, jamais o teria afastado de meu corpo, que vazava amor por ti. Amei-te, homem, mas meu racionalismo não pôde decifrar os hieróglifos de meu coração a tempo!
Dizer que eu sabia que tu já não agüentarías dói-me demais, é-me torturante afirmá-lo. A ferida, que o amor não expressado abriu em meu âmago, cicatrizar-se-á somente no ocaso, no eclipsar da minha dorida vida. Amo-te postumamente, e quão inumano afirmá-lo é... Quão absurdo ter eu pegado nas armas que lhe tiraram a vida, meras horas depois. Oh, que tragédia ter me tornado cúmplice de sua morte, de seu martírio!
Julgava-me cristã, mas se o fosse, teria trilhado o caminho que meu coração bravamente deslindou. Parece-me, no entanto, que eu não era eu mesma ao acatar a ríspida ordem de meu marido, para apanhar os instrumentos letais de que tu... de que tu te servistes para partir deste horrendo e abominável mundo! Meu ser calculista e gélido premiu-se entre a cruz e a espada, entre o amor que tudo demanda e a (in)feliz vida estável de casada! “As aventuras que me negaram o destino”, quereria eu dizer, em avançada idade. Mas não seria, pois, apenas mais uma mentira para mitigar a aspereza da realidade? Não fui, senão eu mesma, quem se negou os regozijos de viver intensamente ao teu lado, à flor da paixão?
Encontro-me, meu amor, à deriva, e meu navio de esperanças vê-se soçobrado no racionalismo duro e materialista, que compõe este mar negro como a noite em que vogo a esmo, perdida na vida, debatendo-me o mínimo possível para, em vão, manter-me viva.
Termino a confessar: sua morte era pressaga: no imo de meu ser pude pressentir a lamentável escolha que tu, destroçado, estavas cogitando. Infelizmente, tu, teimoso, seguiste a tentação. Malgrada, pois, seja a razão, quando prova-se um óbice intransponível - exatamente quando mais ardemos internamente por realizar o bem. Juro-te, apesar de nada valer jurar a ti, agora que morreste: homem igual não haverá para mim nesta Terra! Minha existência sorumbática prolonga-se sem o viço d'outrora, sem o encanto d'olhar, sem o marulho do pensar. A vermelhidão nas maçãs do rosto há tempos me desertou. Vivo lânguida, pálida, a sofrer pelas escolhas que fiz, e com as conseqüências das quais terei de viver. Cada dia sinala o gradual contubescer de minh'alma, a paulatina desrazão de seguir adiante, que quer que isso signifique para os vivos, o que já não mais sou.
P.S.: Amei-te sem saber amar. Confessei-te meu amor sem sabê-lo confessar. Amancebei-me de ti, impossibilitada de me amancebar. Vivo hoje, sem poder saber O QUE É AMAR. Seu espírito e as flamas de seu amor incondicional aquecerão, ad infinitum , a sacra lareira de meu lar - aquela escondida de vil olhar, e que somente o tempo... somente o tempo irá... um dia... apagar...
Apêndice - Carta encontrada no baú de Charles Springfield, pai de Carlota (na carta, ele chama sua filha pelo nome de Lotte, abreviação de Charlotte, o nome com o qual ele a batizara)
No dia em que nasceu minha filha, recebi em casa a visita de uma velha encarquilhada pela avançada idade, de aparência decrépita, já centegenária, Disse-me ela: "Tua filha tem um destino. O nome dela não pode ser senão Lotte". Saiu, sem mais palavras, sem mesmo despedir-se. Fui à porta, em seguida, pedir-lhe explicações, e - Jesus Cristo seja testemunha - ela desaparecera! Hipnotizado pelas palavras daquela velha, eu pus o nome sugerido em minha filha. Ao tomar fato da trágica morte do viril rapaz que o era Werther, e rememorar, pormenorizadamente, sua íntima conexão com Lotte, caí inconsciente por intermináveis dias de desvarios oníricos, quase ficando ensandecido ao retomar consciência. Pois não é Lotte derivado de Lot, 'destino, fado', em sua acepção antiga na língua inglesa? Werther selou seu amor, sem sabê-lo, não com minha filha, mas com o próprio destino! Isso me foi revelado nos dias e noites de extáticas divagações e digressões, por negras florestas repletas de verdades indizíveis, firmemente arraigadas como o mais varonil sicômoro existente. Sem mais.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
I see life, or Do I?
The times are changing
The leaves are clinging
The boughs are hanging
domingo, 28 de setembro de 2008
O Doutor Jivago
A começar pelo enredo. Como já diz a palavra, a estória te envolve, te prende, te enreda e enlaça. E tudo que passa em frente aos seus olhos é tão verídico como a vida que se desenrola no seu dia-a-dia.
No entanto, uma sublime diferença: tempos revolucionários, abordados de forma ao mesmo tempo histórica e romanceada - e isto não vem em detrimento do todo, de forma alguma. O romance em nenhuma parte prejudica a estória. Não transfigura criminalidades e viltezas em virtudes e coisas belas, ou mesmo admiráveis.
É um livro libertador e ampliador de horizontes em principal conseqüencia de não se deixar o autor pregar o que é "certo" ou "errado" ao ledor. Não se diz serem os mencheviques ou os bolcheviques os direitos. Não se proclama, também, serem, ora os Vermelhos ou os Brancos, os corretos nesta história toda. O fato é que ambos se embateram ferozmente, sempre, é claro, para a infelicidade de todos que viviam nesses tempos convolutos.
A miséria, a fome, o frio, tudo é abarcado, de forma comovente, emocionante. É de - sem exageros - se derramar em prantos, em determinados momentos. Comigo foi ao final do livro, nas vinte últimas páginas.
Por que, pergunta-se como se por instinto, há tanta violência dirigida de humanos a humanos? Por que a incompreensão é elevada como um mote, e a destruição como a meta ulterior? Pra quê, exatamente, tudo isto? A nível local, regional, global, o que há de errado nisto tudo? Por que as ditas faculdades intelectuais humanas não nos impedem, todavia, de matarmo-nos uns aos outros de maneira tão atroz e horripilante?
Enfim, não sei se é possível, sinceramente, ler-se tudo o que se almeja ler em uma vida. Nâo serei determinista: talvez sim, quiçá não. Pois bem: este eu li. Arrepender-me de alguma leitura passada? Não me arrependo, pois tudo faz parte da formação do leitor. Mas esta deve ser colocada em seu devido altiplano - sua auréola não deverá ser perdida.
O Doutor Jivago é uma história humana de períodos caóticos na Rússia, a começar por volta de 1905 e findar por meados de 1943. Por mais que seja um extenso decurso de tempo, a aura de perfeição emotiva não larga um momento sequer a trama da história que nos é contada. Cada personagem nos é gravado, tal como o cinzel faz sulcos na madeira, como o cimento que é a base do tijolo. No fim, o leitor se descobre virando as páginas, sem, no entanto, se esquecer da história.
O que se dá no interior dos personagens em tempos de crises econômicas, sublevações sociais e lideranças bestiais? Como são influenciados, até que ponto podem repudiar tal sistema criminoso, ceifador de milhões de vidas, muitas das quais nunca contabilizadas?
São incontáveis as reflexões que o livro suscita, seja em seus profundos e marcantes diálogos, seja no descrever a cenografia, completamente cinematográfica. É tudo, ao mesmo tempo e modo, tão óbvio e - num aparente paradoxo - tão enevoado. As matizes e as tonalidades conferem ao romance um ar de pintura neo-expressionista, ou mesmo realista.
Puxa, que livro.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Reacender a Velha Chama
Reaprender.
Vale tudo,
Até sofrer.
Quem não aprende,
É ser morto.
É sonho, duende,
Um viver torto.
Mas o aprendizado é imparável.
Não cessa jamais.
É da terra o sal:
O Bem e o Mal.
No início, o aprender
É um ilegível catatau:
Guerra e Paz em russo...
E o artista, no atelier,
Pinta não de todo mau
Mas de repente eu tusso!
Estava a me instruir
Com o quadro recém-pintado,
Quando a tinta e o tingir
Me deixaram intoxicado!
Malgrado seja o intento meu
Ter me esquecido de tudo!
Ante Deus, sou senão um pigmeu,
Quedo mudo... e calado.
As cores da vida, matizes.
Brilhantinas a colorear
Estes ódios, infelizes...
[E como não:] O tênue amar.
Oh! O reverdejar [da vida]!
Ah! o degelo e a bem-florida
Primavera, insistente, a piscar
Seus etéreos olhos de nácar...
Mar
MAr
MAR
Deixa-me, uma última vez,
Nadar.
Deixa-me, uma única vez,
Amar.
...
Asar
Alar
Amar
Azar
O Lar
O Mar
Asar
A(o)lar
A(o)mar
Azar:
O(A)lar,
O(A)mar...
Voa, Fênix humana!
Renasça da vã poeira
Soa forte o sino e irmana
Esta raça vil e sorrateira.
Guiai, pois, que o tarde é cedo,
Estes numerosos companheiros teus,
Covardes símiles de Prometeus,
Infundidos de aterrador medo
A temer outro divino degredo
Roubaram o fogo dos céus
Apenas para queimarem
Uns aos outros
...
E chutarem dia-a-dia o pau da barraca.
Coisas russas
Transpassa-se o monte,
E, a ferver, o samovar.
Pois, agora, me conte
Sobre o teu despertar.
"É simples", me disse.
E, ainda que insistisse,
Nada me contou.
Como se por dentro risse...
Vi bem forte o brilho:
Nos seus olhos,
Algo chamuscou.
O estribilho d'algum poema,
Em si, o iluminou.
Que figura fascinante!
No silêncio a sibilar:
Quem (eu) sou?
Quem sou
... ...
eu
.
"Poderei saber um dia?"
Me indagou.
Só tu poderás dizer...
"E a chama que ardia?",
Provocou.
A tua, é dada a ti conhecer...
Esqueci!
Dentro de mim também havia brasa.
Havia luz.
A escuridão terá sido mais forte?
Espero que não.
Não quero tal sorte.
"Por que pensas tanto?"
...
O pensar, em mim,
É esconderijo e manto...
...
"Não há de ser assim..."
Tem de ser como, então?
"Queres respostas a todas tuas perguntas?"
"Pois és ambicioso e impaciente:"
"Não poderás compreender tudo de uma vez..."
"Fecha os olhos, conta até três"
Um, dois... três.
As luzes haviam se apagado.
Ao acendê-las, o inominável sábio
Não mais estava lá:
No recôndito do meu ser.
Fora mais um golpe de mágica.
("At the Samovar", 1926 - Kuzma Petrov-Vodkin, 1878-1939)terça-feira, 23 de setembro de 2008
Homem? Até que se prove...
E talvez não sejam apenas aparências.
É provável ser isso mesmo.
Já constatei.
E você.(?)
Ainda não?
Talvez venha,
Então, feliz oportunidade,
Para enxergar esse momento indescritível
E com seus próprios olhos desvendará o que se cria inacreditável.
...
(que a questão não é nascer, mas tornar-se... ser humano)
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
A Paz
A paz se faça presente, no momento árduo, premente. Seja maduro, obtenha o conhecimento que te fortalecerás. Manda ao inferno as influências midiáticas que distraem, não abra mão de livros, seminários, palestras, música erudita, música popular. Não renega a vida enquanto vive em ti o fogo ermo, porque ainda queima. Se a verdade vem e não te apetece, não teima. Quem teima no aprender, em breve atoleima. E para desatolar de vil fossa, não é nem um pouco aprazível.
Se tens um corpo belo, não se atenha ao que é efêmero. Se é homem ou mulher, não te preocupes à toa com gênero. És humano, e basta isso. És vivo, e basta a vida. Esta ou outra, não importa. Faça o que for possível, e isto, descobrirás, é muito maior e mais dinâmico do que sequer imaginavas. É grandioso, é portentoso, o futuro é promissor. Não, tu não és perdedor. Nem te julgues vencedor. És, com certeza, alguém, e isto é suficiente.
Ninguém é ninguém. Tu és alguém. Tens, no entanto, de descobri-lo. O fogo fátuo da vida é evanescente. Viva o presente, mas não te esqueças do passado que erigiu o edifício do teu ser. Não te olvides do futuro, que são as sementes que irá colher. Não definas o indefinível, não conceitualize o incocebível. És vivo, e o que não sabes, um dia saberás.
Com muito esforço, com ferrenha luta, por mais que não percebas, algo em ti perseverará. Apesar de tudo. Apesar do nada que te envolve, desde que nasceste. Se tudo passa, tudo volta, e o caminho que trilhas, poderá, também, modificar. Fica livre: é tua vida. Constrói a tua ermida, pois nela habitarás. Será de areia, para cair? Será em frouxas bases, enfim ruir? Saibas escolher, portanto, os materiais. Serão teus fundamentos substanciais.
Não te alheies: todo conhecimento é válido. Tudo poderá em breve ser-te útil. E não somente em possibilidades e cogitações filosóficas, mas num recente provável de se suceder.
A grande escola está em tudo, permeia o todo, trate-a sempre com denodo. Desdenhar é atolar, num brejo infindável. Aprender é crescer, por dentro, um processo ampliador estável. Cresce-se, vive-se, nenhuma vida será em vão.
O amor ao aprender é o amor ao compartilhar. E isto nunca irá terminar. O aprendizado é infinito, todo o resto é mito. Uma vez dito, ficarás gravado: o destino palmilhado.
Há carma, há lutas, porque há vida. A jihad dá-se verdadeiramente no imo.
A luta externa será sempre reflexão das convulsões cá dentro.
As pelejas dá vida tem em nós o seu centro.
Vivo, luto, tento.
É meu intento.
É este viver... que acalento!
sábado, 20 de setembro de 2008
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Falando em Sociedade Moderna...
(originalmente um comentário sobre o artigo "Sociedade Moderna", por Camila Mickers. Clique no link e leia por você mesmo esse ensaio ampliador de horizontes.)
"A centralidade da televisão contribuiu para acelerar a construção de um imaginário social povoado por sonhos consumistas e por valores calcados mais no sucesso individual- a lógica passada pelos filmes norte-americanos que dividem as pessoas em vitoriosas e derrotadas- e menos nas antigas utopias políticas voltada para a solidariedade equidade social."
De fato! É fácil constatar isso nas próprias salas de aula: os que conseguem se adaptar adequadamente ao sistema escolar são vistos como exemplos a serem seguidos. Esta homogeneidade - do estereótipo do "aluno perfeito" - destrói a diversidade do aprendizado, a bagagem cultural de cada estudante, e tudo isso para benefício de quem? Certamente que não o nosso...
O sucesso individual também é uma das maiores ilusões concebidas. É óbvio que devemos muito a nós mesmos, isto é, aos nossos esforços em relação ao aprender, ao aplicar os conhecimentos, até mesmo ao nosso auto-didatismo adquirido (todos nós o desenvolvemos, não obstante o "grau de evolução" deste)... mas... e o quanto devemos à nossa família? aos nossos verdadeiros amigos, que tanto nos ajudam nestes meandros da vida?
Não é porque o Brad Pitt é forte, bonito e bem-sucedido que ele irá desbravar este mundo sozinho. Não, de forma alguma! Devemos muito, a muitas pessoas, e isto deveria ser mais importante do que esse individualismo exacerbado - que tanto vemos atualmente (pode ser que esteja até mesmo mais acentuado do que em outros períodos históricos...).
Sim, nenhuma ideologia é superior à massificação. Talvez, somente cada um percebendo o estado em que se encontra, que algo irá mudar. Bem, eu tento contribuir com meu próprio blog. Por isso considero a internet um instrumento tão único: qualquer um pode expandir seus conhecimentos de maneira absurda com esse meio libertador. E os blogs, então!
É bom que haja pessoas atentas a isso tudo que vem ocorrendo, e que escrevam - e propaguem - as sementes de suas reflexões, daquilo por que estamos passando.
E jamais haverá um "tarde demais"... o conformismo nunca terá data marcada para terminar. Depende de cada um, e dos difusores desse conhecimento também, claro.
Parabéns, Camila! Que bom ler acerca disso algures.
(Obs. Nota-se que as pessoas andam cada vez mais ocupadas nos dias de hoje: tem-se de fazer não só o corriqueiro curso superior, mas, também, pós-graduações, doutorados e pós-doutorados, enfim... o tempo restante dessas pessoas envoltas por tanto trabalho e estudo é dificilmente dirigido à leitura de livros... os blogs e outros sítios virtuais parecem estar suprindo - de forma incrível - essa necessidade do refletir. De introspecção.)
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Cervantes e a Lenda de Dom Quixote
(foto: capa da edição lançada pela Círculo do Livro, s/ ano)
Dom Quixote de La Mancha, escrito por Miguel de Cervantes Saavedra, encontra-se, hoje, traduzido em todos os idiomas escritos. Ao longo dos seus quatro séculos de história, foi o livro mais publicado, perdendo apenas para a Bíblia.
Os livros mais publicados, cem anos após a invenção da máquina impressora, por Gutenberg, eram os de cavalaria. Esse ramo literário era difundido, principalmente, por meio da leitura em voz alta, que se fazia aos que não sabiam ler. Sua qualidade, no entanto, decaiu rapidamente, atraindo, para si, crescentes críticas, já em sua época. Pode-se fazer uma analogia, no tempo presente, à condenação do conteúdo televisivo. Veiculado de forma massificada e muitas vezes desprovido de conteúdo, mostra-se, claramente, de nula finalidade artística. A mesma crítica que se fazia aos romances à la Távola Redonda, quatro séculos atrás.
Cervantes inovou na literatura de então, ao realizar uma paródia, escancarada e pungente, aos livros de cavalaria, no decorrer das façanhas, diálogos e fatos quixotescos. Em suma, este estro literário em grande parte explica o porquê de, mesmo após os livros de cavalaria terem caído em pleno olvido, no século XVII, Dom Quixote ter perseverado imbatível em suas reedições.
Quanto à sua vida, Cervantes nasceu no seio de uma família de classe média. Ainda muito jovem, feriu, para sua infelicidade, um membro da nobreza. Para fugir à sentença de ter um membro amputado, a pena então comumente imposta para este tipo de infração, Cervantes fugiu a Roma. As intrigas e a rotina hedonista da sua vida naquela cidade estavam, todavia, muito aquém das aventuras que idealzava.
Alistando-se na Marinha, combateu pela Santa Aliança à bordo da galera Marquesa, na batalha de Lepanto - travada contra os turcos. Cervantes escapou por um triz, gravemente ferido. Jamais recuperaria o movimento da mão esquerda.
Em 1575, decidiu voltar à Espanha, mas foi feito prisoneiro, por uma inacreditável ironia do destino, justamente por piratas turcos, sendo levado como escravo. Por razões de impossibilidade de pagamento de seu resgate, passou longo período em cativeiro, o que marcou definitivamete sua obra.
Volvendo, por uns instantes, à sucinta análise de sua obra: em primeiro lugar, o que é um fidalgo? Na sociedade da Idade Média, os fidalgos eram herdeiros da casta guerreira, pertencentes à baixa nobreza. Era um estamento social deslocado, desvalorizado.
Sancho Pança era seu escudeiro, o que então se denominava aio. Além de encorparem a corriqueira formação cavaleiresca – composta, essencialmente, pelo cavaleiro e seu escudeiro -, o desventurado fidalgo e seu companheiro não deixam de ser, também, uma autêntica dupla de sucesso, repetida inumeráveis vezes, tanto na literatura como no cinema. Sherlock Holmes e o Dr. Watson, Tom Sawyer e Hucleberry Finn. Um é o nobre cavaleiro folhetinesco, que primeiro se atraca aos embates para depois refletir. O outro, construído à sua contraposição, é o que pensa antes de entravar qualquer combate. Um é o amo, o outro, o criado. São unidos, sobretudo, pelo respeito mútuo, pela relação de amizade, pela mútua compreensão. Quixote preocupa-se com Sancho como se este fosse seu próprio filho. E Sancho, como se seu amo fosse um pai ou avô - isto é, algo ensandecido.
O mundo quixotesco é ambivalente. Contrapõe, fundamentalmente, o ideal ao real. Revelando a cisão entre ambos, acaba por desvendar, também, as próprias paixões humanas. Sancho e Quixote são personagens complementares, porque antagônicos.
Entre os pontos cruciais presentes na estória, figura, sem dúvida, o da comicidade: Episódios que salientam a composição cautelosa, por parte do escritor, das imagens reproduzidas nos diálogos. O leitor consegue ver diante dos olhos a tragicomicidade das cenas. São tão vivas que chegam a trazer reminescências dos filmes satíricos de Charles Chaplin. Ao invés de nos sentirmos compelidos à compaixão, somos movidos à gargalhada, ao riso. Cervantes chega ao ponto de satirizar, de forma mordaz, certa passagem de Orlando Furioso, do italiano Ludovico Ariosto, em que o protagonista encontra-se, desnudo, a clamar, chorando, por seu amor.
Retornando à prisão do autor: Cervantes estava trancafiado em Argel havia mais de 5 anos, quando sua família finalmente pôde amealhar a quantia requerida para libertá-lo.
Voltou para casa com o intento de dedicar-se à carreira de escritor, produzindo obras teatrais de boa qualidade. Sua ambição, em vida, manifestou-se de duas maneiras: em uma primeira fase, como militar combatente. Na segunda, pela produção literária.
Tornou-se, eventualmente, uma espécie de coletor, confiscando cereais e azeite. As paisagens por que viandou foram, considerando-se sua heterogeneidade, inestimáveis para a descrição dos lugares retratados em Dom Quixote.
Mal havia Cervantes se consolidado em seu trabalho, quando foi encarcerado, por razão de atraso nos pagamentos. Já constava com mais de cinqüenta anos, e o desencanto e a desilusão, prementes, por que passara, acabaram por firmar-se em sua obra toda.
O Iluminismo foi a derrocada de Dom Quixote: novos modelos esconjuravam o louco da alteridade aceitável. Foi, portanto, somente com o irromper do Romantismo que o louco transfigurou-se em herói admirável, abrindo espaço para uma releitura muito mais acurada de Dom Quixote.
O trágico e o cômico, magistralmente justapostos no livro, não eram, para sua época, de todo originais. O que confere originalidade à obra é o fato de Dom Quixote ser classificado, no âmbito acadêmico contemporâneo, como a primeira novela moderna. Cervantes não é, decerto, o primeiro narrador moderno, mas sua novela o é. O início da narrativa remonta ao contar que se faz diretamente à audiência, a uma narrativa oral.
No decurso da leitura, é possível dar-se conta que o jogo narrativo entrelaça ficção à realidade. Na segunda parte, Pança e seu amo comentam, metalingüisticamente, acerca da própria obra.
Outro aspecto que urde a obra é a ingenuidade: Quixote cria na palavra de honra. Ele encarna uma visão decente e generosa do ser humano, uma visão estável da condição humana. O problema, entretanto, é que o mundo muda, e os personagens, no fim, não são como deveriam ser.
Um tema que Cervantes soube tão bem ilustrar é o do louco lúcido: Mostra-nos uma maneira diversa de se enxergar o mundo. Quixote avança contra os moinhos, em uma evidente expressão de inconformidade e rebeldia. Seu ato pode ser relido como um grito à rotina, à condição blasé de ver sempre as mesmas coisas, sempre do mesmo modo. Por sua vez, os moinhos a que se lança podem ser vistos sob o escopo moderno das máquinas e da robotização que nos envolvem. O lixo industrial, gradualmente a nos enterrar vivos, é o que Dom Quixote combateria nos dias de hoje. Já no mérito da psicologia, Quixote é a personificação do superego, a parte de nossa psique que idealiza, que busca ideais a alcançar.
Outra mensagem transmitida pela obra é a de que a liberdade humana encontra-se um patamar acima da Justiça. É a soberania da liberdade sobre todos outros valores, a oposição ferrenha ao aprisionamento do ser humano, em um sentido integralmente metafórico. Crê, Quixote, na justiça universal, sendo, por isso, condenado ao degredo, à anátema social. É a utopia viva.
Quixote renuncia a própria vida de maneira estóica, para a sobrevida de seus princípios. Brada, pois, ao cavaleiro, que o mate, que ele não é capaz de desdizer o que crê sobre Dulcinéia. Finaliza, afirmando ser o homem mais desgraçado deste mundo. Ora, não é o mais desgraçado dos homens aquele que desiste de seus ideais, sob a invariável pressão do mundo?
Quixote cumpre sua palavra de cavaleiro. Embora seu ulterior sonho não se concretize, o brilhante autor de Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago, expostula que quem morre, de fato, é senão Alonso Quijano, o fidalgo. Dom Quixote persiste. Dom Quixote - o escorreito modelo do melhor lado do ser humano – tem a nos ensinar que: a nossa vida, conquanto seja, individualmente, uma mera fração da condição humana, reside no poder contar uma história dignamente nossa.
Fonte: Documentário legendado, de língua espanhola, “Cervantes e a Lenda de Dom Quixote”, que pode ser visto clicando-se no próprio nome, acima (está hiperlincado).
*Realizado para fins escolares, dentro da matéria Língua Portuguesa e Redação(LPR).
(Obs: só me falta findar a leitura do livro, agora...)
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Aos Vivos, A Morte
Eram os restos de um morto.
Suicídio: Fim: Terminação.
Esse, ou essa, que morreu,
Transformou-se em história.
Que agora vou lhes contar.
Os tormentos de uma vida,
As aflições vividas,
Converteram em mártir:
Mais um cidadão.
O que se passa neste Mundo,
As alegrias que se vivem.
O que são, senão poeira,
O pólen que se espalha?
O saber e o conhecer,
São virtudes do Crescer.
Quando não mais os atinge.
É-se passível morrer.
Porém, mais fácil é pensar,
O cogitar em suicídio,
Do que realizá-lo.
Em via pública...
Súplica... De uma vida.
Rogou por viver.
Mas, não agüentando,
Decidiu-se por morrer...
O fenecer desta Memória
O contar desta História
Que transfigura-se em Estória,
Jamais tida como glória...
A dor de perder a vida,
Do ensacar restos mortais,
Estampados nos rostos
Dos guardas que recuperaram
Suas partes vitais...
Pergunto a um
O que sucedeu:
"É uma pessoa...
Que morreu..."
Palavras lhe faltam:
E também me fugiriam!
S'eu estivesse ali, decerto,
Meus sensos desmaiariam.
Perdi a fome, perdi.
Até a vontade d'urinar
Só de ver a tribulação,
Nos rostos a guardar
Pedaços de um viver...
Por quê? Questiono,
E atino, a juntar,
As razões que fariam
Alguém acabar,
Com a própria vida...
Pouco me importo
Com o Atraso;
Com adiar minha chegada,
Em casa, em meu lar.
Alguém se matou!
E isto é mais importante,
Que minhas preocupações
Temporárias...
Poderia esperar quanto fosse!
Sou humano.
Sim, esta vida que se foi,
É mais importante
Que estresse,
Vil pontualidade...
Que a futilidade,
De se chegar no horário...
Aos Diabos, aos que reclamam.
Não sabem, pois, que alguém se matou?
Poderiam ser vocês mesmos,
Egoístas resmungadores.
Ali, nos trilhos,
Recolhidos, restos maltrapilhos...
Ensangüentados,
A causarem-me enjôo.
Náusea de ver Algo ensacado.
Um corpo ensopado,
De sangue e sofrer...
Pouco me ferro,
Ao que pensarão:
Religiosos que pregam
A Derradeira salvação...
Ignoram que a morte
Epreita-lhes a vida,
Enquanto sibilam Ilusão...
Com palavras: aconselham,
A caminhada: não seguem,
Vãs palavras que proclamam...
Pouco, ou mesmo nada,
Sabem do que é suicidar-se
Ao destino dizer: "acabou!"
E seu corpo entregarem...
Crê na vida?
O que há para se crer?
Se você nem liga
Pra quem acabou de morrer.
Não se chame ser humano.
Não!
Se a morte não te causa
Enjôo e náusea.
Não denomine o morto:
Ateu, ou herege.
Profano és tu,
Que se dá
A julgar
Mal.
Pois,
Antes veja,
Que ele ou ela,
Também não sofreu?
Como ti, não viveu e amou?
E, há pouco, justamente faleceu.
...
A sociedade se choca.
Mas somente assim,
Não é mesmo?
Que tiramos os olhos,
Do nosso próprio umbigo.
E vemos àquilo, a que
A vida vem nos preparado,
Desde que a bolsa materna
Se rompeu.
A vida nos cuida
Para este fenômeno,
Este vivente prolegômeno:
Existencial
Porque mortal.
Não será em vão,
Meu caro,
Minha cara,
Sua crise existencial.
Em minha depressão,
Vejo-o como igual.
A Deus
Adeus.
Prossiga.
(A ti,
Uma próspera, próxima vida.)

terça-feira, 16 de setembro de 2008
Clarificando
Assisti a esse compenetrante longa-metragem neste último domingo, 14/08. Tem cenas fortes, tomadas chocantes, porque captam o animal que reside dentro de nós ou, mais eufemisticamente, como Machado de Assis colocou, o "verme roedor" que se encontra dentro de cada um. Os ingleses, concisos e precisos em seus provérbios, já diriam "We are our own worst enemies" (Nós somos nossos piores inimigos).
O que o filme retrata é, de fato, a cegueira humana, e essa acepção é ampla o suficiente para ter dado à luz este filme pungente, verídico. Afiado, desmistificando o homem: mostrando, dele, o bom e o ruim. O bem e o mal. E indo além disso. Teria mesmo orgulhado Nietzsche, por apresentar de forma tão comovente o transcender do Bem e do Mal, e isto não é paródia barata ao homônimo livro do filólogo germânico.
Quem leu "O Homem Que Calculava", escrito por nosso genial conterrâneo, Júlio César de Mello e Silva (vulgo Malba Tahan), deve se lembrar, na voz de um dos personagens, que "O exagero é uma forma disfarçada de mentir!". Pois, tendo aprendido um pouco a partir desse livro, de todo deslumbrador, não exagero. É um grande filme.
O prelúdio acima serve para explicar o porquê de duas postagens recentes aqui no blog, uma seguida à outra, que são, cronologicamente: "Ensaio Sobre a Cegueira (e sobr'a brava que os salvou)" e "Pedra Esmerada". O primeiro, escrito logo que cheguei em casa, ainda fortemente transtornado pela densidade psicológica da película (para não ficar reescrevendo filme, filme, filme...), é o que mais remete ao que apreendi(lembra de Kant?) de sua essência, do que ele intenta mostrar a quem o assiste. O segundo, por seu mérito, já é mais "racional", porque feito um dia após, com as emoções pouco mais mitigadas; mas, de forma alguma, neutro, no sentido emotivo.
Ambos, portanto, têm relação direta com o filme. Não são apenas reminescências. Sem o filme, nunca teriam sido concebidos tais pensamentos, não serei presunçoso. Se tais idéias moravam no meu Inconsciente, despercidas, flutuando no éter do meu ser, foram então brutalmente depertadas pelo caráter incisivo do filme. Se, por outro lado, não eram idéias incipientes, então consistem no que, de praxe, denominamos "inspiração".
Não se é preciso lê-las segundo qualquer ordem. Aliás, "Pedra Esmerada" sofreu abertamente outras influências que não o filme. O suor que me transpirou no decorrer do filme, tentei passá-lo todo para "Ensaio Sobre a Cegueira (e sobr'a brava que os salvou)". É uma poesia reflexiva. Não serei esnobe a ponto de dizer que escrevo, sempre, poesias dignas do nome. Mas essas duas, em particular, garanto que não servirão de adorno.
Teu tempo é precioso. Não o perca hesitando.
A Moeda da Vida
Nosso suor derramado.
É este o pagamento:
O sangue perspirado.
Paga-se sempre bem caro,
Segue o valor adiantado.
Noites varadas, em claro,
E o dado foi lançado.
É este o benefício:
Não há roleta russa,
Ou simples artifício.
A vida é vetusta
É arguta, é leal
Nada é fictício
A vida é Real.
Não se corrompe a vida:
Engana-se, sim, a si próprio.
Versada e conhecida,
Não a logra circunlóquio.
Toma ópio, fuma maconha
Fuja, perdido, em vã loucura
Depois de feito, a vergonha
Não sanará adquirida agrura.
Perder-se é sempre fácil
É facílimo desencontrar
O mundo, bem, nu'é grácil
Só é vitória o conquistar...
Se irás perder ou morrer
É-lhe inútil, e indiferente
Pois o imutável fenecer
Vivo está, jamais ausente.
Viva enquanto vive
Dentr'em ti o renovar
"Eu que nunca tive..."
Não irá te remoçar...
Afirme, não negue:
Do universo,
As possibilidades.
A vida persegue
Tu, imerso,(em)
Tod'as infinidades.
Multilateral
Multiespacial
Helicoidal
A vida é real.
Mas... o que é Real?
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Chove Cântaros
Chove.
Chove sem parar...
Chova!
Chova!
Chova!
Meu coração irá gostar,
Venha, chuva, caia!
Venha amainar:
Esta mágoa de tristeza,
A vontade de chorar.
Venha, chuva, jorra!
Estou cá a te esperar!
Pode mesmo ser garoa,
Só não pode ressecar
O límpido céu pós-chuva
Como os olhos ao chorar...
O rosto renovado,
Pela angústia derramada
O céu anil recriado
Após a chuva aplacada...
Venha, chuva, venha!
Estou cá a te esperar...

Pedra Esmerada
Cuida que ali medra
O cão de face exangüe.
Passa dias nervosos a ranger
E ao mínimo som da morte
Vai ao intruso com ele ter
Se não tiveres muita sorte
De certo que irás morrer
Por que falar disso agora?
Estás a me perguntar
Para saber donde mora
O perigo, a te instar...
Tomai cuidado nesta hora
Porque ele bate ao teu lar
Portando em mão a tora
Que há d'um dia arrebentar
A tua calma domiciliar...
Que horrores são esses que me conta?
Estarás tu, sempre curioso, a me indagar.
São os terrores que a mente afronta
Nas horas que precedem o despertar.
"-Mas que sonhos bestiais o são!"
Você não viu nada, ficai atenta.
"-Pare de jogar vão maldição!"
Será eu, ou o Cão que te tenta?
"Não me apavores, que eu grito!"
Seu grito não passará de grunhido
"Tu, Sinistro, não passas de mito!"
Por que então choras em gemido?
Não sinta medo, a ninguém molesto
Vim da terra, ali na serra, vi a guerra
Peguei em armas, mas fui honesto
Sou o que, frente ao alvo humano, erra
Não sei por que me xingas, por que será?
"-Tu és pacifista, amador de flores!"
Está certa. Não vim cá pra matar.
"-Tu estás dentre covardes desertores!"
Valorizo, do ser humano, sobretud'o inventar.
"-Tu és o pior dos trabalhadores!"
Contra teu ódio de que me adianta argumentar?
"-És cachorro e vil, a morte te aguarda!"
Pois traga tu a tua criminosa sentença
"-Trar-te-ei o grosso cano da espingarda!"
És tu, mulher que ao diabo traz parecença...
"-Chamarei com orgulho o guarda!"
Pode gritar, de tão errada tu estás tensa...
"-São homens como ti que ferem a nação!"
A pátria guarda-se no peito, não na arma
"-É por homens como ti que há execução!"
Graças a ti, recebe-se boas novas com alarma...
"-A você não creio haver direita prisão!"
Não conseguirás me prender,
Não sou efêmero.
Sou a alma.
Do homem,
A calma;
Da humanidade,
O gênero.
Jamais conseguirás exaurir em mim o estro criativo
Pois cá dentro d'alma nasce seu imortal incentivo
Não há como negar os valores do nobre e do belo...
Compõem a pedra que lavro dia-a-dia com esmero...
Enquanto houver pessoas a teu modo
O mundo girará axialmente em desgosto
É por isso que diariamente eu rogo
Que de tuas uvas, faça-se um mosto
Azedume que aos porcos dará gosto...
A guerra, ferina, destrói,
Mata, fere, o imo dói.
A alma sempre sente
A humanidade ausente.
Por que vir a desconstruir
O que anos levou no erigir?
E atrozmente rir, a ruir,
As propriedades d'um vizir?
Somente porque é outro povo
Não se prova justificativa
Não é por cor que maldades movo
Sem qualquer prerrogativa.
Chega de hipocrisia,
E absolutismos.
De vilania,
Ditatorialismos.
De covardia,
Neohitlerismos.
De penedias,
Neonihilismos.
De dicotomias,
E Neofascismos!
Chega!
Ensaio Sobre a Cegueira (e sobr'a brava que os salvou)
De repente,
Sem aviso.
O deseperar,
Que se sente,
Ir-se o juízo...
Sem explicação,
Todos confinados
Numa prisão...
Ali desamparados,
Desolação...
Porém um dia
Raiou o sol
E a luz fugidia
Da fuga em prol
Mostrou-lhes que a prisão
Desguarnecida estava
Ao relento da ilusão...
Sem guardas nem armas
Sem brutas mãos com clava,
Abria-se, livre, o portão...
O próprio ar mudou,
A atmosfera renovada,
A liberdade conquistou
A turba maltratada...
E assim seguiram juntos
Aos tropeços do aprender
A tramar novos assuntos
Sentindo a vida renascer...
Dentro de si o irradiar da luz
Não importa se sem visão
Essa fonte dentro d'alma reluz
Em si, ao alcance da mão.
E aquela salvadora
Destemida, brava, forte
Ó força avassaladora
A sequer temer a morte!
A paz interna consolidada
O rosto esbelto, impetuoso
Nesta mulher sempre testada:
Jamais prostrou-se ao Tinhoso.
É uma guerreira amazona
Não quer nada com a sorte
Como pôde manter-se à tona?
E assim escapar da morte?
Que lança é esta que empunhas
Ó céu, côncavo estrelado
Neste terror de corroer as unhas
Ela retém o brio indomado!
Que garra ao pelejar valente
Neste mundo do zombar
Nunca a vi descontente
Do destino a reclamar...
"Aceita o fado, companheiro",
Disse-me certa vez
"Não faleça traiçoeiro,
Tu és homem, não rês!"
Ó, mulher dos ares,
Por onde tu começaste?
Esta jornada, por onde?
Ó, esposa d'Áries
Nunca os braços cruzaste!
De ti nada se esconde...
sábado, 13 de setembro de 2008
Chuva Negra (Kuroi Ame)
Descontente com o resultado já calculado da primeira bomba (isto é, com a hecatombe de mais de uma centena de milhares de vítimas), os EUA resolveram lançar a segunda bomba, carinhosamente apelidada de "Fat Man", em Nagasaki, no dia 9 de agosto. A cifra de mortos é horripilante. A de feridos e malferidos, de vítimas que viriam a morrer após longas e intermináveis tormentas patológicas, é, também, inimaginável.
Como é belamente expostulado no livro, na fala de uma das vítimas (a quem Masuji Ibuse soube dar voz com tamanha maestria):
Hiroshima é uma cidade queimada, uma cidade de cinzas, uma cidade de morte, uma cidade de destruição, as pilhas de cadáveres são um protesto mudo contra a desumanidade da guerra.
Ou, ainda de outra:
[...]compreendi[...]que a guerra é um assassino sádico dos seres humanos, sejam jovens ou velhos, sejam homens ou mulheres.
E, por fim:
...Sabe, dizem que o novo tipo de bomba que deixaram cair em Hiroshima pode conter a potência de vários milhares de bombas comuns de cinqüenta quilos no espaço de uma caixa de fósforos. Algum químico realmente repulsivo deve ter descoberto isso. Se eles vão sair por aí usando-a para matar pessoas, não sei como as coisas vão ficar.
Eu havia tomado conhecimento deste ilustre escritor japonês, Masuji Ibuse(1898-1993) por meio de um livro com compilação de contos nipônicos, Maravilhas do Conto Japonês (ed.Cultrix, 1962), que tomara emprestado na Biblioteca Municipal Nuto Sant'Anna, primeiro em 2006 e, para releitura, no mês passado. No livro figura um conto seu, A Salamandra (Sanshô Uo), de 1929, portanto, bem anterior à obra que iria torná-lo um escritor consagrado: Chuva Negra foi publicado em 1965.
Poucos são os escritores que têm quase quarenta anos de espaço entre a publicação de uma obra e outra. E poucos, ainda, são capazes de abordar um massacre de forma tão literária e lírica, quase poética, em algumas passagens. A última estrofe é tão profunda, que virtualmente exorta o leitor a reler o livro.
Adiarei por ora esta releitura. É chocante, é marcante. Em partes, sufocante. Assemelha-se, em alguns pontos, a Germinal, de Émile Zola: como já disse minha professora Suely, "falta ar ao leitor". Por instantes, é possível adentrar no espaço-tempo atroz descrito em frente aos nossos olhos, para nunca mais voltarmos os mesmos.
Nesse sentido, Chuva Negra é uma obra grandiloqüente. Fala diretamente à alma.
Sem subterfúgios.
A Rosa do Povo
Li a Rosa do Povo ontem. Já tinha participado, no primeiro semestre deste ano, de uma palestra de vestibular, no Centro Cultural da Juventude, sobre o livro. O magistral professor, com sua interpretação inequívoca da obra, praticamente nos instou a ler o livro por nós mesmos. É duro perder as anotações, mas devo dizer que foi muito inspiradora a explanação desse ilustre, inominado professor.
Li o livro para a escola e vestibular, o que seguramente não tira o mérito da leitura, de qualquer forma. Sempre que leio poesias, ponho-me de guarda para os trechos que despertam alguma correlação com o que penso, às vezes um ou dois versos, iniciais ou finais, ou mesmo concatenados ao longo do poema, que despertam alguma fagulha dentro de mim - a fagulha que revela alguma identificação que temos com o que foi exposto.
Treze desses pequenos excertos seguem abaixo, com o que ponderei sobre cada um deles. Ei-los:
1.[Carrego Comigo]
"Não estou vazio,
não estou sozinho,
pois anda comigo
algo indescritível."
O que é este "algo indescritível" que anda consigo? Será a alma? Certamente que sim. Imagine-se, você, a descrever a alma: terminaria por descrevê-la de forma cada vez mais abstrata, até não lhe sobrar mais palavras, porque, de fato, pouco sabemos do etéreo dentro de nós. Pouco ou mesmo nada, se decidirmos por largar, definitivamente, o eufemismo apaziguador de lado.
2.[Nosso Tempo, parte VIII]
"O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme."
Como o eloqüente professor nos expôs, na palestra mencionada no início, Drummond desejava colocar-se, como poeta, em algum lugar dentre a humanidade. Algum lugar que retivesse sua importância, não só para delatar ou explicitar as inconformidades socias - supostamente implícitas ou subjacentes -, mas, também, de alguma forma contribuir para o fim dessas "injustiças". O que é o poeta no mundo contemporâneo? É uma questão que habita cada poema do livro. O que tem ele a dizer, a expressar de seus sentimentos, frente à angústia de ter um Sentimento de Mundo? O sentimento, algo subjetivo. O mundo, em contradição, objetivo, visto de longe, como um todo composto por partes, mas, inevitavelmente, um todo. E ele busca compreender internamente o que é esta coisa externa que nos impele a gritar, a chorar, por vezes a rir e a dele debochar. Quem é o poeta ante aos Tempos Modernos? Eis a questão que o ledor deve ter em mente.
3.[Uma Hora e Mais Outra - dois versos finais]
"[...]pois a hora mais bela
surge da mais triste."
Quem nunca assistiu àquele filme que faz as lágrimas rolarem pela face, de tão comovente? Pode pertencer a virtualmente qualquer gênero, porque a experiência de chorar, assumindo que você não é uma carpideira contratada, é essencialmente individual. Mas o triste evoca o belo, e o belo nos faz, muitas vezes, cair aos prantos. Seja o chorar de alegria ou de tristeza, ou ambos juntos, como muitas vezes ocorre, mas o belo recorre ao artifício das lágrimas, com ou sem nossa vontade. Uma atrocidade nos faz chorar. Guerras, imagens consternadoras, crianças indefesas em um mundo de adultos à la Martim, de adultos armados. As injustiças contra a mulher, a interferência no livre-arbítrio desta, justificado em sistemas machistas, falocráticos, chauvinistas. Mas desses momentos pungentes nasce algo novo: nasce a Rosa do Povo, uma rosa feia, em meio ao asfalto, ao cinza da urbe estressada, virulenta. Mas, sem dúvidas, uma flor. É feia, mas traz ao mundo o belo. O belo que há dentro de si. É a flor que traz na mão o poeta.
4.[Anúncio da Rosa]
"[...]Já não vejo amadores de rosa[....]."
É um mero verso, aparentemente sem valor, porque vem entremeado a um parágrafo. Porém, é este o verso que remete diretamente ao título: quem são os amadores de rosa? Já não os vê mais, o poeta, Drummond. Serão eles transeuntes a cheirar o perfume exalado pelas rosas nas calçadas da cidade? Podem até ser, mas, neste caso, Drummond está a se referir ao sentido conotativo da Rosa. Os amadores de rosa são os que buscam algo além do chavão, do lugar-comum, do clichê. Releia o título e preste atenção: "Anúncio da Rosa". Quem o anuncia, senão Drummond? E quem é Drummond, senão o poeta? E quem é o poeta, senão o que vê, ou melhor, busca, incasavelmente, ver o "por trás dos bastidores"? O por trás das cenas, o que é sub-reptício, as indiretas, as ilações, tudo o que não salta, de pronto, aos olhos do observador comum. Está, pois, Drummond a anunciar a Rosa e a dizer que os amadores de rosa são poucos. Com seu anúncio aumentarão em número, despertarão os dormentes, acordará a multidão? Quem sabe...
5.[Resíduo]
"[...]E de tudo fica um pouco
Oh abre os vidros da loção
e abafa
o insuportável cheiro da memória[....]."
Drummond está a discorrer sobre o incenso que queima, o inceso da memória, que não pára, não cessa de revelar-se a nós. A memória é invencível, ela está sempre a nos mostrar as facetas escondidas de quem somos, e sua fragrância é freqüentemente intolerável. Não queremos reler o passado, não queremos reencará-lo, peitá-lo mais uma vez. Já passou, já é passado. Por que enfrentá-lo novamente? Mas a memória não nos deixa em paz. "De tudo fica um pouco", e o odor de certo nos virá às narinas...
6.[Morte no Avião]
"[...]Fecho meu quarto. Fecho minha vida."
Mais uma vez, um pequeníssimo trecho, de simples seis palavras. Mas ao analisá-las, vê-se a labuta do poeta: Fecho meu quarto. Três palavras. Fecho minha vida. Novamente três palavras. Um ponto separa uma tríade da outra. Um ponto fecha as duas. O que é o fechar o quarto? Veja você mesmo como o poeta, "amador de rosas", é capaz de transcender uma ação tão vulgar de "fechar [a porta d]o quarto", para o ato de "fechar a vida". E fechar a vida desperta no leitor uma abstração delirante. Fecho [a porta d]a minha vida. Eis a morte, poética e trabalhada de uma forma que Drummond soube fazer tão magnificamente em Morte no Avião. Anos atrás, antes mesmo de 2006, meu irmão me mostrou este poema inesquecível, sibilando as palavras "Olha que foda esse poema!" Talvez nem ele se lembre. Mas quem o viu pela primeira vez, não o esquece jamais.
7.[Desfile]
"[...]Se eu morrer, morre comigo
um certo modo de ver[...]."
Cada poeta tem um certo modo de ver, isto é indubitável. Cada qual com seu aparato subjetivo, influenciado pelos arquétipos comuns a todos, genialmente expostos por Carl Gustav Jung, psicanalista que, ao contrário de Freud, merece ser lido na íntegra, sem medo de ficar paranóico ante à sexualidade. Desculpe-me, caso tu sejas um Freudiano inveterado, mas ao entrarmos no campo da psicologia, que está presente no trecho acima, torna-se necessário dar nome aos bois, e, aqui, Jung e Freud se entrelaçam, pois um revelou os arquétipos, comuns a todos nós, e o outro, o Inconsciente, o Id, o Ego, o subjetivo, o particular, o individual. Drummond afirma que, ele morrendo, com ele morrerá uma determinada forma de enxergar o mundo. O que não deixa de ser verdadeiro. O grande quebra-cabeça é formado por grandes pensadores, que enxergaram, cada um, certo aspecto que ficou obscuro para outro, e assim por diante. O que um viu, foi o que o outro deixou de ver, e vice-versa.
8.[Como Um Presente]
"[...]É talvez um erro amarmos assim nossos parentes.
A identidade do sangue age como cadeia,
fora melhor rompê-la.[...]"
Tal trecho, devo dizer, é de difícil interpretação, porque, nesta parte em especial, minha "bagagem cultural" bem possivelmente tenha sido um pouco diferente da tua. Em 2004 e 2005 eu andei bem entrosado com ascetas-escritores, se é que se pode denotá-los assim, entre os quais G.I.Gurdjieff e I.P.Ouspensky. Segundo seu relato, nas antigas tradições esotéricas do Oriente, os que desejavam a vida espiritual, comparável, grosseiramente, à vida monástica, deveriam largar família, parentes, amigos, o mundo. E ingressavam numa escola especial, onde treinavam movimentos, exercícios e danças, cujos objetivos eram a elevação da alma, o transcender do espírito. Eles ficavam sob os auspícios de mestres, que, por sua vez, já haviam sido lecionados por mestres anteriores, pertencentes a uma seleta linhagem, conhecedora das próprias origens da tradição esotérica (por favor não confundir com os supostos gurus da atualidade, a corruptela do esoterismo em sua forma mais grotesca). Entre as muitas danças por eles realizadas, a única divulgada é a dos dervixes rodopiantes(link para vídeo no youtube), que seguem a vertente sufista do maometismo. Releia, agora, os três versos, para fazer sentido o que escrevi. Era exatamente isso que os ingressantes tinham em mente, para poderem incursar em uma vida que os isolaria do restante do mundo. Os laços eram rompidos, sem peso na consciência. Caso tenhas interesse, há um filme que deveria figurar entre os 250 melhores do mundo da lista do imdb, chamado "Encontros Com Homens Notáveis" (original: Meetings With Remarkable Men). Ele está disponível para baixar pela web, e legendas em português são facilmente encontradas buscando-se no google: "Meetings With Remarkable Men em português".
9.[Idade Madura]
"[...]Antes de mim outros poetas,
depois de mim outros e outros
estão cantando a morte e a prisão.[...]"
O poeta é o dissidente, o que fala sobre a morte e a prisão enquanto as pessoas estão a falar da alegria e da felicidade. Que prisão é esta, a que Drummond se refere? Será a material, a de grades e ferro, superlotada em quadrículos de concreto? Não. É a prisão que jaz dentro do homem, a prender-lhe o pensar, a derrotá-lo antes do vôo, a dizer-lhe incessantemente: "Perdeste. És um fracassado". São as grades que o impedem a todo momento, o cão-guia que o conduz às paisagens dantescas, aproveitando-se de sua cegueira à la Mito da Caverna. O poeta des-venda o véu da morte. O poeta des-cobre o caixão denegrido pela sociedade. O poeta encontra a morte e diz a ouvidos surdos: "Ei-la como é!". Poucos lhe dão ouvido, daí Drummond dizer que antes dele vieram outros poetas, e depois dele virão outros e outros...
10.[América]
"[...]Sou apenas o sorriso
na face de um homem calado."
É um poema que merece ser relido. E, somente após atenta releitura, enfim comentado.
11.[Visão 1944, última estrofe]
"Meus olhos são pequenos para ver
o mundo que se esvai em sujo e sangue,
outro mundo que brota, qual nelumbo
-mas vêem, pasmam, baixam deslumbrados."
Foi o segundo poema que mais me marcou. Mostrou a guerra sob outros olhos. A compreensão dele se faz fundamental para quem anseia pela resposta à pergunta: o que é guerra?... leia-o, e saberás.
12.[Os Últimos Dias]
"E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global[...]."
Meus comentários estão ficando enxutos não porque estou cansado, mas, sobretudo, porque estes últimos merecem ser lidos na íntegra, e o meu comentário só serve de incentivo a quem não os leu, e de um empurrão para relê-los, a quem já se deu o prazer de desfolhá-los. Este é especialmente perfunctório. "Qual lâmina"(figura tirada de algum poema contido em A Rosa do Povo), ele alcança o cerne da questão: "cada homem é diferente, e somos todos iguais." Como sublinhado por minha professora de Literatura, Drummond é o "poeta cerebral". Cada verso é trabalhado, seja ele sem rimas ou métrica, mas desprovido da mensagem não será. Leia a segunda linha e note que ele usa "[cada] homem é diferente"..."e somos todos iguais." Perceba: primeiro ele constata, como de uma distante tomada cinematográfica, que "cada homem é diferente" - até aí, nada dignamente poético. Para, em seguida, afirmar "e somos todos iguais". Há dois fatores poéticos nesta derradeira afirmação. Em primeiro lugar, o "e". Drummond diz "e somos todos iguais", contrariando o já bastante comum "mas somos todos iguais". Para o poeta, não há antagonismo. Não está negando ou contrapondo a primeira afirmação. E, em segundo e último lugar, ele vai do longínquo e impessoal: "cada homem é diferente", para mergulhar de cabeça no "e somos todos iguais". A segunda frase não só deixa de expressar uma contradição, como expus, como também coloca-o dentro do coletivo denomindado humanidade, dentre os demais homens. É como se ele estivesse a bradar: "eu pertenço a esta homogeneidade heterogênea!" (e não o inverso).
13.[Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin, parte VI, duas últimas linhas]
"[...]ó carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
[caminham numa estrada de pó e esperança."
Se tu já assististe a Charles Chaplin, reassista (como eu, não se arrependerá). Caso não o tenhas feito ainda, faça-o com urgência. Tempos Modernos (1936) não se sobrepõe aos, em parte, menos conhecidos: O Grande Ditador (The Great Dictator-1940) e Em Busca do Ouro/A Quimera do Ouro (The Gold Rush-1925). Essa "tróica" de filmes chaplianos merece ser assistida e, ao menos uma vez, reassistida. A exaltação com que Carlos Drummond canta Charles Chaplin não é, de modo alguma, falsa. Chaplin soube mostrar a esperança e a alegria nas mais duras cenas desses três filmes. Chaplin comendo a bota de couro; Chaplin dando bundadas no Globo Mapa Múndi e fazendo um discurso em prol da humanidade de, literalmente, arrepiar os pêlos; Chaplin comicamente preso entre as engrenagens... são cenas relembráveis... cenas que, desta vez, não exalam o "insuportável cheiro da memória"...
Fênix
Não foi proposital.
Não fiz por mal."
O Sol nasce para todos,
Não sabia?
Ou, melhor, nasceria...
Não houvesse vilania.
O Sol nasce para todos.
Quem dera um dia...
Resplandescente surgiria
No céu o vislumbre, o clarão
Na reflexão luzidia
O calor da imensidão...
De um Sol que nascesse
Ao mal a contraposição
Quem dera não morresse
Sua tenaz reflexão...
Ao homem,
Um brinde.
O Sol morreu,
E com ele a Esperança
De um Sol que pudesse
Nascer
Para todos...




