sábado, 31 de janeiro de 2009

Delírios de uma Entrenoite

Sonhei que estava deitado sonhando que estava deitado sonhando...

Sonhei que estava deitado, observando o que aparentava ser um cachorro sobre o sofá. Não estávamos distantes. De repente, ele faz menção de se sobreerguer e então percebo que não era um cão, mas um camelo! Ou melhor, nem mesmo um camelo, porém um dromedário!! E ele salta grácil do divã ao chão, quase que dotado de um orgulho aristocrático no pular gracioso. E assim some de cena.

Portanto, permaneço jazendo observante sobre minhas costas, estirado, como que para dormir. Não penso em nada, apenas estando ali. De súbito, meus pulmões se inflam de maneira visível e assombrosa, e eu passo a urrar como um camelo em dor. Agonizante. Os urros são altíssonos, num crescendo de dor e morte até que... de todo cessam, e me vem à cabeça, como o mais simples e ingênuo dos pensamentos: "Agora note como respira com naturalidade. Durma."

Na verdade, eu acordei logo após supostamente ter dormitado no sonho. Havia pernilongos também em uma cena onírica não muito diferente daquela do camelo, ou melhor, dromedário. Mas, mesmo havendo essas criaturas hematófagas sobrevoando meu leito, eu me encontrava num ambiente no mínimo relaxante.

O fato é que, ao acordar, o quarto encontrava-se repleto deles - seu zumbido quiçá em grande parte sufocado pelo barulho operacional do computador. No entanto, com ou sem zunido, seguiam eles em sua rotina de picadas e sobremesa, sem maiores sobressaltos. O que me fez, decerto, levantar-me e mendigar, sonâmbulo, até a sala, com colcha e almofada em mãos.

Tendo acabado de me acomodar no inconforto mole e estreito do sofá dali, uma muriçoca tenaz me desperta furioso com seu vôo sônico e rasante aos sensíveis órgãos auditivos meus uma vez na penumbra. Acendo a luz, tapando os olhos ainda sonolentos e levemente fotofóbicos, até que estes se acostumam à luminosidade reinante, e eu tomo conta que não era um mero perna longa quem me fizera levantar num ímpeto furibundo, mas bem um kamikaze sob os auspícios de Sr. Mosquito! Oras!

Agora ele já deve ter encontrado algum recôndito alheio à minha atual perspectiva. Quando eu me decidir por deitar uma vez outra, aposto contigo do retorno imediato do Deus do Vento, destinado e obstinado a cantarolar-me serenatas - à la 9ª sinfonia - no curto decorrer restante das madrugas.

Às vezes, o bom-humor é o melhor descanso sobre a face desta Terra... ha!

Nada como um dia dissimilar, uia uia.

***

Então, lembra aquele rosto, aquele gosto? Aquele mosto de uva, aquela singular sensaboria de mais um ido dia?

Recorda? Aquela manhã e a linda cunhã, servindo xerelete* na travessa? Toda digna e portentosa, sem a mínima pressa? Hmm... que peixe, e que travessa! Com vista pro mar, ainda! Aquele dia, sim, fomos todos o poeta que melindra, a dizer: "Não ainda! Não ainda! Fica, manhã linda, fica conosco até o ocaso!" Será que foi um sonho, ou somente mais um caso? Ah, mas eis a graça da vida! Por que estragá-la tão logo cedo, mancebo!

Memora? Nós, no caiaque, o mar com neblina, a tímida chuva sobre nós, lubrina fina? Como um véu hidratante, a mostrar-nos que o mar tambem se ergue, e se deita sobre nós - e nisso nada há de vil, ou de atroz. É puramente o mar, alojando-se em nós. Agonia é o nosso dia-a-dia. Pois nem quando o caiaque virou, seu truculento! O cenotáfio está mais pra iguaria. Hum.

E aquela vez, chuvosa, que pulamos no mar, e pensamos alcançar o grande monolito submerso pelas águas? Nossa ida, com todo seu empenho e esforço, foi fácil façanha ante a volta envolta em fadiga e fado - pessimista cantiga a nado. O cruzeiro! Ah, o cruzeiro! Mirava-nos ao longe, e nós retribuíamos o gesto, em pé sobre a pedra, em pé sobre o mar. Quão fantástico é sequer cogitar estarmos sós no mundo! Tal ilusão não afeta o ermitão, ah, certamente que não! Nadar e mar rimam, porque compreendem um mesmo orgânico pulsar. Nadar no mar. Nadar-ram no mar. Sim, pois, nadamos! (e nos minutos de descanso, treslemos um bocado acerca de Raul Seixas. Ou melhor, tu monologaste!)

E cá estamos - em retorno à civilização! Os dias de jaca e os dias de festa! A jaca partida na rocha da floresta! Ha! Sei que tu também te lembras, do ato selvagem. Pois como não o seria? Estávamos imersos na selva, e faca não havia. Desafogamos nossa fome em meia jaca. O resto virou alimento do solo, e dos bichos, que apenas escutamos. Hoje, sim, temos impressa, a maturidade da juventude na testa!

Não há do que reclamar, pois cada história é uma conta a fiar - o fruto, é o colar. Ornamento do que vivemos. Memento do que aprendemos!

Singremos, enquanto há leme - enquanto há vida!


*Bem, na verdade não era manhã, mas início de tarde. Enfim, mas não importa. Ah! E era cavala naquele dia, xerelete, aliás, havia sido no outro. A cavala foi comida na aldeola de Palmas. O xerelete, na cidadela remanescente de Dois Rios. Ambas localizam-se em Ilha Grande.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Crimes de Guerra

Parece que a panela está esquentando: 15 oficiais israelenses já estão na lista de criminosos de guerra, produzida por vários países que levaram a sério a matança na Palestina. Ehud Barak (Ministro da Defesa) e Ehud Olmert (premiê) entre os nomes.

Democracia? Não. Ainda se está muito longe de um governo eleito e direcionado pelo povo. Talvez uma plataforma de governo plenamente democrática seja somente mais uma utopia, perseguida e morta, tal qual os irmãos Caio e Tibério Graco. A rede BBC, por exemplo, não aceitou colocar no ar propagandas para doações à Gaza, encabeçada pelos 13 mais representativos centros de caridade da Grã-Bretanha, incluindo a Cruz Vermelha, Oxfam e Save The Children.

O mais espantoso é o fato de que essas mesmas instituições de caridade conseguiram pôr no ar, na BBC, chamadas para doações para a República Democrática do Congo e outros países afligidos por conflitos e miséria, em anos anteriores. Em 2006 essas mesmas instituições, por problemas técnicos referentes à dificuldade de entrega, julgaram uma possível ajuda ao Líbano - então sitiado por Israel - inatingível, devido às circunstâncias. Coincidência ou não, Líbano e Palestina foram atacados por Israel. É óbvia uma certa resistência por parte das grandes corporações midiáticas de colocar no ar propagandas que mostrem que se situam politicamente do lado dos palestinos.

O diretor-geral da mais influente rede televisiva britânica, Mark Thompson, alegou que a divulgação na BBC de pedidos de ajuda e doações seria um indicativo da posição política tomada pela emissora, o que afetaria uma perspectiva jornalística imparcial. Bom, isso é conversa pra boi dormir. Vários leitores protestaram no blog do diretor, onde ele postou essa baboseira melíflua e enganosa. Um deles emitiu sua opinião, com a qual sou forçado a concordar: "Desculpe-me, Mr Thompson, mas você não pode querer ter em mãos ambas as coisas. Se a decisão de acatar ao pedido do DEC (Comitê Emergencial de Desastres, formado pela cooperação das 13 instituições de caridade) é visto como [tomar uma posição] política, então a decisão de não aceitar o pedido é também política." Eu diria que esse comentário é no mínimo acurado: se passar propaganda para doações à Palestina é uma posição política, não passar também o é. Oras, não há imparcialidade, e não há como ficar sobre o muro - porque seria impossível aceitar e não aceitar um pedido desses ao mesmo tempo. Como sempre, as situações reais muitas vezes impedem esse papel imaginário do observador imparcial. Chega uma hora em que o muro cai e você cai junto se tentar se equilibrar em cima dele, ao invés de pular logo para um dos lados.

As notícias têm esse dom de chocar, especialmente esta última que li: soldados israelenses receberam a ordem de não se deixarem ser capturados como prisioneiros. "Não importa o que aconteça, nenhum de vocês vai ser seqüestrado," foi a ordem dada pelo comandante inidentificado de um pelotão, em discurso às suas tropas antes ao início da luta. "Nós não teremos um segundo Gilad Shalit".

Shalit foi o cabo israelense tomado como prisioneiro há três anos, e que ainda se encontra nas mãos do Hamas. O grupo militante exige - em troca da libertação do soldado israelita - que sejam soltos mais de 1.000 presos palestinos. Soldados foram inclusive instruídos a atirar e causar explosão em qualquer comboio transportando um possível soldado israelense seqüestrado, e a se auto-explodirem com suas próprias granadas junto com seus seqüestradores, não havendo outra saída.



As linhas finais do vídeo acima merecem repetição: "A Alemanha foi processada por Crimes Contra a Humanidade. Será Israel? Você decide. Tudo o que é necessário para o mal suceder é a inação dos homens de bem." O que nos traz uma reflexão: o primeiro passo para agir é conhecer. Para se conhecer o que está acontecendo, é necessário sobretudo buscar. Sem a busca, não há o saber. Sem a indagação, não há a ciência. A história é uma ciência, e ciência é parte fundamental da palavra cons-ciência. É exigido saber o por trás dos bastidores. Guerra é somente a inscrição presente nas cortinas dos palcos. Quem irá entreabri-las para ver o que jaz por detrás, senão cada um de nós? Porque a morte dos palestinos traz recordações do Holocausto, o Shoah judaico. As lições não aprendidas da História têm essa tendência inata de se repetirem no tempo presente - e o presente é o ponto de partida para o futuro. É este o futuro que almejamos? Um futuro batizado em sangue e fogo? Um futuro destroçado pelo sacrifício de um povo?

Gaza, em brasas, Gritou!

Alguns usam a Arte para expressar a dor e o desespero. Edvard Munch pintou Skrik (O Grito), uma obra que marcaria a Humanidade pelo caos e o sofrimento estampados em cada pincelada, e, claro, pelo grito que ecoa através da pintura para nossos ouvidos poéticos. Pablo Picasso pintou o trágico painel Guernica, que mostra as torturas de uma Guerra Civil, a loucura, o ensandecimento geral de todos diante de tanto terror. Surpreendi-me ao achar este recente vídeo produzido por um músico, mostrando que poesia, arte e música são emanações de uma mesma substância formadora. Farinha de um mesmo saco, denominado coração.



Por que, para mim e muitos outros, ainda é extremamente penoso ver fotos do que realmente está acontecendo. Ninguém chora por um prédio destruído, como são mostrados os edifícios em ruínas nos jornais e revistas que supostamente abordam o assunto. Mas chora-se com força ao ver o sofrimento materno, paterno, pela perda de uma futura geração provinda de seu próprio suor e sangue. A vida descontinuada de um povo.

Tenho a impressão que ver o relato de repórteres já nos deixou insensibilizados com a miséria alheia. É tudo muito formal, muito bonito, todo o esmero do discurso falsamente neutro e jornalístico. Uma criança consegue muitas vezes transmitir mais do que um noticiário todo:



E está cada vez mais aparente e óbvio que esta nossa mídia ocidental não se interessa em divulgar o que se passa em canais do Oriente Médio, quando há cobertura de mortes de civis. Falar em número e cifras e estatísticas é papo. Papo furado. O luto do povo palestino já dura 60 anos. O escritor e ativista palestino Ghassan Kanafani, brutalmente assassinado em 8 de julho de 1972, por uma bomba plantada em seu carro pelos israelenses, já dizia que sua gente vive "do vento e da esperança".

O martírio árabe.




Eis, pois, minha contribuição:

Para onde corres, criança?
Por que esta malévola dança,
De morte, dor e desatino?
Por que agora o repicar do sino?

Por que rodopia sobre o chão,
E desaba com um baque, irmão?
O que te fez cair ainda arromba
A porta, o lar, que logo tomba
E tudo é pó e tudo é sombra.

Por que gritas, mãe?
És, pois, txucarramãe?
Foste tua tribo extinta,
E varrida do mapa?
Falta na parede tinta, não é?
Foi dada na tua face um tapa, pois não?
Mas onde está a fé?
E onde parou enfim o perdão?

Cadê o inimigo, a mão assassina?
Estou contigo, vó, é nossa sina.
Pois e o vizinho, o que o acometeu?
Está sozinho? Pois, sim, morreu...

Onde está Deus? nossa lamúria...
E os filhos teus? E a tertúlia?
Pereceram, não foi?
Abateram-nos... como bois!

Que lama escorregadia é esta?
Não é mangue.. é sangue!
Por que os soldados fazem festa?
E a criança de rosto exangüe?

Por que tingido rubro o teto?
Que zumbido é esse, pai?
Pai? Por que está tão quieto?
Não sinto... mais... aai...

Por que este longo estertor?
Quem desfalece, doutor?
Sabe, já não tenho mais família
Isolado (meu povo), náufrago (numa ilha)

Que féretro portas?
Meu amigo, cadê a cabeça?
Seu caixão são duas portas,
Que o mundo não esqueça!

A de baixo, vai trancada
Pra fechar o inferno
A de cima, escancarada
Pro paraíso eterno

Que mal ela fez?
Que crime cometeu?
Quanta insensatez,
Ó, mundo ateu!

Plangente o lamento
Pela janela afora
Não há mais sustento
Somos mortos à tora!

Minto s'eu disser
Que perdoo toda mágoa
Já não vejo o rosicler
No rio não corre água.

Por que respiras ofegante?
Deita, e te acalma
É teu último instante
Descansa em paz tua alma.

Lá vem o inimigo beligerante
Fera do caos indomada
Sua bestial voz tonitruante
Criatura assombrada

Pode até perder o rumo
Se perder do caminho
Mas sempre atira co'aprumo
Mata gente, mata ave, mata ninho.

Filho, onde você está?
Nossa casa ruiu...
Sou a viva Pietá
Que nos escombros caiu...
Sinto fri-io!

Perdi algo, minha visão
Por que tudo tão escuro?
Tão úmido... é a prisão?
[É o apartheid, é o muro]
Por que já não toco mais o chão?
[É a destruição do futuro]
Por que tanta solidão?
Somente corpos, monturo.

Não se pode recomeçar?
[Não se sabe. Incerteza]
Quero reconstruir o lar
[Mas, e a tristeza?]
Quero um País pra morar
[É preciso trocar a toalha da mesa]
Quero terra para arar
[Nossa vida é dureza]
Quero o futuro renovar
[Um tempo de realeza]
Quero de volta meu lar
[Oh! Madre Teresa!]

Sou palestino.
Sou guerreiro.
Nordestino.
Trabalhador.
Sou o que veio
(Libertar)
De toda dor.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A Arma Ainda Quente e Esfumaçando

Sob forte pressão internacional, Israel admitiu ter utilizado fósforo branco contra os palestinos. Uma arma proibida pela crueldade dos ferimentos que causa: produz feridas dificílimas de se cicatrizarem e queimam gradualmente a pele e a carne até restar somente o osso. Médicos não sabiam o que fazer - e, na verdade, pouco poderiam fazer contra uma arma designada para matar com dor, e que deixa apenas uma remota possibilidade de recuperação da vítima.

O Departamento Central Palestino de Estatísticas revelou as cifras do ataque: 4.100 casas destruídas e 17.000 outras danificadas pelo bombardeamento israelense por ar, terra e mar. Cerca de 1.500 fábricas e oficinas deitadas à terra, somadas a 25 mosteiros e 31 edifícios do governo. Isso sem contar a destruição da infraestrutura do saneamento do País, com 10 canos de esgoto ou água também danificados.

O Departamento palestino ainda estima o valor dos danos físicos e estruturais até agora detectados como em cerca de 1.9 bilhão de dólares (o que corresponderia a R$4.400.000.000, cerca de metade do PIB palestino estimado no ano de 2005). Tal valor inclui cerca de 200 milhões de dólares (mais de 460 milhões de reais) de danos à infraestrutura.

O Memorial do Holocausto Palestino busca relatar as atrocidades que ocorreram no território palestino. Vários médicos já estão juntando esforços com essa iniciativa para trazer ao mundo o que viram nesse período de ofensivas israelenses.

Em 22 dias de ofensiva israelense, cerca de 1.300 palestinos foram mortos, incluindo 400 crianças. 13 israelenses morreram. Como havia exposto num artigo precedente a este, foram assassinados 100 palestinos para cada 1 israelense morto. Tais estatísticas podem indicar um genocídio, um morticínio, uma hecatombe, mas nada em parecença com o tão chamado "conflito". Acreditar ou mesmo empregar o vocábulo "conflito" é negar a realidade do que se passou na Faixa da Gaza, em Rafah, na Cisjordânia e em todo território palestino massacrado belicamente por quase um mês.

A incurabilidade do fósforo branco torna essa arma ainda mais injustificada. O máximo que a Medicina atual permite é aplicar medicamentos receitados para queimaduras por fogo, aos pacientes feridos pela arma banida internacionalmente. Segundo a enfermeira Sharif Akhtar, que atuou na área durante o período, tendo presenciado diversos casos de vítimas de fósforo branco: "É a primeira vez que vemos algo desse tipo."

E, claro, há toda a problemática da reconstrução das casas de palestinos hoje literalmente sem-tetos. Não somente casas, mas toda a infra-estrutura em destroços. Pois Israel ainda insiste em suas restrições draconianas do que entra e sai de Gaza, o que somente aumenta o sentimento de humilhação de todo um povo. Não basta arcar com o ônus mortífero de um ataque bestial. Ainda se tem de habitar ruas em ruínas, após a retirada das tropas inimigas.

Bem, eu ainda não vi nos jornais impressos série alguma de fotos de palestinos morando nas ruas após as ofensivas, mas eis algumas para quem se interessa. Já vi carroceiros no Brasil em situação menos degradante. Não me parece humanizante o bloqueio da entrada de materiais de construção enquanto civis dormitam sobre placas de concreto semidestruídas. Não bastasse o epíteto de vítimas, têm ainda de portar a nada honorífica denominação de mártires. A martirização de um povo - ou seria a crucificação deste, repetida e retomada, ano após ano? É muito fácil se esquecer de um simples fato, mas faça o favor de memorá-lo, já que teve o trabalho de ler até aqui: quando falamos dos palestinos, estamos nos referindo a um povo com mais de 1,4 milhão de indivíduos - isto nos territórios ocupados, sem contabilizar os refugiados espraiados por diversas nações do mundo, inclusive o Brasil.

E quanto aos efeitos do genocídio produzidos nas crianças, a futura geração de uma nação sitiada? Devemos esquecê-los? Um estudo realizado com centenas de crianças de Gaza mostrou aumento na ocorrência de pesadelos, enurese noturna, e outros sinais de trauma, segundo relato do psicólogo Fadel Abu Hein. Não há dúvidas de que a próxima geração palestina pode estar perdida, se não houver amplo acompanhamento psicológico, dentro e fora da escola. Não é nada comum para uma criança de 5 anos ter visto seus primos de 13 e 14 anos mortos em sua própria casa. A persistência da memória é a persistência da história. Qual será a futura história desse povo, se a memória de suas crianças já têm impressos flagelos e recordações de sangue, violência e morte? Não é de forma alguma um futuro promissor. Viver no interior de um campo de concentração, um Estado de Sítio, já seria razão suficiente para desvirtuar a próxima geração rumo à militância armada, apenas para verem-se face a face com sua própria morte, porque estamos tratando aqui de um dos exércitos mais bem-equipamentados do planeta, se é que não ocupa o topo desse ranking militar.

É extremamente penoso ver que as mais potentes munições, e armamentos de ponta são voltados ao extermínio de um povo. Um povo anterior àquele que veio a ocupar seu território e tomá-lo sem civilidade, mas estuprando, aprisionando e rindo de escárnio. Ou será que já caiu no olvido o Massacre de Deir Yassin, ocorrido em 9 de abril de 1948? Isso porque ele não deixou de ser noticiado. No dia seguinte ao do massacre o New York Times já havia publicado uma reportagem na qual relatava que duzentos árabes haviam sido mortos e quarenta levados como prisioneiros. E não parou por aí: no dia 13 de abril o jornal estadounidense reportou que 254 homens, mulheres e crianças árabes haviam sido mortos em Deir Yassin: mas, desta vez, não havia uma menção sequer a prisioneiros.

Apesar de dissidências entre os historiadores quanto ao número total de mortos, um fato remanesce: o massacre de Deir Yassin assinalou o início da depopulação de mais de 400 vilarejos árabes e o exílio de um número excedente a 700 mil palestinos. A despeito dos protestos de Martin Buber e outros renomados acadêmicos, dentro de um ano o vilarejo foi repovoado com imigrantes judeus ortodoxos vindos da Polônia, Romênia e Eslováquia. O cemitério da aldeia foi soterrado e seu nome varrido do mapa.

Ainda, segundo as estimativas da ONU, que alguns apontam como conservadoras, 750 mil palestinos foram expulsos do presente estado isralense, em 1948. Esses refugiados e seus descendentes alcançam hoje a cifra de 4.5 milhões e constituem a maior população de refugiados do planeta.



Essa senhora nascida em Deir Yassin vivenciou de primeira mão os horrores de uma invasão sobretudo criminosa, pois compreendeu a tomada de um território autenticamente palestino, e que não estava destinado à formação do atual Estado Israelense. O que mais me surpreende é o fato de que Deir Yassin foi um vilarejo dentre 417 outros tomados e destruídos por Israel em seu processo de formação.

Deir Yassin vista de Yad Vashem: o vilarejo está situado nas árvores verdes à direita da torre de água.

A recente ofensiva israelense não alvejou apenas a população civil. Soldados israelenses fizeram questão de entrar no principal zoológico palestino e atirar de forma deliberada em leões, girafas, macacos e outros animais ali mantidos. Quão longe pode ir a crueldade, é difícil determinar. Mas para quem atira em seres humanos indefesos - mais da metade do total de mortos - não deve doer muito a alma ceifar a vida de animais. Aliás, os soldados que levaram a cabo essa matança injustificada talvez contem de forma psicopática anedotas de uma caça esportiva. O pior é que eu não vejo a menor graça em destruir um zoológico que recebia mais de 1.000 (mil) pessoas por dia e que servia para entreter as crianças e famílias palestinas. Veja o vídeo do que sobrou do local.

O encarregado do zoológico, Emad Jameel Qasim, expõe de forma devassaladora o que sucedeu: "Não havia uma única pessoa no zoológico, apenas os animais. Nós fugimos antes da chegada [dos soldados]. Qual é o propósito de sair atirando nos animais daqui e destruir o local?". Ao ser perguntado por que era tão importante para Gaza o fato de se ter um zoológico, Qasim responde: "Durante os últimos quatro anos, este era o lugar mais popular entre as crianças. Vinham crianças de toda a Faixa de Gaza aqui. Não havia qualquer outro lugar [como este] para as pessoas visitarem."

Este fato e o relato que o acompanha nos leva a depreender que, mais do que uma invasão e ocupação bélica, o Exército Israelense tenta impor sempre uma invasão de caráter moral. Infligir humilhação e penúria numa população sitiada parece ser mais uma marca da presença da força militar israelense. Para mais informações sobre o ocorrido no zoológico.

Se os feitos atrozes da ocupação israelense parassem por aí, já haveria muito o que condenar por seu caráter essencialmente ilícito no que tange à morte de civis e à uma invasão deplorada por vários presidentes e líderes mundiais, inclusive Luiz Inácio Lula da Silva. Mas fatos e mais fatos sanguinários vêm à tona, e não se pode negá-los de antemão, a não ser que se queira negar a realidade. Crianças palestinas relatam que seus pais foram mortos na sua frente, mesmo após se renderem, mantendo os braços para o alto. A execução sumária de civis é impensável no século que vivemos. Rendição é rendição - não há um porém ou um todavia para obstar um julgamento acurado e preciso. Matar pais que se renderam defronte a seus filhos é mais que uma provocação - é inumano. Como a criança que presencia uma cena de tamanho terror poderá se desenvolver saudavelmente no que se refere ao seu balanço emocional?

O assassínio de crianças já se estabeleceu como uma política sionista de conquistar territórios palestinos. É um expansionismo imperialista fundamentado na destruição da próxima geração. Ainda há quem levante a voz e perca o emprego em nome da verdade. E é essencial que haja pessoas corajosas a ponto de pagarem um preço alto pela liberdade de expressão. Não, não me refiro à liberdade de expressão da imprensa, que sempre foi volta e meia cerceada pelo status quo. Refiro-me, isto sim, às pessoas que lecionam em universidades e ousam falar mais alto que os meios midiáticos cujas rédeas jazem nas mãos dos poderosos. Pão e Circo é sua política. E como funcionam bem tais engrenagens do entretenimento. Pouco sabem os iludidos quão mais satisfatória é a busca pela verdade, que leva à consciência, que leva à libertação. Libertação do cabresto cultural e político que nos é imposto desde a mais tenra infância - muitas vezes pelos nossos pais influenciados pela televisão, e pela televisão sob as mãos daqueles que nos querem influenciados de forma nefasta e detrimentosa à formação de uma visão de mundo independente de clichês e velhos preconceitos.

Fiquei espantado com a propaganda pró-belicista de muitos rabinos, envolvidos supostamente em "apoio espiritual" aos soldados das Forças Israelenses. Na verdade, eles se imbuíram de amestrar os jovens israelenses para a hecatombe impiedosa de civis palestinos, com citações pseudo-religiosas - comparando os atuais palestinos com os bíblicos filisteus. Segundo eles, os filisteus ocupavam territórios que não eram seus, e um soldado israelense mostrar-se consternado por seus atos ou mesmo pensar em misericórdia para com seus alvos palestinos seria indigno e inapropriado para uma situação de guerra. Um dos panfletos produzidos por rabinos que circulou pelas mãos dos israelenses teve a audácia sanguinolenta de politizar o morticínio dos palestinos com as seguintes palavras: conclamou "soldados de Israel, protejam suas vidas e a de seus amigos, e não tenham compaixão para com a população que nos circunda e nos fere. Nós vos conclamamos ... para atuar segundo a lei 'mate quem intenta te matar'. Quanto à população, ela não é inocente ... Nós vos conclamamos para ignorar quaisquer doutrinas estrangeiras e ordens que confundam o modo lógico de se combater o inimigo.".

A organização israelense de direitos humanos Yesh Din contactou o Ministro da defesa Ehud Barak para remover imediatamente o rabino Avichai Rontzki de seu cargo, por este estar envolvido em uma das alegações polêmicas. Seria para menos? Tempos cavernosos estão no limiar da floresta, a aguardar o próximo trucidamento étnico neste planeta. A crescente militarização que se vê no mundo não pode ser um bom sinal. O reavivamento da 4ª Frota estadounidense, para a patrulha invasiva da costa sul-americana, acrescida ao último comentário estupidificante de Sílvio Berlusconi, segundo o qual (diante do aumento de estupros de mulheres na Itália) dever-se-ia colocar nas ruas um soldado para cada mulher italiana. Os sinais dos tempos estão evidenciando muitas coisas. Deve-se atentar às pistas, como de praxe.

É óbvio que, para um ataque covarde de tamanhas dimensões, nem todos os israelenses permanecem calados e coniventes. Uma ilustração disso pode ser feita com Gadi Baltiansky, diretor-geral da Iniciativa Gêneva, uma grande organização isralense para a paz, que advoca uma solução política para o conflito palestino-isralense. Uma citação sua de destaque sobre o estado de coisas no interior de Israel merece reprodução: "Uma sociedade que trata seus críticos domésticos como anátemas, traidores e seres malévolos é uma sociedade diferente daquela que costumávamos ter por cá, e diferente daquela que deveríamos de fato ter.". Baltiansky refere-se à ausência de debates - dentro de Israel - acerca dos efeitos da guerra.

Pode-se dizer também que o autor David Grossmann figura em conjunto com os críticos solitários. Como escreveu Grossmann no jornal de tendência esquerdista Haaretz, Israel pode ter apresentado ter uma força militar formidável, mas falhou mostrar que estava com a razão. Estatísticas podem muitas vezes revelar a apatia que assola o espírito de um povo, quando alimentado por uma mídia indigesta no que tange ao relato imparcial de crimes de guerra. Falo dos israelenses. Por exemplo, é assombroso constatar que 82% dos cidadãos israelenses dizem não acreditar que Israel agiu com violência desproporcional em Gaza. Isso pode explicar o porquê deles não entenderem como as imagens e reportagens vindas de Gaza acabaram criando uma onda de empatia para os palestinos - e raiva conntra os israelenses - em volta do mundo.

De acordo com Baltiansky, que foi porta-voz de Ehud Barak (atual Ministro da Defesa israelense), tal indiferença pelos palestinos é resultado de um longo processo. Segundo seu ponto de vista, as pessoas vêm tolerando fenômenos socias claramente repreensíveis - como o clamor racista "morte aos árabes", ouvido em estádios de futebol.

Por outro lado, Israel parece já estar se prevenindo contra possíveis condenações internacionais. O primeiro-ministor israelense, Ehud Olmert, asseverou que seu país fornecerá proteção legal aos soldados que lutaram, contra possíveis alegações de crimes de guerra. A meu ver, a justiça só ratifica perante a sociedade como um todo as injustiças cometidas, claramente vistas por qualquer um que pesquise o que de fato desencadeou o quê. Uma condenação judicial, no entanto, seria um passo firme rumo ao fim desse apartheid.

Sobre a formação do Hamas:

How Israel Helped to Spawn Hamas


Fontes adicionais:

Conversão Universal de Moedas (26.01.2009)

Números do Departamento Central Palestino de Estatísticas

Número de palestinos e israelenses mortos

Sobre a gravidade dos ferimentos de fósforo branco nos palestinos vitimados

Red Pill - Wind and Chill

Se você soubesse
Talvez não afirmasse com tamanha certeza...

Se em nós verdade houvesse
Não estaríamos assim atolados neste lamaçal.

Ser ator todos somos na vida real
O difícil, parece,
É viver de verdade em um mundo irreal.

Quando quanto mais nadamos
Mais afundamos
Numa poça de barro, sangue e sal.

O que eu posso fazer
Senão dizer
Que o narcisismo é a doença atual

Depressão, a vertigem
Pessimismo, o mal.

Otimismo necessita um colírio de realidade
Algo que nos dispense saudade
E nos faça lutar pela liberdade.

Libertação individual
Libertação...
De todo mal.

Para se libertar, as drogas não funcionam.
Para se libertar, os chavões decepcionam.
Frases de efeito desabam.

É preciso saber.
Ver.
vi-Ver.
con-vi-Ver.

Ver
dade?)

(O Ver
náculo
atual
é a televisão
As pessoas não querem a crua verdade
Querem fuga
e
di
Ver
são)

Eu escolho a pílula vermelha.

A Ilusão de uma Chuva

As gotas de chuva
Caem sobre mim
E é como se não as sentisse
Gota por gota
Esparramando-me os cabelos
Desalinhando a estrutura capilar
E todo meu modo de pensar

Penso nela
Intermitentemente
Penso nela
Diariamente
Almejo-A:

Minha libertação.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Na Calada da Noite

Ambos deambulavam despreocupados, como que ingênuos da escuridão que viria os encobrir. Entrincheirados pelas sinuosidades da estrada espremida entre a densa mata, nem sequer faziam idéia que, poucos minutos adiante, seriam apenas os astros estelares sua companhia e seu guia sob a noite e as trevas. Sob o desconhecido.

Enquanto era luz, pouco mesmo dialogaram, compenetrados, passo a passo, no bater oco do caniço de bambu que portavam - um o levava em mão direita, o outro na esquerda, numa constância viva e demonstrativa. Numa contância, pois, que passava a impressão correta de ser aquele pau rijo um terceiro membro, auxiliar às suas fortes pernas bem-trilhadas.

Porém, quando enfim adveio a penumbra noturna, principiaram um longo debate e compartilhamento de saberes e conhecimentos e futuros ideais de vida. Estavam amedrontados, pêlos eriçados ante ao ignoto e incognoscível. Como um deles ressaltara na noite precedente: a escuridão remonta ao homem seus medos primitivos.

Os pés bem erguidos nas passadas para evitar onipresentes penedos num caminho tortuoso, mais um em direção a algo recendente a Deus. As cabeças voltadas para riba, ao céu estrelado - o primeiro assim que avistavam desde terem desembarcado naquela localidade -, a única forma de fato de conseguirem se guiar. O piguara era o vislumbre do céu, onde mesclavam-se as copas das árvores, que pendiam de ambos os lados para o centro da estrada.

Vagalumes luziluziam e traziam memórias de luz em meio às sombras e cavernosidades de uma vida vivida enxergando-se somente retoques do Real. Ora azuis, ou amarelos, ou mesmo brancos, os insetos conseguiam preencher o vazio do escuro hiante e faminto à sua volta. Era um terror imanente caminhar sobre um chão ininxergável, e comprimidos num ambiente com arredores tão próximos e paradoxalmente inescrutáveis.

De certa forma, passavam a compreender melhor a condição humana. Aquele dia foi o ensaio da cegueira de suas vidas. Andavam como cegos, e ambos eram guias, mas nenhum podia de fato enxergar. Ambos eram piguaras, mas seus pés desprovidos de garras e suas pernas bamboleantes só retinham a força nas varas manejadas habilmente por mãos calejadas. Nada podiam fazer senão seguir em frente. Nada podiam fazer, senão acordar suas mentes dormentes e unir sua meta em um uníssono vitalício: chegar ao ancoradouro. Chegar onde fosse preciso chegar, para tirar a névoa que lhes encobria gradualmente os olhos e os corpos, num manto de morte e olvido.

Não queriam morrer.

Eram jovens.

Criam ter toda a vida pela frente.

E o que era a vida... senão seguir em frente?

A jornada incessante. Os pés hesitantes escorregavam no piso molhado pela chuva e humidade da mata. Os pés cambaleantes tropeçavam em obstáculos intangíveis pelos órgãos da visão. Todos os medos colocavam em jogo seu objetivo. Toda a fobia pueril do escuro os assolava naqueles instantes sem fogo e sem horas. Sem vida humana por perto, além da do companheiro ao lado. Eram dois, mas apenas dois humanos diante do desconhecido.

Como poderiam atinar com seus próprios passos, se apenas seus ouvidos atentos os detectavam? Como poderiam reunir forças quando premidos a andar com pressa sobre um asfalto de terra, pedra e detritos impossíveis de serem vistos? Como?

Não sabiam. Ignaros ignaros ignaros. Néscios néscios néscios. Viam quão fraca era a força humana. Viam quão chã e rala era a permanência da alma frente ao indetectável. Quando desprovida do habitual conforto diuturno. O habitual e banal... e blasé conforto quotidiano. Eram duas manchas de vida em meio à impenetrabilidade da floresta. Eram dois humanos sendo observados sem poderem qualquer coisa ou ser observar. Viam um ao outro e, mesmo assim, mal a mal.

Escuro. Frio. Solidão. E de repente um choro. Nada semelhante aos sons atribuíveis às feras das virgens matas. Nada parecido com qualquer som dos tão depreciativamente denominados animais. Um choro. Plangente. Crescente. Rapidamente envolvendo-os num crescendo aterrador: o choro, o berro, o grito, o espernear... de uma criança. Em meio à mata. Em meio à noite. Em meio à solidão da penumbra e da caminhada apressada rumo ao lar. Um berro cada vez mais alto, na medida que apressavam o passo, tremendo de medo, em busca de um sino divino que repicasse e os livrasse do medo. Do medo. Do medo.

Por quê? Como? De onde? De quê? Todas as mudas indagações que lhes percorreram a cabeça ao escutarem um choro terrível e desesperado de criança vindo de cima, da mata, do inperscrutável. De um ponto cego. Deram as mãos. Já não era mais possível fingirem-se imbatíveis. Dobravam-se de medo. Já não podiam agüentar com o peito bravo o desconhecido. Não quando este mostrava-se tão despido e nu. Tão onipotente e tão onisciente de seus medos e suas falhas e todas suas brechas e seus vazios interiores. A escuridão destruía tudo que não fosse sólido. A escuridão ruía todas as ilusões, e fazia um se virar para o outro no momento final. O fim.

E o grito tornava-se cada vez mais alto e mais furioso. E mais opressor. Sentiam-se sós. E esse é o pior sentimento. Esse é o mais cruel e o mais incisivo. O mais profundo grito humano. O desespero de sentir-se só e desamparado. Sentiam-se assim, apesar de terem um ao outro como mútua companhia. Apesar de seus corações trabalharem para a meta de retornarem. De saírem daquela situação incontornável. Não queriam o escuro. Não queriam a solidão. Não queriam o medo da noite se instaurando em suas almas. Não queriam pensar em nada concernente ao sobrenatural. Mas estavam transidos de medo.

Era consternador aperceberem-se da situação humana em condições tão desfavoráveis à sua própria existência. De que serviria descobrir num baque quão fracos eles realmente eram, se a continuidade da vida seria quebrada no primor da juventude? Por que uma revelação de tamanha magnitude se essa experiência não poderia ser futuramente compartilhada com outros mortais, fracos e pecaminosos como eles mesmos admitiam ser naquele instante de assombro?

Pois a criatura que berrava loucamente numa voz de criança nos estertores de uma morte violenta caiu e fez no solo 'plof'. Um 'plof' tão surdo e potente que sobressaltou aqueles dois amigos desandados. Aqueles dois amigos tomados pelo medo primitivo e remanescente do homem: o medo de não saber. Desconhecer o porvir. O medo de não saber o que era aquilo os trespassava como uma navalha fria na noite. Uma morte muda. Incapaz de provocar angústia em seus compatriotas humanos, porque morriam longe da civilização, por causas irreconhecíveis.

Mas não morreram.

E eis sua história, relatada por um dos dois.

Oxalá, Leonardo. Sim, nós vivemos!

Here's to light, here's to light!!

domingo, 18 de janeiro de 2009

Máximos e Mínimas

Ah! A poeira estelar!
Ver o novo dia raiar
A renovação da vida
Tudo visto de seu lar

Sua visão até então empedernida
Iria enfim desenpedrar
Como o Sol de todo dia
Que nos vem iluminar

Oh, vida Mia!
Costumava se expressar
Quão grande alegria!
Seu costumeiro exclamar

Viver...
Que belo verbo para Amar

Conhecer...
O ponto é começar.

Wayward Road to Gaza

His grief-stricken face
Now... it seems so misplaced
But right then... it was raucous
And that heartfelt expression
Of His... I embraced

The terror, the horror
The Evil things we watched
[Behold the panic and fear]
As the sky broke asunder
The Thunder...
And the sea waves crashing
On our souls

Out we belted
"Mercy on us!"
But we couldn't
We just couldn't...
Stop the bus.

[oh, no, not again...
Don't ever come with your phraseology:
"No pain no gain"...
You just can't feel their pain
You are they who maim.

On the element named pain
You'll never set any possible real claim
'Cause you nurture for other people's lives
An inner psychological disdain

You'll never burden your conscience
With what you've done to block their plans
They made and heartly wished to attain

You wanna stop the war?
You should see how...
How psycophatically you laugh

Oh,
Inhuman kindred.]

The jackboot is coming down that road...
And here he comes.
To despise humanity and all its values
To ruin our hopes
To scatter our children
And bomb our homes.

Here he comes
To no avail will you beseech him
Unless you stick together
And harbour your neighbous
Through the coming
Apocalyptic weather

Can you do it?
Sick men will prevent by law
What your heart begs desperately of you
They will claim you never saw
[Behind-the-scenes MIB you couldn't ever sue.]


sábado, 17 de janeiro de 2009

Quando tudo pede

É quase pueril escrever poesias e ignorar o que está acontecendo no mundo. Se ao menos fossem poesias destinadas a evocar o que os palestinos estão sofrendo, já seria um avanço. Não dá para confiar mais em jornais. Pouco se tem de relatos palestinos primários sobre o genocídio que os estão acuando e matando numa escala sem precedentes. São eras cavernosas e tenebrosas, deveras.

Não é possível concatenar com a falsa noção de "guerra" com a qual nos bombardeiam diariamente, quando se lê este relato de um pai que viu o filho virar alvo de prática de tiro por parte de tropas isralenses.

Ficar mudo, surdo e cego diante de tantas atrocidades cometidas uma atrás da outra contra a população da área mais densamente povoada do mundo, é equivalente a deixar minhas mãos banhadas no sangue de um povo massacrado, sem expressar uma palavra sequer.

O que adianta autoafirmar-me humano se não condeno à viva voz o holocausto dos palestinos? Se não levanto minha voz e meus braços sequer para protestar contra a inumanidade mais veemente dos últimos anos?

Há, de fato, pessoas que se cansaram de tergiversar e tartamudear. Elas estão exprimindo o que viram, e o que viveram no território palestino. Cansei de ignorar o sofrimento e as agruras deste povo. Cansei-me de fato. Cansei-me da versão israelense que é noticiada via televisão, rádio e a maioria das fontes em português, salvas poucas exceções. Cansei de forçar-me a acreditar em inverdades de guerra. Em mentiras de guerra. Na versão oficial e apresentável de uma hecatombe humana que macula toda a humanidade com baldes de sangue inocente.

Este deputado da União Européia de origem judia soube dizer - em pouco mais de cinco minutos - o que muitos meios midiáticos não tiveram os colhões de dizer em três semanas de extermínio:



Porque enquanto houver protestos e manifestações globais de solidariedade aos nossos irmãos palestinos, haverá a esperança de que algo seja feito para um cessar-fogo. Fechar os olhos à realidade é permitir que esta ocorra sem percalços. É deixar o caminho livre para a morte de pessoas inocentes como eu e você. Um salve a todas as manifestações que se espalham pelo globo. Minha voz não é solitária. Poucos podem ler, mas eu sei que um ou outro que ler isto saberá do que estou falando, ou ao menos quererá entrar em alguns links para saber quão intensos têm sido os protestos ao redor do mundo. Se a mídia em grande parte os silencia, isto não infere que não estão acontecendo. Pelo contrário, a verdade é rutilante. Não adianta o dragão midiático tentar engoli-la. Ela brilhará onde estiver. A luz que emana é desagradável para todas as forças que se empenham em suprimi-la, mas é a água que matará a sede dos dispostos a saber. Nada vem de graça no universo. Nada mesmo, e para depreender tal asserção não é necessário acreditar em minhas palavras. Eis a mostra de que as manifestações estão ocorrendo: veja quantas cidades, quantos países.

Sim, é preciso indignar-se. É preciso mostrar-se humano. Esconder o tesouro é perdê-lo. Ainda não ouvi da mídia brasileira que armas químicas proibidas estão sendo utilizadas contra a população palestina - deliberadamente. Munições e bombas contendo a substância denominada fósforo branco. O mínimo contato com fragmentos desse tipo ilícito de munição provoca queimaduras graves, chegando a causar queimaduras que corroem toda a pele até alcançar o osso. Está tudo no link acima. O médico egípcio Ahmed Almi relata seu embasbacamento ao constatar que todo o corpo de uma vítima foi completamente consumido pelas queimaduras em menos de uma hora. Seu uso é banido pela ONU.

Nos últimos 15 anos, o número de assentados israelenses na Cisjordânia cresceu de 116 mil para quase 300 mil. Além disso, outros 190 mil israelenses ocupam hoje a ala de Jerusalém inicialmente árabe, segundo o Departamento Central Palestino de Estatísticas (Palestinian Central Bureau of Statistics). Tais assentamentos são ilegais e impedem qualquer tentativa de paz. Não imagino que qualquer brasileiro se sentisse confortável em perder áreas cada vez maiores de seu território por uma força ocupadora que o fizesse de forma completamente ilegal, beligerante e definitivamente insultante às Leis Internacionais.

É desolador descobrir que os protestos palestinos contrários à ocupação e invasão israelenses são contrapostos com munição de verdade. E que um jovem de 17 anos foi alvejado na cabeça durante uma manifestação. Crimes de guerra? Pois se fosse guerra. Não é guerra, não é conflito, não é tumulto. Não. É o mais novo apartheid, e o mais recente genocídio da História. Gaza é o mais novo campo de concentração. A operação militar israelense em voga foi planejada num prazo de 6 a 18 meses de antecedência. Uma hecatombe planejada.

Nunca levantarei uma palavra contra os "judeus". Em todo o artigo não o fiz. É o Estado Israelense, com auxílio bélico e monetário massivos provindos dos EUA, que comete todos os atos atrozes aqui relatados. A maioria dos israelenses bem-informados devem estar - neste momento - se opondo com veemência a política de extermínio levada a cabo por seus representantes draconianos e títeres do Caos. Como eu o faço, em nome do meu direito de livre-expressão. Em nome dos mais de mil civis até agora massacrados. Militantes? Não, em um campo de concentração não se dá esse nome aos bois. Eles lutam por sua sobrevivência e liberdade de opressão, e o mundo recorre a demonstrações nas ruas para assegurar seu direito a esse quesito básico à humanidade.

Não permanecerei calado frente ao massacre. E o incentivo a expressar-se. Música, poesia, artigo, tudo vale. A arte não delimita fronteiras. Viva Guernica, Picasso, ela não foi enterrada nos escombros da História!


Este é meu grito, Edvard Munch. É este meu grito.


Não há tempo para hipocrisias. Não há valor em conformismos.

Diga - ou o tempo irá fazê-lo

(sóbrio)

É estranho
[esta sensação]
Mas não sei o quê dizer
Algo em mim quererá nascer
Ou aquilo então há de morrer

Fiz por crer,
Fiz por viver
Fi-lo porque qui-lo
Compu-la porque fi-lo
Sem rima, piedade
Ou estilo

Sei bem o maldizer
Sei bem o meu sofrer
Sofro por ser Prometeu:
Trouxe aos homens o Fogo
E a Luz que irrompeu
Não o salvou -
Matou

Eu arranho as paredes
Rilho boca e dentes
Minha poética sede
Traz consigo todos entes
De um mundo outro
Alheio - paralelo

Um universo qual co's dedos esfarelo
E nada sobra, arranco persona a persona
Pois destruo, pois queimo e arrebato
Enforco, maltrato, mesmo mato
Esta ânsia por mais cor
Este vivo estertor

Tanto anseio para um mortal
Ambição, ganância, intolerância
Todos esses malgrados elementos
Que me matam momentos
Que assassinam o dentro
Que escapolem o centro
Eu tento.

Quer saber por que?
Eu também o quero
Eu também espero
Eu...
Também...
Esmero!

***

(ensandecido)

Quer saber por que te disse aquilo?
Porque a amo, porque te amo
Porque declamo, porque conclamo,
O amor, este leve rubor
Este olhar mútuo penetrador

Sou a angústia, sou a dor
[Sou feliz?]
É tudo, é tudo, é tudo
Grito, esgoelo, berro
Mudo, mudo, mudo...

Oprimido o peito
Falido, à bancarrota
O coração palpita, pulsa
Rota
E pára.
Dispara!
Que arma atroz

Não o quero novamente
Batendo solerte
Minha mente inerte
O quero pra mim
O quero assim
Perfeito
Plácido
Meu

Sem mais loucuras
Sem aloucar-se
Sem enlouquecer
Sem descabelar-se

Quero-o só meu
Tu és meu coração, oras!
Mas não me obedeces!
Nasceste em mim,
Mas não é meu!

Por quê? Por quê? Por quê?
Diga-me a razão
Dá-me explicação
[qualquer que seja]
Cor
Cor
Cor
Já sei de cor esta lição
[será que a sei?]
Tu estarás sempre
Certo, coração
Tu sempre serás
Minha mais fiel
Intuição
Coração
Intuição... cor... ação

Por Gaza eu Chorei

Um ano na contramão
Engolindo poeira de canhão
A vida é a mesma
Apenas muda-se o chão
As botas, pois, ressoarão

Verá mais cores
Conhecerá outro mundo
Sabiá multicores
Este nosso Raimundo

A reiúna... calçada
A comida
Estrada
O Horizonte
Esplanada

Curioso não saber o porvir
Engraçado quando ele chega
A gargalhada gostosa
Desce goela abaixo
Ao descobrirmos...
Que nada é tão duro...
[Quando enfim se trespassa o muro]

Nada.

Tantos sorrisos falsos
Tanta maquiagem
A máscara há de cair
E revelar
A máscara há de ruir
E destroçar
A falsa imagem especular

Eu não preciso sorrir
Eu não preciso chorar
Eu não preciso mesmo nada.

Me dê licença:
Que a vida é bem mais viva e real
Do que este podre papel social.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Quando uma imagem diz...

Duas semanas. 800 palestinos mortos, segundo relatam os médicos. 13 israelenses. O genocídio que desmente a denominação de conflito, assim como o sonho de uma confraternização natalina, e o desejo de um Feliz Ano Novo para todos os povos. O extermínio de quase 100 palestinos para cada israelense morto. Com o devido financiamento dos EUA, com o devido silêncio e inação da ONU.


Você também iria chorar ante tanta impotência e descaso. Quando perdesse amigos, vizinhos, conhecidos e familiares diariamente. Ante ao fuzilamento de seu filho que, desesperado, havia se conformado em atirar pedras em um exército financiado pelo país mais rico e imperialista do mundo. Pelo maior agressor, pelo good neighbour, pelo portador do big stick que desceu sobre a cabeça de nós, latino-americanos, sob governos militares títeres do Big Uncle Sam. Big CIA. Big FBI.

É tudo muito conveniente, para quem retém as rédeas do poder, do domínio, e da economia global. Ou ao menos pensa fazê-lo. Os velhos engenhos ainda funcionam muito bem, pelo que parece. As engrenagens do imperialismo e do massacre aparentam estar bem azeitadas e em perfeito estado.

Mas há algum elefante branco, podre, no meio do mundo.

Há corpos nas ruas.

Há coisas que não sabemos.

Há cifras assustadoras.

Há civis nos destroços.

Há um mundo de razões para que saibamos o que está acontecendo. A televisão jamais será sua amiga nesta busca pela verdade. É por isso que a internet está sendo gradualmente ameaçada. E por essa mesma razão que escrevo para quem se interessar, enquanto isto for permitido. Enquanto o Grande Irmão não apagar da existência alguns arquivos e meios noticiosos inconvenientes.

Enquanto... eu estiver vivo, nada me obstará de chegar à verdade por trás de supostas guerras e conflitos, quase sempre provocadas por uma parte mais poderosa, e interessada sobretudo no caos, na destruição, e em mais guerra e sofrimento.

Nem todos são humanos (ah, e como eles chegam ao poder!). Nada é como parece. E a guerra não é natural.

Seven Choices, Nine Crimes

(Against rule and contradiction, in favour of... Humanity)

Can't you see their need for affection,
As you mindlessly judge them?
That what they would say is:
'Hold my hand
I'll do no harm
I'll ammend
And even charm
You
Sou up I'll stand
To better choose
My life's Path...'

Can't you see what they mean?
Or, perhaps you mean ill of their means to mean what they mean?
You wanna die a hog, that's your choice
Mine, is Sophie's.
The hardest one, for the good-hearted
Is the natural set of things,
In course for destiny,
No sin, no blasphemy.

Just their way
To rightly
BE.

So nigh
And endlessly far
That's who the heck we are.

(Le chef d'oeuvre, Magritte)

Foi-É-Será assim-assim

(And So it is)

Talvez tudo que você disse
Não surtiu efeito
Pois em tudo que foi dito
Eu enxerguei defeito

Por negras veredas incursionei
Fiz-me magoado, hoje o sei
Prolonguei minha dor
Desertei o amor

Aquela intuição iluminada
Que tive, ao teu lado
Há tempos foi largada
E hoje eu canto o Fado

Que meus avós troavam
E a boina, quem diria,
Atavizou-se em minha cabeça,
Como em mais ninguém

Meu avô o saberia
Se consciência, pois, tivesse
Que o meu dia a dia
É por ele uma prece

Se os anos diluem a beleza
Isto não pode co'a virtude
Ponho as cartas sobre a mesa:
Mentir seduz; a verdade é rude

Este corpo, belo e jovem
Em pouco, há de envelhecer
E as pedras, que os anos movem
O hão de enrijecer

A memória cristalina
Falhar-me-á nas longevas
E a hiante, cava mina
Me engolirá nas trevas

Tudo paira sobre o mundo
Tudo passa sobre a terra
Eu vivo em paz, e vivo em guerra
O meu nome é Raimundo

Quis cultivar a alma
Quis cuidar da mente
Mas nada neste mundo me acalma
Nada neste mundo além da alma

Perjuro minhas crenças
Perdôo desavenças
Almejo a reflexão
Porém a mente, inquieta
Viaja em turbilhão

Caminhos tortuosos
Trilhas infactíveis
Por que tantas sendas possíveis,
E nuas ruas sinuosas?

Por que somos tão tolos?
Não sabemos muito sobre a vida
Não sabemos quase nada
Logo ela é esquecida
Viramos títeres, a Boiada
Guiada - e seduzida...
Ao matadouro.
Ensangüentada... e morta.
É.
Morremos com a boca torta,
De tantas maledições...

Pervagar por conhecer é a saída.
Pervagar para saber -
É A Vida.

(Le Grande Famille [A Grande Família], 1963, Magritte)

sábado, 10 de janeiro de 2009

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Just To Know How You Feel

(For someone lost in time)

I'm making a pass at you
But it may be a wrong one
(A wholesome blunder, God only knows...
We may look as)
Birds of a same feather
Whose apparent similarities
Never really struck together...

(For Jimi Hendrix)

Oh la la...
I lived through hard times
No lovers, no dimes
Rightly when I wrote my best rhymes
Life, Mon Ami, does always shine
Dark Spots or Broad Daylight
Do not essentialy commit crimes
These - and those - are, were
And will be: the best times...
In Our Lives...



[Do keep that in mind...
And be
ExPeRiEnCeD....
Oh.]

Sidharta...ou...In Medio Virtus

(04.01.2009)

Daqui a algumas horas, estarei face a face com meu verdadeiro inimigo: não, ele não é o que acorreu à sua mente.

Seria insincero de minha parte dizer que não me preocupa de todo esse embate num futuro tão próximo que quase palpável. Mas seria quase jocoso falar-lhe dele com certo receio e terror a assolar-me o espírito ou qualquer outro antro meu mais imanente.

No entanto, se uma virtude foi-me dada ter, esta é o caráter augusto, mesmo frente à mais iminente derrota. Tal sabedoria precoce me possibilitou dar de tudo e mais um pouco antes que o agourento fado se assentasse em meu ser na forma de inagüentável fardo: realidade.

É difícil orgulhar-se de algo que se cristaliza naturalmente, como o orvalho sobre a folha erbácea. Mais fácil e mais soberbo seria regozijar-me de algo conquistado à dura lida e esforços humanamente inenarráveis.

Daí o inimigo, quando encarado desnudo de uma ótica misteriosa e aterradora, tornar-se, no que pareceria um passe da mágica a olhos leigos, um óbice trespassável. Se irei - ou se irás - trespassá-lo ou não, é algo alheio à premeditação.

Desde a infância nos acostumamos a ouvir dos mais velhos e experientes que devemos nos precaver contra possíveis eventualidades e viradas da sorte. Quereriam tais sábios anciãos dizer derrotas? Provavelmente. Antever as falhas em que poderemos incorrer - num futuro, na maior parte das vezes, pouquíssimo distante e minimamente previsível - é um dos fundamentos da virtude. A prerrogativa da ação virtuosa é a não-antecipação: não importa quão belas sejam suas motivações interiores, ou quão beatas e pias suas - mais caras - intenções. O resultado, não raro, é desastroso. Por que o destino nos mostra sua mais álgida face nos momentos de maior júbilo e sucesso de nossas vidas? Por quê?

A resposta dessa pergunta envolve, sobretudo, dois pontos cruciais:

Primeiramente, é uma assunção - no mínimo presunçosa - afirmar, sem resqüício de dúvida, que este ou aquele momento que vivíamos era de fato o mais felizardo dentre todos os suspiros de vida que demos.

Em segundo e último lugar, porque se pararmos para cogitar, o universo é uma grande escola. Uma escola sem muros nem fronteiras, não importa qual caminho em particular trilhemos, ou por quais becos adentremos, supostamente para encurtar uma trajetória que ruma a algo recendente à vitória. Mas as aparências, como de costume, enganam. Qual vitória, cada um somente pode depreender de suas próprias ações, visto que as vitórias externas não passam de alusões às internas - seja dito, àquelas que ainda podemos conquistar num âmbito interior e condizente sobretudo a nós mesmos, e mais ninguém. Concernente à nossa essência. Todavia, sendo uma grande escola do aprendizado o universo, pode-se derivar uma conclusão de peso: variegados e múltiplos são os mestres e professores, humanos ou não, efêmeros ou duradouros, que cruzarão conosco no decorrer do processo de aprender. Agradar-nos-ão todos? Impossivelmente. Aprenderemos mesmo ante nossa desafeição imediata para com alguns deles? Inevitavelmente.

Portanto, vitória ou debacle, zênite ou nadir, a substância da vida jamais deixará de ser o aprendizado. O aprendizado nos ensina a serenidade. E a serenidade leciona ainda outra virtude: estar preparado para tudo. E o preparo abrange todas as formas e manifestações da aquisição do conhecimento. O conhecimento é infinito, tais quais as gradações multicores do arco-íris. E a existência, coletiva ou individual, também.

Re-birth.

Re... mirth
!

Anaia!

Retorno de viagem. A esperança destroçada de um computador à espera, somada à dualidade avivada do fazer ou não-fazer. O que fazer, se a leitura de High History of The Holy Grail encontra-se impossibilitada, faltando apenas 50 páginas ou relativamente menos de seu término?

O que fazer é claro, até certa medida, óbvio. Resta-me aos olhos percorrer freneticamente as páginas e páginas de História e Geografia "devidamente didatizadas" para passar no vestibular. Não nego a certeza do passar na segunda fase. Mas o mérito da posição é acrescido com certa disponibilidade de tempo e alma para o estudo.

E as memórias... Ah, memórias e mementos de um Natal transcorrido em família, reencontrando meus bem-amados entes, malgrada uma má vontade inicial e incompreensível de fazê-lo. Fait accompli. Sem arrependimentos. Os tempos recentemente idos foram um regozijo para um espírito sem endereço nem lar, porque não o procurara com diligência suficiente e esforços compatíveis com semelhante busca.

Uma nostalgia mitigada é o maior presente natalino que alguém poderia cogitar. Imaterial, por isso persistente. Tio, tia, minhas cinco, ops, seis primas, meus avós maternos, agradeço-vos pela sua companhia onipresente nestes cinco dias que não me sairão - não digo da memória, mas - do coração. Como sou grato às brincadeiras, às piadas, às retomadas de tempos e momentos outrora vividos e relembrados, à comida, à bebida, ao carinho. Sim, este último é o componente essencial, dentre todos os possíveis outros, à uma existência digna de recordação, e fundamentada num olhar horizont(e)-al. Projetos futuros meus, que neste alegre instante são fomentados em uma mente que não pára de trabalhar à exaustão, só foram, e só são possíveis graças aos beijos e abraços, e sobretudo àqueles olhares dotados de compreensão mútua. Profunda. Inigualável.

Em pleno Solstício de Verão, nesta América do Sul, neste Brasil, neste cantão, o reecontro e a releitura de vidas que se cruzam e entrecruzam num relato intrafamiliar como muitos milhares outros. E por este mesmo solene motivo, único. Irrefreável a busca (pelo ser) que uma vez se instaura na vida de alguém. Pude enfim compreender a eternidade desses momentos aglutinados, a eternidade do presente.

Nenhum chavão explica quão adorável é brincar com minhas pequenas primas, fazer caretas, botar a língua pra fora (quão relaxante seria se todos conseguissem fazer um para o outro esse mesmo gesto no metrô lotado...), fazer cócegas, pegar no colo, e, claro, dar um bom amasso em meio a risadas e gargalhadas e excesso de bom-humor... como previamente os recebi de coração aberto, numa infância já d'outros tempos. Tenho hoje a compreensão matura de que farei tudo por quem amo, mesmo amando sobretudo a mim mesmo. A vida não deixa de ser paradoxal. O amor, hoje eu vejo, não necessita de palavras, mas de gestos. A afabilidade de um amor assim desinteressado é toda a razão de ser do amar, e toda a razão de viver de pessoas iluminadas cá e acolá.

Bem, a procura insaciável pelo conhecimento não admite paradas. E no amor convivido é-nos dada a oportunidade de vivenciá-la e colocá-la em constante prática, tudo de primeiríssima mão. O frescor da comunicabilidade é reavivado, inalando um viço todo seu. Reamoçam-se a esperança, a jihad interior, a vida vivida por si própria, pela exatidão de que merece ser vivida em sua completude.

Felicidade? Não precisa ser buscada. Esta joie de vivre bate às nossas portas enquanto resmungamos e nos enterramos em plangentes ilusões e utopias que pouco a pouco nos matam o melhor que trazemos em nós. Saber viver é viver-saber, e nada - nem ninguém - pode interromper a busca irremediável do ser humano de conhecer e se auto-conhecer, de investigar verdadeiramente por que vivemos, e como nossos próprios pontos de vista muitas vezes vêm a escurecer e anuviar um horizonte no mínimo digno de ser experienciado integralmente, sem pre-ceitos.

Um pé e outro na frente. O gelo é escorregadio, mas nada melhor que ele para testar o equilíbrio. Ah! Nada melhor.

(escrito em 28/12/2008)

Mutualismos

...os ismos do viver, os ismos do aprender... nada é duradoiro em um modo egoísta de ser... quando de praxe serve-se sobretudo a si mesmo, e vê-se a alteridade arrefecer... desintegra-se, rui-se... e só assim pode-se abrir espaço para um novo e diverso erigir... o reconstruir da memória, o reconstruir da História...

Fácil fosse o caminho percorrido
Esforço nenhum faria sentido
Lágrimas não haveria para os nossos
Chuva alguma nos molharia os ossos

O medo da perda nos fere
Antes mesmo da perda tornar-se possível
É o prelúdio da posse
E o fim de uma vida [a dois]

Inicia-se o ciúmes
E o amor se esvai por entre dedos
De uma mão que creu suster,
Fechada,
Toda a areia de uma infinita praia.

Um a um os grãos se vão
A mão, perdida, corrói-se
Na solidão
De ter sido egoísta
Contra todos os anseios
De uma alma previamente
Altruísta

Desbotam-nos as cores
Evadem-se os amores

A rija pedra aquecida pelas
Ígneas flamas do amor
É trespassada pela gélida
Correnteza
E desfaz-se em dor.

Esfarelam-se os planos
Vão-se os anos
E tudo aquilo por que
Tanto clamamos
Retorna, enfim,
À condição primordial
Da Não-existência.

Dilui-se a personalidade
Remanesce a essência.

***

Laços meus, teus
Entrelaços e abraços
Nós górgios
Nos recompomos em abraços

Apertados de carinho
Pássaros no ninho
A olhar a Criação
Todo o Universo
Num redemoinho
De Ação

Para que preocupação
Se a vida, em si, é uma lição?
Pois não nos preocupemos,
Vivamos e amemos

Com abraços
E amassos
Todos laços...
Joviais.

***

Um ano
Mudou sua vida
Ou um mês...
Toda ela se liquefez

A sáxea vontade que cria ter em si
Falhou...

Ao giro da moeda, sua outra face se mostrou
Desgosto tremendo...
Vivendo e aprendendo.

Pensava e cogitava ser assim e assado
O prato de baboseiras foi revirado
E revelou um futuro desconexo
D'um brilhante passado...
Que todo seu presente era um bife mal-
Passado.
E todo seu âmago era um ser mal-
Amado
E nada amante.

Foi enfim engolido por uma boca hiante
Mais medonha que o Averno de Dante
Pois na Geena ele penou, sem nenhum Virgílio como tutor,
Mas apenas aprendendo na força e na marra,
Na desilusão do desamor -
Que um futuro
Promissor
Eclodia de um presente
Estertor
Um brado rábico de desesperança,
Angústia
E
Dor.

Dos cavos infernos da memória
Viu surdir em si o
Amor
E d'uma vida pouco notória
Desabrochou o
Autor
Ainda mal-
Amado
Ainda nada amante

Mas ainda alguém a auscultar
Em toda desgraça passada
Sempre um esplendor.

A vitória na derrota
O apogeu na debacle
O zênite no nadir
Um Yin-Yang do aprender:
Perde-se, para poder ganhar
Ganha-se, para poder perder

Pois a vida é uma Luta,
A persistência da Lição.
Nada nos é dado,
Senão por competência,
Se a vida, então, é Dura,
Assim o é a existência.
[À toda personalidade,
Precede uma essência...]



(poesias escritas antes da passagem do ano novo, talvez antes mesmo do Natal, mas devido a problemas no computador, não puderam ser publicadas anteriormente.)

O formato em que elas se encontram, isto é, uma seguida a outra, não é por capricho de digitação ou para salvar três publicações separadas. Pelo contrário, foi assim que as concebi, uma seguida à outra, e nesssa ordem aqui presente. Quiçá tenham alguma relação, algum elo, enfim, algo que explique eu as ter pensado e trascrito uma após a outra, em questão de minutos. A epígrafe - em itálico -, que encabeça esta publicação, foi pensada após a conclusão do "tríptico poético". A meu ver, a carapuça não serviu mal. Talvez fosse meu próprio sofrimento pessoal do momento me inspirando e convertendo O Grito em Arte, como o fez o pintor norueguês Edvard Munch.

(O Grito [Skrik], Edvard Munch, óleo e pastel sobre cartão, 1893)

Não é mesmo? O desespero tem de fato um poder inacreditável.